sexta-feira, 8 de abril de 2016

DUAS POESIAS

RUYZINHO 

Maio... Ressoam no ar as harmonias
Dos bronzes e das longas litanias...
Foi em maio... há um ano que partiste...
E este mesmo sino que risonho, agora,
Tange, na tarde em que foste embora
Soava num dobre compassado e triste.

Tudo revive com o dulçor do outono...
Só tu jamais te acordas desde sono...
Há um frescor de verduras orvalhadas,
Pelos campos de um lindo verde-gaio,
O mais suave azul no céu de maio,
Lírios se abrindo á beira das estradas...

Maio voltou florindo os matagais,
Só tu partiste para nunca mais!
Quando entardece para a ermida à pino
No alto do outeiro, vejo rumorosas
Ledas crianças carregando rosas...
É vazio o teu berço pequenino...

Quanta alegria!... O sino lembra um monge
Rezando a missa nova... E tu... ai! Longe...
Tudo vibrando alegre como um guizo...
E em meio deste rir que no ar espoca
Visse eu sorrindo a flor da tua boca
Que a terra me seria um paraíso!

Maio... cantam os sinos... não despertas!
As faces brancas; de livor cobertas,
Adormeceste lindo, um rubro manto
Recamado de estrelas cor de ouro,
Um diadema no cabelo louro
Entre círios e flores qual um santo!

Não tens saudade do teu doce lar,
Quando na terra tudo anda a cantar?
Dessa existência de horas passageiras
Que tiveste? Da casa onde era um fio
De musica o teu leve balbucio,
E onde os lírios te olhavam das floreiras?

De quem te acalentava com carinho,
Quando o luar descia, cor de linho,
E estrelas de ouro lá no céu de bruços,
Dormir te viam cheias de meiguice?
Daquela voz tão doce que te disse
O último adeus cortada de soluços?

Tudo revive com o dulçor do outono...
Só tu não deixas este longo sono...
Maio voltou florindo os matagais
E enquanto expira a tarde azul e pura,
De rosas cubro a tua sepultura,
Porque partiste para nunca mais!

Maria Antonieta Tatagiba



MARES E MARIAS

Mares, marés, maresia, mar pia,               
 Mar que se espraia,                                      
Mar que se agita,                                             
Mar que vem e mar que vai.
Mar na aurora,                                                 
 Mar na madrugada,                                              
Mar do amanhecer,                                                        
 Mar do sol a pino,                                                                     
Mar do entardecer,                                                       
Mares bravios do nosso país altaneiro.                  
Mar trigueiro,                                                                   
 Mar brasileiro,                                                     
Mar do silêncio,                                               
Mar que em repouso,                                                         
Mar adormeceu.
Maria que mar ias,                                     
Maria que vinhas,                                             
 Marias vendo chegar                                                    
Marias partirem-se indo,                       
Marias na saudade,                                      
Marias na lealdade,

Maria do coração de santas,                                                 
da Penha,  /  
do Carmo,  
Auxiliadora,               
da Conceição,   
das Graças,                           
da Consolação,  
do Socorro,                      
Helena,  
Teresa,                       
de todas as Marias. 

Mar inicia Maria,                                                  
Maria mulher,                                                                         
 plebeia e de toda sorte,                                   
 todas as Marias. Como o Mar,                         
 imensas e fortes                                                   
todos os mares são Marias,                                    
todas  as Marias são mares,                           
  mares e Marias,                                                         
Marias e mares.                                                                 
Em cada Maria, o início de um MAR!!!
Marlusse Pestana Daher










