segunda-feira, 1 de agosto de 2011

TOMBAMENTO

A falta de inclusão de tombamento do entorno
permitiu ser feito o que se vê. Uma pena!
Eis alguns lumes sobre tombamento. Resultam de uma pesquisa mais profunda que acabo de fazer sobre o instituto e que desejo expor, ao menos, em parte. Muitas vezes, conhecer detalhes ajuda a formar conceitos e via de conseqüência, ser mais cidadão, ajudando a preservar.
Trata-se de assunto do qual muito se ouve falar, mas que tanto quanto, se conhece pouco. Para muitos a palavra tombamento soa como algo que cai, do mesmo modo que vedado para quem ainda não consultou um dicionário, longe está de representar o que é proibido.
A legislação sobre o assunto anda um tanto vetusta. Trata-se do Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937 e da Lei nº 3.924, de 26 de julho de 1961. Mas como naquelas que a precederam, nesta Constituição Federal, temos os soberanos arts 215 e 216 legitimando-o. – No Estado, o Decreto 626-N de 28 de fevereiro de 1975.
Como conceito, optei pelo bem elaborado que consta do manual que o Departamento do Patrimônio Histórico do município de São Paulo publicou "Tombamento e Participação Popular", segundo o qual: "tombamento é um ato administrativo realizado pelo poder público com o objetivo de preservar, através da aplicação de legislação específica, bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo que venham a ser destruídos ou descaracterizados".
Podem ser tombados bens móveis ou imóveis de interesse cultural ou ambiental, quais sejam: fotografias, livros, mobiliários, utensílios, obras de arte, edifícios, ruas, praças, cidades, regiões, florestas, cascatas, etc. Mas somente é aplicado a bens materiais de interesse para a preservação da memória coletiva, por sua vinculação a fatos memoráveis da história, quer por seu excepcional valor arqueológico, etnográfico, bibliográfico, artístico ou científico. (inc. I art. 2º Dec. 626N/75)
A competência para fazer tombamento é da União através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional; pelo Governo Estadual, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado – no nosso Espírito Santo, pelo Conselho Estadual de Cultura, criado pela Lei Complementar 6/67 – ou, pelas administrações municipais, utilizando leis específicas ou a legislação federal.
Em tese, o tombamento não altera a propriedade de um bem; apenas proíbe que venha a ser destruído ou descaracterizado. Logo, um bem tombado não necessita ser desapropriado. Desde que continue a ser  preservado, não existe qualquer impedimento para a venda, aluguel ou herança. Caso tenha a intenção de vendê-lo, o proprietário fará antes, uma comunicação prévia à instituição que efetuou o tombamento, para que exerça seu direito preferencial de compra do mesmo.
O Tombamento preserva os bens culturais na medida que impede legalmente a sua destruição. No caso de bens culturais, preservar não é só a memória coletiva, mas todos os esforços e recursos já investidos para sua construção. A preservação somente torna-se visível para todos, quando um bem cultural encontra-se em bom estado de conservação, propiciando sua plena utilização.
O tombamento deve-se estender ao entorno, aquela área de projeção localizada na vizinhança, que há de ser delimitada com objetivo de preservar a sua ambiência e impedir que novos elementos obstruam ou reduzam sua visibilidade. É da competência do órgão que efetuou o Tombamento estabelecer tais limites e as diretrizes para as eventuais intervenções nas referidas áreas.
Além disto, como acrescenta o manual referido, não se pode dizer que o Tombamento de edifícios ou bairros inteiros "congela" a cidade impedindo sua modernização. Ao contrário. A proteção do patrimônio ambiental urbano está diretamente vinculada à melhoria da qualidade de vida da população, pois a preservação da memória é uma demanda social tão importante quanto qualquer outra atendida pelo serviço público.
De acordo com a Carta Magna, tombar não significa cristalizar ou perpetuar edifícios ou áreas, inviabilizando toda e qualquer obra que venha contribuir para a melhoria da cidade. Preservação e revitalização são ações que se complementam e juntas podem valorizar bens que se encontram deteriorados.
O tombamento será voluntário ou compulsório. Voluntário é o que é pedido pelo próprio proprietário. E não é seletivo, qualquer pessoa física ou jurídica pode solicitar aos órgãos responsáveis pela preservação, o tombamento de bens culturais e naturais.
