quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

E MEU CORAÇÃO ESTREMECE


ida Vervloet Finamore


É a prece dos que ficaram que leva conforto aos que se foram.

Vemos, na cidade dos mortos, em cada campo, uma flor que alguém levou a que guarda dentro de si o perfume da saudade... Arde em cada túmulo, a luz dos círios, que pede a Deus o eterno descanso dos seus. 

Eu também, como mãe saudosa, vou passando por túmulos floridos e os círios acesos, para prostrar-me diante de uma outra campa, toda branca, que guarda intacta, a outra metade do meu coração.

É a imagem do Bom Pastor, eterno vigia de todos os tempos, que está sentada à cabeceira do sepulcro amado, tendo de encontro ao seu coração, a cabeça inocente de meu filho, esse anjo que sua mão escolheu.

E, por sobre a lousa branca a Deus confiada, as palavras divinas estão gravadas: “Deixai vir a mim as criancinhas por que delas é o reino dos céus”.

 (In "Páginas soltas")






Nascida no Distrito 2 julho, no município de Santa Teresa ES em 10 e agosto de 1902. Faleceu no dia 4 de maio de 1990, poetisa, deixou dois livros e muitos outros versos espalhados. É Patrona da Cadeira 11 da Academia Feminina Espirito-santense de Letras na qual atualmente tem acento a Acadêmica Wanda Maria Capistrano Bernardi Alckmin.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

CALEIDOSCÓPIO


Numa volta ao passado, lembro bem como escolhemos a nova casa, após três filhos já crescidos e ocupando todos os espaços de um apartamento na Praia do Canto que, durante 19 anos foi frequentado por adolescentes e adultos amigos dos meus filhos. Tempo bom: ruas tranquilas, trânsito com poucos semáforos e um ambiente em que todos se conheciam. Assim se vivia numa cidade ainda pacata, mas com louros da Vitória e abençoada pelo Espírito Santo.

Mudamos então para Jardim Camburi, bairro mais populoso de Vitória que estava se formatando com ruas ainda descalças, poucos prédios, comércio tímido e vizinhança desconhecida. Mas não nos importamos com isso, estávamos entusiasmados pelo novo.

A casa, em estilo nobre, tinha janelas coloniais, cujas vidraças se mostravam como caleidoscópio com imagens de combinações variadas e agradáveis efeitos visuais. Os seus novos moradores foram descobrindo, aos poucos, o conforto e o lazer que a casa oferecia e também o trabalho com a limpeza, para que se mostrasse límpida como os pequenos fragmentos de cristais coloridos.

Os finais de semana eram sempre alegrados com churrascos e banhos de piscina e todos eram muito bem-vindos. A dimensão do acolhimento era proporcional ou maior que o tamanho da casa. Os anos foram passando, os filhos casando e os netos chegando para preencher a nossa vida e o nosso coração. Chegaram de mansinho nos espaços que os esperava.

 Foram muitas as brincadeiras e as quedas da rede a qual era disputada por todos, embora tivesse algumas regras que eram sempre quebradas, como: um de cada vez; contar até dez; balançar do menor para o maior. O banho no tanque era sempre mais surpreendente que navegar no jacaré da piscina, pois lavavam seus biquínis e sungas sem economia de água e sabão.

Os anos foram passando e a casa acolhendo crianças que catavam folhas no jardim e quebravam, “sem querer”, as lindas e
exóticas orquídeas com a bola que, quase sempre, ia parar no quintal do vizinho. Geralmente elas se rasgavam nos cacos de vidros sobre o muro e, como avó, prevenida, tinha um estoque em casa para que  fossem substituídas a cada chute impensado.

Na hora de irem embora era sempre uma disputa dos candidatos a dormir com a avó, que se dispunha a contar histórias mais velhas do que novas, mas todas ouvidas atentamente e corrigidas num deslize de memória.

Às vezes, no meio dessa contação e já quase adormecida com a própria narrativa, a avó já estava emendando uma história com outra, num misto de “O jacarezinho egoísta” e “João e o pé de feijão”, que trocavam de cenários e coloridos como os mutantes caleidoscópios. Com o repertório ultrapassado e repetitivo, começava a criar histórias pouco atrativas, mesmo assim os seus ouvintes ficavam atentos com os personagens novos, que muitas vezes eram eles próprios. Quando descobriam essa manobra não ficavam muito satisfeitos, mas como estes eram sempre elogiados: educados e estudiosos, todos de forma rápida se incorporavam a eles. No encontro posterior pediam que recontasse a “nova” história que já nem era mais lembrada.