segunda-feira, 4 de abril de 2016

SENHORA DA ROCHA E DO AMBIENTE

NOSSA SENHORA DA PENHA

A cada ano se renova o espetáculo de fé que a festa de Nossa Senhora da Penha sempre proporciona na segunda-feira seguinte ao 1º domingo de Páscoa. Neste ano, em 8 de abril.
 Às celebrações que acontecem durante o oitavário, acorrem milhares de pessoas sequiosas de amor, do amor que têm para dar e que também esperam receber em forma de graças pelas mãos benditas daquela que todas as gerações chamarão bem aventurada. 
Romaria dos homens
É curioso notar que quem o afirmou foi a própria Senhora nossa, após ter contaminado Isabel com a força do Espírito Santo da qual se plenificara, quando em adesão perfeita ao projeto do Pai, disponibilizou-se sem reserva para que consigo acontecesse tudo o que fosse segundo a Sua vontade, já que vivia plenamente a certeza de não ser mais que Serva do Senhor. Ao mesmo tempo, tinha toda consciência de que tal submissão significa a plenitude da paz.
Não foi uma afirmação improvisada. Maria conhecia as escrituras. O que acabava de afirmar consta do Antigo Testamento mais precisamente em (I Sm 2,1-10), o que demonstra que Maria conhecia a Sagrada Escritura e a meditava e desde então já guardava a Palavra no seu coração.
A vida de Maria nos permite um rosário infindável de descobertas, novas e adaptadas ao nosso tempo. Porque Maria quis que seu santuário fosse construído lá no topo da rocha, temos as versões do quadro que sumido era encontrado lá em cima. Maria quis estar no alto para divisar todo o entorno onde estivessem seus filhos.. E por que entre o verde da mata?
Catedral de Vitoria
Ponto de partida da Romaria dos homens 
Ah Maria é verdadeira poetisa! No alto, está mais perto do céu e tem um mundo de mar com o qual se extasiar. Maria está no meio da floresta, de uma fração que se mantém conservada da “Mata Atlântica” abundante no Brasil de ontem, hoje reduzida a uns cinco por cento. Ali, tudo é feito para que seja conservada. Ali, há pássaros que com seus cantos, entoam em sinfonia, louvores ao Criador; bichos que rastejam e na sua locomoção vão-se encarregando de difundir espécies, micos saltitantes, uma variedade de animais, muitos que até nem são vistos, mas ali está um ecossistema exuberante e cumprindo potencialmente o papel que tem entre as criaturas de Deus.
Deste modo, penso que Maria deveras já sabia os depredadores em que se constituem mulheres e homens e com carinho de mãe os exorta a protegerem a terra e a floresta de onde recavam todas as coisas de que precisam para a vida, para poder viver.
Assim, quando neste ano, subirmos a Penha, por qualquer das duas ladeiras, além de entoarmos hinos e orações, detenhamo-nos na contemplação do verde que ali permanentemente entoa salmos à vida. Analisemos aquelas vidas e nos deixemos transbordar de compaixão pelas tantas agressões sofridas.
Romaria dos motociclistas
Em relação ao ambiente, agir com paixão é tudo que de tanto precisamos. Coloquemo-nos ao lado de Nossa Senhora, ouçamos sua voz que nos vai mostrando os detalhes, que nos conta de como e com quanto amor seu Filho criou tudo que ali se vê; por nós, por nosso amor e nesta festa da Penha, façamos um propósito solidário: pelas mãos de Maria, ser defensores ferrenhos do ambiente, amar e cuidar dele com paixão, não o usemos como se fossemos seus senhores absolutos, mas como quem sabe que muitas gerações que ainda estão por vir, precisarão dele saudável e íntegro.
Aqui está uma forma de festejar Nossa Senhora da Penha, mais que com louvores comuns que muitas vezes não passam de entusiasmo passageiro, concretamente, como resposta a um amor sem fim. Sentir o ambiente como um outro, tanto quanto o outro, representado por quem nos é semelhante.



