domingo, 9 de junho de 2013

O TEMPLO E A FORCA


Comentário de Ernesto von Eckhardt que se define livre pensador. Sua presença no Fb
é de quem sabe e  faz a hora.

Depois de "As Chamas na Missa", Santos Neves escreveu "O Templo e a Forca" que mereceu minha avaliação pública: O Templo e a Forca.
Luiz Guilherme Santos Neves na contracapa de seu romance antecessor As Chamas na Missa, com maestria, já conduziu o leitor ao âmago do conteúdo de seu livro O Templo e a Forca ao colocar nos lábios de um de seus personagens: Eis que me surge o Santo Ofício espalhando entre o povo sas serpentes do medo.

A Inquisição foi um terrível instrumento criado para garantir à Igreja Romana o domínio e predomínio de sua religião como única e verdadeira para a garantia dos poderes políticos, econômicos e sociais, ocultos, cerceando a liberdade de pensamento, não importando matar em nome de Deus. A Igreja Romana, na época, se sentia e pregava ser representante de Deus na Terra. A Inquisição permeia os dois romances.

Quando li o romance O Templo e a Forca, fiz a avaliação abaixo, publicada em A Gazeta, de nossa cidade, em 28 de novembro de 1999.

“Novo romance de Luiz Guilherme Santos Neves, recém lançado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, O Templo e a Forca é o elo de um capítulo em solo capixaba que poderia ser notável não fosse a ignorância e o terror dominante na época da epopéia do Queimado. A linha de pensamento do autor é fluente e transcendente.
Na página 28 lê-se “... Os cativos do Queimado e da Serra entram com seu trabalho para a ereção do templo, que é o que de melhor podem doar à glória do patriarca. Desta maneira, serão amparados por seus esforços e receberão a justa paga e a merecida compensação pelos sacrifícios que fizerem, porque Deus é o pai de todos nós, e São José o pai adotivo do filho de Deus, que olha por todos os homens”.

No discurso de recrutamento de ajuda financeira e de mão-de-obra para a construção de uma igreja branca contrastando com o verde da mata, frei Gregório usou de costumeiras metáforas que subentendiam, aos cativos, uma promessa de alforria. Os cativos alojaram no sacrário de suas almas a mensagem de liberdade com potencial sensibilidade.

Com felicidade, o autor embala o sopro de liberdade como suporte de na identidade de seus personagens. O homem livre é estável nos seus valores simbólicos enquanto a opressão constrói uma figura fantasma. É um romance com a história de lutas e frustrações quando ocorre a ruptura do encanto. O homem é uma força vital, desde o nascimento paramentado de liberdade, de igualdade e de direitos.
Frei Gregório não se revela sensível ao grito de liberdade! Não se importou com a verdade e com a dúvida da época. Para ele valiam as sensações e as percepções materiais numa mensagem religiosa.
Luiz Guilherme, um escritor apaixonado pela epopéia do Queimado, identifica-se com a emoção de seus personagens na habilidade de escrever bem, concentrado no episódio sangrento de uma luta impotente.

O romance adquire maior emotividade quando o templo é dado por pronto e acabado. É quando os cativos descobrem o logro: como recompensa cabia-lhes o céu e a vida eterna.

A decepção é narrada com vigor. O sacerdote se insere na conspiração da liberdade, sequer preocupado com uma resposta sutil.
O autor desperta o espírito e estimula a compaixão quando a liberdade teve tudo para se harmonizar com o emocional e o racional.

Vitória-ES, 26 de dezembro de 2010.

VALORIZAÇÃO DA CULTURA

Lei Chico Prego, como a Lei Rubem Braga, valorizam a cultura e facilitam publicação de livros, edição de outros instrumentos de cultura.  Não deve faltar a nenhum município a sua.

Oi, amigo/a:

Venho informar o lançamento de mais 7 livros viabilizados pela Lei Chico Prego, safra dos Editais de 2009/2010 e 2011.