Com um requerimento, ocorre a abertura do processo que após aferição técnica preliminar, é submetido à deliberação dos órgãos responsáveis pela preservação. No caso de ser aprovada a intenção de proteger um bem cultural ou natural é desde então, expedida ao seu proprietário, uma Notificação. A partir desta Notificação o bem já se encontra legalmente protegido contra destruíções ou descaracterizações até que seja tomada a decisão final. O Processo termina com a respectiva inscrição no Livro Tombo e comunicação formal aos proprietários.
Um imóvel tombado ou em processo de tombamento só pode ser reformado com aprovação do órgão que efetuou o tombamento. A aprovação depende do nível de preservação do bem e está sempre vinculada à necessidade de serem mantidas as características que justificaram o tombamento. Para tanto, a maioria desses órgãos de preservação fornece gratuitamente aos interessados a orientação indispensável, no sentido de que executem com êxito, as obras que pretendem, de conservação ou restauração dos bens tombados.
Mas esta não é a única forma de preservação. Existem outros ramos. O inventário, por exemplo, é a primeira forma para o reconhecimento da importância dos bens culturais e ambientais, através do registro de suas características principais. (v. § 1º art 216 CF). Em nível municipal, são os Planos Diretores que se encarregam de estabelecer formas de preservação do patrimônio através do planejamento urbano. Aos municípios, compete promover o desenvolvimento das cidades sem a destruição do patrimônio. Podem e devem ainda, criar leis específicas que estabeleçam incentivos à preservação.
Através da ação do Ministério Público, qualquer cidadão pode impedir a destruição ou descaracterização de um bem de interesse cultual ou natural, solicitando apoio ao Promotor de Justiça local. Ele está instruído a promover, com agilidade, a preservação, acionando os órgãos responsáveis da União, Estado ou Município.
Entretanto, não obstante a importância e relevância de que se reveste a medida, não é o caso de se aceitar pura e simplesmente o tombamento de um imóvel se este inviabilizar a propriedade que é direito constitucional. Exatamente por isto, a Carta Maior prevê que não se excluirá de apreciação do Poder Judiciário, lesão ou ameaça de direito; (inc. XXXV art. 5º).
Admitamos uma hipótese. Alguém compra lotes em uma área. A transação é legítima, o vendedor lhe outorga uma escritura que é devidamente registrada. Quando pensa em construir, se vê impossibilitado porque lhe foi revelado que a área foi tombada, faz parte do Parque Tal, que aquela é uma área de preservação permanente.
Aqui, a propriedade (inc. XXII, art. 5º CF) é ferida. Fica inviabilizado o direito. Porque, mesmo que se possa vender o imóvel tombado, ninguém vai querer comprar, para depois se ver na mesma condição de não poder dispor dele, de não o poder usar.
Se por um lado, é verdade que o tombamento independe de desapropriação, porque é um instituto que não fere a propriedade, eis um caso em que a desapropriação se impunha. O Poder Público não pode transformar o que é meu em bem de todos, às custas de minha propriedade, do que eu de boa fé, comprei, paguei, escriturei e registrei.
Se não podia ser vendido, antes, não podia ser escriturado, depois, registrado, porque o tabelião e o oficial do registro que têm delegação estatal para dando fé, procederem a estes atos, tinham obrigação de saber o quê e quando podem e devem proceder segundo seus ofícios.
É para o bem comum? Precisamos de áreas de preservação? que seja mantido o tombamento, mas indenize-se quem de direito. Porque seu direito de uso do que lhe pertence foi ferido, porque agentes do Estado procederam a atos revestidos das formalidades legais, porque da parte do poder público é que faltou oposição do óbice capaz de impedir alguém de não poder dispor do que adquiriu. E, tudo se acrescente, após praticar com diversos ônus, segundo a lei, os atos condutores ao direito de propriedade.
Ou diversamente do que prevê o art. 524 do Código Civil Brasileiro, a lei já não assegura, ao proprietário, o direito de usar, gozar e dispor de seus bens, e de reavê-los do poder de quem quer injustamente os possua.

sábado, 30 de julho de 2011

HUMILHAÇÕES...