Também líamos e repetíamos orações infantis que não só serviam para a formação religiosa como também acalmavam os ânimos e dividíamos parte da responsabilidade com os anjos da guarda, sempre atentos. E assim o tempo passava, as crianças cresciam e nós envelhecíamos na mesma proporção, porque o tempo não para.

O Dia de Natal, sempre esperado, juntava família e amigos que também tinham crianças – era uma festa! Na época dos famosos patinetes, apesar de limitar espaço para essa prática, não havia quem segurasse a gurizada. Ainda bem que toda criança tem um anjo a bordo ou na garupa, que os protege. Destarte, Papai Noel se recolhia feliz e satisfeito mais uma vez com o dever cumprido.

E assim passou o tempo: as crianças cresceram e se transformaram em adolescentes menos chatos que a maioria que se conhece e, como pássaros, bateram as primeiras asinhas rumo ao intercâmbio. Após essa experiência, prosseguiram os estudos e vieram as paqueras e os namoros.

Atualmente, com essa turminha crescida, chegou outra em substituição e a avó retomava as mesmas histórias e orações, intermediada com as intervenções dos netos mais velhos. Mas, com o avanço da tecnologia, o acesso à internet e aos games, as velhas histórias estão sendo substituídas por outros personagens, numa inovação ímpar que se desdobra a cada momento – é como se estivéssemos, de forma curiosa movimentando pequeninos cristais brilhantes e coloridos.

Hoje o espaço é outro – a casa foi vendida e está apenas no imaginário daqueles que partilharam dela. Mas o acolhimento é o mesmo com os tradicionais almoços no Dia das Mães, dos Pais e Natal. Com a modernidade e o modismo é preciso diversificar o cardápio: carnívoros, alérgicos, meio-vegetarianos, veganos, exigentes e os chatos. Mas a alegria é a mesma e, com os namoricos dos netos mais velhos a família continua aumentando e se ajeitando na mesa – agora pequena, formando mosaicos coloridos e cristalinos como nos caleidoscópios de outrora.


POBRE OFERENDA

                           
Deny Gomes


Queria te dar, menino,
o meu amor mais bonito,
o meu jeito mais maneiro
de aparecer na esquina
e sorrir para você.

Queria te dar, moreno,
a minha voz, minhas mãos,
aquele brilho em meus olhos,
minha gana de viver,
me consumir de paixão. 

Queria te dar, cigano,este feitiço, a magia
do meu bem-querer sem freios,
os meus cavalos de sonho
cobertos de pura prata.

Queria te dar, corsário,
o meu sangue, meus segredos
na palma da minha mão
e meu navio encantado
com tesouros no porão.

Olha, eu queria te dar
o meu perfume almíscar,
meu gosto de maresia,
para bulir com teus sentidos,
te fazer desatinar.

Eu queria te entregar
as cicatrizes profundas
que a vida riscou em mim
e pedir que me curasses
deste desespero mudo
de só te dar estes versos,
de não pode te dar tudo.



Poema no livro “O desejo aprisionado” –
2ª edição SECULT 2015

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

PIZZICATO


              “Pizzicato” – um beliscão na alma

                                                                                 Marilena Soneghet
   Embora já se insinuasse o inverno, e principalmente à noite o frio imperasse, a claridade do sol da tarde projetava no assoalho o formato das janelas. Cortinas de “voile” - algumas presas num dos cantos -, esvoaçavam ao sopro da leve aragem. Na grande sala, ainda vazia, imperava o silencioso eco de todos os sons que a impregnavam - aquele clima perene que a música deixa no ar. Ali era a sua morada.
Marieleba

Chegáramos mais cedo para o ensaio do coral e da orquestra - faríamos parte da grande abertura no Festival de Campos do Jordão. Minha amiga como violinista; eu, como coralista, meso-soprano (embora preferisse o contralto) - apenas uma pequena voz entre muitas.

