domingo, 9 de fevereiro de 2020

O PORTO DE SÃO MATEUS


O navio apitou ao longe
e a cidade se agitou.
O Miranda ou o “Loid”,   
fosse qual fosse
a sua chegada
era sempre uma festa.

Âncora ao fundo 
Atracou aa nave.

Surge o comandante,alguém da tripulação.
Surgem também os Senhores,
ternos de linho branco
vestidos.

Damas em “taieur”,
chapéus na cabeça,
saltos finos de sapatos,
impecáveis.

Em terra, os Coronéis,
Alferes,
Majores,
Intendentes,
Por seu turno, os Prefeitos,
Interventores talvez.

Naquele tempo...

E dos porões,
emergem primeiro,
odores,
suores,
clamores
do negro que subsistiu.

Traz na pele,
A cor da não esperança,
Na cabeça,
A lembrança da terra de África,
dos gongos,
dos maculelês,
do tambor,
do tocador,                                   

do estupor,
da terra árida,
causticante e deslumbrante,
sedenta, avarenta...
mas sua terra!

Estão acorrentados pelo pescoço,
ligados,
manietados.
Vão servir na plantação,
Nas casas dos Senhores,
Às Sinhás, às Aiás.
Mas há sempre luz,
Mesmo nas trevas.
E num recanto
de rio,
ou de fonte,
como astro,
nasceu Zoroastro.
Como nasceu?
na casa de farinha?
no paiol, quem sabe?
Na cabana,
nasceu Zé de Ana.
Seus avós foram escravos,
escravos seus pais,
eles mesmos escravos seriam
não fosse a bondade
(hodiernamente posta em dúvida),
de candidata a Rainha,
que assinando a Lei Áurea,
à sua raça inteira
para sempre,
liberdade deu.

E Zoroastro cresceu,
e Zé de Ana cresceu
e dos seus,
cada um aprendeu,
o folguedo da marujada.
E saíram cantando,
ensinando aos de depois,
embaixadas, prisões,
repetem até versos
de Gil a Camões.
Um tanto mais novo,
canta jongo o Geraldino,
pelas ruas desertas
do velho porto,
de ruas estreitinhas,
de casarões a morrer,
onde passeia meu pensamento
que exulta em rever
reabrir-se o largo do chafariz
de um menino
que permanentemente vela
e carrega
lata d’água na cabeça...

Com fé em Deus,
dias se foram,
mas dias virão
e o comércio vai fervilhar de novo,
de novo, a população vai descer
e na curva do rio,
vai aparecer,
a mesma esperança
daquela
de quem espera e sempre alcança:
a meta,
a vitória,
a glória,
dos casarões,
dos luares,
dos lugares,
porque voltarão a soar hinos
e fará de novo a história,
o PORTO DE SÃO MATEUS!



 Disparei este poema num arroubo de amor, daquele que se sente pela terra que nos viu nascer.                                                                                               Já se passaram umas quatro décadas.   Ele se completa com um artigo que estou procurando nos meus arquivos, também sobre O PORTO.

Se tivesse que lhe dar um outro nome escreveria: SONHO QUE NÃO SE REALIZOU. 




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

CORALINAMENTE II


Cora,
coragem,
coração.
Cora, Lina
magia ensina
erguer-se sem calcular.
Ou sem saber realmente ,
se por seu tempo de vida,
ainda possível será.

Construir versos
recheados
de poesia e com eles
 o mundo encantar.

Voz enrouquecida
não perdeu a melodia.
Cora + Lina, Lina + Cora, = CoraCoralina

Menina esperta,
altiva guerreira.
Adolescente ativa, motivada.
Adulta sabe seguir seu coração,  
fazer sua própria vontade,
ser dona do seu nariz.

E quando, na constelação dos poetas
visível se fez,
conservou morada na velha casa
comprada por seu avô,
onde nasceu sua mãe
e ela mesma depois nasceu,
cresceu e viveu.

Embalada pelo murmúrio
entoado pelo rio
que passa Embaixo da ponte
desfilando preguiçosamente.
Não há outra medida,
outro modelo poético não há.

Tem que ser de novo Cora,
Coralinamente.