        Durante uma vida a gente é capaz de sentir de tudo, são inúmeras as sensações que nos invadem. Delas a arte se serve em abundância: paixão, saudades, culpa, dor-de-cotovelo, remorso, excitação, otimismo, desejo... Reconhece-se cada uma destas alegrias e tristezas, não há muita novidade, quem sabe nós  outros vivenciamos um pouco de cada, e o que não foi vivenciado foi ao menos testemunhado através de filmes, novelas, letras de música.         
Há um sentimento, no entanto, que não aparece muito, não protagoniza cenas de cinema nem vira versos com frequência, aquele que se sente na própria pele,  como se fosse uma visita incômoda. Falo de humilhação.  
Há muitas maneiras de uma pessoa se sentir humilhada. A mais comum é aquela em que alguém a menospreza diretamente, a reduz. Que lugar é este que não permite movimento, travessia? Opressões hierárquicas: patrão-empregado, oficial- subalterno, professor-aluno, adulto-criança. Respeita-se naturalmente a hierarquia, mas não se pode engolir a soberba alheia, e este tipo de humilhação só não causa maior estrago ao se perceber que é fruto da arrogância, e os arrogantes nada mais são do que pessoas complexadas. Humilham para não se sentirem humilhadas? Conseguem?
Quando a humilhação não é fruto da hierarquia, mas de algo muito maior e mais massacrante?  No desconhecimento de si. Naquele tentar superar dor antiga que não passa. Procura-se amizade em quem não tem para oferecer e se cai em velhas ciladas, armadas pelo coração. Oferece-se o próprio corpo e todo carinho para quem já não precisa nem de um nem de outro. Motivos nobres, resultados vexatórios.   
Esteve-se apenas enfrentando o desconhecido: nós mesmos, nossas fraquezas, nossas emoções mais escondidas, aquelas que julgávamos superadas, para sempre adormecidas, mas que de vez em quando acordam para, impiedosas como que a nos  quererem soterrar.
São frutos do que fui pensando ao deixar o presídio de mulheres, que acabei de visitar...

quinta-feira, 28 de julho de 2011

HAITI NÃO SAI DAS RUÍNAS

Enquanto o Haiti continua lutando para se recuperar do terremoto de janeiro de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas e obrigou cerca de 1,5 milhões a viverem em acampamentos, o financiamento internacional ainda não atingiu as generosas promessas feitas no ano passado. Além disso, os problemas dentro [...]


Escrevi este artigo em fevereiro de 2010.


HAITI, DO POVO MAIS POBRE E MAIS MARTIRIZADO DO PLANETA

Já era o mais pobre país do planeta, de gente martirizada, à margem da cultura, do desenvolvimento, da história. Mas um terremoto se abateu sobre ele, fez ainda mais estragos e roubou mais de 200 mil vidas. Então virou manchete de todos os jornais do mundo. Agora todos falam do Haiti.  

Situa-se num conjunto de arquipélagos entre as duas Américas, ocupa o terço ocidental da Ilha de São Domingos, possuindo uma das duas fronteiras terrestres da região, a que faz a leste com a República Dominicana. A capital é Porto Príncipe.

