sábado, 17 de fevereiro de 2018

REALIDADES


Quando a Constituição Federal prevê que os poderes constituídos da República se constituem do Legislativo, do Executivo e do Judiciário prevê também a forma com que os candidatos hão de galgar os respectivos cargos, cujas funções se diferem, mesmo sendo imprescindível a existência de harmonia entre os três.

Um Presidente da República exerce o ápice do poder, competindo-lhe servir ao país, sentir-se como verdadeiro, verdadeiro servo do povo, jamais valer-se do cargo para seu próprio benefício.

Naquele dia em que os Desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (RS), não só confirmaram a sentença do Juiz Sérgio Moro que condenou Lula, mas aumentaram sua pena, o Brasil respirou aliviado, viu algo de bom acontecer. Confirmou-se que as cominações e penas destinadas aos delinquentes, não é só para descamisado ou remediado, mas pra todos.

Não acho certo tripudiar sobre um morto, mas acaba-se por imperativo, falar, já que ele continua fazendo “visagem pra assustar”. Sempre me motivou o desejo de que esta nossa Pátria dotada de tantos bens, tanto amor – de paz já não se pode falar – onde apesar das maldades, ainda temos uma natureza que esquece os ultrajes que lhe são impingidos e continua revelando-se como um hino verde que atinge as alturas e louva o Criador.

Quando falamos que muitas ou certas pessoas não têm capacidade de ocupar certas funções, há quem diga que é preconceito, que é bobagem “que todos são dignos” como disse a atriz Beth Faria, anos atrás, para justificar seu voto ao candidato a deputado federal, o Cacique Juruna.

Só para não sair do campo político, eu pago para ver se alguma corte em qualquer instância, se algum empreendedor  contrataria o Sr. Lula da Silva para assessoramento seu e o querem mais uma vez, apesar  de tudo que fez de errado, de todos os crimes que cometeu, apesar do espólio que praticou, como Presidente da República. 

São hipnotizados pela sua capacidade de ludibriar, enquanto o mesmo declara claramente que vai  (ia) arranjar (que mina infindável!) muito dinheiro para comprar votos de baianos a R$ 10,00 e voltaria à presidência. Em outros termos, repetiu  o que disse em resposta à interpelação a ele feita para reeleger Dilma: “vocês não sabem do que somos capazes”.

E nós, os “abestados”, apesar de intuir, não sabíamos. Eu mesma viajando pelo Brasil ao ver tantas placas da Odebrecht em obras públicas de grande porte chequei a repetir: “essa Odebrecht é sócia do Brasil”. Por ironia, inteligentemente, alguém para fazer notar quem mandava no Brasil, publicou nas redes sociais,  uma foto do Sr. Marcelo, ex-presidente da mega empresa, envergando a faixa presidencial no peito. Sem legenda, e precisava?

Já se tornou público que o Ex Ministro do STF, Sepúlveda Pertence, respeitável nome do mundo jurídico nacional, (título cuja continuidade de posse vai depender das jogadas que vier a fazer, e virão a público, porque nada fica oculto debaixo deste céu) foi contratado nada menos que por R$ 50.000.000,00 (cinquenta milhões de reais) para defender o Lula.

Reconheça-se que para quem gosta de propalar sua origem humílima, proclamar-se a pessoa mais honesta deste mundo, como se explica para quem é apenas um torneiro mecânico depois de exercido o cargo de Presidente da República, dispor de tão alta quantia, para regiamente pagar uma defesa. E Deus não queira, já se ouve um burburinho de que os caminhos foram devidamente aplainados.

“E de um amigo” seu? Eta homem que não toma jeito! Continua sendo comprado a peso de ouro, embora o contrato seja de risco, por quem interessa sua volta ao poder, para deste modo continuar a tirar proveito.

Ainda causa perplexidade e prova interrogações a  origem da fortuna do tal Lulinha, adquirida exatamente no tempo em que seu pai exerceu a presidência, se era simplesmente “um recolhedor de detritos animais” no jardim zoológico em que trabalhou.