Minha amiga principiara a tocar uma peça ligeira para se aquecer. Fechei os olhos e deixei-me levar.  Havia um trecho onde os soluços de um pizzicato beliscou-me os sentidos; despertou-me uma emoção nostálgica... qual indefinida saudade. A saudade infinita que o futuro me reservaria - já latente no passado (pressenti) - (são paralelos e coexistentes os tempos do coração).

Aos poucos foram chegando os outros integrantes: músicos e coralistas. Vozes, risos, arrastar de cadeiras... as calorosas saudações dos reencontros. Os músicos abriam seus estojos: celos, rabecas, contrabaixos surgiam. Aqui e ali, vibravam toques esparsos.

A polifonia confusa provocada pela afinação dos diversos instrumentos sempre me sensibiliza. Presa a respiração, permaneci suspensa, aurindo sons desconexos – graves, agudos, finíssimos, fanhosos, roucos, sibilantes. Um glissando aqui, uma escala rápida acolá, um acorde preciso, onde se intuía os anos de estudo, de dedicação, de apuração do ouvido, de entrega total à alma da música.

Até hoje, quando vou a um concerto, gosto de chegar bem cedo para impregnar-me desse prelúdio meio caótico – o da afinação dos instrumentos - que antecede a apresentação. São preparatórios para a solene abertura, quando o maestro, após cumprimentar o público, volta-se para a orquestra, ergue a batuta e...  cria-se o suspense! Durante infinitos segundos o tempo parece parar. Profundo silêncio envolve a sala de concertos. Ninguém ousa sequer respirar - até que... a um primeiro movimento da batuta jorra a música com toda sua harmonia e beleza. Às vezes, a entrada triunfal deflagra uma explosão de sons em uníssono; outras vezes insinua-se, em “pianíssimo”, qual leve cascata em brilho de água, gorgeio de pássaros, de cativante delicadeza.
A música tem o dom de nos penetrar por todos os poros. E não apenas a das orquestras, com sua multiplicidade de recursos e instrumentos. Um violão dedilhado baixinho, o som distante de uma flauta, o fluir das teclas de um piano solitário ou modulações de uma voz cristalina... que poder têm! Mesmo a música simples, do povo, ou vozes de crianças a cantar cirandas... sempre nos tocam e despertam algo adormecido em nós. Extremamente vulnerável à música, deixo-me ir em suas asas aos confins desse universo sonoro.

          Toda emoção é um presente divino; acontece nos momentos mais inusitados. As que vivo e vivi, guardo em mim – “nos secretos escaninhos/ que o seu poder só sei eu” – não como no poema de Almeida Garret, quais “venenos daninhos” e, sim, como tesouros a serem resgatados com todo seu encanto regenerador.


Sim; se minha alma soluça em pizzicato – como a alma de um violino – se as cordas do meu ser plangem... basta-me evocar vivências, saudades, lembranças, sensações que permaneceram latentes nos esconsos do meu ser. Reativadas, elas reacendem minha chama interior. São meu arsenal ‘secreto de vida!


Postado há 20th October 2014 por Marilena Soneghet, no seu blog  "reminiscencias"


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A ORIGEM DA MULHER


Luis Fernando Veríssimo
09 de março de 2004 

Existem várias lendas sobre a origem da Mulher. Uma diz que Deus pôs o primeiro homem a dormir, inaugurando assim a anestesia geral, tirou uma de suas costelas e com ela fez a primeira mulher. E que a primeira provação de Eva foi cuidar de Adão e aguentar o seu mau humor enquanto ele convalescia da operação.
  
Uma variante desta lenda diz que Deus, com seu prazo para a Criação estourado, fez o homem às pressas, pensando "Depois eu melhoro", e mais tarde, com o tempo, fez um homem mais bem-acabado, que chamou Mulher, que é "melhor" em aramaico.

Chique  "nus úrtimos". 
Outra lenda diz que Deus fez a mulher primeiro, e caprichou nas suas formas, e aparou aqui e tirou dali, e com o que sobrou fez o homem só para não jogar barro fora.

Em certas tribos nômades do Meio Oriente ainda se acredita  que a mulher foi, originariamente, um camelo, que na ânsia de servir seu mestre de todas as maneiras foi se   transformando até adquirir sua forma atual.
  