sexta-feira, 1 de abril de 2016

MARIA, MÃE E PORTA DA MISERICÓRDIA

Maria, Mãe da Misericórdia
Reparemos que a nossa Igreja não inventou uma invocação como tema da Festa da Penha deste ano. Quando rezamos, Salve ó Rainha, acrescentamos em seguida, mãe de misericórdia.
Existe uma íntima relação entre Maria Santíssima, a Mãe de Jesus, o mistério da misericórdia divina e a prática da misericórdia. Maria está desde a sua concepção envolta na misericórdia infinita do Pai, pelo Filho e no Espírito (preservada do pecado e do demônio), ao mesmo tempo em que o seu agir – antes e depois da sua Assunção – está assinalado pelo amor efetivo aos seres humanos (especialmente pelos pecadores e sofredores).   
Em 15 de agosto de 1983, a Igreja Católica aprovou oficialmente, o formulário da Missa Votiva “Santa Maria, Rainha e Mãe de Misericórdia”, o que se constituiu em importante marco para a história de sua veneração – sem nos esquecermos que a 30/11/1980 o Papa João Paulo II na sua Encíclica Dives in misericordia destacou que Maria é a “pessoa que conhece mais a fundo o mistério da misericórdia divina” (n. 9). Anos depois o Catecismo da Igreja Católica (1997) dirá que ao rezar na Ave-Maria: “rogai por nós, pecadores”, estamos recorrendo à “Mãe da misericórdia” (n. 2677).
A invocação “Salve, Rainha, mãe de misericórdia” destaca a qualidade do olhar materno de Maria  quando dizemos: “esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, e se conclui com o sentido desta sua misericórdia: “ó clemente, ó piedosa, ó doce, Virgem Maria”.
O título de “Mãe de Misericórdia” se crê que foi dado pela primeira vez a Maria por um santo de nome meio estranho Santo Odão (+942), abade de Cluny. Maria lhe teria dito em sonho e revelou:  “Ego sum Mater misericordiae” (Eu sou a Mãe de Misericórdia),
No mundo oriental podemos encontrar testemunhos ainda mais antigos. O padre oriental da Tiago de Sarug (+521), aplicou a Maria explicitamente o título de “Mãe de misericórdia” (Sermo de transitu), o que é por muitos considerado como sua primeira atribuição em absoluto.


O TÍTULO, MÃE DE MISERICÓRDIA

O título “Mãe de misericórdia” que reconhecemos a Maria se justifica no fato de ela ser a mulher que experimentou de modo único a misericórdia de Deus – Ele a envolveu de modo desde a sua Imaculada Conceição, passando pela Anunciação, como discípula fiel do seu Filho, até o grande momento da Sua Páscoa (paixão, morte, ressurreição, glorificação e Pentecostes). Ela é “cheia de graça”, ou seja, totalmente transformada pela benevolência divina (cf. Ef 1,6).
Maria é a mãe que gerou a misericórdia divina encarnada adquirindo uma relação inimaginável intimidade com o próprio “Pai das misericórdias” (2Cor 1,3). A partir do seu “eis-me aqui” e o seu “faça-se”, a misericórdia divina se faz carne e entra na história!
Maria profetisa, exalta a misericórdia de Deus –por duas vezes, no Magnificat: “a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem”; “socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia” (Lc1,50.54).
Maria é a intercessora incansável do povo de Deus, a exemplo do que fez quando rogou pelos esposos de Caná. Assunta ao céu, Ela “continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna”,  praticando assim a misericórdia, sobretudo para com os que padecem dos males da alma (pecadores), mas também do corpo (todos que sofrem).
Maria é a apóstola incansável da misericórdia divina – com permissão e o envio do seu Filho, Maria visitou  seus filhos ainda peregrinos neste mundo, nas aparições (Guadalupe, La Salette, Lourdes, Knock, Fátima etc.), convidando a todos a se aproximarem do “trono da graça” que é o seu Filho. Com o seu coração compassivo de Mãe, não poderia permanecer indiferente às mazelas dos seus filhos neste vale de lágrimas!
A Mãe de Jesus e nossa merece, portanto, ser honrada como Mãe da Misericórdia e Mãe de misericórdia! Ó Maria, Mãe que experimentastes e gerastes a Misericórdia, Mãe que proclamais e exerceis a misericórdia, fazei de nós autênticos apóstolos deste mesmo mistério de amor em nossos tempos. Amém.



quarta-feira, 30 de março de 2016

SINTO VERGONHA DE MIM


SINTO VERGONHA DE MIM
                                                                                

Sinto vergonha de mim por ter sido educador de parte deste povo, por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade, por primar pela verdade e por ver esse povo já chamado varonil.

Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser e ter que entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade, a negligência com a família, célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação com o “eu” feliz a qualquer custo, buscando a tal “felicidade” em caminhos eivados de desrespeito para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e vaidade, a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos “floreios” para justificar atos criminosos, a tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre “contestar”, voltar atrás e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer...
Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço.

Não tenho para onde ir pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei minha Bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim, tenho pena de ti, povo brasileiro! De tanto triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Segue o João Amaury Belém...