Não queiram nos continuar tentando a tratar como “trouxas”. “Os pobres são os preferidos de Deus”. O grande Papa Francisco fazendo tornar mais claro o preceito, proclamou um “Dia Mundial dos Pobres”. E que ninguém se esqueça o que disse Jesus: “tudo aquilo que fizerdes ao menor dos mus irmãos, a mim o   fareis”. E segundo a sabedoria popular, “quando Deus tarda vem no caminho”. Nem pagamento a peso de muito ouro evita a realização dos Seus projetos, da realização de Sua justiça.

E ninguém me venha repetir que os antecessores de Lula, fizeram o mesmo e não foram condenados. “a batata deles está assando”. Mas “pera ai”: desde quando um erro justifica outro?

É claro que todos que traíram a confiança da nação, que cruzaram os dedos anulando o juramento constitucional proferido na hora da posse devem pagar pelo que fizeram.

É lamentabilíssimo que o STF venha decaindo na confiança dos seus jurisdicionados pelas repetidas decisões incompatíveis com a boa e eficiente administração da justiça.

 “Será o fim da picada” se se consumar por uma manobra infeliz,  que a massa está sendo preparada para que tudo acabe em pizza.

Mas não é menos verdade que para termos o direito de denunciar, de criticar, até de espernear, diante de tais condutas é preciso que promovamos em nós as mudanças que esperamos das pessoas com as quais convivemos e das instituições. Continuaremos a ter maus governantes, se os governados também não forem honestos; se no momento do voto estiverem possuídos dos mesmos interesses personalíssimos da choldra.

E para fazer crescer nossa decepção, sabemos que tal milagre está bem distante já que continuamos a testemunhar, por exemplo, a delitos perpetrados por aqueles que ao passarem por um caminhão tombado, carregado de pneus, (de outros valores, em outras oportunidades) cujo motorista ali estava  morto, saquearam desavergonhadamente  a carga.

Este é o nosso pais, de uma classe política que suga o que não  lhe pertence, mas também de muita gente capaz de fazer qualquer coisa para dali obter o próprio proveito.

Aaafff!


Marlusse Pestana Daher                                                                          Vitória, 17 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O MILAGRE QUE É A VIDA


Com seu bom dia, uma amiga hoje me mandou junto um quadrinho bonito, onde uma pessoa se mostra feliz e está escrito: “o primeiro milagre do dia acontece quando abrimos os olhos e nos deparamos com a vida”. Ao falar em primeiro milagre, admite que tudo o mais que vier, será milagre também. Entende-se que a vida é mesmo um milagre e é mesmo.

Enquanto dormimos, estamos como mortos e de repente, nossos olhos se abrem às vezes se fecharem mais um pouquinho, mas a grande verdade é que cada dia é sempre “o dia que faz o Senhor, é maravilha aos nossos olhos, exultemos e alegremo-nos com Ele” (Sl 118, 23-24)

A alma acostumada a reconhecer que a vida é dom de Deus, agradece portanto e se propõe a viver de forma intensa. Já pensou como é desagradável oferecer um presente e ver que é posto de lado, não lhe dar importância, não agradecer?
É o que faríamos com Deus se não atribuíssemos a Ele, não só o dom de despertar, mas o fato de sermos conduzidos  pelas suas mãos, pra “trilhar seus caminhos, caminhos de justiça e santidade, por onde quem passa mesmo sendo um louco, não vai errar”. (Isaias 35,8).

Trilhar os caminhos de Deus nos leva ao porto seguro da salvação pois, todos estamos destinados a deixar um dia a morada terrestre para viver em outra, esta sim eterna, nunca mais terá fim.

Absolutamente certo que cada dia é um milagre e milagre só quem faz é Deus. Sejamos agradecidos.

E já que não vemos Deus apesar de senti-Lo, ofereçamos nosso serviço ao próximo, pois como disse o próprio Jesus “Ele vai ser considerado feito a si, o que fizermos ao menor dos nossos irmãos”.