O evento está marcado 18 de junho, uma terça-feira, a partir das 18 horas, na Biblioteca e Centro Cultural “Carlos Correa Loyola”, no Bairro Valparaíso (Serra), à Av. Guarapari, 112.

Estou certo de que o clima será ainda mais gostoso se puder contar com sua presença, de seus familiares, vizinhos e amigos, particularmente os das redes sociais.

Por favor, convide-se e a toda esta gente.

Muito obrigado.

Maurilen de Paulo Cruz (Mauri)
Rua Estácio de Sá, 155 (rua que começa em frente ao Bradesco, perpendicularmente à Avenida Central) Parque Residencial Laranjeiras – Serra (ES) – 29165-450
Telefone: (0xx27) 3328-5928

Títulos que estarão sendo lançados:

“Se as Flores Pudessem Falar” (poesias), de Adonias Baldan: “Um acervo poeticamente comprometido com o nosso cotidiano, poemas que procuram suprir a lacuna que existe no convívio social de todos, textos acessíveis e simples, que constituem o resultado da minha convivência dentro da comunidade" (palavras do autor, na contracapa do livro).

“Lençol de Ilusão” (poesias), de Marcos Marcelo Lírio: Poesias bem de acordo com a maneira de ser do mundo moderno: curtas, rápidas, simples, quase haikais. De certa forma, a obra se explica no último verso da poesia-título (pagina 23): “A vida vista de cima é menos agressiva.”

“Tony: O Salva-Peixes do Fundo do Mar” (infanto-juvenil), de Célia Mara Rangel Nunes: Aventuras de um caranguejo literalmente “antenado” na modernidade, que vive para a missão herdada do pai e do avô: salvar peixes das redes dos pescadores. Belas e coloridas ilustrações aumentam a expressividade.

“Culinária dos Deuses Encantados”, de Orlando Costa Santos: Receitas de comidas que se consomem nos rituais de candomblé e umbanda e “receitas” da arte de viver, baseadas na experiência do autor, de 79 anos, presidente da Unescap (União Espírita Capixaba).

“O Templo e a Forca: A História de uma Insurreição Imaginada”, de Isabela Basílio de Souza Zon: Análise da relação entre história e ficção no romance “O Templo e a Forca” (1999), a “licença

Isabela Zon
poética” de Luiz Guilherme Santos Neves sobre a Insurreição do Queimado, havida na Serra em 19/03/1849. Santos Neves “cria” uma história cujos episódios e personagens não estão necessariamente nos documentos oficiais.

“Luiz Gama e André Rebouças: Negros Livres no Brasil Imperial”, de Hiléia Araújo de Castro: Biografia e militância de dois abolicionistas de características muito especiais: eram descendentes de negros e intelectuais, tidos como “mulatos geniais”, afirma a autora.

“Introdução à Fotografia”, de Rodger Hedu Savaris de Oliveira: Dividido em “aulas”, ilustrado, é um manual sobre como obter o melhor de uma máquina fotográfica. E um pouco da história da fotografia.

sábado, 8 de junho de 2013

UM "KEFFIYEH" PARA NINAWÁ KUIN

Amyra El Khalili é economista,
 professora e conferencista.  

 “ Fere a cabeça da víbora com o punho de seu inimigo. Disto necessariamente te resultará num bem: se o inimigo vencer a víbora morrerá. Se a víbora vencer, terás um inimigo a menos!” Provérbio beduíno

Deixei uma parte de mim no estado do Acre quando coloquei sobre o ombro do grande líder indígena Ninawá Huni Kuin um Keffiyeh (lenço beduíno) durante a conferência que proferi à convite do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) na Universidade Federal do Acre.

Símbolo da luta contra a ocupação dos territórios palestinos, o Keffiyeh tornou-se indumentária de ativistas solidários à causa palestina em todo o mundo. Para o povo palestino, o Keffiyeh representa o começo e o fim. O tudo e o nada. É manifesto aberto dos que não aceitam a infame paz dos túmulos.