Para onde caminha esse jovem país chamado Brasil, pois, como Advogado aos 53 anos com uma filha de 18 anos neste ano de 2014 cursando o 2º ano de Direito, tenho vergonha da minha impotência, das minhas desilusões e do meu cansaço em ver tanta mediocridade ao longo dos últimos doze anos, de ver triunfar as nulidades, de ver prosperar a desonra, de ver crescer a injustiça, de ver agigantarem-se os poderes nas mãos de uma corja de sindicalistas desonestos que em pleno século XXI, início do terceiro milênio tem a desfaçatez de querer enfiar goela abaixo dos homens de bem desse país que a única solução é o comunismo/socialismo.
Como Homem chego a desanimar da virtude, e choro por aqueles que riem da honra e têm vergonha de serem honestos.


João Amaury Belem
Advogado

Sinto vergonha de mim - Poema que erroneamente foi atribuído a Ruy Barbosa mas na verdade é a ele atribuído apenas os últimos versos desse poema que na sua grande é de autoria da poetisa Cleide Canton e Rolando Boldrin declama com grande emoção. Poema que descreve a realidade política e as maldades que essa gente gananciosa, mesquinha, desonesta e sem caracter aplica sobre o povo de nosso amado pais.

domingo, 27 de março de 2016

O QUE É A CNBB

O BISPO DE GUARULHOS AFIRMA: A CNBB NÃO TEM AUTORIDADE NENHUMA SOBRE OS BISPOS

André F. Falleiro Garcia

     O Bispo de Guarulhos, D. Luiz Gonzaga Bergonzini, fez recentemente esta declaração: "A CNBB não tem autoridade nenhuma sobre os bispos". Ele está coberto de razão. Já dissemos isto quandotratamos da natureza jurídica eclesiástica e limites de competência da CNBB, no artigo "A CNBB não é a Igreja Católica".
O Bispo de Guarulhos, D. Luiz Gonzaga Bergonzini 
     Com efeito, cada Bispo, Arcebispo ou Cardeal que compõe em nosso país a Sagrada Hierarquia da Igreja Católica, mantém relação de vinculação hierárquica direta com o Sumo Pontífice sem interposição de nenhuma instituição eclesiástica intermediária brasileira. Conforme o Decreto nº 7.107, de 11-2-2010, que regula o Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, "a Santa Sé é a suprema autoridade da Igreja Católica, regida pelo Direito Canônico". E a CNBB é apenas um ente burocrático, um órgão de apoio, uma instituição eclesiástica sem nenhum poder de mando sobre os bispos.
     Mesmo estando a declaração de D. Bergonzini de acordo com a realidade do plano jurídico civil e eclesiástico, soou como se fosse uma afirmação surpreendente e inédita, como uma afronta ao que supostamente seria a chefia da Igreja Católica no Brasil. Até aqui nenhum dos integrantes ousara questionar tão abertamente as orientações do órgão colegial episcopal, que se valeu durante décadas de uma autoridade fictícia, de uma enorme capacidade de pressão sobre a maioria dos bispos, e de uma eficiente transmissão ao público brasileiro de uma imagem equivocada e supervalorizada. Vamos aos fatos.
     D. Bergonzini escreveu o artigo "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mc 12,17)" que foi publicado na Folha Diocesanade Guarulhos do mês de julho/2010 e no site da CNBB. O mesmo foi depois censurado e retirado do site da CNBB. Nele D. Bergonzini afirmou que é dever da Igreja intervir no cenário político-eleitoral convidando os fiéis a não votar em partido ou candidato que desrespeite a vida (aborto) e os valores familiares.[1]
     E apontou o Partido dos Trabalhadores (PT) — que apoiou o péssimo 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) e puniu os deputados petistas Luiz Bassuma e Henrique Afonso por serem defensores da vida — como sendo um partido que se posicionou de modo público e notório contra os valores da vida e da família.[2]
     Por fim, D. Bergonzini ainda citou expressamente a candidata presidencial Dilma Roussef, do PT, recomendando que os católicos não apoiem sua candidatura nem a dos demais que proponham a liberação ou legalização do aborto.[3]
     Dilma Rousseff, ao saber da declaração do bispo, comentou que aquela não era a posição de neutralidade na campanha política que a CNBB recomendara aos bispos. Tanto Dilma quanto o presidente Lula da Silva entendem que o aborto deve ser tratado como uma questão de "saúde pública", modo ladino de esquivar a grave questão religiosa do assassinato dos nascituros: a clara afronta ao 5º mandamento da Lei de Deus — “Não matarás”.