Vitoria, 7 de fevereiro de 2018

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

ANO DO LAICATO

Em sintonia com o Ano do Laicato, a Campanha para a Evangelização deste ano que tem como tema “Cristãos leigos e leigas comprometidos com a Evangelização” e o lema “Sal da Terra e Luz do Mundo” (Mt 5, 13-14).

A abertura da campanha é realizada na Festa de Cristo Rei, este ano 26 de novembro, mesmo dia que a Igreja no Brasil fará a abertura do ano que será dedicado aos cristãos leigos e leigas. A campanha tem duração de três semanas e a conclusão acontece no terceiro domingo do Advento, dia 17 de dezembro, quando deve ser realizada, em todas as comunidades católicas, a coleta para a ação evangelizadora no Brasil.

O objetivo da campanha é despertar os discípulos e as discípulas missionários para o compromisso evangelizador e para a responsabilidade pela sustentação das atividades pastorais no Brasil. A iniciativa considera a ajuda para dioceses de regiões mais desassistidas e necessitadas.

“A Campanha para Evangelização é uma experiência que instiga a comunhão e partilha dos bens entre as Igrejas particulares, assim como acontecia nas comunidades primitivas do Novo Testamento, cujo relato encontramos nos Atos dos Apóstolos e nas cartas paulinas”, explica o secretário executivo da campanha, padre Luís Fernando da Silva.

A Campanha da Evangelização já está em andamento, todas as paróquias do Brasil receberam folders informativos sobre o tema e o lema da CE 2017 e os envelopes para a coleta. Além disso, já está à disposição o cartaz para ser adquirido ou baixado através do site da Edições CNBB.

Padre Luís Fernando da Silva lembra que “A Igreja no Brasil mais uma vez faz um forte apelo para que nossas comunidades locais se motivem na comunhão e na participação para que, por meio

Com a coleta desse ano pretende-se apoiar as inúmeras iniciativas da Igreja no Brasil promovidas pelos cristãos leigos e leigas no serviço da evangelização, da dinamização das pastorais, na luta pela justiça social, nas experiências missionárias das Igrejas irmãs e na missão ad gentes.

A Campanha para Evangelização

Criada em 1997, durante a Assembleia Geral da CNBB, e iniciada em 1998, a Campanha para Evangelização tem como objetivo favorecer a vivência do tempo litúrgico do Advento e mobilizar a todos para uma Coleta Nacional que ofereça recursos a serem aplicados na sustentação do trabalho missionário no Brasil. Tal iniciativa considera a ajuda para dioceses de regiões mais desassistidas e necessitadas.

O gesto concreto de colaboração na Coleta para a Evangelização será partilhado, solidariamente, entre as dioceses, que receberão 45% dos recursos; os 18 regionais da CNBB, que terão 20%; e a CNBB Nacional, que contará com 35% das contribuições.


Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

domingo, 4 de fevereiro de 2018

CANDIDATÔMETRO, USE PARA ESCOLHER O SEU


Eleitores conscientes ante o dilema em quem votar? No menos pior, mas quem é o menos pior? Discurso pelo avesso não se pergunta: qual é o melhor? Outro diz: "vou votar em Fulano, ele fez uma boa administração". A este ponto chega-se onde se quer chegar. Em que consiste uma boa administração? Só pode ser a que muda paradigmas. Uma administração que não se faça de aparências, mas que tenha descido ao mais profundo das necessidades dos cidadãos e tenha envidado o melhor esforço no sentido de dar a eles condição de vida melhor da que tinha antes, representada antes de tudo, por notáveis melhoramentos na educação.
Educação inclusiva, onde a escola seja todos os dias frequentada por todos os seus alunos, onde não se ensine apenas as disciplinas do currículo comum, as tais matérias: língua, ciências, inclusive religião e civismo, mas que desperte as aptidões que serão desperdiçadas, se cada um não for posto no seu pedestal para recebimento dos aplausos que bem merece. É imprescindível que o corpo docente seja visto motivado, bem vestido, alegre, recompensado pelos esforços que despende para construir a Nação.     

