sábado, 14 de janeiro de 2017

NA ESCURIDÃO DAS NOITES CLARAS



DAGUITO RODRIGUES de São Paulo

Concorrente do Concurso Literário Elza Cunha Excelente texto.

Zunduri não quer morrer. Não mais. A garota orou aos deuses, lua após lua, agora implora que esqueçam cada súplica. A morte já não é uma vontade. Nem uma opção. A vida que carrega abriu novos caminhos para um futuro que permanece negro para Zunduri, mas que se revela iluminado para o filho que ainda repousa no ventre. Precisa encontrar forças para resistir a cada raiar da manhã, para superar o trabalho duro na lavoura, o couro do chicote nas costas feridas e a vergonha da nudez diante de desconhecidos. Abuso atrás de abuso, uma rotina que minou a vontade de acordar naqueles últimos anos. Se pudesse, teria há muito desistido de respirar. Agora, é grata que isso seja impossível. Quer não só manter o ar nos próprios pulmões como também nos da criança que ainda não desgarrou de seu corpo. Um ar seco e com cheiro de pó.

Zunduri é assim chamada entre os dela. Na presença dos outros, é Isabel. Escolha irônica dos brancos. Avo, o mais culto entre os seus, disse que Isabel quer dizer “casta”. Zunduri não entendeu. Pura, casta é pura, garota. Há muito já não era. Ela sempre achou estranho os significados das palavras, mas sabe que cada nome, cada um deles, tem um significado. Pode procurar.

Sonolenta, Zunduri acomoda as costas cortadas na palha seca e nota o olhar da velha, a senhora que deita ao lado dela. Ele vai nascer livre, tosse Ashia entre pigarros. A garota segue de barriga para cima por um tempo, sabe da vitória que a nova lei entregou a seu filho, como também entende, para ela não há mais saída. Está destinada àquela fazenda até a morte. Mas livre de quê? Do chicote? Vai nascer aqui, comer aqui, deitar aqui, trabalhar aqui e morrer aqui, angustia Zunduri. A senhora limpa os beiços e engole a liberdade. A negrinha está tão certa quanto a vida que carrega na barriga. Mas antes o direito de não ser propriedade do que a convicção da eternidade no cabresto.

Lua cheia. O prato de porcelanato branco que serve a mesa na casa grande pende na tela preta chamuscada pelos deuses. Zunduri prefere as noites escuras. Quando as sombras encobrem rostos e corpos de homens que não conhece. Identidades ocultas pelo preto e pela palha revolta do casebre onde é obrigada a atender. Não tivesse cultivado o desenho encurvado que tanto atrai os homens poderia não ter esta obrigação na fazenda. Tocar lábios, peles,

peitos, pernas e tanto mais de senhores que ela jamais escolheria se tivesse querer. Em noites claras como esta, via o que depois procurava esquecer. Vozes e gemidos ganhavam rostos. Peles ganhavam tons. Olhos ganhavam vida. Temia os atendimentos em noites iluminadas. Mas já há muito, desde o crescimento visual da barriga e a mudança do corpo, a garota era poupada do trabalho noturno. Estava se acostumando a uma vida que não era a dela. Sabia que após a vinda de Kito tudo voltaria ao normal. E foi esta normalidade que motivou Zunduri a ter orado tanto pela própria morte.

Estranho foi ver Menezes ali na porta. O chapéu encobriu a Lua e trouxe a escuridão menos sofrida. Quer o quê aquele homem nesta noite? Ashia ronca ao lado da negrinha. Como se. Zunduri não teve tempo de fingir também. Os olhos dela encontraram os de Menezes assim que ele surgiu debaixo do batente. Venha, venha agora.

Zunduri levanta e limpa a palha seca que colou nas feridas. Ajeita o trapo que tenta escapar da barriga. Hoje não, Menezes. Quieta, venha que hoje sim. E os dois partem sem que ele precise indicar o caminho. Pela terra pisada das trilhas da propriedade. Não há luzes na casa grande. As velas se calaram na fazenda. O cliente não bebeu e não riu antes dos trabalhos. Estranho. É na cachaça e nas piadas que o pagamento é sempre feito. Zunduri já se acostumou.