95% da população é negra, 4,9% mulata e tão somente 0,1%, branca. 80,3% dos haitianos professam a religião católica. Não se negue contudo a forte influência africana com suas práticas religiosas semelhantes a dos denominados cadomblés. Foi o primeiro território americano a ser descoberto por Cristóvão Colombo, cedido à França pela Espanha em 1697. No século XVIII, chegou a ser a mais próspera colônia francesa na América, com a exportação de açúcar, cacau e café. Trata-se da  primeira colônia de maioria negra, mediante revolta de escravos, a conquistar a libertação, em 1794. Mas no mesmo ano, a França dominou a ilha. Um ex escravo Tousasaint Louverture tornou-se Governador Geral em 1801, redigiu uma Constituição para o país em cujo artigo 1º esculpiu o comando: “A escravatura está para sempre abolida, não podem existir escravos sobre este território.” Mas não durou, foi deposto e morto pelos franceses. Em 1803, outro líder, Jacques Dessalines, organiza o exército e derrota os franceses. Declarada a independência, o próprio Dessalines proclamou-se Imperador.

Tamanha coragem valeu ao Haiti 60 anos de bloqueio comercial imposto pelos escravistas europeus e estadunidenses. No governo de Jean Pierre Boyer, cercado pela frota da ex-metrópole, constrangido, assinou tratado pelo desbloqueio, sendo imposto ao país a título de indenização à França, a quantia de 150 milhões de francos, reduzidos para 90 milhões, o que não impediu nada menos que, o exaurimento da economia do país.

Depois do terremoto as Nações se mobilizam e centenas de aviões carregados de alimentos, roupa e água foram mandados para o Haiti, de todas as partes do mundo.

Além do que já foi, o governo brasileiro prometeu doar US$ 15 milhões ao Haiti, 14 toneladas de produtos alimentícios, entre sardinha, leite em pó, açúcar cristal e água.

Releva ser dito que a precariedade do país, máxime pela destruição sofrida, dificulta a chegada das próprias ajudas. Não há estradas, aeroporto destruído, linhas telefônicas interrompidas, ainda é precário o contato pela internet.

Órgãos governamentais e ONGs disponibilizaram contas bancárias para receber doações. O Banco do Brasil abriu uma conta (SOS Haiti - agência 1606-3, c/c 91.000-7) para o recebimento dos recursos que serão administrados diretamente pela Embaixada do Haiti no país.

Entretanto, o Haiti não precisa só de pão e água. Clama por desenvolvimento, clama por ser capaz de superar suas dificuldades e se tornar deveras uma Nação Soberana, mediante a liberdade merecida pelo seu povo, gente como qualquer outra, todos filhos de Deus, igualmente feitos á sua imagem e semelhança. 

Em artigo intitulado: “Lamento junto a Deus pelo Haiti”, desabafa Leonardo Boff: “Em cada haitiano que sofre soterrado ou que morre de sede e de fome, morremos um pouco também todos nós junto com eles. Finalmente somos irmãos e irmãs da única e mesma família humana. Como não sofrer?”

Ante a indigência haitiana o Prof. Ricardo A. S. Setenfus que integrou a missão da ONU/OEA no Haiti em 1993 afirmara: “A idéia de que cada sociedade deva resolver de forma autônoma seus dilemas nacionais – sustentáculo do princípio da não intervenção – é absolutamente inaplicável em certas situações como, por exemplo, no caso haitiano. Jamais este país conheceu ao longo de sua história sequer vestígios de democracia. A vontade da maioria sempre foi esmagada pela força. ... uma cruel realidade. ... Nada é mais desumano que a demonstração de indiferença frente ao sofrimento de outrem.”

Ante o sobredito,  importa que as Nações – seu povo - se predisponham a ajudar o Haiti, de mãos dadas com sua gente, atentas aos seus grandes anseios, até porque o país que não tem nada para dar,  precisa tudo receber. Que se entenda isso. Que o Haiti se inclua nos projetos desenvolvimentistas nacionais.

Nada mais soa atual no momento, que proêmio da Constituição Gaudium et Spes,  (Vaticano II): “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração”.

“Eles sofrem, nós sofremos”. “Guiados pelo Espírito Santo.  Eco no coração. A Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história”.

Cada um cumpra seu dever.




terça-feira, 26 de julho de 2011

AMY UINEHOUSE, uma estrela apagou.

