segunda-feira, 5 de agosto de 2013

AI PALAVRAS

                                                                                                                Verba volant, versicula ficat”

Formamos uma imensa Torre de Babel. Vozes se confundem num turbilhão tecnológico em nossos dias e, as palavras, confusas, ficam perdidas, aladas em campos virtuais, minados por pessoas que as desconhecem ou simplesmente ignoram o poder que delas emana.
Há ainda quem se lembre dos ensinamentos dos nossos pais: “A palavra do Homem é tudo”. Não era preciso assinar nada, nem ter acordos meticulosamente registrados em promissórias e recibos, muito menos, cartórios cobrando preços extraordinários para manter a palavra.
Acordos se firmavam com honra, pactos eram formados com o gesto de apertar as mãos, fechando não apenas acordos, mas criando laços de amizade que percorriam por toda uma vida.
Mas a banalização tornou-nos seres humanos conspurcados ao crime de pecar pelas palavras: elas saem desarvoradamente, numa velocidade frenética e doa a quem doer, punhal cortante sociedade adentro.
A vida transcorre numa naturalização destemida. Tudo que transpassa para a tela do computador é endeusado, copiado, repetido ou compartilhado, como se passássemos a ser desconhecidos de nós mesmos. Virtualmente, posso ser o que concretamente não me é permitido, mas, navegando no espaço aberto, utilizo-me das palavras que ferem e deixo transbordar o fel do egoísmo, não amando o outro como se fosse eu mesmo.
Como se não bastasse, as redes sociais estão disponíveis para esse emaranhado de registros que deságua nas duas caras da moeda: “- Falei mal de você mesmo, mas deletei, e daí?”
Passamos a não nos importarmos mais com o outro, somos barreiras nas entranhas do ego, corroendo todos os órgãos que ainda nos faziam apenas seres humanos.
“Ai palavras! Que estranha potência a vossa!” Como serás daqui a algum tempo? Úlcera dilacerante ou mel lambuzando línguas encantadas?
Cabe-me apenas passar pelos mesmos caminhos de nossos pais. Não deixar morrer velhos ensinamentos é a grande arma para liderarmos a (re)volta das belas palavras contra o torrão amargo do individualismo intolerante.
Fabiani Rodrigues Taylor Costa
Formada em Letras, Especialização em Literatura Brasileira e Gestão Escolar
Escreve no blog: literatuandopiuma.blogspot.com


MÊS VOCACIONAL - SEMANA DA FAMÍLIA

Transcrevo abaixo um trecho da exortação apostólica do Papa João Paulo II sobre A FUNÇÃO DA FAMILIA CRISTÃ