   No Extremo Oriente existe a lenda de que as mulheres caem do céu, já de kimono.
  
   E em certas partes do Ocidente persiste a crença de que  mulher se compra através dos classificados, podendo-se escolher a idade, cor da pele e tipo de massagem.
  Todas estas lendas, claro, têm pouco a ver com a verdade científica.
  
   Hoje se sabe que o Homem é o produto de um processo  evolutivo que começou com a primeira ameba a sair do mar  primevo, e é descendente direto de uma linha específica de primatas, tendo passado por várias fases até atingir o seu  estágio atual - e aí encontrar a Mulher, que ninguém ainda  sabe de onde veio.
  
   É certamente ridículo pensar que as mulheres também descendem de macacos. A minha mãe, não!
  
   Mas de onde veio a primeira mulher?    Inclino-me para a tese da origem extraterrena.
  
   A mulher viria (isto é pura especulação, claro) de outro  planeta.
  
   Venho observando-as durante anos - inclusive casei com  uma, para poder estudá-las mais de perto - e julgo ter  colecionado provas irrefutáveis de que elas não são deste   mundo.
  
   Observei que elas não têm os mesmos instintos que nós, e   volta e meia são surpreendidas em devaneio, como que captando ordens de outra galáxia, embora disfarcem e   digam que só estavam pensando no jantar.
  
Têm uma lógica completamente diferente da nossa.
  
   Ultimamente têm tentado dissimular sua peculiaridade, assumindo atitudes masculinas e fazendo coisas - como   dirigir grandes empresas e xingar a mãe do motorista ao   lado - impensáveis há alguns anos, o que só aumenta a  suspeita de que se trata de uma estratégia para camuflar nossas diferenças, que estavam começando a dar na vista.
  
   Quando comentamos o fato, nos acusam de ser machistas, presos a preconceitos e incapazes de reconhecer seus direitos, ou então roçam a nossa nuca com o nariz, dizendo coisas como "ioink, ioink" que nos deixam
   arrepiados e sem argumentos.
  
   Claramente combinaram isto. Estão sempre combinando  maneiras novas de impedir que se descubra que são  alienígenas e têm desígnios próprios para a nossa terra. É o que fazem quando vão, todas juntas, ao banheiro, sabendo que não podemos ir atrás para ouvir.
  
   Muitas vezes, mesmo na nossa presença, falam uma linguagem incompreensível que só elas entendem obviamente um código para transmitir instruções do Planeta  Mãe.    E têm seus golpes baixos. Seus truques covardes.
  
   Seus olhos laser, claros ou profundamente escuros, suas  bocas. Algumas, meu Deus, até sardas no nariz.

Senhora das minha vontades,
dona de mim" (Simone)

  
   Seus seios, aqueles mísseis inteligentes. Aquela curva suave  da coxa quando está chegando no quadril, e a Convenção de Genebra não vê isso!
  
   E as armas químicas - perfumes, loções, cremes. São de  uma civilização superior, o que podem nossos tacapes contra  os seus exércitos de encantos?
  
   Breve dominarão o mundo. Breve saberemos o que elas  querem.
  
   Se depois de sair este artigo eu for encontrado morto com sinais de ter sido carinhosamente asfixiado, com um sorriso, minha tese está certa.
  


sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

SERIA FALSA A ESPERANÇA?

Aconteceu no dia 27 de dezembro p.p. Como é comum, fui a um supermercado para comprar alguma coisa para o lanche com uma das minhas irmãs. Quando estou colocando as sacolas no carro, um daqueles “funcionários” que ficam recolhendo carrinhos, abandonados depois de esvaziados pelos fregueses e ali mesmo deixados,  ao ver meu pequenino Smart, começou a dizer: “ele é bonitinho, que pequeninho, se eu tivesse dinheiro, ia comprar um”.



À esta altura, brotou-me compaixão, comecei a exortá-lo a crer que pode sim, que tenha certeza de que é um vencedor, que pode melhorar sua vida, que... que... que... e o fazia com força à guisa do “Discurso Espetacular” descrito em seu livro por Alessandro Gomes. 

