sábado, 14 de junho de 2014

FIFCJ EM AÇÃO


Buenos Aires, 4 de Junho de 2014.


Em Moçambique está prestes a ser aprovado um Código Penal que fomenta a cultura da violência e da discriminação. Não obstante as revisões que têm vindo a ser feitas, persistem disposições que carecem de rigor necessário para definir o que é uma violação, dentro ou fora do matrimónio, e que conferem o perdão do agressor se contrair casamento com a vítima. Em conjunto estas disposições traduzem-se numa maior impunidade para os crimes sexuais, porque violam os direitos das mulheres consagrados em distintos instrumentos de direitos humanos.

O que impõe que a Federação Internacional de Mulheres de Carreiras Jurídicas exija que este projecto de Lei seja revisto, de modo a respeitar os compromissos internacionais vigentes.

Por esta razão, considera que aquela Lei constitui um retrocesso na defesa e promoção dos direitos humanos das Mulheres de Moçambique.

Denunciamos ainda que caso seja aprovado o novo código penal, constituirá uma flagrante violação do Protocolo de Maputo, aprovado pela União Africana em 2003, e em vigor desde 2005. Este instrumento legal – sem precedentes para as mulheres africanas – desenvolve e reforça os seus direitos consagrados noutros instrumentos internacionais; foi o produto da sua luta e expressa os interesses de todas elas. 

A FIFCJ está consciente das dificuldades que enfrentam face aos movimentos dos líderes religiosos e tradicionais que põem em risco a plena vigência dos direitos humanos das mulheres em Africa.

Instamos todos os membros da FIFCJ para que continuem a trabalhar para tornar efectivo todo o potencial do Protocolo para proteger os direitos das mulheres africanas. Por isso exigimos que os governos redobrem os seus esforços nesse sentido, especialmente durante o Decénio da Mulher Africana (2010-2020), período durante o qual se espera o cumprimento dos compromissos assumidos.

Desta forma, invocamos a Declaração de Maputo da FIFCJ, aprovada em Setembro de 2008, cujos preceitos estão vigentes e se ajustam no seu espírito e no seu teor à questão em apreço. É dever de todos os membros da FIFCJ cumprir e fazer cumprir na medida das sua possibilidades as obrigações impostas pelos Estatutos, e por força do qual emitimos esta declaração.

María Elena Elverdín
Presidenta FIFCJ


Norma Chiapparrone
Secretária-Geral FIFCJ


DEVEMOS SER MARIA

A casa da Virgem Maria, no alto daquela montanha de Éfeso, hoje tem estrada boa para subir de carro, de ônibus, do que se for. Mas a Mãe ao cume,  terá chegado, fazendo paradas para descansar. Entre oliveiras e outros bens da flora, certamente tendo ao lado João, quantos dias terá gasto? Seja lá quais forem tenham sido as circunstâncias, os acontecimentos, as intempéries, o vento forte que vinha do mar, foi uma caminhada pautada pelo sabor maior de muito amor. 

Com quatro paredes apenas, a casa conta com um altar no centro, onde está uma imagem de Nossa  Senhora das Graças cujas mãos foram perdidas. Melhor dizendo não foram encontradas.

Nossa Senhora sem as duas mãos, sugere que assim como ela usou-as para amar e servir, hoje, suas mãos devem ser substituídas para o mesmo fim, pelas nossas mãos.

Sabemos que o Deus que nos salvou sozinho, esquecido de sua natureza divina, fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz, quer continuar operando tal salvação em nosso tempo, mediante nosso concurso, e juntamente com a Virgem Maria.

Está assim explicado que as mãos que faltam àquela imagem de Nossa Senhora sugerem que devem ser substituídas por nossas mãos, que devemos ser como Maria, pelos caminhos do mundo.

Devemos ser Maria em nossa casa, onde vivem os nossos próximos mais próximos. Devemos ser Maria na comunidade formada pela Igreja cujo credo professamos, no nosso ambiente de trabalho, qualquer que ele seja. Devemos ser Maria qualquer que seja nossa condição, sadios, cheios de coragem e mesmo num leito de dor.