            Bela, rica, famosa, chegou ao píncaro da fama. Era feliz?
Quantos milhares de jovens, inclusive no Brasil, terão acorrido e engrossado a multidão desejosa de assistir a um show da pop star. Quantos entre esses terão sentido um certo desejo de ser como ela, ter o que ela tinha, chegar onde ela chegou. E, por que apesar de ter conquistado tudo isso, Amy buscava em outras fontes o que lhe parecia melhor, lhe dava mais prazer, a inebriava... embriagava?
Tinha apenas 27 anos e um longo caminho ainda a ser percorrido, poderia ter encontrado o verdadeiro amor em alguém, constituir uma família, ter filhos... Teria perdido o sentido do que estava por vir?  Perdeu o ânimo de desfrutar das coisas boas que até estavam ao seu alcance?        
Tornou-se vítima de prepotente vício que a rendeu impotente de ressurgir de si mesma. Não viu a beleza que há em tantas partes, em tanta coisa por ai, talvez nunca se tenha apercebido do quanto a vida é bela.
Seu corpo ainda não foi deposto na lápide fria e seus discos são vendidos aos milhares, os que não a querem olvidar jamais presenteiam-na ainda mais uma vez, colocando-a no topo das paradas.
Por quê? Por quê? Podemos continuar a repetir muitos por que e continuaremos humanamente sem resposta, mas existe resposta sim, está contida na expressão de alguém que viveu dissolutamente e conheceu a lama, mas converteu-se e hoje é santo com o nome de Agostinho. Ele disse: o coração do homem permanecerá inquieto enquanto não repousar em Deus.
Podemos conquistar o mundo e de nada nos valerá se não estivermos em Deus. Deus é amor, é verdadeiro freio aos nossos desatinos. Deus nos ama, mesmo que não o amemos, Deus nos segue e espera pacientemente nossa volta, quando dele nos distanciamos.
Uma religião é deveras importante, seja ela qual for, desde que orientada pelos ensinamentos evangélicos e que seus seguidores sigam seus princípios. Nenhuma pessoa é como uma ilha ou pode viver só do que pensa ou diz, os nossos pensamentos devem ser confrontados com os dos outros, deve haver flexibilidade e grande dose de amor a nortear as decisões que tomamos.
Sem Deus, o homem pode ter tudo e não se realizar jamais. Com Deus ele segue sereno e mesmo as pedras do caminho não o impedem de chegar onde pretende e colimar seus ideais.  
Tudo, eu disse tudo, só serve se me serve para servir a Deus, amá-lo sobre todas as coisas e crer como diz o Apóstolo Paulo: que as tristezas e o sofrimento desta vida não guardam a mínima proporção com a glória futura que Deus tem preparada para aqueles que O amam.