Nossos mártires são velados e enterrados envoltos no Keffiyeh. O Keffiyeh para Ninawá Huni Kuin foi presente da Fearab-Brasil (Federação da Entidades Árabes Brasileiras) dado por intermédio do Dr. Eduardo Felício Elias, e da FEPAL (Federação das Entidades Palestino-Brasileiras), pelas mãos de Emir Mourad, com o apoio do Dr. Alem Garcia, Presidente da Fearab Uruguai (Federação das Entidades Árabes Uruguaias), entregue por esta beduína palestino-brasileira em agradecimento pela solidariedade dos Povos Indígenas no VI Fórum Social Pan-Amazônico 2012 (Cobija, Bolívia) (1) e Fórum Social Mundial 2013 (Túnis, Tunísia) (2) (3), além de tantas outras manifestações em apoio a nossa justa causa.

Nesta ocasião, presenteamos também com o Keffiyeh os companheiros Lindomar Padilha e o Prof. Elder Andrade de Paula por estarem à frente do bom combate e registramos nosso respeito e admiração pela trajetória de Dercy Teles de Carvalho, primeira mulher a assumir a presidência de um Sindicato de Trabalhadores Rurais no Estado do Acre e uma das primeiras também no Brasil.

NAKBA indígena

Expulsos de seus territórios e massacrados há 513 anos neste continente, os indígenas são o exemplo da resistência e da sabedoria nos cuidados com o ambiente e, mesmo espoliados de suas terras, ainda encontram forças para se solidarizarem com o povo palestino, vítimas da Nakba (tragédia da ocupação) há 65 anos.

Na conferência proferida, contei como funciona na prática a engrenagem da “financeirização da natureza e espoliação dos territórios indígenas e camponeses na Amazônia".

Falei da origem do mercado de carbono desde o seu real motivador militar, o “Conselho da Bolha”, na década de 60. Analisei a formação do comércio de emissões a partir da década de 70 (4), posteriormente na Eco92, o Protocolo de Kyoto (1997), e segui traçando paralelo sobre quanto custam as guerras para os povos do Oriente Médio e as “semelhanças” entre o que ocorre lá com o que vem ocorrendo cá.

Falei do que representa a territorialidade, da relação da água como um ente vivo para os povos do deserto e de sua importância para a sobrevivência de todos seres do planeta, seja pelo aspecto espiritual quanto pelo valor econômico; da fundamental importância para quem quiser compreender a luta entre conceitos ligados ao neoliberalismo e às forças populares emancipatórias, sobretudo na Amazônia, região em que os gatos são pardos.

Atravessamos o deserto cantando e dançando em caravana beduíno-indígena e chegamos nas florestas tropicais contando “causos” enquanto perdidos ficam vagando na superfície sem chegar a lugar nenhum ao defenderem como solução para a crise ambiental as tais geringonças financeiras como o REDD, REDD+, PSA , RCEs, PSE, MDL, Créditos de Compensação, Créditos de Carbono, Créditos de Efluentes, etcetera, etcetera e etcetera... (5)

Há tempos, venho alertando que isso tudo é uma coisa só. Porém, os que pretendem confundir querem nos fazer crer que cada uma destas siglas são coisas diferentes e, desta forma, tentam justificar o injustificável, ou seja, que o mercado financeiro resolve tudo pelas vias do próprio mercado. O mercado financeiro se autorregula e será capaz de combater com eficiência os males que afetam o ambiente.

Se querem provocar convulsões sociais com suas doutrinas neoliberais para implantar o neocolonialismo do carbono como “experimento” (experiências aprendidas?) usando os povos das florestas como cobaias, temos que parabenizá-los, pois, neste intento, estão alcançando com sucesso seus objetivos. Estamos testemunhando violentos conflitos no seio das florestas e nos campos ao levantarmos vozes contra a usurpação de terras, rapinagem dos bens comuns e desrespeito aos direitos humanos viabilizados por reformas legislativas como tem denunciado o CIMI (6) (7).