Falei, como gosto de repetir, quando necessário, que venho de família pobre e dos milagres que mamãe fazia tantas vezes, para nos alimentar. Não é que me tenha alongado. Quantas coisas disse também já não sei mais exatamente, só sei que falei com o coração, quis plantar a esperança naquele irmão que o tempo todo ouvia muito atento ao que lhe ia dizendo. No final, dei-lhe um carinhoso abraço, que foi retribuído, enquanto o ouvia agradecendo-me e formulando os mesmos votos de "Feliz Ano Novo".

Mas quando sai dali, fiquei tentando avaliar meu comportamento. Será que fiz mesmo uma boa ação? Alimentei esperança naquele coração que pela aparência nos seus 30 anos, era apenas um recolhedor de carrinhos e tem como recompensa um irrisório salário mínimo? O que terá ficado pensando ou de como galgar uma função melhor, conseguir um outro emprego, com esta carência que temos deles. Como será o futuro, cujo horizonte na minha boa fé lhe descortinei como muito mais promissor. E quando os dias forem passando e nenhuma nova possibilidade não surgir? Que poderá me dizer quando voltarmos a nos encontrar? Ele que deve ficar contemplando outros carros de luxo, naquela garagem. Quando terá dinheiro para adquirir um Smart?

Terei falado de falsa esperança?

Alguém me consolou dizendo: “Deus é a esperança”. E quem não sabe disto? O caso é que Ele não se dá com esta de querer “fazer milhares a torto e a direito”, como muitas vezes ferventemente e até prostrados, imploramos.  

Ele não bota juízo na cabeça de quem escolhe mal seus governantes, não se compraz com quem torce que um, se dê mal, porque não é do seu partido político. 

Quando da sua estadia nesta terra, ensinou a todos em que consiste viver com dignidade, com esperança, com fé. Realçou a atitude dos primeiros cristãos dos quais se sabe que “tinham tudo em comum e não havia necessitados entre eles”.

E ai é que eu penso, quem entendeu bem tudinho foi Nossa Senhora, Ela sim, viveu como Ele mandou. Quanto a nós, criemos juízo, ponhamos na cabeça que somos responsáveis pelo alcance da vida em abundância que Jesus veio trazer, em nosso favor e de todos os nossos irmãos, nenhum excetuado.                                                                                  


Escrito 27/12/2019 00:27

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

QUANTO VALE UM NEUROCIENTISTA



Ontem foi segunda-feira, dia de Reis. Meu dedo acionou a tecla do controle da TV, fui-me deparar com o anúncio do início do programa “Roda Viva” que iria entrevistar o neurocientista Sidarta Ribeiro. Já gostei do nome, nunca vi como próprio, de alguém.
Sidarta Ribeiro

Ao contrário da imagem que costumamos construir de cientistas, tratava-se de um moreno à brasileira, camisa de gola redonda, um paletó. Podia até estar endossando “jeans”. Doutor, pós-doutor, títulos conquistados “lá fora”. De volta ao Brasil, foi instalar-se no nordeste, Natal, onde luta heroicamente para realizar seus sonhos, tira do próprio bolso para sustentar uma ideia que não deve ser desperdiçada, ou para ajudar um aluno, e for o caso, já que as verbas encurtaram muito. Conseguiu desde 2008, sentir-se à vontade nas suas  pesquisas ao lado de outros luminares como ele, da neurociência.

Não parou diretor, fundador de Institutos, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, convidado pela esposa a “irem embora” no último mês de dezembro, resolveu “dar mais um tempo”. E lamentou a quantidade de valores que o Brasil está perdendo, que buscam em outras plagas melhores oportunidades e as encontram. 

O cara sabe de tudo na sua área e de muita coisa em geral. Os entrevistadores demonstravam ter lido seu último livro “O Oráculo da Noite” (2019 – Ed. Da Letras). Claro que se prepararam muito bem assim como a Apresentadora, mediante provável leitura do livro citado, para formular-lhe perguntas que liam na hora. Com algumas exceções, todas foram bem elaboradas. O mais impressionante fica por conta das respostas absolutamente precisas, numa linguagem clara, sem rebuscamento, de imediato, ou seja, podiam perguntar o que quisessem, ninguém ficaria sem resposta.

Resisti ao sono e fiquei assistindo até o fim Os principais pontos abordados, deveras interessantes, foi a defesa da necessidade de dormir. Não tem nada de salutar, a esnobação de dizer que dorme pouco, não. Precisamos dormir e recolher-nos não tarde para que o sono seja reparador.