 LUZES E SOMBRAS DA FAMÍLIA DE HOJE  
Necessidade de conhecer a situação
4.Uma vez que o desígnio de Deus sobre o matrimónio e sobre a família visa o homem e a mulher no concreto da sua existência quotidiana, em determinadas situações sociais e culturais, a Igreja, para cumprir a sua missão, deve esforçar-se por conhecer as situações em que o matrimónio e a família se encontram hoje(8).
Este conhecimento é, portanto, uma exigência imprescindível para a obra de evangelização. É na verdade, às famílias do nosso tempo que a Igreja deve levar o imutável e sempre novo Evangelho de Jesus Cristo, na forma em que as famílias se encontram envolvidas nas presentes condições do mundo, chamadas a acolher e a viver o projecto de Deus que lhes diz respeito. Não só, mas os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história, e, portanto, a Igreja pode ser guiada para uma intelecção mais profunda do inexaurível mistério do matrimónio e da família a partir das situações, perguntas, ansiedades e esperanças dos jovens, dos esposos e dos pais de hoje(9).
Deve ainda juntar-se a isto uma reflexão ulterior de particular importância no tempo presente. Não raramente ao homem e à mulher de hoje, em sincera e profunda procura de uma resposta aos graves e diários problemas da sua vida matrimonial e familiar, são oferecidas visões e propostas mesmo sedutoras, mas que comprometem em medida diversa a verdade e a dignidade da pessoa humana. É uma oferta frequentemente sustentada pela potente e capilar organização dos meios de comunicação social, que põem subtilmente em perigo a liberdade e a capacidade de julgar com objectividade.
Muitos, já cientes deste perigo em que se encontra a pessoa humana, empenham-se pela verdade. A Igreja, com o seu discernimento evangélico, une-se a esses, oferecendo-lhes o seu serviço em prol da verdade, da liberdade e da dignidade de cada homem e de cada mulher.  
O discernimento evangélico 
5.  O discernimento realizado pela Igreja torna-se oferta para orientação que salvaguarde e realize a inteira verdade e a plena dignidade do matrimónio e da família.
Este discernimento atinge-se pelo sentido da fé(10), dom que o Espírito Santo concede a todos os fiéis, e é, portanto, obra de toda a Igreja(11), segundo a diversidade dos vários dons e carismas que, ao mesmo tempo e segundo a responsabilidade própria de cada um, cooperam para uma mais profunda compreensão e actuação da Palavra de Deus. A Igreja, portanto, não realiza o discernimento evangélico próprio só por meio dos pastores, os quais ensinam em nome e com o poder de Cristo, mas também por meio dos leigos: Cristo «constituiu-os testemunhas, e concedeu-lhes o sentido da fé e o dom da palavra (cfr. Act. 2, 17-18; Apoc. 19, 10) a fim de que a força do Evangelho resplandeça na vida quotidiana, familiar e social»(12). Os leigos, em razão da sua vocação particular, têm o dever específico de interpretar à luz de Cristo a história deste mundo, enquanto são chamados a iluminar e dirigir as realidades temporais segundo o desígnio de Deus Criador e Redentor.
O «sentido sobrenatural da fé» (13) não consiste, porém, somente ou necessariamente no consenso dos fiéis. A Igreja, seguindo a Cristo, procura a verdade, que nem sempre coincide com a opinião da maioria. Escuta a consciência e não o poder e nisto defende os pobres e desprezados. A Igreja pode apreciar também a investigação sociológica e estatística quando se revelar útil para a compreensão do contexto histórico no qual a acção pastoral deve desenrolar-se e para conhecer melhor a verdade; tal investigação, porém, não pode ser julgada por si só como expressão do sentido da fé.
Porque é dever do ministério apostólico assegurar a permanência da Igreja na verdade de Cristo e introduzi-la sempre mais profundamente, os Pastores devem promover o sentido da fé em todos os fiéis, avaliar e julgar com autoridade a genuinidade das suas expressões, educar os crentes para um discernimento evangélico sempre mais amadurecido(14).
Para a elaboração de um autêntico discernimento evangélico nas várias situações e culturas em que o homem e a mulher vivem o seu matrimónio e a sua vida familiar, os esposos e os pais cristãos podem e devem oferecer um seu próprio e insubstituível contributo. A esta tarefa habilita-os o carisma ou dom próprio, o dom do sacramento do matrimónio(15).
 A situação da família no mundo de hoje
6.A situação em que se encontra a família apresenta aspectos positivos e aspectos negativos: sinal, naqueles, da salvação de Cristo operante no mundo; sinal, nestes, da recusa que o homem faz ao amor de Deus.
Por um lado, de facto, existe uma consciência mais viva da liberdade pessoal e uma maior atenção à qualidade das relações interpessoais no matrimónio, à promoção da dignidade da mulher, à procriação responsável, à educação dos filhos; há, além disso, a consciência da necessidade de que se desenvolvam relações entre as famílias por uma ajuda recíproca espiritual e material, a descoberta de novo da missão eclesial própria da família e da sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa. Por outro lado, contudo, não faltam sinais de degradação preocupante de alguns valores fundamentais: uma errada concepção teórica e prática da independência dos cônjuges entre si; as graves ambiguidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades concretas, que a família muitas vezes experimenta na transmissão dos valores; o número crescente dos divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais frequente à esterilização; a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva.
Na raiz destes fenómenos negativos está muitas vezes uma corrupção da ideia e da experiência de liberdade concebida não como capacidade de realizar a verdade do projecto de Deus sobre o matrimónio e a família, mas como força autónoma de afirmação, não raramente contra os outros, para o próprio bem-estar egoístico.
Merece também a nossa atenção o facto de que, nos países do assim chamado Terceiro Mundo, faltem muitas vezes às famílias quer os meios fundamentais para a sobrevivência, como o alimento, o trabalho, a habitação, os medicamentos, quer as mais elementares liberdades. Nos países mais ricos, pelo contrário, o bem-estar excessivo e a mentalidade consumística, paradoxalmente unida a uma certa angústia e incerteza sobre o futuro, roubam aos esposos a generosidade e a coragem de suscitarem novas vidas humanas: assim a vida é muitas vezes entendida não como uma bênção, mas como um perigo de que é preciso defender-se.
A situação histórica em que vive a família apresenta-se, portanto, como um conjunto de luzes e sombras.
Isto revela que a história não é simplesmente um progresso necessário para o melhor, mas antes um acontecimento de liberdade, e ainda um combate entre liberdades que se opõem entre si; segundo a conhecida expressão de Santo Agostinho, um conflito entre dois amores: o amor de Deus impelido até ao desprezo de si, e o amor de si impelido até ao desprezo de Deus(16).