     Mesmo depois de ter desafiado a CNBB e a candidatura Dilma, D. Bergonzini não se deixou dobrar pelas inevitáveis pressões e permaneceu irredutível. Em entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo, ao ser questionado sobre o contraste entre a recomendação da CNBB de adotar a neutralidade na campanha, e o seu pronunciamento contrário à candidata Dilma Rousseff, o bispo respondeu: "Em primeiro lugar, que recomendação é essa? A CNBB não tem autoridade nenhuma sobre os bispos. Eu segui a voz da minha consciência. Sou cristão de verdade e defendo o mandamento 'não matarás'. Não tem esse negócio de 'meio termo'."
     E sem manifestar temor por algum tipo de retaliação ou reação negativa da parte da CNBB ou de partidários da candidata Dilma, D. Bergonzini insistiu: "Eu não vou arredar o pé, não importa as consequências que eu venha sofrer, mas o que importa é minha consciência e seguir o Evangelho. Eu não tenho medo. O que pode acontecer? Deus saberá. [...] Como cidadão, tenho direito de expressar minha opinião e, como bispo, tenho a obrigação de orientar os fiéis."[4]
     É oportuno recordar que no caso recente da menina de Alagoinha (PE), que foi estuprada pelo padrasto e engravidou de gêmeos, o então arcebispo de Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, em defesa da cultura da vida anunciou publicamente que o Código Canônico previa a pena de excomunhão automática para todos os envolvidos. A CNBB encarregou-se de demolir o posicionamento dele. Por meio de seu secretário-geral, bispo Dom Dimas Lara Barbosa, desautorizou o anúncio da excomunhão. A CNBB atuou como se fosse a chefia da Igreja Católica no Brasil. Mesmo desacreditado, D. José Sobrinho não recuou. E venceu. Pois cumpriu o seu dever e combateu o bom combate. Também a intrepidez de D. Bergonzini ficou insculpida na história eclesiástica brasileira.
     O poder psicológico de pressão exercido pela cúpula da CNBB e suas 17 Regionais sobre o episcopado tem sido acachapante. Mas já se viu que a pedra se transforma em gelatina e surgem fendas na muralha quando a verdade católica é afirmada com ousadia e sem respeito humano.
     É alentadora a defesa postada no site da Diocese de Guarulhos, intitulada Vivas a Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, assinada pelo advogado João Carlos Biagini, na qualidade de membro do Departamento Jurídico da Mitra Diocesana. A licitude da ação pastoral em defesa da vida promovida por D. Bergonzini e, em consequência, de sua resistência à CNBB, transparecem nas palavras do referido jurista. Inclusive o bispo agiu segundo a lei da esfera civil, como jornalista e responsável pela Folha Diocesana, de acordo com o Código de Ética, e pautou seus escritos pela verdade. Como cidadão brasileiro, fez uso do direito de manifestação de opinião consagrado no art. 5º., inciso IV, da Constituição Federal em vigor.
     Ademais, D. Luiz Gonzaga Bergonzini agiu como verdadeiro bispo católico em consonância com as regras do Código Canônico, conforme as palavras do defensor jurídico da Mitra de Guarulhos, que apresentamos a seguir, como conclusão destas considerações:
     "Dom Luiz Gonzaga expediu uma orientação, a todos os católicos, para não votarem em partido e candidatos que são a favor do aborto. Dom Luiz, como pregador do evangelho de Cristo, não poderia se omitir, ou relativizar, contrariando a Doutrina Cristã e desobedecendo ao Papa Bento XVI. Não podemos imaginar nem admitir um bispo, um padre ou qualquer religioso católico apoiando partidos e candidatos favoráveis ao aborto. Se assim agissem, eles estariam negando o seu sacerdócio e a sua fé. Então, sob o ponto de vista pastoral, Dom Luiz cumpriu sua obrigação e orientou os fiéis para não votarem em quem ofende a Doutrina Cristã. No âmbito do Direito Canônico, Dom Luiz Gonzaga deu cumprimento ao cânon 386, §1 e §2, assim escritos: “§1. O Bispo diocesano é obrigado a propor e explicar aos fiéis as verdades que se devem crer e aplicar aos costumes...” §2. Defenda com firmeza a integridade e unidade da fé, empregando os meios que parecerem mais adequados...”. Temos, então, que o Direito Canônico autoriza o Bispo Dom Luiz Gonzaga a explicar as verdades e defender a integridade e unidade da fé. Dom Luiz cumpriu sua obrigação canônica."[5]
     _________
   