Entra e sai ano, revezam-se os administradores, os partidos, mas o descaso com a questão continua, muitas vezes, credenciado pelas poucas letras de expressibilíssima parcela dos que galgam o cargo público e, com ele, o poder; que se veem tendo chegado lá, sem jamais terem aprendido o essencial, portanto prescindem de dar valor ao que importa.   

Ao invés, ouviu "serem gabados" aqueles que constroem praças, asfaltam ruas, pintam postes, reformam algum prédio ou outro, fachadas e mais fachadas e o povo ainda que alforriado da ditadura dos coronéis se encanta com as cores e sentencia: temos um ótimo prefeito.

Como se vê, não é tão difícil quanto parece escolher o menos ruim (ou melhor), meça-se sua capacidade de derrubar barreiras, a primeira constituída de seu ego, optar pela dignidade da pessoa e crer que em suas mãos está o poder que é apenas para ser exercido como mandatário, jamais sobrepondo-se aos verdadeiros detentores dele, o povo.       

Nota: este artigo foi escrito antes da divulgação de que o Estado ganhou mais uma medalha que ninguém quer, a dos piores índices em educação.
(Escrito em 18/08/2012)

Marlusse Pestana Daher  

sábado, 20 de janeiro de 2018

CONFRONTANDO-ME COM A SAMARITANA


Na pele de samaritanos e samaritana 

Vestindo-me dos andrajos da mulher samaritana, igualmente dos sentimentos preconceituosos especialmente experimentados pelo povo da Samaria, em relação a única entre eles que  não  chamavam por um nome. Referem-se a ela,  apenas como samaritana. E porque consegui beber um pouco da água viva que Jesus oferece,  descubro o quanto sou egoísta, como se eu fosse a única pessoa a ter direito a tudo neste mundo, e só os meus mais próximos; o quanto privilegio os dons dos quais sou dotada, esquecida de que nada fiz para possui-los, Deus ao me criar os colocou em mim, tendo com isto uma finalidade orientada para um estilo de vida que devia adotar, de um serviço por amor que  também exige que me  desenvolva em todos os sentidos, de que esteja atenta para as necessidades das pessoas com as quais convivo no dia a dia, ou simplesmente encontro casualmente por alguma rua por onde possa estar passando.

E quando via aquela mulher, era invariável que pensasse: é possível que uma pessoa goste de viver com aquelas roupas disformes, já nem se pode chamar simplesmente decote o que deixa os seios totalmente à vista ao contrario da cintura extremamente apertada para deixar ainda mais exuberante a segunda parte do tronco ao qual ela imprimia movimento provocativo entre os homens e igualmente iradas as respectivas mulheres. Entre estas, ao menos cinco, já haviam passado pela experiência de ver seus maridos rumarem para a casa dela e se instalarem como se igualmente donos fossem até que um dia se cansavam das facilidades que lhes proporcionava, pela convivência promíscua e se lembrando das próprias esposas, de como era melhor a vida com elas, de como ali ao lado da esposa e dos filhos, sentia  todo sabor do que é uma família segundo os preceitos de Deus,  contristados, alguns pedindo perdão, voltavam, nem sempre recebidos de braços abertos, mas também sem um mínimo de hostilidade que pudesse causar qualquer constrangimento. Eram recebidos de volta e pouco a pouco tudo voltava a ser como era antes.

Ao saber de cada caso sempre me vinha a vontade de ir à casa dela e dizer “poucas e boas”, mas também chamando-lhe a atenção para que não se esquecesse de que havia um Senhor que a tudo via e nunca ficava satisfeito com o pecado que ela habitualmente cometia.