Ser Maria é ser Mãe de Jesus representado por todos os homens e mulheres, nossos irmãos e irmãs. Jesus em todos. É ter coração de Mãe e desvelar-se com todos os cuidados  por todos e por um único semelhante ou não, do mudar fraldas, ao aconchegar de encontro ao peito, do consolar, ao alimentar, ao aplaudir e sustentar em todos os aspectos, levantar, se cair.  


sexta-feira, 13 de junho de 2014

A CASA DA VIRGEM MARIA

Em frente  a Casa da Virgem Maria
Éfesios, cidadãos da cidade de Éfeso, na Turquia, destinatários de uma das cartas, do grupo do cativeiro, escritas por Paulo, o apóstolo das gentes.

Éfeso é uma ilha como outras, formada por ação vulcânica, há milênios. Ainda se pode ver o que foi a cidade, no apogeu de sua história. Construções em mármore, revestida e até calçada de mármore por toda parte.

Quando passávamos pela alameda, bem conservada, em tom gentil, disse a Guia: por aqui, passaram Marco Antônio, Cleópatra e hoje, vocês.

Nas cercanias, num ponto mais alto, uma montanha, onde se diz que a Virgem Maria passou os últimos anos de sua vida, levada pelo Apóstolo João, ao qual Jesus a confiara, antes de morrer na cruz.

É um jardim, em meio a um bosque todo plantado, muito bem cuidado. No topo, uma pequena casinha, a CASA DA VIRGEM MARIA, onde ela passou os últimos dias de sua vida.

Ao lado da casa. 
Terá ali cozinhado, lavado, rezado, provado do amargor do exílio e o quanto foi grande a dor da saudade que terá sentido do seu Filho.

Adentrando aquela casinha de paredes escurecidas, apesar de muito limpas, senti uma profunda emoção, a ponto de meus olhos terem umedecido. Não podia ser diferente, eu pisava o mesmo chão que seus pés pisaram, respirava o ar do mesmo lugar que ela. Surpreendi-me em profunda oração, lembrando de todas as pessoas que amo, de todas aquelas pelas quais devo rezar.

Uma imagem de Nossa Senhora das Graças sem mãos, (digo depois o que acho porquê) ocupa o altar que compõe o ambiente.

Altarzinho externo
Depois que sai, ainda fiquei um tempo rodando por ali, bebi água da fonte, deixei pedido no muro com outras  centenas, talvez milhares de pedidos feitos pelos visitantes.

A paz provada não tem preço, nem se descreve com palavras.

Dois papas, S. João Paulo II e Bento XVI, visitaram o lugar, reconheceram que se trata como já foi dito, da Casa da Virgem Maria, onde ela viveu os últimos dias de sua vida.

Uma experiência inesquecível. 