Lá está o casebre. A mesma porta de madeira. A mesma palha sobre a terra. A mesma janela sem venezianas. Mas a garota já não é mais a mesma, porque garota já não é mais. Mulher, como foi a mãe dela um dia, como a avó, a bisavó e as ancestrais livres do lugar que ela nunca conheceu. E jamais vai conhecer. Zunduri não é mais. E por isso não pode mais. Não quer mais. Hoje não, hoje não.

Zunduri pode ver a Lua. Mas queria mesmo é a cegueira da escuridão. Quem deseja tanto uma mulher naquelas condições? Que homem é capaz de imaginar uma noite com alguém como ela? Mãe. Não posso, hoje não. Menezes não responde. Mostra a palha e Zunduri atende. O chicote está preso ao cinto dele. Deita com dificuldades, as feridas ainda doem. Melhor seria de joelhos, mas e a barriga? Não, não será possível naquela noite. Um corpo sobre o dela vai pressionar os cortes contra a palha seca. Palha dura. Palha áspera. Lâminas naturais que vão abrir ainda mais as feridas. Não, Menezes, hoje não.

Mas ele está em silêncio. Caminha sem sentido. Não ousa olhar para a garota. Zunduri não entende. Ele ainda está ali. Nenhum sinal do cliente. Hoje será diferente. É você, Menezes? É você hoje?

Ele não responde. Jamais, naqueles anos todos, Menezes contratou os serviços de Zunduri. O homem alto, de braços largos e barba pesada é empregado da fazenda. Claro que jamais poderia se tornar um cliente. O senhor não admitiria. Nem dinheiro tem. Teria ele levado a garota até ali sem consentimento? Não, Zunduri jamais aceitaria aquilo. Não com Kito no ventre. Menezes, eu não posso, eu não vou. Mas o capataz é o silêncio da noite. Caminha e nada mais. Não, Menezes, hoje não.

A brutalidade daquele homem é conhecida não só entre os negros daquela fazenda, mas também entre os de outras da região. É ele quem chamam a cada fuga. Um ninguém de movimentos pesados, de mãos duras, de olhar coberto por sobrancelhas grossas e que mesmo que não tivesse a mancha da barba jamais revelaria um sorriso. Não se mostra o que não se tem. Menezes vivia do sangue dos outros. Do chicote. Do espancamento. Do cheiro podre das feridas. Um demônio em trajes de homem branco.

Do canto do casebre, traz uma cadeira de madeira. Joga à frente de Zunduri e derruba o corpo. O chapéu, acomodou na palha. O lenço, ao lado. Com os dedos e as unhas pretas penteia o bigode. Não, Menezes, hoje não. Mas não abriu o cinto. Não tirou a camisa. As botas ainda estão nos pés. Apenas examina a negrinha jogada na palha seca.

Zunduri toca o manto encardido que cobre a nudez. Não, ele não quer ver. A garota desiste. O que então? O que você quer, Menezes? Só os grilos respondem. Ele levanta e se mistura às sombras de um dos cantos. Procura. Mexe. Bagunça. Derruba ferros, metais, ferramentas. Um som forte como a dureza de Menezes. E volta o silêncio. A conversa de insetos que caçam à noite. E a dúvida de Zunduri. O que ele quer? O que você quer, Menezes?

A resposta brilha na noite clara. Prateada, metalizada e com um cabo de madeira. Fina, porém fatal. Pontuda como a cabeça de um alfinete. A garota arrasta o corpo para trás até ser bloqueada pela parede. Não, Menezes, o que é isso, não, eu faço o que você quiser, mas deixa disso, coloca isso para lá, não,

o que você pretende, pode pedir, eu faço, eu faço. Ele apenas carrega o peso de seu corpo na direção da negrinha.

Ela se levanta, tocando a pele que separa a mão dela do próprio filho e implora ainda mais. Ele está perto. Está próximo. Chegou. A faca na mão direita. A faca subindo. A faca no alto. A faca no ar. É um golpe, um golpe fatal. Uma facada com o peso da mão violenta de Menezes. Mas Zunduri é rápida. Não como antes, mas ainda assim é veloz. A garota desvia e se afasta. Não, Menezes, não. Por quê? Por quê? Teriam os deuses escutado as orações? Mas e as súplicas que vieram em seguida? Ela não quer mais morrer. Não pode.