Marlusse Pestana Daher
São Mateus, 03 de dezembro de 2019.




Estátua de Cora inaugurada na Praça onde nasceu, poetou. fez doces e disse adeus.. Ao fundo. sua casa.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

É JUSTO QUERER


Toda nossa vida é uma busca constante.
Queremos alcançar objetivos, queremos realizar o que planejamos, queremos... queremos... Não é errado. “A vida é luta renhida, viver é lutar”. (Gonçalves Dias – Canção do Tamoio).Sim, quem não quer lutar se acomoda e não chega a lugar nenhum. Precisamos organizar nossas vidas, precisamos de uma casa para morar, precisamos de um trabalho que nos permita ter um salário digno para viver com dignidade, precisamos de nossa família. Dos amigos.

Nada cai do céu precisa ser conquistado. Jesus é nosso Pastor. Ele nos resgatou da morte e do pecado, fez-se nosso irmão e nos autorizou também a chamar Pai, um Pai que é só Dele.

Está sempre disponível a nos atender em nossas necessidades, alegrar-se com nossas alegrias, ser um de nós por isto pisou a poeira do nosso chão.

Deste modo, podemos concluir que viver pode ser muito simples, se entendermos nossos limites, se respeitarmos o espaço do outro, se não invadirmos territórios estranhos, se vivermos como quem sabe o que ensina o Apóstolo Paulo que “tudo é nosso, mas nós somos de Cristo e Cristo é de Deus”
Lutar por estar bem e viver dignamente, passa ainda pelo respeito que devemos a todos, ao meio ambiente do qual nos vem tudo de que precisamos para comer, beber, vestir, em síntese, viver.

Não nos podemos dar direito à insensatez e quebrar a harmonia impressa por Deus na criação do mundo, Ele mesmo ao  terminar, olhando-a, concluiu  como que perplexo que “tudo era bom”. Que fizemos para tanto, responda a si mesmo cada um.

Que Maria, Rainha, nossa Mãe, Mestra das nossas vidas continue nos ensinando a saber fazer “tudo aquilo que Jesus mandar”.



Do Programa COM MARIA PELAS ESTRADAS DA VIDA                                                                 Rádio América AM 690

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

CORA CORALINAMENTE (III)

Cora Coralina,
Coralina Cora.
Cora da casa da ponte,
cora que doces cora,
cora versos,
cora poesia,
cora a vida,
cora quem vê.

Coerente,
cativante,
confidente,
consistente,
contente.

Confirmada,
conformada,
consagrada,
complacente,
compassiva.


Com visão,
com paixão,
com loucura,
com amor,
com tremor,
com temor,
com gratidão,
com perdão,
com compaixão,
com tudo.

Com o melhor,
com quem vive,
com quem veio,
com quem está,
com quem se foi,
com todo meu afeto,
com doçura,
com encanto,
com meu canto
Canto Cora, de novo,
Coralina, Cora,
Coralinamente.




Marlusse Pestana Daher
Vitória, 3 de fevereiro de 2020.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

SAUDADES... SAUDADES? SAUDADES!

Ó Casimiro, eu não tenho saudades
“da aurora da minha vida,
“da minha infância querida,
“que os anos não trazem mais.

Se saudade é anseio de presença
de pessoas que amamos ou que perdemos
ou das quais tristes um adeus dissemos...
de coisas que nem sabemos onde deixamos.

Como hei de saudades ter,
do que já não pode, nem poderá
voltar a ser?
“Saudade é torrente de paixão
“emoção diferente”,
repercute ainda hoje na voz de Elizete (Cardoso).
E com ela concordo.

Emoção de diversas cores
de muitos sabores,
de muito sentir,
de sorrir e gargalhar,
de chorar e ver o pranto rolar.

De significado tão infinito
e motivação de muitos matizes,
por que continuar discorrendo hei de?

É assim esta tal de saudade
a qual me rendo por não saber
como e quando vou conseguir
sobre seu decantar ao fim chegar.