sexta-feira, 23 de maio de 2014

MEU CRICARÉ

Nessa tarde, o quanto mais pude, em pé no cais do antigo porto, aproximei-me dele, meu Cricaré,  rio que desliza lentamente e faz curvas em  
verso e prosa decantadas, antes de chegar ao mar.
Foi a placidez de suas águas a lhe fazer valer o nome “Kiri Karé” que significa “rio de águas calmas”, na língua Tupi, língua cujo direito de uso como nossa, nos foi arrebatado. O pseudo descobridor impôs-nos o Português que mesmo sendo “a última flor do Lacio, inculta e bela” na expressão de Bilac, era a dele e não a que o povo indígena que aqui já habitava, falava de há muito tempo. Como continua manso e continua belo o meu rio!
Naquele exato momento, um pequeno barco a vapor passa à jusante singrando-o e deixando na superfície espelhada, ondulações semelhantes às marítimas que se desfazem ao esbarrarem de encontro a margem, junto a mata ciliar de verde intenso, do outro lado se contorcem como em remoinho, mas é curto o tempo do qual precisam para logo se recompor.
Quedo-me em contemplação, as águas que passam a cada instante não são mais as mesmas que vejo, mas outras que ao mesmo tempo tomam o espaço deixado, sendo substituídas por outras que chegam. É impossível distingui-las pela forma, ou origem, cor ou intensidade que demonstrem, prossegue acariciando-se com ternura, na mais absoluta harmonia, o caudal que não se cansa, não afrouxa o ritmo que ostenta, ansioso pela consumação plena do encontro com o mar,  momento de espetáculo que acontece na belíssima Barra Nova.
Quantas e quantas gerações já terão feito o mesmo que eu, já terão provado da mesma magia e desembocado em fascinação indescritível só possível, se o caminho empreendido é feito nas asas da poesia.
Certamente, é sempre um encantamento mirar tal paisagem que mão humana nenhuma será capaz de repetir e, se tenta, como é o caso de quem pinta um quadro, carecerá de outros elementos ou agentes que lhe deem suporte.
É a terra que produz toda matéria prima: da forma em madeira que recebe a tela, do pincel e da tinta, antes de a mão humana fazer surgir o retrato.
Não se pretenda, pois, que meu perdão perdoe, se direito tenho a tanto, quem egoisticamente constrói irregularmente, desfaz o que não pode refazer, ou impede a todos o direito de tal visão, mas igualmente, não me deixo atormentar por lembranças, meu rio de águas calmas! Entro e saio, parto e volto, mas se estou presente (mateenseando), com a sensação de que minha visão nunca se interrompeu,  faço absoluta questão te ver.

Marlusse Pestana Daher

Em São Mateus, 28 de julho de 2012

domingo, 18 de maio de 2014

O PORTO DE SÃO MATEUS

O navio apitou ao longe
e a cidade se agitou.
O Miranda ou o “Loid”,
fosse o que fosse,
sua chegada
era sempre uma festa.

Âncora ao fundo,
atracou a nave.
Surge o comandante,
alguém da tripulação.

Surgem também os Senhores,
ternos de linho branco
vestidos.
Damas em “taieur”,
chapéus na cabeça,
saltos finos de sapatos,
impecáveis.

Em terra, os Coronéis,
                  Alferes,
                  Majores,
                  Intendentes,
Por seu turno, os Prefeitos,
Interventores talvez.

Naquele tempo...
E dos porões,
emergem primeiro,
odores,
suores,
clamores
do negro que subsistiu.

Traz na pele,
A cor da não esperança,
Na cabeça,
A lembrança da terra de África,
                                dos gongos,
dos maculelês,
do tambor,
do tocador,
do estupor,
da terra árida,
causticante e deslumbrante,
sedenta, avarenta...
mas sua terra!

Estão acorrentados pelo pescoço,
ligados,
manietados.
Vão servir na plantação,
Nas casas dos Senhores,
Às Sinhás, às Aiás.
Mas há sempre luz,
Mesmo nas trevas.
E num recanto
de rio,
ou de fonte,
como astro,
nasceu Zoroastro.
Como nasceu?
na casa de farinha?
no paiol, quem sabe?
Na cabana,
nasceu Zé de Ana.

Seus avós foram escravos,
escravos seus pais,
eles mesmos escravos seriam
não fosse a bondade
(hodiernamente posta em dúvida),
de candidata a Rainha,
que assinando a Lei Áurea,
à sua raça inteira
para sempre,
liberdade deu.

E Zoroastro cresceu,
e Zé de Ana cresceu
e dos seus,
cada um aprendeu,
o folguedo da marujada.
E saíram cantando,
ensinando aos de depois,
embaixadas, prisões,
repetem até versos
de Gil a Camões.

Um tanto mais novo,
canta jongo o Geraldino,
pelas ruas desertas
do velho porto,
de ruas estreitinhas,
de casarões a morrer,
onde passeia meu pensamento
que exulta em rever
reabrir-se o largo do chafariz
de um menino
que permanentemente vela
e carrega
lata d’água na cabeça...

Com fé em Deus,
dias se foram,
mas dias virão
e o comércio vai  fervilhar de novo,
de novo, a população vai descer
e na curva do rio,
vai aparecer,
a mesma esperança
daquela
de quem espera e sempre alcança:
a meta,
a vitória,
a glória,
dos casarões,
dos luares,
dos lugares,
porque voltarão a soar hinos
e fará de novo a história,
o PORTO DE SÃO MATEUS[1].