Segue-se que só a educação para o amor, radicada na fé, pode levar a adquirir a capacidade de interpretar «os sinais dos tempos», que são a expressão histórica deste duplo amor.

domingo, 4 de agosto de 2013

4 DE AGOSTO, DIA DO PADRE.

DIA DO PADRE
São João Maria Vianney
O Cura de Ars

Vejamos quem é o Padre:
É alguém escolhido por Deus, dentro de uma comunidade, no seio de uma família, para ser o continuador da obra salvadora de Jesus. Ele assume a missão de construir a comunidade.
Por graça e vocação, o padre age em nome de Jesus: ele perdoa os pecados, ele reconcilia seus irmãos com Deus e entre si; ele trás a bênção de Deus para todos.
O padre é aquele que celebra a vida de Deus na vida da comunidade. Na Celebração Eucarística , ele trás Jesus para as comunidades. A Eucaristia é a razão primeira do sacerdócio.
O padre alimenta seus fiéis por esse sacramento, pela sua pregação e pelo seu testemunho.
Padre é o modelo por excelência de Jesus Cristo, o bom Pastor. Por esse motivo ele deve ser como o Cristo Pastor. O Padre deve ser o pastor atencioso de seu rebanho.
Deve guiar por bons caminhos, orientando nas dificuldades e prevenindo quando necessário. Deve defender seus irmãos dos lobos modernos que devoram os menos esclarecidas e dos ladrões que atacam, que confundem e dispersam o único rebanho do Senhor.
Padre é o homem de Deus que deve estar no meio do povo: nas Paróquias, nas Pastorais, nos Seminários, nos Hospitais, nas Escolas e Faculdades, nos Meios de Comunicação Social, nas Comunidades Inseridas e entre os mais pobres e marginalizados... É um sinal de que o Reino de Deus existe entre nós.
Onde nascem as vocações?
Na família que reza unida;
Nos grupos de catequese, de adolescentes, de coroinhas ou acólitos;
Nos grupos de jovens, grupos missionários, grupos de vivência da fé;
Nas paróquias e comunidades eclesiais, onde o Padre deve ser o maior incentivador das vocações...
Eis a nossa mensagem para que tenhamos mais padres:
Vamos rezar sempre pelas vocações;
Façamos de tudo para incentivar os jovens e adolescentes para que sigam essa vocação;
Vamos falar bem da vocação sacerdotal na família, na escola, na catequese, nos grupos de adolescentes, de jovens...
Vamos implantar em nossa comunidade o trabalho vocacional, instituindo um casal ou uma equipe que se interesse pelas vocações, que promova, incentive e oriente os adolescentes e jovens a participarem dos encontros 
vocacionais;
Façamos de tudo para criar na comunidade um clima favorável ao o surgimento das vocações. Este é um trabalho conjunto exercido pelo Pároco, pelos jovens, pelos catequistas, pelas famílias, pelo Movimento Serra e 
demais movimentos, pelos que animam a liturgia e grupos de reflexão. Todos somos responsáveis para que tenhamos mais sacerdotes. O Papa João Paulo II, nos ensina: “Descei no meio dos jovens e chamai, não tenhais medo de chamar”. Devemos chamar sempre. Que tal fazermos algo concreto pelas vocações em nossa comunidade? O que poderemos fazer?
Parabéns aos nossos padres!
Oração pelos sacerdotes
Senhor Jesus Cristo que, para testemunhar-nos o vosso amor infinito, instituístes o sacerdócio católico, a fim de permanecerdes entre nós, pelo ministério dos padres, enviai-nos santos sacerdotes.  Nós vos pedimos por aqueles que estão conosco, à frente da nossa comunidade, especialmente pro pároco da nossa paróquia. Pedimos pelos missionários que andam pelo mundo, enfrentando cansaço, perigos e dificuldades, para anunciar a Palavra da Salvação. Pedimos pelos que se dedicam ao serviço da caridade, cuidando das crianças, dos doentes, dos idosos e de todos os que sofrem e estão desamparados. Pedimos por todos aqueles que estão a serviço do vosso Reino de justiça, de amor e de paz, seja ensinando, abençoando ou administrando os sacramentos da salvação. Amparai e confortai, Senhor, aqueles que estão cansados e desanimados, que sofrem injustiças e perseguições pelo vosso nome ou que se sentem angustiados diante dos problemas. Fazei que todos sintam a presença do vosso amor e a força da vossa Providência. Amém.
Fonte: www.sav.org.br