O que acontece no Oriente Médio, para incautos, nunca acontecerá neste lado do Sul Global. E os palestinos, somos os terroristas, radicais e fundamentalistas por estarmos deste lado de cá, alertando para mais um assalto de atores que conhecemos muito bem, os responsáveis com “nome e sobrenome” deste crime lesa-humanidade, de que essa estratégia contra as nações indígenas e demais povos das florestas é aquela idêntica que tem exterminado milhares e milhares de palestinos, iraquianos, afegãos, libaneses, sírios, africanos entre outros “parentes”. Diz o provérbio beduíno: “No deserto a verdade é a melhor camuflagem, porque ninguém acredita nela!”

Foi neste “Abril Indígena 2013”, em ritual de pajelança e intifada indígena** que o guerreiro Ninawá Huni Kuin, sua família, seu povo, companheiros e parentes (os do lado de cá) receberam a proteção espiritual (Keffiyeh) do povo beduíno (os do lado de lá) sob a mira atenta do mundo, assim como foi a trajetória - o começo e o fim - daquele que tombou em defesa da Amazônia, o mártir palestino Chico Mendes.

Não iremos embora
                             Tawfic Zayyad

Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em vossas goelas
Como cacos de vidro
Imperturbáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em lavar os pratos em vossas casas
Em encher os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar
A comida de nossos filhos
De vossas presas azuis
Aqui sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando poemas
Somos os guardiões da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as ideias como o fermento na massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as pedras
E comeremos terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos com nosso sangue
Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui
Está nosso futuro

Notas:

Conferência proferida no dia 12 de abril, às 19 horas, no Anfiteatro Garibaldi Brasil, da Universidade Federal do Acre, na agenda “ Abril Indígena 2013” organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Federação do Povo Huni Kuin do Acre (FEPHAC), Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (STTR- Xapuri), Conselho de Missão entre Índios (COMIN) e o Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental da Universidade Federal do Acre (NUPESDAO/UFAC), com a participação dos debatedores Ninawá Huni Kuin ( Presidente da FEPHAC ), Dercy Teles de Carvalho (Presidente do STTR Xapuri), Lindomar Padilha ( CIMI) e Prof. Elder Andrade de Paula (CFCH/UFAC).

Keffiyeh é o nome dado ao pano usado na cabeça pelos homens no Médio Oriente, tipicamente branco e preto pelos beduínos, branco e vermelho pelos habitantes da Jordânia (geralmente possui cordões de algodão) e da Arábia Saudita, e branco imaculado pelos homens das cidades. O keffiyeh, também grafado kaffiyah, keffiya, kaffiya ou ainda kufiya, é associado ao movimento nacionalista palestiniano desde a Revolta Árabe (1916-1918) até mais recentemente, devido à sua adoção pelo ex-líder palestiniano Yasser Arafat http://pt.wikipedia.org/wiki/Keffiyeh

Intifada é um termo que pode ser traduzido como "revolta" . É freqüentemente empregado para designar uma insurreição contra um regime opressor ou um inimigo estrangeiro, mas tem sido especialmente utilizado para designar dois fortes movimentos da população civil da palestina contra a presença israelense nos territórios ocupados e em certas áreas teoricamente devolvidas à Autoridade Palestina (Faixa de Gaza e Cisjordânia). http://pt.wikipedia.org/wiki/Intifada
Tawfic Zayyad, palestino de Nazaré, é considerado um pioneiro da poesia de resistência. A maior parte de sua obra foi escrita na prisão.