     NOTAS:
    [1] Disse D. Bergonzini: "[...] a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato, mas faz parte da sua missão zelar para que o que é de “Deus” não seja manipulado ou usurpado por “César” e vice-versa. Quando acontece essa usurpação ou manipulação, é dever da Igreja intervir convidando a não votar em partido ou candidato que torne perigosa a liberdade religiosa e de consciência ou desrespeito à vida humana e aos valores da família, pois tudo isso é de Deus e não de César." (Cf. artigo Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mc 12,17).) 
    [2] Afirmou D. Bergonzini no artigo supra citado: "Na atual conjuntura política o Partido dos Trabalhadores (PT) através de seu IIIº e IVº Congressos Nacionais (2007 e 2010 respectivamente), ratificando o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) através da punição dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso, por serem defensores da vida, se posicionou pública e abertamente a favor da legalização do aborto, contra os valores da família e contra a liberdade de consciência."
    [3] "Isto posto, recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”, independentemente do partido a que pertençam." (Idem, ibidem)  
    [4] Eis os principais trechos da entrevista concedida pelo bispo:
     Folha — Mesmo com a recomendação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) pela neutralidade na campanha, o senhor decidiu explicitar sua posição contrária à candidata Dilma Rousseff. Por quê?

     D. Luiz Gonzaga Bergonzini — Em primeiro ligar, que recomendação é essa? A CNBB não tem autoridade nenhuma sobre os bispos. Eu segui a voz da minha consciência. Sou cristão de verdade e defendo o mandamento “não matarás”. Não tem esse negócio de “meio termo”.

     Folha — A candidata afirma que não defende a descriminalização do aborto. Mesmo assim, o senhor cita o nome dela no artigo.

     D. Luiz Gonzaga Bergonzini — Ela [Dilma] segue o partido, ela é a candidata. Então eu vou matar a cobra na cabeça. Pessoalmente não tenho nada contra ela. Mas o direito à vida é o maior direito humano. O aborto é atitude covarde e criminosa. Eu não arredo o pé, não.

     Folha — Como o senhor concluiu que ela tem essa posição? Isso nunca ficou claro e ela nega.

     D. Luiz Gonzaga Bergonzini — É o terceiro plano de governo que ela adota. Como percebeu que havia reação, foi mudando. Não vou recuar.

     Folha — O senhor pretende levar ao conhecimento dos fiéis da diocese essa recomendação de não votar na candidata Dilma?

     D. Luiz Gonzaga Bergonzini — Os padres devem notificar ao povo a orientação do bispo. Eu não vou arredar o pé, não importa as consequências que eu venha sofrer, mas o que importa é minha consciência e seguir o Evangelho. Eu não tenho medo. O que pode acontecer? Deus saberá.

     Folha — Inclusive nas missas, os padres vão tratar do tema? Vão citar o nome da candidata?

     D. Luiz Gonzaga Bergonzini — Tratar do tema, não. Podem citar o nome dela, porque vou mandar uma carta para os padres notificarem as pessoas da minha recomendação nas missas. Como cidadão, tenho direito de expressar minha opinião e, como bispo, tenho a obrigação de orientar os fiéis.

     Folha — O senhor teme algum tipo de retaliação ou reação negativa, seja por parte da CNBB ou de partidários da candidata Dilma?