PRESENÇA

                                                                     Weber Muller

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

IDE, SEM MEDO, SERVIR

Homilia do Papa Francisco
Santa Missa pela XXVIII Jornada Mundial da Juventude 

Rio de Janeiro
Domingo, 28 de julho de 2013
Venerados e amados Irmãos no episcopado e no sacerdócio,
Queridos jovens!

«Ide e fazei discípulos entre todas as nações». Com estas palavras, Jesus se dirige a cada um de vocês, dizendo: «Foi bom participar nesta Jornada Mundial da Juventude, vivenciar a fé junto com jovens vindos dos quatro cantos da terra, mas agora você deve ir e transmitir esta experiência aos demais». Jesus lhe chama a ser um discípulo em missão! Hoje, à luz da Palavra de Deus que acabamos de ouvir, o que nos diz o Senhor? Três palavras: Ide, sem medo, para servir.

1. Ide. Durante estes dias, aqui no Rio, vocês puderam fazer a bela experiência de encontrar Jesus e de encontrá-lo juntos, sentindo a alegria da fé. Mas a experiência deste encontro não pode ficar trancafiada na vida de vocês ou no pequeno grupo da paróquia, do movimento, da comunidade de vocês. Seria como cortar o oxigênio a uma chama que arde. A fé é uma chama que se faz tanto mais viva quanto mais é partilhada, transmitida, para que todos possam conhecer, amar e professar que Jesus Cristo é o Senhor da vida e da história (cf. Rm 10,9).
Mas, atenção! Jesus não disse: se vocês quiserem, se tiverem tempo, mas: «Ide e fazei discípulos entre todas as nações». Partilhar a experiência da fé, testemunhar a fé, anunciar o Evangelho é o mandato que o Senhor confia a toda a Igreja, também a você. É uma ordem sim; mas não nasce da vontade de domínio ou de poder, nasce da força do amor, do fato que Jesus foi quem veio primeiro para junto de nós e nos deu não somente um pouco de Si, mas se deu por inteiro, deu a sua vida para nos salvar e mostrar o amor e a misericórdia de Deus. Jesus não nos trata como escravos, mas como homens livres, amigos, como irmãos; e não somente nos envia, mas nos acompanha, está sempre junto de nós nesta missão de amor.
Para onde Jesus nos manda? Não há fronteiras, não há limites: envia-nos para todas as pessoas. O Evangelho é para todos, e não apenas para alguns. Não é apenas para aqueles que parecem a nós mais próximos, mais abertos, mais acolhedores. É para todas as pessoas. Não tenham medo de ir e levar Cristo para todos os ambientes, até as periferias existenciais, incluindo quem parece mais distante, mais indiferente. O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da sua misericórdia e do seu amor.
De forma especial, queria que este mandato de Cristo -”Ide” – ressoasse em vocês, jovens da Igreja na América Latina, comprometidos com a Missão Continental promovida pelos Bispos. O Brasil, a América Latina, o mundo precisa de Cristo! Paulo exclama: «Ai de mim se eu não pregar o evangelho!» (1Co 9,16). Este Continente recebeu o anúncio do Evangelho, que marcou o seu caminho e produziu muito fruto. Agora este anúncio é confiado também a vocês, para que ressoe com uma força renovada. A Igreja precisa de vocês, do entusiasmo, da criatividade e da alegria que lhes caracterizam! Um grande apóstolo do Brasil, o Bem-aventurado José de Anchieta, partiu em missão quando tinha apenas dezenove anos! Sabem qual é o melhor instrumento para evangelizar os jovens? Outro jovem! Este é o caminho a ser percorrido!