Um bruto que vive da morte não desiste fácil. E insiste com outro golpe. Feroz, selvagem, grosseiro. A garota não pode tentar segurar o braço dele, esta briga está perdida. A alternativa é apenas desviar. Desviar e correr. Mas seus pés já não carregam mais um corpo leve. Disparar noite adentro é colocar a vida de Kito em risco. Zunduri deve encontrar outra saída. Que cesse Menezes para sempre.

De que serve uma negrinha como você? Com um filho? Uma garota estragada, de corpo flácido. Uma garota sem serventia para a lavoura, sem serventia para a noite. A ordem foi dada, aceite seu destino, garota. Quanto mais rápido melhor.

Ela se joga à escuridão. Invade o breu do canto onde Menezes encontrou a faca e desaparece no preto. Escuro como a pele dela. Triste, apagado, nebuloso. E numa tentativa incerta de vitória, tateia no abstrato sombrio, um canto opaco e vago que pode salvar não só a sua vida, mas a de Kito. O pequeno que ainda não viu a luz. E da escuridão espessa Zunduri saca alguma coisa, um quê, algo enferrujado e sem função, mas que agora seria uma defesa, uma arma na luta desigual contra a morte.

E foi das sombras que a negra saltou. De olhos brancos e boca plácida, pintada por um sorriso de desespero. Foi do escuro, do negro e do preto, que Zunduri pulou sobre Menezes. Com o peso de um corpo que eram dois, lutando por uma vida que eram duas, a garota pressionou o ferro sobre o crânio de quem um dia já se chamou Menezes. E que agora é apenas uma forma de carne e osso, um tronco caído na terra.

A garota engatinha para fora. Lágrimas, saliva e suor pendendo do queixo. Misturando-se à terra. Esparramando-se no chão da fazenda onde estava destinada a viver e morrer. E com a força de quem luta por um sopro de esperança, ergue o corpo na noite clara e corre pelo caminho que cruzou com Menezes. Leva o ar seco com cheiro de pó para os pulmões, sugando a energia que precisa para seguir em frente. Sufoca.

Banhada em prantos e suor, sacode Ashia. A garota acorda não só a velha, como os outros também. Ele ia me matar, ele queria me matar. Eles despertam no desespero, vão à porta procurando por alguém, acodem a negrinha nos braços, limpam seu rosto e sua mão, tocam a barriga, procuram por cortes e ferimentos, mas encontram apenas os do chicote.

Aqui você não pode mais ficar, resume Ashia. Nem você nem Kito serão poupados. Fuja, aproveite a noite e corra. Vá para o mato, embrenhe-se nas florestas, beba do rio, coma da mata, vá e se esconda. Amanhã veremos como ajudar.

Zunduri ouve calada. Não é a liberdade que procura nem o caminho para Kito. Venham comigo, vamos juntos. Ainda demora o amanhecer, ainda não sabem de Menezes. Temos horas de vantagem, temos uns aos outros. Akili, eu preciso de suas mãos, de seus braços, de sua força. Avo, sua inteligência é tudo para nós. Ashia, sua experiência, seu conhecimento, venham comigo, vamos todos. A hora é agora.

Ashia não se levanta. Akili está em pé num canto. Avo permanece na porta vigiando o movimento. O resto também está parado. O convite não foi aceito por ninguém. Zunduri está só na presença de todos. Vá, garota, vá. Você não pode mais ficar, vá agora. Não vou, não sem vocês. Por favor, venham comigo, vamos juntos. Vamos para a mata como Ashia disse, vamos para os rios e para as árvores, vamos agora. Juntos. A garota que orou pela morte está disposta a lutar pela vida. Da desesperança e do abatimento nasceu a coragem para seguir em frente. Mas Zunduri atravessa o batente sozinha. Não olha para trás. Vá, Zunduri, vá, amanhã a gente saberá o que fazer, vá, ainda diz Ashia antes da negrinha se tornar a escuridão. Tetro.

