O Boitatá ocupou minha imaginação de menina como um ser extranormal sem
nada a ver com o que depois consegui e resolvi publicar. Gosto de lendas, pretendo
escrever mais algumas. Quem me quiser subsidiar, far-me-á grande prazer.
De origem tupi-guarani, o termo Boitatá (Baitatá, Biatatá,
Bitatá ou Batatão), é usado para designar, em
todo o Brasil, o fenômeno do fogo-fátuo e deste
derivando algumas
entidades míticas, um dos primeiros registrados no
país.
O termo mais difundido é boitatá. O termo seria a junção das palavras tupis boi e tatá, significandocobra e fogo, respectivamente - ou ainda de mboi - a coisaou o agente. Significa, assim, cobra de fogo, fogo da cobra,em forma de cobra ou coisa de fogo.
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Sobre a etimologia, escreveu Couto de
Magalhães que "como a palavra o diz, mboitatá é
cobra-de-fogo'" (in: O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876).
No Centro-Sul é
chamado de baitatá ou batatá e até mesmo de mboitatá. Na Bahia
aparece como biatatá. Em Minas Gerais chamam-no de batatal.
No Nordeste
é comum o termo batatão. Nos estados de Sergipe e Alagoas recebem os nomes de Jean de la
foice ou Jean Delafosse.[2]
Em 1560 registrou o Padre José de Anchieta:
"Há também outros (fantasmas), máxime nas
praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são
chamados baetatá, que quer dizer cousa de fogo, o que é o mesmo
como se se dissesse o que é todo de fogo. Não se vê outra cousa senão um
facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os,
como os curupiras; o que seja isto, ainda não se sabe com certeza." (in: Cartas,
Informações, Framentos Históricos, etc. do Padre José de Anchieta, Rio de
Janeiro, 1933)
No folclore brasileiro, o Boitatá é uma gigantesca
cobra-de-fogo que protege os campos contra aqueles que
o incendeiam. Vive nas águas e pode se
transformar também numa tora em brasa, queimando aqueles que põem fogo nas matas
e florestas.
A causa desse mito pode ser explicada com uma reação química, ossos de
animais, como bois, cavalos etc. que são ricos em fósforo branco, que é um material
inflamável(diferente do fósforo vermelho que é usado como medicamento), se
aglomeram em um lugar, o osso começa a se decompor, e sobra apenas o fósforo.
Quando um raio ou faisca, entra em contato com os ossos semi-decompostos causa
uma enorme chama.
A palavra, de origem indígena como a lenda, tem o significado de cobra (mboi)
de fogo (tata), sendo Mbãetata em sua lingua original. Pensaram entao,
em juntar as duas palavras (mboi e tata) para transforma-las neste mito:
Boitatá.
Na obra Lendas do Sul,
de João Simões Lopes
Neto, há um conto com este nome que descreve bem o que seja a lenda.
Há registro de que a primeira versão da história foi feita pelo padre José de
Anchieta, que o denominou com o termo tupi Mbaetatá - coisa de fogo. A idéia
era de uma luz que se movimentava no espaço, daí, "Veio a imagem da marcha
ondulada da serpente". Foi essa imagem que se consagrou na imaginação
popular Descrevem o Boitatá como uma serpente com olhos que parecem dois
faróis, couro transparente, que cintila nas noites
em que aparece deslizando nas campinas, nas beiras dos rios. Em Santa Catarina, a figura aparece da
seguinte maneira: um touro de "pata como a dos gigantes e com um enorme
olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição de fogo".
A versão que predominou foi a do Rio Grande do Sul. Nessa região, narra a
lenda que houve um período de noite sem fim nas matas. Além da escuridão, houve
uma enorme enchente causada por chuvas torrenciais. Assustados, os animais
correram para um ponto mais elevado a fim de se protegerem. A boiguaçu, uma cobra que vivia numa gruta
escura, acorda com a inundação e, faminta, decide sair em busca de alimento,
com a vantagem de ser o único bicho acostumado a enxergar na escuridão. Decide
comer a parte que mais lhe apetecia, os olhos dos animais e de tanto comê-los
vai ficando toda luminosa, cheia de luz de todos esses olhos. O seu corpo
transforma-se em ajuntadas pupilas rutilantes, bola de chamas, clarão vivo,
boitatá, cobra de fogo. Ao mesmo tempo a alimentação farta deixa a boiguaçu
muito fraca. Ela morre e reaparece nas matas serpenteando luminosa. Quem
encontra esse ser fantástico nas campinas pode ficar cego, morrer e até
enlouquecer. Assim, para evitar o desastre os homens acreditam que têm que
ficar parados, sem respirar. e de olhos bem fechados. A tentativa de escapar da
cobra apresenta riscos porque o ente pode imaginar fuga de alguém que ateou
fogo nas matas. No Rio Grande do Sul, acredita-se que o "boitatá" é o
protetor das matas e das campinas. A verdade é que a idéia de uma cobra
luminosa, protetora de campinas e dos campos aparece freqüentemente na
literatura, sobretudo nas narrativas do Rio Grande do Sul.

Ainda hoje, esta lenda folclórica impressiona adultos e crianças, sendo
citada, inclusive, como personagem de destaque em várias obras contemporâneas
como, por exemplo, “Quem tem medo do Boitatá?”, de Manuel Filho, lançada em
2007. Nesta história infanto-juvenil, o avô do protagonista, Sandrinho, é cego
pelo próprio Boitatá. A serpente também é relembrada na história de José
Santos, “O casamento do Boitatá com a Mula-sem-cabeça”, onde o autor descreve de
forma lúdica a união de vários seres do nosso folclore. Nas referidas obras,
assim como em muitas outras, o ser fantástico é citado como “o Boitatá”, mas é
possível encontrar citações como “a Boitatá” tal como ocorre na obra recente de
Alexandra Pericão, "Uaná, um curumim entre muitas lendas" [5], em que a serpente, também
comedora de olhos, é descrita de um jeito bem contemporâneo, com citações
divertidas como “Mas ninguém, até hoje, e isso é o mais espantoso de tudo,
conseguiu colocar uma foto sua na internet. Apesar do tamanho gigante, a
serpente é tão discreta, que só conseguem vê-la aqueles que ela mesmo captura”.
Também José Simões Lopes Neto, em obra supramencionada, refere-se ao ser no
gênero feminino, valendo citar o trecho: “Foi assim e foi por isso que os
homens, quando pela primeira vez viram a boiguaçu tão demudada, não a
conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra,
chamam-na desde então, de boitatá, cobra do fogo, boitatá, a boitatá!”.