2. Sem medo. Alguém poderia pensar: «Eu não tenho nenhuma preparação especial, como é que posso ir e anunciar o Evangelho»? Querido amigo, esse seu temor não é muito diferente do sentimento que teve Jeremias, um jovem como vocês, quando foi chamado por Deus para ser profeta. Acabamos de escutar as suas palavras: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, sou muito novo». Deus responde a vocês com as mesmas palavras dirigidas a Jeremias: «Não tenhas medo… pois estou contigo para defender-te» (Jr 1,8). Deus está conosco!
«Não tenham medo!» Quando vamos anunciar Cristo, Ele mesmo vai à nossa frente e nos guia. Ao enviar os seus discípulos em missão, Jesus prometeu: «Eu estou com vocês todos os dias» (Mt 28,20). E isto é verdade também para nós! Jesus não nos deixa sozinhos, nunca lhes deixa sozinhos! Sempre acompanha a vocês!
Além disso, Jesus não disse: «Vai», mas «Ide»: somos enviados em grupo. Queridos jovens, sintam a companhia de toda a Igreja e também a comunhão dos Santos nesta missão. Quando enfrentamos juntos os desafios, então somos fortes, descobrimos recursos que não sabíamos que tínhamos. Jesus não chamou os Apóstolos para viver isolados, chamou-lhes para que formassem um grupo, uma comunidade. Queria dar uma palavra também a vocês, queridos sacerdotes, que concelebram comigo esta Eucaristia: vocês vieram acompanhando os seus jovens, e é uma coisa bela partilhar esta experiência de fé! Mas esta é uma etapa do caminho. Continuem acompanhando os jovens com generosidade e alegria, ajudem-lhes a se comprometer ativamente na Igreja; que eles nunca se sintam sozinhos!
3. A última palavra: para servir. No início do salmo proclamado, escutamos estas palavras: «Cantai ao Senhor Deus um canto novo» (Sl 95, 1). Qual é este canto novo? Não são palavras, nem uma melodia, mas é o canto da nossa vida, é deixar que a nossa vida se identifique com a vida de Jesus, é ter os seus sentimentos, os seus pensamentos, as suas ações. E a vida de Jesus é uma vida para os demais. É uma vida de serviço.
São Paulo, na leitura que ouvimos há pouco, dizia: «Eu me tornei escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível» (1 Cor 9, 19). Para anunciar Jesus, Paulo fez-se «escravo de todos». Evangelizar significa testemunhar pessoalmente o amor de Deus, significa superar os nossos egoísmos, significa servir, inclinando-nos para lavar os pés dos nossos irmãos, tal como fez Jesus.
Ide, sem medo, para servir. Seguindo estas três palavras, vocês experimentarão que quem evangeliza é evangelizado, quem transmite a alegria da fé, recebe alegria. Queridos jovens, regressando às suas casas, não tenham medo de ser generosos com Cristo, de testemunhar o seu Evangelho. Na primeira leitura, quando Deus envia o profeta Jeremias, lhe dá o poder de «extirpar e destruir, devastar e derrubar, construir e plantar» (Jr 1,10). E assim é também para vocês. Levar o Evangelho é levar a força de Deus, para extirpar e destruir o mal e a violência; para devastar e derrubar as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio; para construir um mundo novo. Jesus Cristo conta com vocês! A Igreja conta com vocês! O Papa conta com vocês! Que Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, lhes acompanhe sempre com a sua ternura: «Ide e fazei discípulos entre todas as nações». Amém.


sábado, 27 de julho de 2013

ERA SÓ UMA LIÇÃO DE AMOR


Na manhã de hoje, de sol esplêndido e apenas algumas nuvens mais ousadas, talvez porque fossem tão lindas e suaves, se interpunham à visão plena do céu de infinito azul. Sai de casa para um desses afazeres comuns e necessários a todos nós, ir a um banco, ao supermercado, ao correio, buscar alguma coisa em algum lugar.