Canto, pois com Isolda
e com outros que em confissão,
também já cantaram
enlevados, encantados, de amor embriagados:
“Das lembranças que trago na vida,
“Você é a saudade que eu gosto de ter
“e assim, sinto você bem perto de mim,
“outra vez”



Marlusse Pestana Daher

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

PERMETI-ME DIZER NO FACE





25  de janeiro de 2020
LER é mais do que simplesmente olhar palavras, juntar frases, mais do que contemplar. (É determinante na leitura da Bíblia Sagrada e aceitando os ensinamentos da Igreja).
Depende do conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de uma determinada coletividade, época ou região.
Precisamos nos dar conta da proliferação do analfabetismo funcional, da avassaladora intromissão do "besterol" nas (des)músicas que se cantam, da pornografia que produz delírios, do aplaudir da insensatez, etc.. etc... etc... Vivemos do que nos alimentamos.
Daí ser inevitável que depois, nos abismemos frente aos males que se insurgem contra nós, a destruição do ambiente que se agiganta e perplexos não entendamos, nem saibamos o porquê, por exemplo, das catástrofes que nos açoitam deixando rastros de destruição, entre lágrimas, no mínimo, mergulhados na mais profunda tristeza. Acontece aqui e agora.

24 de janeiro de 2020
Estou pensando na urgência concreta e evidente que cresça o número das pessoas que assumam sua brasilidade e queiram o melhor para o seu país, ao invés de ficar fazendo papel de "ave de agouro". Porque não é o meu, QUE SE EXPLODA. (C.A.)

O rastro de tristeza deixado pelos impiedosos temporais que caem sobre nós provocam sempre mais desolação. Na constância, ou nos primeiros dias, move corações e as ajudas chegam.
Ontem, soldados do exército servindo na região não podiam chegar até famílias isoladas porque as pontes se foram. Escolheram um ponto menos fundo, dispostos em fileira, passavam de mão em mão as cestas com alimentos, de um para o outro lado do rio.
Precisamos oportunamente transformar em conscientização a necessidade de escolher lugares mais seguros para morar. Claro que há exceções, mas compete à administração estar atenta para "descobrir o perigo" onde há, mesmo que seja só ameaça e prevenir.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

LINDO, MUITO LINDO!

 A todos os que viveram aquele tempo.

Em criança, meus pés                                                                                                                                nunca gostaram de calçados                                                                       
 andava mesmo era pé-no-chão,                                                onde quer que por onde eu fosse.

Obstáculos? Lesões?                 
Imagine-se só.                                                                      Muitas foram as vezes                                                             em que eles aconteceram.                                                    Uma tábua com prego exposto aqui,                                        um caco de vidro por ali,                                                         de volta à casa  invariavelmente                                                entravam em ação                                                                      aquelas mãos santas, benfazejas                                                da nossa vovó Rosinha.                                                                                                                           
Quiabos verdinhos bem socados,                                                pirão de não sei o quê, em geral quente,                                     colocado no desafortunado calcanhar,                                      era sempre ele, o incauto;                                                           protegeria o ferimento                                                              e assegurava cura em breve                                                                                                                        a gravidade fosse qual fosse.

Gaze? não tinha não.                                                                                                                                  Um pano velho,  bem limpo, dobrado                                                                                                servia de proteção.                                                                                                                                  Para manter ali bem firme,                                                                                                                        o... o... lembrei: “emplastro”.

Nas extremidades uma tira de pano                                                                                                    dividia-se em duas partes,                                                                                                                     Uma,  estrategicamente entre os dois,                                                                                              cobria o calcanhar e um pouco mais acima                                                                                              ia até à  sola do pé e vinha a amarração.

Pronto tudo estava bem.                                                                                                                      Pouca coisa era tão bonita,                                                                                                                  pisar na ponta do pé,                                                                                                                                  calçar um só pé de  sapato                                                                                                                        para ir à escola,  era preciso.

Sinceramente,                                                                                                                                            para a menina que fui,
pouca   coisa era mais linda,
 por exemplo, quebrar o braço,
vê-lo engessado e usar tipoia.


17 h 14 m   29/01/2020

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

IMPOSSIBILIDADES


Acadêmica Sonia Landrith com amigas.

Quis ser Lua um dia, mas sou gente.                                                                                                 O tempo foi embora e me deixou                                                                                                              Vendo os luares do lado de fora...                                                                                                          Quis ser nuvens de algodão                                                                                                                       De gotas que caíssem sobre mim                                                                                                  Perguntei ao céu e não vi ninguém...