E passava o resto do meu dia remoendo aquelas ideias, ensaiando palavras que nunca lhe disse e deixando crescer em mim toda a decepção, toda hostilidade que a certo ponto também percebi quanto tempo  me fazia perder, como se tornava minha companhia onde quer que eu fosse, durante o que fosse ou o que eu estivesse fazendo.

E se encontrasse um grupo de outras mulheres que lhe dirigiam insultos ao vê-la passar ou indo buscar água no “Poço de Jacó”, não vacilava em me juntar a elas repetindo em coro as palavras que de tanto se repetirem eram sequenciais: adúltera, tomadora de marido  dos outros, vadia, sem moral, suja, vai embora daqui e nos deixe viver em paz. Você é um estorvo na nossa vida, não a suportamos mais, vê-la não se diferencia de uma visão demoníaca: “vai-te para os quintos do inferno”.

E quando escorraçada, sem outra alternativa, disparava em carreira de volta para sua casa, também sem segurança, mas era a que tinha.
Muitas vezes até ajoelhando-se, chorava copiosamente, sem lamentar-se, não entendia do que devesse fazer, não compreendia porque no entanto, era  dada a insinuar-se para homens e foi assim que tomou maridos de ao menos cinco delas.

E eu ficava pensando.  Moro no mesmo lugar que ela, pode aceitar viver a sua própria vida, sem incomodar ninguém, porque prefere ser pecadora, prostituta, irresponsável, aderir a uma vida fácil porque com aquele pouco que recebia dos homens conseguia manter-se.

Quando tudo mudou

Até aquele dia, em que ela chegou esbaforida dizendo a todos  que encontrara o profeta, um judeu que nunca vira antes, que sabia de toda a sua vida.
E juntei-me àquela pequena multidão que acreditou em suas palavras e rumou em direção ao “Poço de Jacó” onde, debaixo daquela árvore conhecida, encontramos o Cristo que ali estava e entretinha-se com seus discípulos.
Aproximando-se conversaram com Ele e se encantaram com o que ouviram até que Jesus demonstra ser chegado o momento de retomar o caminho, tendo ouvido que suplicavam: “não te vás, Senhor, fica conosco ao menos uns dois dias”.

E Jesus ficou hospedado na casa de alguns samaritanos assim como seus discípulos. E com sua pedagogia do amor mediante a qual os havia atraído sem que percebessem, foi-lhes ensinando. Dizem depois à samaritana: ‘Primeiro nós acreditamos no que você nos contou. Agora acreditamos no que ouvimos”
A partir de então me descobri pensando nos fatos, a partir do dia em que a samaritana foi vista em Sicar pela primeira vez. Chegou tendo nas mãos apenas uma trouxa que a avaliar pelo volume, continha bem pouco. Depois de andar errante de cá e de lá, descobriu aquela casa abandonada onde aventurou-se entrar. Disposta a sair se alguém reclamasse a propriedade o que não aconteceu e ela continuou ficando. 

Da minha janela podia vê-la se movimentando naquele pequeno espaço e curiosamente, jamais me passou pela cabeça fazer-lhe uma visita de  cortesia, interessar-me por sua situação, ouvi-la no que tivesse para dizer e não obstante me permitisse minha condição econômica, também nunca me dispus a levar-lhe alguma coisa para vestir-se melhor, para comer, para   ter onde dormir. 

Algum pouco tempo passado, começou uma movimentação de homens que crendo não serem vistos por ninguém entravam na casa e “usavam” a pobre coitada. Alguns deixavam ali qualquer moeda, outros absolutamente nada. 

E um dia aconteceu algo de mais grave, o marido de A, a deixou com os filhos e passara a conviver com a Samaritana. Em pouco tempo ao menos cinco sucessivamente tiveram o mesmo comportamento, mas ao invés de compreensão ou das razões que supostamente tinha para não se deixar rebaixar nem perder sua grandeza, sua dignidade, o saber que merecia muito mais, sucessivamente recebeu  a todos.