Passava exatamente por uma esquina, despendendo apenas a atenção necessária que a circunstância requer, quando, improvisamente, me vejo ser abordada por aquele homem.

No primeiro momento, confesso, fui possuída de certo temor, inúmeras hipóteses acorreram a minha mente, vivemos sentindo medo... Mas bastou erguer o olhar para de imediato, sentir imensa quietude, agora, possuída da certeza de que se tratava de um tipo que não pretendia fazer mal algum a ninguém. Seu semblante era de quem refletia.Cabeça inteiramente coberta pela neve do tempo, barba feita, face quase rosada, como de alguém que todo dia sai de casa e vai tomar um pouco de sol.  As roupas que não chegavam a ser surradas, também não revelavam que fosse o caso de se colocar fora de uso. Estava calçado.   O corpo vergado denotava seu avanço em anos.

Queria apenas falar alguma coisa. Claro que me dispus e na melhor atitude que encontrei coloquei-me em atitude de escuta diante dele.  Ao notar a placidez daquela face, olhar distante de mim, repreendi-me por ter julgado que não obstante a aparência, e, certamente não precisar, fosse do tipo que pede dinheiro.
Há gente assim, por duas vezes, em um mesmo supermercado, com narrativa da mesma história deparei com velho conhecido, fora funcionário de banco. Passava necessidade... e  deixei-me cair em “autêntico conto do vigário”. Da segunda vez, não, além de lhe ter acrescentado doces, mas firmes palavras de repreensão. Só vi, quando se esgueirando entre prateleiras, sumiu para sempre. Nunca mais o vi.

Era só uma lição de amor
Meu interlocutor, ao invés, só queria ser ouvido. Ele sim, bem que gostarei de reencontrar muitas vezes.  Sem preâmbulo, objetivamente, como se fôssemos velhos amigos, ou retomássemos um discurso inacabado, como se tivéssemos travado outros tantos diálogos, foi-me perguntando, simplesmente: - Alguém pode se esquecer de alguém que o tenha tratado com carinho?

Não podia ser outra minha resposta: - claro que não. Nem sei se era o que queria ouvir, não sei sequer se queria alguma resposta, do mesmo modo que chegou, prosseguiu  seu caminho. Ainda olhei para trás e só vi um homem seguia.

COLCHA DE RETALHOS

     