Mas do casebre vem a luz.

Uma faísca rompe a negritude da noite e faz par à claridão da Lua.

Um som seco.

Dois sons secos.

Sons seguidos.

Intervalados.

Ruídos que cortam o ar.

E lá no campo, no mato verde da primavera, iluminada pela noite cheia, Zunduri veste um longo vestido vermelho, rendado por balas douradas da pistola de Menezes, de tecido comprido bordado por anos de sofrimento e angústia, sacudido pela brisa da noite. Como uma dama dos submissos, uma senhorita em trajes vermelhos de gala, uma rainha sem coroa, Zunduri deixa a fazenda e parte, ao som da voz de Ashia, que mesmo ao longe empurra. Vá, Zunduri, vá. Amanhã a gente ajuda, vá. Leve Kito, leve tudo. Vá, minha menina, vá. 

 

 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

SOMOS HABITADOS PELO ESPIRITO SANTO


Pe. Adroaldo S.J.


“Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele” (Jo 1,32)

 

Estamos iniciando o tempo litúrgico conhecido como “Tempo comum”; tempo para um longo e demorado olhar centrado na pessoa de Jesus: “ver” e “mirar” nos conduzem a uma identificação com Ele. Do olhar correspondido brota o seguimento.

Como seguidores(as) de Jesus, também vivemos à luz do Espírito, não à sua sombra. Nossa existência, em sintonia com o desejo de Deus para que vivamos em plenitude, é enriquecida pelos nossos desejos pro-fundos de nos constituir como seres livres, ou seja, capacitados a tomar decisões oblativas, desafiados permanentemente por uma pluralidade de opções abertas que se apresentam diante de nós. Não somos escravos de nossa pobre condição mortal, mas o espaço livre por onde habita e transita o Espírito.


Pentecostes.
No evangelho de hoje, mais uma vez o autor do quarto Evangelho nos coloca diante da figura de João Batista, relatando a experiência dele de encontro com Jesus e revelando-o como aquele que “viu” e que “deu testemunho” de que Jesus é “o Filho de Deus”.

Daí sua insistência no verbo “ver”. Não se trata de um “ver” neutro, preso à exterioridade, mas de um olhar contemplativo, capaz de distinguir e apontar quem de fato era o Messias.

João não recebeu o encargo de divulgar uma idéia, uma doutrina... mas apontar uma pessoa.

 
Como nos evangelistas sinóticos, também o evangelista João faz do batismo de Jesus o acontecimento fundante com o qual Ele inicia sua atividade pública.

Quê é que João Batista “viu”? Viu um homem cheio de Espírito. Ou seja, Jesus é aquele que, habitado pelo Espírito, se deixa conduzir pelo mesmo Espírito. Ele deixa “transparecer” esta presença do Espírito e só quem tem olhar contemplativo é capaz de perceber quem O move.

Sempre quando temos a sorte de encontrar uma pessoa “transparente” (não “perfeita”, mas humana), torna-se mais fácil reconhecer, apreciar, “ver” o Mistério que a habita.

Mas não é suficiente encontrar-nos com alguém assim; é preciso também desenvolver a própria “capacidade de ver”, ou seja, um “saber olhar” que transcende para além das aparências.

Os sábios sempre foram conscientes de que existem diferentes níveis de realidade aos quais podemos ter acesso através de diferentes órgãos de conhecimento. São Boaventura fala do “olho do espírito”, ou seja o “olho da contemplação”. Empobrecemo-nos quando nos reduzimos ao “olho da carne” e também ao “olho da razão”. Precisamos ativar o “olho do espírito” que nos capacita para “ver” a realidade em sua dimensão mais profunda, para perceber o Mistério em tudo o que nos rodeia, nós incluídos.

A qualidade humana, o futuro da humanidade e do planeta depende de que saibamos “ver” deste modo.

 
Nossa experiência do seguimento de Jesus brota da capacidade de fixar nosso olhar n’Ele. De fato, o olhar é o primeiro sentido que nos faz sentir presentes junto ao outro. E, como João Batista, ao fixar nosso olhar contemplativo na pessoa de Jesus, o que vemos é o Espírito agindo n’Ele.