[1] Este poema, escrito há mais de trinta anos, abre o livro OS ANJOS NÃO FAZEM ARTE.




EUCARISTIA

Ó que pão, ó que comida,
ó que divino manjar
se nos dá no santo altar
cada dia!

Filho da Virgem Maria,
que Deus-Padre cá mandou
e por nós na cruz passou
crua morte,

e para que nos conforte
se deixou no sacramento
para dar-nos, com aumento,
sua graça,

esta divina fogaça
é manjar de lutadores,
galardão de vencedores
esforçados,

deleite de namorados,
que, co'o gosto deste pão,
deixam a deleitação
transitória.

Quem quiser haver vitória
do falso contentamento,
goste deste sacramento
divinal.

Este dá vida imortal,
este mata toda fome,
porque nele Deus e homem
se contêm.

É fonte de todo bem,
da qual quem bem se embebeda
não tenha medo da queda
do pecado.

Ó que divino bocado,
que tem todos os sabores!
Vinde, pobres pecadores,
a comer!

Não tendes de que temer,
senão de vossos pecados.
Se forem bem confessados,
isso basta,

qu'este manjar tudo gasta,
porque é fogo gastador,
que com seu divino ardor
tudo abrasa.

(...)


In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954

sábado, 17 de maio de 2014

NÃO SE VIVE SEM AMOR

Se você disser que não me ama, tem que me dizer mais de uma vez... Este é
o primeiro verso de uma das bonitas canções que canta o Rei. Exprime a perplexidade de quem não admite, não crê que possa não ser amado.

Concordo e acho que você também, com tal afirmação, pois, somos resultado de um projeto de amor, nascemos do amor de nossos pais, estamos destinados a amar e ser amados.

Foi  Me. Teresa de Calcutá quem disse: “ Em todos estes anos em que trabalho com os mais pobres, tenho entendido sempre mais que o pior dos males, não é a lepra, não é a tuberculose (nem a aids, acrescento eu) mas é a sensação de não ser querido de não ser amado"  pelos outros. Realmente, não podemos viver sem amor.

Não existe amor sem entrega, não existe amor sem a dor, é herança que o Cristo nos lega, sem amor nada tem valor. E quem não se extasia diante do poema que escreveu Paulo: se dos arcanjos a linguagem ensino e a caridade esta alma não povoa, serei igual ao bronze que ressoa, profano templo onde bimbalha um sino.

Como nos lembrou aquele tempo de uma  Campanha da Fraternidade um dos mais bonitos.  Quando nos depararmos diante do Senhor da vida, e Ele nos questionar dizendo, que estava com fome e não lhe demos de comer, nu e não vestimos, preso e não o visitamos... e perguntarmos quando e onde e  Ele nos responder que em todas aquelas figuras de marginalizados era Ele que se apresentava a nossa caridade, ao nosso gesto de solidariedade, de partilha e doação, estupefatos exclamaremos: mas...  ERAS TU, SENHOR?

Pois é, minha gente, importa que nos conscientizemos do grande corpo de Cristo do qual são componentes todos os homens, mesmo os que nos parecem menos dignos, os que estiverem mais disformes ou pela fome, pela penúria ou por qualquer outro detalhe, circunstância, e o pior, pelo pecado e que assim o  tornam irreconhecível, porque disforme.

É preciso aprender com Maria. Quer ter uma bússola segura em suas mãos, quer ter certeza de que está vivendo de forma agradável a Deus, imite Nossa Senhora.

Medite profundamente sobre a atitude que ela teve nas Bodas de Caná, quando ninguém lhe pediu absolutamente nada e no entanto estava atenta e percebeu a falta de vinho e o constrangimento que tal coisa ia causar  àqueles noivos e preveniu tudo, intercedendo junto ao Filho que operou o primeiro dos seus milagres, transformando água em vinho.

 Você se sentirá muito feliz, pode crer!