Scarlet tinha os olhos marejados pelas lágrimas tiradas da alma em conflito consigo mesma. Os cabelos grisalhos,  desalinhados, esfarelados sobre os ombros num completo desatino com suas reflexões íntimas. Na silhueta da tarde morna, entre os ventos roçando suas lágrimas rolando feito um córrego faces abaixo, pensativa, olhava o horizonte como se a olhassem de dentro para fora e lhe via refletida em si mesma. Um breve portal reflexo num espelho enferrujado. Uma triste poetisa vencida pela estesia do tempo vazio!
  O tempo lhe havia roubado à beleza, os amores, as cores vibrantes, a vivacidade, os costumes de mulher arredia, os fogosos bailes, os amantes secretos. Às vezes, estragulada pela mórbida solidão, arrumava as cortinas empoeiradas, ajeitava as almofadas e pensava na ingratidão da vida. Soluçava afugentando o enorme desejo de ingerir uma dose fatal do veneno, único, sólido e eficaz. Chegava a sentir o aroma lírico a lhe ferir as mandíbulas como se as gotículas amargas ao decapitá-la a vida permitissem sentir o voo das gaivotas sobre o mar imaginário, as asas livres, soltas, batendo contra todos os ventos cruciais ou lhe permitisse pousar , vagarosamente ,sobre um enorme jardim repleto de crianças inocentes e  felizes. Seria assim a visão da morte?
   Sua vida de amores perversos, salientes, clandestinos; erros inconsequentes, desses que levam o indivíduo ao fundo do poço ou numa tristonha melancolia, resultando em depressão aguda. Pensava atordoada, deixaria apenas erros e agonias que atropelam as pessoas e a cidade, cúmplices desta tragédia humana que a todos, às vezes, comovem ou apenas crucificam a mulher e seus devaneios perversos? Cairia eternamente na boca do povo... Os erros, lamentavelmente, não seriam esquecidos na cidadezinha pacata. Que triste miséria humana, deixaria esses dissabores amorosos, suas frustrações cotidianas, como herança involuntária? Passaria assim, na vida, desapercebida?
    Scarlet, depois dos seus oitenta anos de vida, cheia de aventuras, poesia, loucuras, desprovida de bens materiais, almejava deixar uma única herança para os netos. Sua figura, embora envelhecida, não era  nada  frugal para que os netos pudessem guarda-la na parede da memória  como relíquia de uma velhinha sentada  numa cadeira de balanço, fazendo tricô ou crochê ;  ou aquela pequena idosa  com seus óculos bem grossos tecendo costura em sua velha máquina!... Nada desses dotes do pedestal e da  sentença da idade lhe refletiam como metáfora do envelhecimento. Scarlet possuía todos esses dotes, mas era poetisa , dessas que amanhece sobre suas folhas brancas e com as mãos trêmulas,  compunha versos e sonhos como se fossem restituir vidas... Vidas alheias e a sua própria vida!... Passou refletida na possível herança, por longas noites, até que,  num dia cinzento anunciando chuva, prestou atenção  nuns ruídos vindos do sótão, esquecido em meio à bagunça, eram os ruídos da velha máquina de costuras. Ficou atenta, pois todo o cômodo exala  um silêncio profundo. Olhou sorrateira e atentamente  a velha máquina e de súbito lhe veio à mente a ideia de  emendar os retalhos de pano. Eram restos de todas as cores que ao longo do tempo foram ficando estendidos no chão nu de taboas rústicas.
  A tarde caía, num crepúsculo cinzento e triste. Os pássaros , em revoada voltavam  aos ninhos e a velha máquina, manipulada pelas mãos trêmulas de Scarlet ia remendando,  sutilmente,  os retalhos,  panos de todos os tons que  ao serem emendados formariam uma linda colcha de retalhos. Scarlet pensava enquanto costurava: as cores representam sua vida -  os vermelhos escaldantes são como os dias de famosos bailes em que a mulher seduz. Encantava ao roçar-se, sensualmente, aos  charmosos cavalheiros. Cada retalho representa um pedaço de si própria  e,  costurando-os,  formava e emoldurava  a sua vida!  O pálido cinza, sozinho, abandonado assemelhava-se  à tristeza de seus dias, escorrendo como as águas desembocadas num mar sem retorno; seria como a garça em seu voo rotineiro de encontro aos filhotes aquecidos num sótão qualquer. Ó!...O vermelho sempre insistente, predominante, como os bailes, os belos cavalheiros e a música a  renovar as esperanças e expectativas; às vezes o roxo também necessário às tonalidades, simbologia de um luto, dos quais sempre esteve ausente, já que a morte tão naturalmente,  é a coisa mais certa. 