E porque se deixa conduzir pelo Espírito, Jesus não suporta lugares fechados, rompe com os “espaços sagrados”, com os esquemas fechados, com as estruturas arcaicas... O Espírito é “movimento” e Jesus inicia um movimento de vida e vida plena.

Jesus, cheio do Espírito, sempre foi o homem das praças, ruas, caminhos e campos abertos... Não foi o homem dos templos, dos lugares fechados, das cidades fortificadas, mas o “homem em saída”, revelando sua mensagem e sua missão ao ar livre da vida.

A comunidade dos seus seguidores, conduzida pelo Espírito, também não se deixa atrofiar pelo lugares fechados, cheirando a incenso mofado, nem se prende a um ritualismo e religiosidade alienante, mas é aquela que sai para os espaços públicos e ali oferece o testemunho de Jesus.

Somos seguidores de Jesus nos espaços amplos da vida, sem distinção de classes, sem hierarquias, onde todos podem comunicar-se com todos, pois são habitados pelo mesmo Espírito, a força da vida.

 
A novidade de Jesus consiste justamente em afirmar que existe um caminho para encontrar a Deus que não passa pelo Templo. Desse modo, reconhece-se a vida como lugar privilegiado da Sua Presença.

Jesus, na Galiléia, encontrou os seus lugares: junto ao mar, nas estradas poeirentas, nas margens...

Depois do seu batismo e pleno do Espírito, Jesus se faz presente no lugar onde se encontram aqueles que não tem “lugar”, os “deslocados” e que são a razão de seu amor e do seu cuidado; faz-se solidário com os “sem lugares” e os convida a caminhar para um novo lugar.  Na Galiléia, Jesus tem suas preferências e escolhe o seu “lugar”, o lugar entre os mais pobres, vítimas daqueles que se fazem donos dos lugares.

O(a) seguidor(a) de Jesus não é aquele que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical compaixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença d’Aquele que é a Misericórdia.

Dessa forma, “habitado pelo Espírito”, experimenta que a vida é forte e formosa e que vale a pena acolhê-la e doá-la, como Jesus fez, sabendo que o tempo da opressão, da enfermidade, da morte e da condena-ção... não tem a última palavra.

Esse é o sentido da expressão de João Batista aplicada a Jesus: “Aquele que tira o pecado do mundo”.

Por isso, Jesus e os primeiros cristãos não usaram modelos de poder centralizado para cultivar a presença de Deus. Nem tiveram a preocupação de construir um novo templo, nem formatar uma nova religião, mas descobriram o Templo de Deus na vida mesma, no diálogo e no encontro das pessoas nos espaços públicos, onde sob o impulso do Espírito, buscaram inspiração e sentido para suas existências.

E a vida não é um templo já construído mas uma rede de conexões múltiplas que vão se refazendo, recriando, de um modo incessante, por obra do Espírito de Cristo.

 A presença provocativa e o chamado exigente de Jesus colocam em questão nosso costume de nos refu-giar no mundo asséptico das doutrinas, na tranquilidade de uma vida ordenada e legalista, satisfatória e entorpecida, na segurança de horários imutáveis e de muros de proteção, longe do rumor da vida que luta para ter um lugar ao sol, dos gritos daqueles que sofrem e morrem nas periferias deste mundo.

Escutar e seguir Seu chamado implica abandonar a estreiteza de nossos caminhos e deixar o nosso coração bater no ritmo do Espírito que nos faz romper nossos estreitos lugares e nos projeta em direção ao mundo dos doentes e marginalizados, vítimas da desumanização de nossa sociedade.

Como Igreja, temos perdido esse estilo itinerante que Jesus propõe. O caminhar dela é lento e pesado; não acertamos o passo para acompanhar a humanidade; não temos agilidade para deslocar-nos em direção à margem sofredora; agarramos ao poder e às estruturas que tiram a mobilidade; enredamos nos interesses que não coincidem com o Reinado de Deus. É preciso uma profunda conversão e voltar à essência do Evangelho: compromisso com a vida, sendo presença misericordiosa.