Quis descobrir amor nas pessoas...                     

 Mas com tantos desenganos, como posso?                                                                                                Nem imaginei que não deveria!

Quis ouvir os sons das flores                                                                                                          Sonhos em forma de cantos suaves                                                                                                         E rumores de pensamentos eu escutei.

Quis ver a primavera, mas veio chuva                                                                                                      Que da minha janela eu vejo sempre                                                                                                           E desfolhou meu jardim inteiro...

A lua fechou-se em segredos                                                                                                                   O tempo carregou as minhas nuvens                                                                                                    Os desenganos permaneceram.                                                                                                            Flores nem sempre emitem sons                                                                                                              E cantos... Somente os meus ficaram.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

E MEU CORAÇÃO ESTREMECE


ida Vervloet Finamore


É a prece dos que ficaram que leva conforto aos que se foram.

Vemos, na cidade dos mortos, em cada campo, uma flor que alguém levou a que guarda dentro de si o perfume da saudade... Arde em cada túmulo, a luz dos círios, que pede a Deus o eterno descanso dos seus. 

Eu também, como mãe saudosa, vou passando por túmulos floridos e os círios acesos, para prostrar-me diante de uma outra campa, toda branca, que guarda intacta, a outra metade do meu coração.

É a imagem do Bom Pastor, eterno vigia de todos os tempos, que está sentada à cabeceira do sepulcro amado, tendo de encontro ao seu coração, a cabeça inocente de meu filho, esse anjo que sua mão escolheu.

E, por sobre a lousa branca a Deus confiada, as palavras divinas estão gravadas: “Deixai vir a mim as criancinhas por que delas é o reino dos céus”.

 (In "Páginas soltas")






Nascida no Distrito 2 julho, no município de Santa Teresa ES em 10 e agosto de 1902. Faleceu no dia 4 de maio de 1990, poetisa, deixou dois livros e muitos outros versos espalhados. É Patrona da Cadeira 11 da Academia Feminina Espirito-santense de Letras na qual atualmente tem acento a Acadêmica Wanda Maria Capistrano Bernardi Alckmin.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

CALEIDOSCÓPIO


Numa volta ao passado, lembro bem como escolhemos a nova casa, após três filhos já crescidos e ocupando todos os espaços de um apartamento na Praia do Canto que, durante 19 anos foi frequentado por adolescentes e adultos amigos dos meus filhos. Tempo bom: ruas tranquilas, trânsito com poucos semáforos e um ambiente em que todos se conheciam. Assim se vivia numa cidade ainda pacata, mas com louros da Vitória e abençoada pelo Espírito Santo.

Mudamos então para Jardim Camburi, bairro mais populoso de Vitória que estava se formatando com ruas ainda descalças, poucos prédios, comércio tímido e vizinhança desconhecida. Mas não nos importamos com isso, estávamos entusiasmados pelo novo.

A casa, em estilo nobre, tinha janelas coloniais, cujas vidraças se mostravam como caleidoscópio com imagens de combinações variadas e agradáveis efeitos visuais. Os seus novos moradores foram descobrindo, aos poucos, o conforto e o lazer que a casa oferecia e também o trabalho com a limpeza, para que se mostrasse límpida como os pequenos fragmentos de cristais coloridos.

Os finais de semana eram sempre alegrados com churrascos e banhos de piscina e todos eram muito bem-vindos. A dimensão do acolhimento era proporcional ou maior que o tamanho da casa. Os anos foram passando, os filhos casando e os netos chegando para preencher a nossa vida e o nosso coração. Chegaram de mansinho nos espaços que os esperava.

 Foram muitas as brincadeiras e as quedas da rede a qual era disputada por todos, embora tivesse algumas regras que eram sempre quebradas, como: um de cada vez; contar até dez; balançar do menor para o maior. O banho no tanque era sempre mais surpreendente que navegar no jacaré da piscina, pois lavavam seus biquínis e sungas sem economia de água e sabão.