Para que tantas lamentações? Achava isso um tédio, a hipocrisia em algumas reclamações, mas presenciara o luto de uma dor imensurável, tal qual se perde a vida plena de gozo. E quando percebia,as doloridas lágrimas ensopavam as rugas trêmulas. Pensava: velórios são todos iguais, só mudam as personagens.  A ferida entreaberta, no espaço do peito esquerdo,  rompe-se  com a navalha cortante na despedida com sabor de sangue estilhaçado nas retinas quase cegas ao tempo. O tom metálico é o resplendor das baladas, o sol escaldante neste amarelo e no verde das esperanças de um pobre poeta brasileiro sem fama... Que importa aos brasis os seus poetas anônimos?... O branco existente em qualquer situação, retrata a bandeira da paz! E tudo termina em um azul, num indo e vindo infinito azul  da cor do mar!
  A colcha está pronta! O silêncio da noite é arrebatado pelas ondas do mar!...Lá longe, impermeada pelo soluço de su’alma plagiada nas recordações do passado... retalhos de um tempo vivido e um futuro certo!  Neste momento,  mistura-se ao som do mar e às gotas pesadas da chuva forte, parecendo uma prece murmurada em desalinho comovendo Scarlet. Os ruídos da velha máquina de costura, por certo, cessaram ,como cessam as chuvas barulhentas e até o amor platônico.Solene, a poetisa e seus medos perversos... Da solitária escrivaninha vê a morte de forma poética e  lírica. Os restos mortais seriam jogados em cinzas sobre o mar de Marataízes? Entre as mãos trêmulas,segura firme e convicta, a única herança que deixará para os netos. Uma colcha de retalhos, costurada por ela mesma, no cio da saudade tecida nas vísceras , já tão serenamente  dilaceradas pela dor e pela solidão.Mas essa dor e solidão lhes  são , necessariamente, companhia.
Scarlet enrola a colcha num ritual silencioso.  Ouve-se,  lá fora,  o pio sorrateiro do Iambu , prelúdio da morte do dia indo desfalecer ao entorno do mar. Seria uma das tantas réplicas de despedidas. Um cenário que até Scarlet já acostumava sentir como um adeus poético de  quem se despede da arte de descrever a própria missão. No  momento da entrega da única herança, seria inevitável um choro de despedida, uma lágrima estirada ao vento, sem grandes denominações domésticas. Apenas um ritual lírico deixado em marcas e cicatrizes nas cores da vida vivida e da colcha de retalhos . Deixaria, ali mesmo, a colcha e os sentimentos, todos emendados, costurados, tecidos  na vivência. Por certo, o neto mais velho a encontraria, alguns anos depois... Não se sabe,   há quanto tempo? Junto à colcha de retalhos, restos de tecidos de todas as cores formaram a sua vida agregada de valores éticos  e poéticos na decadência do anonimato inconsequente. As cores são representatividades de uma nobre existência plebeia, rastreada pela poesia.
 Sorria um riso desbotado e pensava: será que o neto mais velho entenderá a simbologia de cores ou de colchas de retalhos? A deixou, ali, nas entranhas do sótão, ajuntada a um encardido papel amassado, desfalecido pelo tempo, contendo um poema tal qual seu estado de espírito lírico encenado, imortal e intitulado:
Doloroso dever
Anuncia, por favor, que tal dia numa derradeira hora, eu fiz a passagem.. .
Que ninguém mais vai me falar, nem ao pior me ouvir,
Nada de choros, lamentos, rezas, nem questionamentos.
Avise aos amigos mais chegados, aos parentes queridos;  mas, por favor, coloque um aviso bem diferente, aos companheiros de poesia e trovas, às amigas íntimas e às parceiras de vinhos,
Mas fale de forma justa: A poetisa partiu! Diga que não houve “causa mortis”.
Nenhum diagnóstico técnico foi procedido, Portanto,  sê  natural , sem dramatizar...
Nada de  choros, nem velas, nem rezas...
Nem anúncios entristecidos ao som de Ave-Maria Penses  numa música latente , fervente , que tocará aos meus ouvidos uma serenata flamenca.
Quero cor, música e batons coloridos na minha boca que requer um símbolo diferente, que disfarce qualquer tristeza.
Aos que perguntarem a causa, disfarças ou ri e dize que apenas não sabe ao certo, se, no entanto, ao todo for impossível, de forma bem discreta diga que morri de amor...
Que estou morta de paixão...Assim morrem os poetas!...
Junto ao bilhete deixo-te a colcha, sobras de tecidos de todas as cores, costurando-os, foram formando a colcha, pedaços de cores, pedaços de vida. Cores alegres e tristes. Ó...a colcha subia e descia ao costurar, como a vida e a poesia e deposito nas tuas pequeninas mãos , como lição de vida!
Neto-filho, mais que filho, como a vida, a colcha tem erros que consertamos ao costurar, mas na vida nem sempre há remendos, nem sempre há consertos. Deixo a colcha de retalhos, a poesia e o perdão pela vida inconsequentemente lírica e cheia de erros. Lamento, meu neto, não deixar nada mais que uma modesta colha de retalhos, a poesia me bastou!

 Assim,Scarlet balbucia as últimas palavras e cerra as pálpebras trêmulas.

Bárbara Pérez.