25/7/2011 16:34

domingo, 24 de julho de 2011

AVENCAS E EU

Já se tornou pública e notória minha afeição pelas avencas. Aquele verde uniforme e aveludado das folhas é simplesmente lírico e embora diversos os tamanhos, as dimensões entre elas não diferem, não as desigualam.
A contemplação de um vaso com Avencas me enche a alma de sentimentos, sinto tudo, mas não sei, não posso descrever. Avencas me falam e eu lhes respondo e o diálogo se estande pelo tempo da contemplação e perdura, enquanto a memória retém as imagens de cada ângulo onde as possa encontrar.
Pergunto-me de onde vem este deslumbramento de como eu gosto das Avencas!
Malgrado meu, nos vasos que já comprei, em outros que já ganhei elas permanecem vivíssimas por um tempo, cuido com carinho, alegro-me com seu viço, converso com elas e demonstrar-lhes ternura é instintivo, não requer sofisticação. Mas fatalmente, depois de pouco tempo, uma folha seca aqui, outra ali, de repente todas estão murchas, revolvo a terra, águo, mas não tem jeito. Não vingam.
Sinto que não sei como tratá-las adequadamente, quero aprender.
Ao deparar-me com aquela passagem de morada antiga ou de um velho claustro, rodeado de verde, tendo como teto avencas, simplesmente delirei.  
E me quedo ali e me deixo possuir pelo pensamento e tudo o mais em volta deixa de existir, o espaço não comporta ninguém mais: somente minhas avencas e eu, juntas nos agigantamos. Passeio nas asas da saudade e embebedo-me com alguma lágrima furtiva que vem compor minha face. As lembranças afloram, há pouco fui criança de novo e cantei roda em noite de lua cheia: se esta rua, se esta rua fosse minha... para o meu bem passear. Posso ser adolescente e voltar a sonhar, afinal de contas estou sonhando mesmo. Sou adulta, sou eu agora e tenho sensação de que as forças continuam plenas e reproponho-me embrenhar-me pela senda das ações exigentes para que o mundo seja melhor, para que o ambiente tenha amigos e seja amado.
Levanto-me do trono que fiz de uma mureta apenas, encho o peito do ar suave e puro que se respira no lugar, olho as avencas, todas, cada uma, em partes, o todo e me repito, quanto são lindas!
Retomo a caminhada, lentamente, em frente, sempre em frente, não sem daqui e dali tocar com suavidade uma folhinha. Galgado o quase topo, onde só me resta superar uma pequena escada, percebi que um vento mais forte soprou e as avencas  balouçam e como que me aplaudem. Emito um gesto de profunda gratidão e respeito em confronto delas, despeço-me.
Prossigo e ante todo esplendor do vale que a minha frente diviso, caminho pela estradinha estreita e em mim se fortaleceu ainda mais a certeza do quanto A VIDA É BELA.
24/7/2011 11:10

sábado, 23 de julho de 2011

UM CÃO E UM MICO

Em nossa casa, só uma única vez tivemos animal de estimação. E como era de estimação!
Papai, como sempre, só podia ser ele, chegou em casa um dia, trazia um recém nascido cãozinho que encheu-nos de encantos e desde então participou das nossas brincadeiras e fez muitas de nossas alegrias. Brincava conosco, corria atrás de nós seguidamente e não cansávamos. Era branco não completamente, tinha algumas manchas de preto e tinha abundante pelo que lhe dava um belo visual, nós praticamente o amávamos.
Como não lhe demos nenhum nome e desde o início do nosso convívio, o chamávamos simplesmente Cachorrinho, Évila que ainda não falava bem, chamou-o Choinho. Pronto, este passou a ser seu nome próprio. 
Choinho acompanhava nossas andanças. Sempre fiel, atento, amigo. Não era um cão de guarda, era demasiado manso pra que se desse a tal afazer.
Lá pelos dez anos, Choinho ainda brincava, mas seus passos começaram a se tornar mais lentos. Já tinha 12 anos, quando um dia foi descoberto deitado e inerte. Silenciosamente, morrera.
Nosso pranto foi tanto e tanto durou que mamãe decidiu que nunca mais adotaríamos outro animal.
E quase que foi assim, até que um dia, não me lembro quem, presenteou-me com um Sagüi a que chamávamos Mico. Era lindo, comia banana e fazia trejeitos mil, uma diversão. Como eu gostava dele!
Mas eis que D. Terezinha, professora de Rachid, foi nos fazer uma visita. Gostou do Mico e para agradá-la, o presenteei a ela. Mamãe assistiu consternada a doação, prevendo como eu reagiria depois. Não deu outra.
Ao ver o Mico se distanciando no carona da bicicleta, chorei copiosamente. E a pobre da mamãe se pôs a cogitar o que fazer para pedir a D. Terezinha que me restituísse o Mico, esperava contar com a compreensão dela, certamente entenderia meu gesto de criança.
Proposta afinada, mamãe se pôs em ação enquanto eu me sentia aliviada por poder reaver meu bichinho.
E ai? E ai? Na mesma bicicleta D. Terezinha volta a nossa casa para anunciar cheia de compreensão e imenso pesar que quando chegava em casa, um cachorro do seu tio, voara sobre o indefeso Mico, pegou-o, sacudiu-o, estrangulou-o e ...