Se se juntasse aos adoradores de Deus era escorraçada dali por não ser digna.   Nem água no poço podia ir buscar livremente, porque era hostilizada de todas as formas. Em vista desta situação foi constrangida a sair ao sol  do meio dia, quando todas as outras mulheres o evitavam devido ao grande calor. E sacrificada depois de encher o cântaro tomava penosamente de volta, o caminho de sua casa.

Todos a desprezavam ninguém procurou ajudá-la, ninguém quis saber sua procedência, de onde era sua família, porque se encontrava tão sozinha. Do que precisava, de como se sentia.

Foi portanto uma grande surpresa, ter sido exatamente através dela que o Profeta de propósito passou pela Samaria, sem nenhum temor de sofrer qualquer ataque pelo fato de ser judeu e pelo que tudo indica, para encontra-la.
Com ela, mediante um fato quase indiferente, pedir de beber, travou um discurso de atração, de conquista, não havia possibilidade de não dar certo porque no desígnio de Deus, como está escrito: “ninguém vem a mim, sem que tenha sido  atraído pelo Pai”.(Jo. 5,44).

E mesmo opondo-se ao pedido e estranhando pelas divergências que pairavam entre judeus e samaritanos, (como se Jesus tivesse nacionalidade, era como Deus que Ele principalmente ali estava).

Sua perplexidade é maior, quando Jesus insinua que ela vacila em dar-lhe de beber, por não saber de quem se tratava e muito melhor era a  água que tinha para ela, uma água que  depois de bebida ninguém mais sente sede.

Quando então Ela pediu de tal água, chegou o momento central do que aconteceria. Vai chamar seu marido e volta com ele aqui, disse Jesus. Mas eu não tenho marido. respondeu. Jesus se revela: você disse a verdade nem este que está com você agora é seu marido.

Para saber assim do seu passado, outro não podia ser senão o Profeta divulgado e esperado e seu primeiro impulso foi sair em disparada carreira e  ir contar aos outros sua experiência. 

Foi a primeira vez que foi tida em conta – porque aquela turba também já estava atraída por Deus, embora não tivesse consciência.

Converti-me?

Enquanto Jesus ainda era hóspede dos samaritanos coloquei-me em reflexão profunda e fui reconhecendo que não tinha exercido o dom da hospitalidade em relação àquela mulher; não matei sua fome, não lhe dei o que comer nem com que se vestir, mas me juntei a turba todas as vezes em que se reunia  para escrachá-la, para diminui-la, para fazê-la sentir-se a última das pessoas, sem nenhum direito, sem voz e sem vez. E é como se me fosse dado um grande tapa na cara ao entender que ninguém tem o direito de julgar ninguém, ninguém pode se omitir de fazer pelo outro, tudo do que for capaz de fazer, de ajudar de todas as formas, de ver na pessoa do outro Javeh ultrajado. 

E assumi no meu corpo toda sua indigência para tentar  provar tudo que sofreu em nossas garras, todas as humilhações pelas quais passou, tudo que ouviu de triste, enfim do ter provado a mais forte ausência de caridade de que o ser humano desajustado, sem amor, é capaz.

E como me doeu! E como me entristeceu! E como provei do quanto é triste viver em solidão, de não ouvir de ninguém uma palavra de carinho, proporcionar um afago, por ninguém se sentir amada.

ENCARNO-ME DE VOLTA

Jesus foi o maior dos Mestres. No curto espaço de sua vida terrena, pelo bem que fez foi logo condenado à morte, não sem ter proclamado em todos os termos a BOA NOVA do Pai, sua missão.

Ensinou com exemplo e palavras o que significa vivenciar o primeiro mandamento e o segundo que a ele é semelhante. 

1° Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração com toda tua alma e com todas as tuas forças.
2°Amarás a teu próximo como a ti mesmo. 

Às vezes nos amamos pouco ou sequer nos amamos e olha a consequência, a pobreza, a falta de peso do nosso amor traduzido em não amor ou nenhum, e estaremos incorrendo em grave desamor, porque “quem disser que ama a Deus que não vê e não ama ao próximo que vê é um grande mentiroso. (1 Jo. 4,21).