Os anos foram passando e a casa acolhendo crianças que catavam folhas no jardim e quebravam, “sem querer”, as lindas e
exóticas orquídeas com a bola que, quase sempre, ia parar no quintal do vizinho. Geralmente elas se rasgavam nos cacos de vidros sobre o muro e, como avó, prevenida, tinha um estoque em casa para que  fossem substituídas a cada chute impensado.

Na hora de irem embora era sempre uma disputa dos candidatos a dormir com a avó, que se dispunha a contar histórias mais velhas do que novas, mas todas ouvidas atentamente e corrigidas num deslize de memória.

Às vezes, no meio dessa contação e já quase adormecida com a própria narrativa, a avó já estava emendando uma história com outra, num misto de “O jacarezinho egoísta” e “João e o pé de feijão”, que trocavam de cenários e coloridos como os mutantes caleidoscópios. Com o repertório ultrapassado e repetitivo, começava a criar histórias pouco atrativas, mesmo assim os seus ouvintes ficavam atentos com os personagens novos, que muitas vezes eram eles próprios. Quando descobriam essa manobra não ficavam muito satisfeitos, mas como estes eram sempre elogiados: educados e estudiosos, todos de forma rápida se incorporavam a eles. No encontro posterior pediam que recontasse a “nova” história que já nem era mais lembrada.

Também líamos e repetíamos orações infantis que não só serviam para a formação religiosa como também acalmavam os ânimos e dividíamos parte da responsabilidade com os anjos da guarda, sempre atentos. E assim o tempo passava, as crianças cresciam e nós envelhecíamos na mesma proporção, porque o tempo não para.

O Dia de Natal, sempre esperado, juntava família e amigos que também tinham crianças – era uma festa! Na época dos famosos patinetes, apesar de limitar espaço para essa prática, não havia quem segurasse a gurizada. Ainda bem que toda criança tem um anjo a bordo ou na garupa, que os protege. Destarte, Papai Noel se recolhia feliz e satisfeito mais uma vez com o dever cumprido.

E assim passou o tempo: as crianças cresceram e se transformaram em adolescentes menos chatos que a maioria que se conhece e, como pássaros, bateram as primeiras asinhas rumo ao intercâmbio. Após essa experiência, prosseguiram os estudos e vieram as paqueras e os namoros.

Atualmente, com essa turminha crescida, chegou outra em substituição e a avó retomava as mesmas histórias e orações, intermediada com as intervenções dos netos mais velhos. Mas, com o avanço da tecnologia, o acesso à internet e aos games, as velhas histórias estão sendo substituídas por outros personagens, numa inovação ímpar que se desdobra a cada momento – é como se estivéssemos, de forma curiosa movimentando pequeninos cristais brilhantes e coloridos.

Hoje o espaço é outro – a casa foi vendida e está apenas no imaginário daqueles que partilharam dela. Mas o acolhimento é o mesmo com os tradicionais almoços no Dia das Mães, dos Pais e Natal. Com a modernidade e o modismo é preciso diversificar o cardápio: carnívoros, alérgicos, meio-vegetarianos, veganos, exigentes e os chatos. Mas a alegria é a mesma e, com os namoricos dos netos mais velhos a família continua aumentando e se ajeitando na mesa – agora pequena, formando mosaicos coloridos e cristalinos como nos caleidoscópios de outrora.


POBRE OFERENDA

                           
Deny Gomes


Queria te dar, menino,
o meu amor mais bonito,
o meu jeito mais maneiro
de aparecer na esquina
e sorrir para você.

Queria te dar, moreno,
a minha voz, minhas mãos,
aquele brilho em meus olhos,
minha gana de viver,
me consumir de paixão. 

Queria te dar, cigano,este feitiço, a magia
do meu bem-querer sem freios,
os meus cavalos de sonho
cobertos de pura prata.

Queria te dar, corsário,
o meu sangue, meus segredos
na palma da minha mão
e meu navio encantado
com tesouros no porão.

Olha, eu queria te dar
o meu perfume almíscar,
meu gosto de maresia,
para bulir com teus sentidos,
te fazer desatinar.

Eu queria te entregar
as cicatrizes profundas
que a vida riscou em mim
e pedir que me curasses
deste desespero mudo
de só te dar estes versos,
de não pode te dar tudo.