De preferência que seja de forma natural, “se você não consegue dormir, pegue um livro para ler e o sono logo chega”. Segundo ele, “os fazem dormir” na verdade, apagam a pessoa, mas não lhes proporcionam a necessária reposição dos componentes do organismo, perdidos na faina diária e que só dormindo como se deve dormir é que repomos.

Além do sono, falou que na mesma intensidade carecemos de sonhar. O dia a dia engolido nos diversos momentos da convivência humana sem respeito, com hostilidades, notícias desumanas, nos abastecem do que é pior. Povo sem educação não constrói nada. 

Na minha linguagem diria que é preciso alimentar a alma de beleza para ter capacidade de sonhar. E não só sonhar, enquanto se dorme, mas de olhos abertos, sonhar, sonhar muito, sempre.

Porque a memória tudo registra e nos tornarmos produto das coisas com as quais nos alimentamos Lamentou que no Brasil se leia muito pouco, há pessoas que não leem sequer um livro, passam longe das letras e assim vivem do que lhes proporcionam, afinando-se com o que melhor lhes convém. Repetem frases fabricadas.

A este ponto me lembro de uma onda que menos mal, parece passada da fala de hostis, de subversivos, políticos que ao se referirem ao Brasil, o faziam como “este país” e o predicado se constituindo de uma enxurrada de maledicências, de falta de patriotismo, de esnobismo populista como se não lhes coubesse o dever de promover ou construir junto, a grandeza que na sua própria ótica, fazia falta. Foi sempre com ferimento dos meus tímpanos que ouvi a expressão.
Quem lê se informa, quem lê tira conclusões, quem lê e se instrui, capacita-se a elaborar conceitos e ao invés de viver na sombra, também é luz.


Sonho, sono e memoria. É a trilogia que me ficou do que ouvi, mas eis que a este ponto esbarro com o “picilone” da questão. Muito bem, se estivesse numa plateia na qual ocorresse no palco a entrevista, ao final eu me levantaria também acompanhando e aplaudindo o entrevistado.

Mas ouvi um cientista que como bom professor de universidade federal, não deixou de lançar farpas sobre o atual governo. É o Ministro do Meio Ambiente que “não teve coragem de dizer lá fora, as mentiras que repete aqui”. “Está tudo mais do que confirmado com as imagens de satélites” e congêneres. É Paulo Guedes que em síntese, corre atrás de dinheiro, mas este anda escasso nos laboratórios de pesquisa e em outros. Falta o suficiente para o desenvolvimento de trabalho por muitos pesquisadores abraçado, para as Universidades, diz.

Se estivermos atentos, verificamos que todos os dias, às dezenas, são mostradas entrevistas com personagens de diversos setores, que ao questionamento, claro que sempre respondem, com a cor da lente dos óculos que estão usando ou da forma que veem segundo o que fazem ou até mesmo se pode denominar ideal o que aspiram. E nossos ouvidos se enchem de tudo, não que sejamos obrigada a ouvir, mas porque queremos exercer nosso direito de crítica e até desdizer, se for o caso.

Sem faltarem os jornalistas que sabem de tudo “nos mínimos detalhes” são quase oniscientes, infalíveis. “Vejam-se aquelas que não saem do ar”. Emitem suas opiniões como se dogma fossem, como se não houvesse outra versão, no mínimo em razão do ethos que atua em cada um.

Na internet, no celular de modo particular é aquela perseguição “do 99”, da oferta disto e daquilo, nas notícias, na maioria inverídicas. Chegam sem serem chamadas e são difíceis de expulsão por indesejadas. 

Ninguém está aqui para viver no compasso “do samba do crioulo doido”. Precisamos ser indivíduos em sociedade, para tanto é bom dormir, sonhar, mesmo sonhos impossíveis, se é para sonhar, ter hábito de leitura, conquistar o gosto pelo livro.


Como já bem dissera Fulton Shen (Bispo de Nova York, na metade do século passado): “Cada individualidade moral contribui para a transformação da face do mundo, cada ser livre é criador”.

Marlusse Pestana Daher                                                                                 Jurista, radialista, poetisa e escritora.                                                                   Vitória, 07 de janeiro de 2019 22h57m.