Relevo alguma vaidade demonstrada pela Samaritana, seu prostituir-se, nunca sozinha, porque não há prostituída, sem prostituidor. Como condená-la na sua ignorância se no meu saber também nem sempre me comporto segundo a moral, o direito e a justiça. 
Quantas samaritanas estão percorrendo desvairadas os caminhos do mundo, atravessando mares, expulsas pelas circunstâncias de ação ou omissão de governantes iníquos, de cidadão sem cidadania, das suas próprias pátrias, morrendo e deixando seus pequenos seres na orfandade ou vendo-os morrerem sem que seus corpos sejam recuperados ou são encontrados jogados pelas ondas numa praia.

“Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” disse Jesus. Esta pedra hoje se chama Francisco que afirma: “... a misericórdia não é uma palavra abstrata, mas um rosto para reconhecer, contemplar e servir. E assim o manifesta na Bula da Misericórdia com que convoca(ou) o Jubileu: “Jesus de Nazaré com a Sua palavra, com os seus gestos e com toda a Sua pessoa revela a misericórdia de Deus. N’Ele não há nada em que falte compaixão”. A seguir acrescenta: “a Sua Pessoa não é outra coisa senão Amor, um amor que se doa e oferece gratuitamente. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, para com as pessoas pobres, excluídas, doentes e em sofrimento, levam consigo o distintivo da misericórdia”

Não há outro caminho, o caminho para ver e ouvir qualquer samaritana, todas as samaritanas de onde vieram ou estão,  passa pela misericórdia.
Esta obrigação assume novos contornos, se agiganta, quando a pessoa aceita Cristo e a Ele consagra toda sua vida, fazendo por acréscimo, uma promessa de caridade.

                                                        
Marlusse Pestana Daher


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

DE NOVO EM PAUTA

A QUESTÃO NÃO É A IDADE

Não sou contra a redução da maioridade penal, sou a favor de que os direitos fundamentais de todas as pessoas sejam indistintamente reconhecidos, dando a cada uma os meios de gozá-los e cumpri-los.

Sempre se disse que o Congresso Nacional é movido à ocasião, que o legislador não usa da acuidade necessária no sentido de que no destino, a norma seja eficaz. Por que continuar a repetir: “as leis são como salsichas, se soubéssemos como são feitas não as comeríamos”.

É ruidosa a grita por implantação de políticas públicas, na direção da educação e da saúde. Entretanto, ainda não se viu determinação necessária ou vontade de realizar, por parte dos que recebem o poder que emana do povo, mas o esquece e age em vista de seus interesses, da consecução do próximo mandato, mesmo com o sacrífico dos interesses do Estado como um todo.

Quer-se reduzir a maioridade penal. Preparemo-nos para ver adolescentes de idade inferior serem usados com o mesmo fim.

Tendo atuado na Vara da Infância e da adolescência credencio-me a falar por experiência vivida. Atendi mãe pedindo que o filho fosse “preso”; mãe fingindo que era manca com pano na boca como se babasse, pedindo entrega do filho; adolescente que matara cinco pessoas, a última reduzida a pedaços, posta em saco e jogada num rio. Praticamente, todas, famílias uni parental, sem emprego, sem salário, habitando guetos, quem sabe, vivendo do resultado da prática dos atos infracionais perpetrados por esses mesmos filhos. 

O delinquente é produto da desordem na qual foi gerado, foi criado e vive. É produto do meio sim, porquanto, suscetível de receber influências de toda parte, desde o glamour do estrelato, à opulência do poder, ao encantamento do aplauso, à ganância do ter. Se não alcança, toma outro rumo no qual, ao menos aparentemente, encontra o que procura.