Poema no livro “O desejo aprisionado” –
2ª edição SECULT 2015

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

PIZZICATO


              “Pizzicato” – um beliscão na alma

                                                                                 Marilena Soneghet
   Embora já se insinuasse o inverno, e principalmente à noite o frio imperasse, a claridade do sol da tarde projetava no assoalho o formato das janelas. Cortinas de “voile” - algumas presas num dos cantos -, esvoaçavam ao sopro da leve aragem. Na grande sala, ainda vazia, imperava o silencioso eco de todos os sons que a impregnavam - aquele clima perene que a música deixa no ar. Ali era a sua morada.
Marieleba

Chegáramos mais cedo para o ensaio do coral e da orquestra - faríamos parte da grande abertura no Festival de Campos do Jordão. Minha amiga como violinista; eu, como coralista, meso-soprano (embora preferisse o contralto) - apenas uma pequena voz entre muitas.

Minha amiga principiara a tocar uma peça ligeira para se aquecer. Fechei os olhos e deixei-me levar.  Havia um trecho onde os soluços de um pizzicato beliscou-me os sentidos; despertou-me uma emoção nostálgica... qual indefinida saudade. A saudade infinita que o futuro me reservaria - já latente no passado (pressenti) - (são paralelos e coexistentes os tempos do coração).

Aos poucos foram chegando os outros integrantes: músicos e coralistas. Vozes, risos, arrastar de cadeiras... as calorosas saudações dos reencontros. Os músicos abriam seus estojos: celos, rabecas, contrabaixos surgiam. Aqui e ali, vibravam toques esparsos.

A polifonia confusa provocada pela afinação dos diversos instrumentos sempre me sensibiliza. Presa a respiração, permaneci suspensa, aurindo sons desconexos – graves, agudos, finíssimos, fanhosos, roucos, sibilantes. Um glissando aqui, uma escala rápida acolá, um acorde preciso, onde se intuía os anos de estudo, de dedicação, de apuração do ouvido, de entrega total à alma da música.

Até hoje, quando vou a um concerto, gosto de chegar bem cedo para impregnar-me desse prelúdio meio caótico – o da afinação dos instrumentos - que antecede a apresentação. São preparatórios para a solene abertura, quando o maestro, após cumprimentar o público, volta-se para a orquestra, ergue a batuta e...  cria-se o suspense! Durante infinitos segundos o tempo parece parar. Profundo silêncio envolve a sala de concertos. Ninguém ousa sequer respirar - até que... a um primeiro movimento da batuta jorra a música com toda sua harmonia e beleza. Às vezes, a entrada triunfal deflagra uma explosão de sons em uníssono; outras vezes insinua-se, em “pianíssimo”, qual leve cascata em brilho de água, gorgeio de pássaros, de cativante delicadeza.
A música tem o dom de nos penetrar por todos os poros. E não apenas a das orquestras, com sua multiplicidade de recursos e instrumentos. Um violão dedilhado baixinho, o som distante de uma flauta, o fluir das teclas de um piano solitário ou modulações de uma voz cristalina... que poder têm! Mesmo a música simples, do povo, ou vozes de crianças a cantar cirandas... sempre nos tocam e despertam algo adormecido em nós. Extremamente vulnerável à música, deixo-me ir em suas asas aos confins desse universo sonoro.

          Toda emoção é um presente divino; acontece nos momentos mais inusitados. As que vivo e vivi, guardo em mim – “nos secretos escaninhos/ que o seu poder só sei eu” – não como no poema de Almeida Garret, quais “venenos daninhos” e, sim, como tesouros a serem resgatados com todo seu encanto regenerador.


Sim; se minha alma soluça em pizzicato – como a alma de um violino – se as cordas do meu ser plangem... basta-me evocar vivências, saudades, lembranças, sensações que permaneceram latentes nos esconsos do meu ser. Reativadas, elas reacendem minha chama interior. São meu arsenal ‘secreto de vida!


Postado há 20th October 2014 por Marilena Soneghet, no seu blog  "reminiscencias"


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A ORIGEM DA MULHER


Luis Fernando Veríssimo
09 de março de 2004 

Existem várias lendas sobre a origem da Mulher. Uma diz que Deus pôs o primeiro homem a dormir, inaugurando assim a anestesia geral, tirou uma de suas costelas e com ela fez a primeira mulher. E que a primeira provação de Eva foi cuidar de Adão e aguentar o seu mau humor enquanto ele convalescia da operação.
  