Texto bíblico:  Jo 1,29-34

 

Na oração: “Fazer caminho” com Jesus implica sair pelas

                    estradas e encruzilhadas para escutar o clamor das pessoas e para alargar a nossa vida no contato com elas. A novidade do Espírito aparece sempre fora dos lugares seguros, protegidos e convencionais.

- Não estaremos desperdiçando as nossas melhores forças para conservar atitudes arcaicas e nos deliciamos com um estilo de vida que nos atrofia?

- Não chegou, talvez, o momento de deixar de repetir aquilo que fazíamos antes, e de abrir-nos àquilo que está diante de nós, à novidade que o Espírito está criando?

sábado, 7 de janeiro de 2017

A FLOR DE QUIMERA


Isa, a Florzinha do Campo
Concorrente do Concurso Literário Elza Cunha
 
  Foi ele, um imponente faisão, que sobrevoando uma fazenda, deixou cair de seu bico a semente de uma flor. Jogada sobre a terra, essa semente recebeu da natureza todos os nutrientes necessários para sua sobrevivência e assim ela germinou. Primeiro o caule, verde e vigoroso, depois as folhas, leves e macias, o gracioso botão, e ao término de sua metamorfose ela desabrochou com toda benemerência, expondo suas pétalas brancas e douradas delicadamente ao mundo, enriquecendo a flora num espetáculo solitário e exalando sua doce e suave fragrância. A flor de Quimera, campestre, singela, magnífica em sua essência, nasceu ao acaso e estava pronta para viver como tantas outras flores, a sua breve jornada no universo, quando subitamente foi arrancada do solo por uma garotinha que por ali passava. A menina levou a flor para sua casa onde lá ofertou carinhosamente a sua avó que repousava no leito, enferma. Tão doente estava sua avó que a princípio nenhuma importância deu a flor, fazendo a neta depositá-la em um pequeno vaso que deixou ao lado de sua cama. Ao anoitecer a flor de Quimera, esquecida no vaso, exalou o seu perfume pelo quarto e seu agradável aroma fez despertar a velha senhora convalescente. Nunca em sua vida havia ela inalado um cheiro tão inebriante como aquele e isso atiçou sua curiosidade de saber de onde efluía. Com grande dificuldade, em sua debilidade física, encostou-se a cabeceira da cama e viu que o cheiro emanava dela, da flor de Quimera, então levou as mãos tremulas até o vaso com a flor e a pegou, cheirando-a e não se lembrando de ter visto uma como aquela em lugar algum. De modo tranquilo, ela tocou com as pontas dos dedos, levemente as suas delicadas pétalas, sentindo dentro de si algo novo e diferente, depois segurou a flor contra o peito tendo naquele instante a sensação de que aquela flor tinha algo especial e no ímpeto ela quis se levantar para ir até a janela, onde a claridade da lua a deixaria admirar a flor com maior nitidez. Vagarosamente e com tamanho esforço, ela se colocou em pé, dando lentos passos ela caminhou em direção à janela e lá chegando se prostrou a admirar a bela flor. Uma luz tênue que vinha da lua iluminou a flor fazendo suas pétalas brilharem com intensidade, deixando a velha senhora, com a leve impressão de que aquela flor era de alguma forma uma flor mágica, talvez com poderes curativos, pensou, mas aquela flor era simplesmente, apenas uma flor. E olhando fixamente para ela lhe sobreveio uma vontade incontrolável de conversar com a flor.

    - Um dia Também fui jovem e bonita como você. - Disse num sopro de voz a velha senhora de rosto pálido, enrugado, cansado, e como se a flor pudesse lhe ouvir, ela pegou seu antigo álbum de fotografias e o abriu passando a contar para a flor a história de sua vida. Ria e chorava a pobre senhora, compartilhando ali com a flor, emoções profundas provindas de suas recordações. Sentia a velha senhora, um imensurável bem estar ao lado da flor, como se ela lhe fosse uma amiga querida, com quem pudesse desabafar. E tão envolvida estava com a flor, que ao final de sua emocionante narrativa, ela sussurrou uma canção em um acalanto, deixando-se levar pela melodia, dançando pelo quarto, com a flor, em suaves rodopios. Era um momento único para aquela senhora que se sentindo viva, serena, cheia de esperança e quase curada de sua enfermidade nem percebeu o passar das horas e quando deu por si já vinha o alvorecer, então decidiu voltar para sua cama, beijando delicadamente a flor e colocando-a no criado mudo de sua cama adormecendo logo em seguida, repleta de contentamento.