 

Amyra El Khalili é autora do e-book "Commodities Ambientais em Missão de Paz: Novo Modelo Econômico para a América Latina e o Caribe". São Paulo: Nova Consciência, 2009. 271 p. Acesse gratuitamente www.amyra.lachatre.org.br

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

LEMBRANDO DE RENATO PACHECO

Renato Pacheco foi meu professor
de sociologia na Escola Normal de São Mateus e disse um dia:
"felicidade é termo, não existe".



DEZ POEMAS DA MONTANHA

Santa Rita do Sapucaí, MG, abril de 1077


I
Nem poeta, nem profeta, sou rio e monte.
Busco o absoluto e ultrapassei os limites do universo.
A noite tudo encobre, mas vi a luz.
Cego, durmo, sem propriedades nem posses.
O que vejo está na caverna azul
A água desce da Serra do Caparaó
e abre vales nas montanhas pétreas.
Aleluia, aleluia, cheguei a porto e salvação.
Quando será que a represa vazará?
Quando florirão as macieiras?
Quando, o sol explodirá;
E a lua solitária e morta, quando me verá
como rio e monte, poeta e profeta
a vagar - grão de areia - pelo infinito?

II

Plantaram um buriti em minha porta,
e plácidas vacas pastam a meu lado.
A realidade não existe, então?
Céu e inferno estão em minha mente.
Mãos e pernas, taekwon-do,
o mundo cada vez fica menor,
no tablado crianças brasileiras e lutas coreanas.

De quem eu vivo separado?
Há quanto tempo, há quanto tempo?
Da verdade, que não sei sintonizar.
Jornais, rádios, tevês, vídeos,
me jogam no espaço por caminhos errados.

Resta o silêncio, a solidão, o vazio,
enquanto Marte brilha e o Hale-bop se esconde.

III

Espelho empoeirado,
metal sem brilho,
casa desmiolada,
olho que dói,
espírito da época.

Não falemos mais nisso.
Não falemos mais.
Não falemos.
Não.

As origens são escusas.
Razão e raciocínio nunca mais.
Sonhei duas vezes com você.
De manhazinha, andei no Santa Maria seco.

O homem falava:
"Espírito energizante, concentração alta".
E as mulheres levantaram os braços.

Noite escura, nada se reflete
em meu espelho empoeirado.

IV

Encerrei-me num crisol,
macerei-me quanto pude.
No cadinho, finalmente,
não restou suco algum.

Predeterminada ou aleatória,
nada sei da natureza absoluta.
Pioneio-me ao infinito
menosprezando terra mare ar.

Quando volto da jornada,
quando chego à velha Ítaca,
Muitos são os pretendentes,
somente eu sou Odisseus.

Mas em casa não estou,
nostálgico de mim eu fujo.
Mar alto, céu azul, eólios brincos
não restou suco algum.

V

Imaginar, em labirinto de espelhos
o homem se afundando em terra firme.
Lagos de sangue, córregos linfáticos,
há um rastro de fogo que o persegue.

A ingazeira, à beira do rio, se abaixa
e sua sombra se estende pelo pasto.
A sua sombra o persegue sempre
e os rios, a cuja margem se sentou, secaram.

As aves perderam suas penas.
As aves deixaram de voar.
A arte da guerra se avantajava,
Onde a esperança está, ele não sabe.

Buscar, buscar sempre, cada vez mais.
Neoplasmas devem ser extirpados?
O tecido nervoso não responde.
Buscar, buscar sempre, cada vez mais.

VI

O mistério dorme a sono solto.
O mistério sonha,
Nos lábios do mistério há um sorriso.

A criança come chocolates da Páscoa
O gado pasta na encosta.
A cadelinha late no quintal.

São favas contadas e recontadas;
enquanto o mistério dorme e sonha,
a vida, de mansinho, flui e finda.

VII

Metido a gato mestre,
o homem ganhou fama.
(municipal, provincial?)
O que o homem não sabia
é que glória e poder
são unidade indivisível
e precatórios e tristezas
não pagam dívidas nem mágoas.