     D. Luiz Gonzaga Bergonzini — Sempre tem alguma coisa. Tenho recebido muitos e-mails. Não sei se são ameaças, mas contestando. Mas posso te dizer que muitos de apoio. As pessoas dizem: “finalmente alguém que usa calça comprida resolveu reagir”. (Cf. 
Bispo de Guarulhos diz que não recuará em mobilização contra Dilma. FSP 23/07/2010) 
    [5] Cf. o artigo Vivas a Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, 03-08-2010, por João Carlos Biagini, advogado, Membro do Departamento Jurídico da Mitra Diocesana, postado no site da Diocese de Guarulhos.
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segunda-feira, 7 de março de 2016

SIMPLESMENTE MULHER

Jô Drumond

No início o século XX, época em que ainda se cultuava a mulher com o epíteto de “rainha do lar”, ela era, na realidade, uma rainha-escrava, prisioneira de uma fortaleza calcada no concreto da moralidade e erguida com pilares de preconceitos. Aquelas que não se aclimatavam em seus domínios, fossem elas, mães, esposas ou filhas, e que ousavam se evadir, faziam-no qual borboleta triste abatida à saída do casulo, mesmo antes de criar asas. Preparadas desde tenra idade para atuar apenas dentro de seus domínios, mesmo que fossem detentoras de grandes pendores artísticos, franziam-se às minudências do cotidiano.

Quando uma delas se revoltava ou caía em tentações amorosas, era normalmente expulsa de casa, para não desonrar a família. Tais rainhas ou futuras rainhas tão logo abandonavam seus reinos, vislumbravam diante de si apenas duas vias: a da virtude, nos escuros claustros de um convento, ou a do pecado, nas brilhantes alcovas de um prostíbulo. Outros eventuais caminhos eram por demais temerosos, como os da personagem Dolores, do livro Esmaltes e camafeus, de Guilly Furtado. Ao perambular pelas invernosas ruas de Madri com um bebê pendurado no seio murcho, morreu de inanição e de frio, à porta de uma catedral, sem que nenhuma alma caridosa dela se apiedasse. Dolores não teve a mesma ventura de Georges Sand, que embora vivesse em Paris, considerada na época como capital cultural do mundo, viu-se obrigada a se trajar como homem, para frequentar os redutos literários e publicar suas obras sob um pseudônimo masculino.

Nesse contexto mundial, as filhas da burguesia brasileira, que ousavam romper a viseira doméstica e os dogmas religiosos, como fez Guilhermina Tesch Furtado, deveriam ser combatidas ou, pelo menos, contidas.

Foi o que ocorreu com a livre-pensadora capixaba, que conseguiu se destacar no meio intelectual e jornalístico paraense e transpor, em 1913, os “umbrais do templo dos imortais”, a Academia de Letras do Pará, reduto estritamente masculino. No ano seguinte, aos 24 anos, conseguiu publicar um livro de contos, por uma editora francesa (Garnier), e lançou seu alter ego aos quatro ventos, sob a máscara de personagens e narradores. Deixou registradas, em prosa-poética, idéias revolucionárias a respeito da condição da mulher, da infidelidade conjugal, dos anseios sexuais femininos, dos problemas das classes menos privilegiadas, das incongruências religiosas e dos desmandos políticos. No mesmo ano da publicação dessa obra casou-se com um militar (que certamente não havia lido o livro antes do matrimônio), e mudou-se para o Rio de Janeiro. Assim findou a carreira de uma mulher que poderia ter sido grande escritora. Talvez a circulação desse livro tenha sido impedida. Sabe-se que nem mesmo seus familiares têm o privilégio de possuir um exemplar de tal edição. Um único foi encontrado na Biblioteca Nacional, cuja edição fac símile foi providenciada pela Prefeitura de Vitória (ES), em 2011.

Segundo o pensamento medieval, o ser humano, tal qual um tonel de vinho, deve ter válvulas de escape para não explodir, devido à fermentação. Por conseguinte, no medievo, o clero permitia festividades profanas paralelamente às religiosas.

Uma válvula foi concedia à Guilly; a de publicar eventualmente suas crônicas na revista Vida Capichaba, criada por um primo seu. Não se vê nessas esparsas publicações a mesma verve da autora do livro. Até os 90 anos, foi escritora de um só livro, e viveu recuada, no seio da doxa, protegida contra os paradoxos do mundo, provavelmente sem grandes tristezas, sem grandes alegrias, mas com muito tédio, tema esse recorrente em seus contos. Como diria Cecília Meireles não foi alegre, nem foi triste: foi poeta.

Obs. A pioneira focalizada na crônica, Guilly Furtado, teve sua obra analisada por mim  e publicada em 2014, sob o título “Esmaltes de camafeus: retratos de mulher