    E sucedeu-se que enquanto a velha senhora adormecia em seu leito, a bela flor de Quimera que até aquele momento mantinha-se estática a agraciar a velha senhora com sua bela presença, começou do mundo a se despedir, murchando repentinamente e deixando cair as suas pétalas, lentamente, uma a uma. O ciclo da vida em seu curso natural havia chegado ao fim para ela, e a flor de Quimera desprendendo sua ultima pétala, como se fosse seu último suspiro, disse adeus ao mundo, terminando ali sua graciosa passagem.

    No outro dia, quando a velha senhora despertou, sentia-se cheia de saúde. Sua face antes pálida estava agora corada dando-lhe uma feição saudável, as forças lhe haviam voltado e sorria, como há muito tempo não fazia. Sua neta ao ver a avó ficou impressionada com sua recuperação.

    -Foi essa flor quem me curou! - Afirmava a avó para a neta, procurando pela flor de Quimera ao lado de sua cama. Mas notou que a flor não estava mais lá. Em seu lugar havia um viçoso girassol que a neta colocou, jogando fora a flor de Quimera já perecida. Ao saber que a flor havia morrido a velha senhora entristeceu. Havia ela nutrido pela flor um profundo apreço e desejava tê-la novamente junto a si, nem que fosse apenas por alguns segundos, mas, contudo, sabia ela que isso não seria possível. No entanto, crente de que a flor de Quimera havia lhe restabelecido a saúde e sentindo por ela um profundo sentimento de gratidão, ela passou a procurar incansavelmente por uma flor como ela, percorrendo, junto com a neta, a sua imensa fazenda, procurando em cada lugar a presença de uma flor semelhante, porém o imponente faisão nunca mais sobrevoou a fazenda para deixar cair de seu bico a semente de uma flor igual a esta e a velha senhora não encontrou a flor que tanto procurava. Então voltou para casa, onde ela compreendeu finalmente, que na efemeridade da vida há coisas insubstituíveis, coisas que nos chegam num momento de um instante, nos falam ao coração, nas mais diversas linguagens, e depois se vão, tornando-se inesquecíveis em nossas lembranças, para sempre, como ela, a flor de Quimera.
 
 
 
 
Nota: Tivemos ótimos participantes no concurso.
 

RECORDANDO ELZA CUNHA E SEUS VERSOS

A alegria de ser  bisa.

Luar na Fazenda

( Início de minha vida literária e correspondência com intelectuais )

Noite, poesia, ebúrnea claridade,

queda o ser embevecido ao luar.

Analiso enleada a sublimidade

da natureza muda a desfilar.

 

Ameno cenário de soledade,

bois na relva tranqüilos a pastar,

habitações brancas em paridade

em pratarias se tornam ao luar.

 

Longe, fica o rio, depois da cachoeira

em desenfreado amor, a murmurar

canções, unificam-se em alva esteira.

 

Apaixonada, ponho-me a cismar.

Fugir não se pode, por mais se queira

à apoteose onírica do Luar.

 

( “ Fazenda Cachoeiro do Cravo”, fundada por meus ancestrais, que passou de Pais para filhos, até minha geração, bisneta que sou do seu fundador Antônio Rodrigues da Cunha, Barão dos Aimorés.

Como uma de suas herdeiras, para não discordar da maioria dos meus irmãos concordei sensibilizada até às lágrimas, com a venda da mesma, a José Maria Fontana ).

 

Amizade e Gratidão

(Ofereço em memória a minha querida sogra: Olívia Carneiro Pires)

 

Sogras, dizem comumente,

querem dela longe estar.