Não se vai ao alto pelo último degrau da escada. Não nos faltam leis. Ignoramos o que ditam. Nenhuma, por si, alcança o próprio fim.  Não será a segregação em prisões que reduzirá a criminalidade. Ali, se  formam doutores nela.
Antes, importa que se proceda ao reconhecimento da condição de pessoa da pessoa humana, a cada uma seja dado o que é seu. Coloquemos esse contingente de crianças na escola, propugnemos no sentido de que pela educação sejam despertadas suas virtudes, o potencial de dotes em tantos sentidos e áreas que com certeza todas têm. Façamos com que ouçam nossos aplausos.

A Nação que não educa suas crianças deve-se envergonhar de puni-las na idade adulta.

Marlusse Pestana Daher                                                                                 Promotora de Justiça aposentada e escritora

domingo, 14 de janeiro de 2018

PE JOSE PEDRO LUCCHI



O Pe. Pedro Lucchi está passando por uma situação desagradável em sua vida, exatamente por ser padre e ter sido arrolado como testemunha de um algoz que tem contra si, não só a força da lei penal, mas toda uma sociedade que clama por justiça.

Em processo penal, existe a fase em que Ministério Público e Defesa, exercida por advogado, deve arrolar pessoas como testemunhas. Elas serão ouvidas, respondendo a perguntas que forem formuladas pelo Juiz e os citados, MP e advogado. O fim é que mediante o que as mesmas disserem, sem mentiras, venham conseguir o melhor resultado para sucesso  das respectivas teses.

Arrolar um padre (que assim como celebrou o casamento dos dois,  celebrou a Missa de 7° dia por Milena), como testemunha em favor dele (o chicote que bateu) claro que causou  impacto, máxime em se tratando deste homicídio que causou tanto clamor social qual foi o da médica Milena Gottardi. E pode não passar de um “faz de conta”, como é muitíssimo provável. A Lei permite à defesa o “jus spetaculandi”, (inventei), em favor da ampla defesa.

Se a Lei autoriza condução coercitiva de quem intimado não comparecer o mesmo não acontece no sentido de pretender que diga coisas das quais não sabe. No caso do Pe. Lucchi, ele pode responder simplesmente que tudo o que sabe foi o que os jornais noticiaram, como noticiaram, não deve emitir opinião, porque prova são fatos e não hipóteses, achismos, ou assemelhados. 

Ainda, se o que ocasionou a lembrança do seu nome pelo réu, tiver motivo no fato de como sacerdote, ter feito qualquer intervenção em momento de litígio do casal, é ainda em decorrência de tal ofício que está sujeito ao segredo do que ouviu, nos termos do Código Canônico:

Segundo o direito canônico da Igreja Católica, o segredo sacramental da confissão é inviolável, mesmo que a pessoa revele um crime. A relação entre padre e fiel segue as determinações morais e éticas do sigilo profissional – e que estão previstas na lei. Segundo o artigo 154 do Código Penal, a quebra de sigilo é punível com multa e até detenção de três meses a um ano, quanto ao padre pode ser excomungado, no caso, pela Igreja. E os artigos 229 do Código Civil e 207 do Código Penal dizem que padres e outros profissionais não podem ser obrigados a quebrar o segredo mesmo em depoimento judicial.

Confissão é um ato sigiloso, sigilosas são interferências do sacerdote em litígio de um casal ou qualquer outra, no mesmo exercício sacerdotal.

A Constituição prevê a liberdade de culto, por extensão há de respeitar os atos, ritos o que for que decorra das práticas religiosas. E ai se encontra  o sigilo da confissão.   

A família do Pe. Pedro está sofrendo com ele, ao mesmo tempo os fiéis católicos dos quais é Pastor também estão rezando com força nessa intenção e não só eles, mas os que  conhecem  o padre e lhe querem muito  bem.

Deus não despreza os que Nele confiam. O Espírito Santo colocará na boca do Pe. Lucchi a palavra certa. Por fim, consolemo-nos, porque como escreveu o Apóstolo Paulo ao romanos: tudo concorre para  o bem dos que amam a Deus.

Marlusse Pestana Daher                                                                  Promotora de Justiça aposentada
14/01/2018.