Uma variante desta lenda diz que Deus, com seu prazo para a Criação estourado, fez o homem às pressas, pensando "Depois eu melhoro", e mais tarde, com o tempo, fez um homem mais bem-acabado, que chamou Mulher, que é "melhor" em aramaico.

Chique  "nus úrtimos". 
Outra lenda diz que Deus fez a mulher primeiro, e caprichou nas suas formas, e aparou aqui e tirou dali, e com o que sobrou fez o homem só para não jogar barro fora.

Em certas tribos nômades do Meio Oriente ainda se acredita  que a mulher foi, originariamente, um camelo, que na ânsia de servir seu mestre de todas as maneiras foi se   transformando até adquirir sua forma atual.
  
   No Extremo Oriente existe a lenda de que as mulheres caem do céu, já de kimono.
  
   E em certas partes do Ocidente persiste a crença de que  mulher se compra através dos classificados, podendo-se escolher a idade, cor da pele e tipo de massagem.
  Todas estas lendas, claro, têm pouco a ver com a verdade científica.
  
   Hoje se sabe que o Homem é o produto de um processo  evolutivo que começou com a primeira ameba a sair do mar  primevo, e é descendente direto de uma linha específica de primatas, tendo passado por várias fases até atingir o seu  estágio atual - e aí encontrar a Mulher, que ninguém ainda  sabe de onde veio.
  
   É certamente ridículo pensar que as mulheres também descendem de macacos. A minha mãe, não!
  
   Mas de onde veio a primeira mulher?    Inclino-me para a tese da origem extraterrena.
  
   A mulher viria (isto é pura especulação, claro) de outro  planeta.
  
   Venho observando-as durante anos - inclusive casei com  uma, para poder estudá-las mais de perto - e julgo ter  colecionado provas irrefutáveis de que elas não são deste   mundo.
  
   Observei que elas não têm os mesmos instintos que nós, e   volta e meia são surpreendidas em devaneio, como que captando ordens de outra galáxia, embora disfarcem e   digam que só estavam pensando no jantar.
  
Têm uma lógica completamente diferente da nossa.
  
   Ultimamente têm tentado dissimular sua peculiaridade, assumindo atitudes masculinas e fazendo coisas - como   dirigir grandes empresas e xingar a mãe do motorista ao   lado - impensáveis há alguns anos, o que só aumenta a  suspeita de que se trata de uma estratégia para camuflar nossas diferenças, que estavam começando a dar na vista.
  
   Quando comentamos o fato, nos acusam de ser machistas, presos a preconceitos e incapazes de reconhecer seus direitos, ou então roçam a nossa nuca com o nariz, dizendo coisas como "ioink, ioink" que nos deixam
   arrepiados e sem argumentos.
  
   Claramente combinaram isto. Estão sempre combinando  maneiras novas de impedir que se descubra que são  alienígenas e têm desígnios próprios para a nossa terra. É o que fazem quando vão, todas juntas, ao banheiro, sabendo que não podemos ir atrás para ouvir.
  
   Muitas vezes, mesmo na nossa presença, falam uma linguagem incompreensível que só elas entendem obviamente um código para transmitir instruções do Planeta  Mãe.    E têm seus golpes baixos. Seus truques covardes.
  
   Seus olhos laser, claros ou profundamente escuros, suas  bocas. Algumas, meu Deus, até sardas no nariz.

Senhora das minha vontades,
dona de mim" (Simone)

  
   Seus seios, aqueles mísseis inteligentes. Aquela curva suave  da coxa quando está chegando no quadril, e a Convenção de Genebra não vê isso!
  
   E as armas químicas - perfumes, loções, cremes. São de  uma civilização superior, o que podem nossos tacapes contra  os seus exércitos de encantos?
  
   Breve dominarão o mundo. Breve saberemos o que elas  querem.
  
   Se depois de sair este artigo eu for encontrado morto com sinais de ter sido carinhosamente asfixiado, com um sorriso, minha tese está certa.