Eu penso bem diferente:

- Benvinda seja a meu lar.

 

                  Minha sogra, minha amiga,

                  foste a Mãe que reencontrei.

                  O “falar”, reles intriga.

                  Sempre e sempre te amarei.

 

Encontrei na minha sogra,

conforto, amor e carinho

a felicidade logra:

- Na morte, saudade, espinho.

 

  

Tão Só

( Em memória a minha sogra-mãe: Olívia Carneiro Pires )

 

Palavras de angústia que perpetuam

no meu dorido ser cansado e triste.

No lúgubre cortejo tumultuam

recordações em que o sofrer persiste.

 

Tão só, lá no caixa desamparada,

semblante calmo, visão enternecida;

os cabelos, de neve banhados,

da sua longevidade, ó mãe querida!

 

Tão só, frase sutil e pequenina,

extravasa a alma, fere o coração.

Brota, treme a lágrima cristalina.

 

Geme, desliza e suaviza a aflição.

Tão só?! - Não creio! Á morada Divina,

seguir-lhe-ão atos nobres de sua missão.

 

 


A Gaivota

( a mim mesma, Elza Cunha Pires )

 
 
Eu sou a gaivota,

que voa singrando os mares,

em busca de bonança

que aplaque o coração

de revividas dores.

 

Eu sou a gaivota,

calma, inteligível,

que se banha qual criança,

plaina na imensidão,

pasma do imponderável!...

 

Eu sou a gaivota,

irisada, fugidia,

em busca da esperança

que ilumine a razão

no viver de seus dias.

 

Eu sou a gaivota,

sonhadora, esgotada,

que treme, que se cansa,

bate as asas em vão,

no Oceano ( das ilusões ) sepultadas.

 

 

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

ELZA , POETISA DE SÃO MATEUS


Meu Torrão Natal

( Cidade de São Mateus - Espírito Santo )

 
Envaidecida contemplo minha terra,

berço histórico de meus queridos Pais,

panorama divino, o amor meu olhar cerra,

abrindo-o, revejo cidade alta e cais.

 

As verdes margens de teu rio canto em verso,

do “S” de tuas curvas orgulhosa escrevo:

Ó “ Sétima maravilha do Universo “!

Ao grito do coração ainda me atrevo,

 

comovida fitar o esplendor do teu céu,

planícies orladas de esguias palmeiras,

teu rio, refletindo ao luar, da noiva o véu.

 

Recordo então, minhas ilusões primeiras...

Sinto no balouçar das palmeiras o “ - Adeus “!

A esta filha distante do seu - São Mateus.

 

 

Meu Torrão Natal ( modificação)

( Cidade de São Mateus - Espírito Santo )

 

De meus queridos Pais histórico berço,

feliz, minha terra envaidecida vejo.

Panorama divino, um sentir diverso,

casarões coloniais, cópia do Alentejo.

 
As verdes margens de teu rio canto em verso,

do “S” de tuas curvas escrever desejo:

Ó “ Sétima maravilha do Universo “!

Ao grito do coração, o ímpeto  o ensejo

 
comovida olhar o esplendor do teu céu,

planícies orladas de esguias palmeiras,

teu rio, refletindo ao luar da noiva o véu.

 

Recordo, então, minhas ilusões primeiras...

Sinto no balouçar das palmeiras o “ - Adeus “!

A esta filha distante do seu - São Mateus.

 

 
 
 
 



Na Fazenda Cachoeiro do Cravo, funcionou por muitas décadas um armazém que abastecia os caixeiros viajantes da região. Elza descreve esse comércio em uma anotação deixada no seu caderno: ... "Unida a nossa casa ficava a casa comercial de meu Pai, que além de fazendeiro era comerciante de alta escala. Casa comercial muito bem sortida desde as sedas e perfumes, até o mais simples tecido de algodão que se dava o nome de riscado. Além da secção de armarinho completo, pois se vendia chapéus e calçados, num balcão ao lado eram vendidos os secos e molhados com sortimento completo, sendo que a carne seca vinha do Rio Grande do Sul. Saborosíssima de tom vermelho rosada entremeada de gordura." ...