Entrou pela boca do pinto,
Saiu pela boca do pato,
Quem quiser que conte quatro.



quinta-feira, 21 de julho de 2011

A LIMPEZA NO MINISTÉRIO E O SOFÁ DA SALA

Ainda não se tem o número exato de exonerações no Ministério dos Transportes, mas já se sabe – uma vez que começou pelo próprio Ministro - que serão muitas, apesar de não serem todas as que deveriam ser efetivadas, dado que estará prevalecendo o critério político de limpeza.
Por este critério corta-se apenas o que for inevitável, visível, aparente, mas há que se preservar o apoio na Câmara e no Senado, tendo como premissa que se trata de representantes de um partido político que se envolveram em uma iniciativa dessa natureza, mas que fazem parte da base de apoio político de quem cabe a responsabilidade de conduzir o processo de limpeza política.
Os brasileiros já estão ficando tão acostumados com essas “limpezas políticas” que já não sentem – infelizmente - nestes episódios, um ponto para se preocupar e refletir. Vira o escândalo do dia, mais um entre os muitos do mês, esquecidos depois de um ano.
Esta estória da “limpeza política” do Ministério dos Transportes lembra a estória do marido traído em uma pequena cidade do interior.
Com uma mulher muito bonita e escultural, foi advertido por amigos que sua esposa o estava traindo quando o mesmo não estava em casa. A coisa era tão pública que a traição ocorria no sofá da sala da casa do marido inocente, sem a menor preocupação de fechar as janelas.
O marido ouvia o grupo de amigos que o avisava, mas não acreditava no fato. Tinha plena confiança na mulher e isso bastava para que se mantivesse alheio as falsas denúncias.
Mas tudo tem um limite; pelo menos, o do cansaço. Um dia, na metade da tarde, resolveu dar uma incerta na sua casa e, deste modo, definitivamente, comprovar que aquele mar de denúncias era totalmente sem razão e maldosas.
Ao chegar a casa – sem avisar – ao abrir a porta da sala vê a sua mulher no sofá da sala, em plena relação de amor com um seu aliado político na cidade. Não havia dúvida em relação ao que estava vendo; seu amigo e aliado político o estava traindo junto com a sua zelosa e prendada esposa..
Em poucos segundos viu pela frente anos de respeito e amor supostamente não correspondidos por parte da esposa infiel e do amigo. Raiva de si mesmo, pois havia sido avisado e não acreditou nos efetivos amigos, sendo agora o ridículo da cidade e motivo de zombarias, implícitas e explícitas, pelos moradores da cidade.
O ódio e o sentimento de vieram a sua cabeça e, com muita lucidez e equilíbrio, acabou decidindo que deveria tomar uma decisão que lavasse, na plenitude, a sua honra e que pudesse voltar a ser respeitado na cidade.
Partindo do princípio que a vingança é um prato que se deve comer frio, teve o cuidado de não fazer nada naquele momento, mas sim de tomar a decisão radical no dia seguinte.
No daí seguinte, logo pela manhã, a cidade pode conhecer a decisão radical do homem traído por seu amigo e aliado político. Abriu a porta da casa e – com estardalhaço – jogou o sofá da sala na rua, ou seja, retirou do seu lar a base da infidelidade de sua esposa. Deste modo, sem o sofá, acabava com todo o problema.
Que isso sirva de exemplo para aqueles que ainda acreditam – grupo em extinção - que coisas como esta – quando ocorrem na esfera política – terão soluções radicais e memoráveis, plenamente respaldadas no princípio da ética. Ou seja, sempre haverá um “sofá” a ser tirado da sala.
E há ainda quem defenda a tese do sigilo em relação aos custos das obras da Copa; será – tudo é possível – que estas pessoas ainda vão manter suas posições? Quem viver verá.

       Roosevelt S. Fernandes, enamorado conhecedor do que diz
respeito ao meio ambiente e  sua proteção.
Excelente palestrante.