Chorou pitangas à porta do tugúrio
metido a gato mestre, o homem chorou.

VIII
O refúgio inconsútil
a casinha de bambu,
o regato cristalino,
estão longe, na montanha.

E, Vitória, Vitória onde fica?
Onde ficam o mangue, o mar e os morros?
Escondo-me na Grande Ponte
bem longe, bem longe na montanha.

IX

"Como um começar a enjoar, no espírito"
Fernando Pessoa, in Ode Marítima

E, sem que me dê por isto,
não no mar, porém nos montes
dá-me um começo de enjoo,
não no espírito, mas no corpo todo.

Lembro-me de meus enjoos antigos,
na lancha Elizabeth prá Paul,
no Ita que me levou ao Rio,
no Mareiro do velho Filó,
no DC 3 a Parnaíba,
nos ônibus de Guarapari,
e até no bambolear do cavalo
rumo a São Pedro de Rates.

Eu sei, bem sei que sou um enjoado
Pelo perdão por tudo, peço perdão por nada.
E em mares revoltos ou montes serenos
permitam-me a náusea, a náusea de viver.

X

Depois de renhida luta, expulsamos os nativos,
"Shall I at least my lands in order?"
Em Maruípe plantamos algodão e cana.
Em São João plantamos pólvora e canhões.

MAIS TARDE

Na Chácara do Vintém plantamos café.
e, em Santo Antônio plantamos fantasmas,
prá dançar no reis-de-boi da Barra do Cricaré.

DEPOIS

Empreendemos acelerada destruição
As motosserras substituíam os passarinhos.
Criamos, por vontade própria, o deserto.

AO FIM

Destruiremos as mil pontes que nos ligam ao continente,
e de lambujem, as de Londres e do Avinhão,
onde passam bois, onde passam boiadas.

(Lavrador de nuvens, encaro o deserto,
"Como deixar, agora, em ordem, minhas terras?")

 

Magistrado, professor, escritor, poeta. Renato José Costa Pacheco, nasceu em Vitória, capital do Estado do Espírito Santo, a 16/12/1928, filho de Filogônio Pacheco e Valentina Costa Pacheco. Fez seus estudos primários e secundários no Colégio Filgueiras, com particulares, no Colégio Estadual do Espírito Santo, bacharelou-se em 1951, pela Faculdade de Direito do Espírito Santo. Cursou Pós-Graduação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Licenciado em História, em Colatina. Atuou como professor em inúmeros colégios de Vitória e do interior do Estado, bem como da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFES (livre docente) e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cachoeiro de Itapemirim. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, da Comissão Espírito-santense de Folclore, da Academia Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira nº 33, cujo patrono é José Horácio Costa e da Academia Capixaba dos Novos. Faz parte do grupo de Letras. Ocupou o cargo de Juiz de Direito, desde 1957, em Vitória e Guaçuí.Foi colaborador nos principais jornais do Estado e Revistas. Manteve uma coluna literária e informativa, na revista "Vida Capixaba", desde o final da década de 40, denominada "Polo Norte... Polo Sul... Notas de literatura".Faleceu em Vitória, a 19/03/2004.

DIGA NÃO À PEC 37


ESTÃO QUERENDO AMORDAÇAR O MINISTÉRIO PÚBLICO.

Brasil! República Federativa formada pela união indissolúvel dos Estados, Municípios e do Distrito Federal. Estado Democrático de Direito erige os Poderes e especifica suas competências: o Legislativo incumbe de elaborar leis, o Executivo, de administrar os bens públicos, destinando-os, na forma da lei. Cabe ao Poder judiciário examinar conflitos mediante processo e proferir decisão imparcial.

Como fim de tudo, visa efetivar seus Princípios Fundamentais e Constitucionais: soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho, a livre iniciativa e o pluralismo político. (Art. 1º).

O Poder não é de quem o detém, seu exercício é um mandato, requer reputação ilibada, competência e amor ao outro. É desviado. Todos os dias, vêm à tona, descobertas das mais diferentes mazelas, desvio de verbas de obras inadiáveis, escolas, hospitais e outros serviços, sem explicação que se aceite.

Soa a hora de definir responsabilidades. Para tanto, uma Instituição se tem revelado coerente com sua destinação constitucional, é o Ministério Público: instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. (Art. 127).

Tarefa de tal relevância importa em promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos. (Inc. III, art. 129).

O MP leva a sério tal tarefa. À exaustão, investiga e mediante ações penais e/ou de improbidade administrativa tem levado agentes públicos  a julgamento perante os tribunais.

Maus parlamentares, como diz o ditado, vendo a barba do vizinho arder,  apressaram-se em dar jeito de por as suas de molho. Encontraram saída no poder de legislar que detêm: vamos tirar do Ministério Público o poder de investigação, só as Polícias poderão fazer isto. Subterfúgio desprezível, marcha-ré nos ainda frágeis, mas permanentes passos que o Brasil vem dando em favor da moralização e do fazer valer o Direito, punindo também malfeitores do “colarinho branco”.

Para tanto, tramita no Congresso Nacional a proposta de emenda à constituição – PEC 37 – verdadeiro tapa na cara da Democracia, jogar no lixo uma das maiores conquistas da Nação que tem o Ministério Público na mais alta conta e a ele recorre sempre, até, quando este Órgão por não ser de sua atribuição, não dispõe do analgésico que precisa para lhe aplacar a dor.


 Publicado na Revista Vitória,
junho 2013.

 

CHEIRO DE MAR

Nazareth Aguiar Pessanha Tunholi,
escritora e poetisa; jornalista e promotoa de eventos.
Presidente do 11° encontro Internacional de
Escritoras - Brasilia - 2014 

Minha voz incansável não esgota

as exaltações que tenho para ti.

Oh! espressão máxima do belo,

Que em minha terra se esmera

Em exuberante e salgada dança.

Esparzindo cintilante fragrãncia

Que de tuas maleáveis axilas

Lanças à praia ao deitar tuas ondas
 
Que se enlaçam e se misturam

Agitando-se de gozo

Num clímax, sussurrante

De espumas derramadas

Quando seus odores extasiantes

Impregnam as areias,

Invadem a atmosfera reluzente

E todo o ambiente de Guriri.


                                                do livro Vôo da Águia poemas Imenso Azul

quinta-feira, 6 de junho de 2013

POEMAS DE JOSÉ HAROLDO

José Haroldo Evaristo Cavalcanti, poeta maranhense, uma pessoa vitoriosa cujas motivações para alcançar, sucesso,  segundo afirma, foi ter aprendido a ler fora da época. Aos 9 anos. Foi alvo de zombaria por colegas da escola.

 
AS INQUIETAÇÕES DA DOR
A dor invade o ser,
Ser, querer ser, não querer,
Inevitavelmente as dores incomodam
O ciúme
O individualismo
O egocentrismo
A solidão
São dores que não se sabem de onde vêm
E nem para onde nos levam
A insegurança e medo de resgatar o equilíbrio de viver
Impedem-nos de superar fraquezas por forças.
Dor! Dores! Quem nunca as teve?!
Agora resta ao ser, deliciar-se com o sabor da vida.
Sem receio
Sem medo
Sem destino
Sem dor.
 
A FLOR DE LARANJEIRA
A Flor da laranjeira por si mesma é soberana,
Por isso, se alimenta dia após dia, majestosamente,
Com a luz do sol e, ao anoitecer é beijada pela ternura da lua
Tem brilho próprio e reluz sua delicadeza
Aos olhos dos românticos e apaixonados
Pelo verde da vida e da natureza
 
REJEIÇÃO
Perdemo-nos então
À beira do encantamento
Da veracidade da vida
E dos fatos que nos unem:
O amor à vida e a rejeição à prepotência.