segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

RAZÕES DE ALEGRIA




Neste terceiro domingo do advento, quando as leituras, objeto de reflexão em todas as Celebrações Eucarísticas, nos convidam à alegria, alegramo-nos também pelo fato de ter-se oficializado em todo o mundo católico, a abertura do Ano Jubilar da Misericórdia. Ideal do Papa Francisco foi instalado no último dia 8 deste mês de dezembro, dia da Imaculada Conceição da Virgem Maria.


Foram abertas as portas santas, assim chamadas por representarem a passagem que faremos para o mundo da graça, desde que nos tenhamos dispostos à pratica de obras de misericórdia e nos reconciliemos mediante o respectivo sacramento. E teremos o perdão de todos os nossos pecados.

Jubileu na tradição hebraica era celebrado a cada cinquenta anos quando eram perdoadas dívidas e penas e libertados escravos. Entre os católicos passou a ser celebrado a cada vinte e cinco anos.

Os últimos Papas viram na ocorrência, oportunidade e utilidade de proceder-se a jubileus focalizando um tema necessário. O Papa Francisco escolheu a misericórdia. Neste sentido afirmou: "O perdão de Deus não pode ser negado a quem quer que seja e que esteja arrependido, sobretudo quando, com coração sincero, se aproxima do sacramento da confissão para obter a reconciliação com o Pai. [...] O perdão deve alcançar todos, pessoas doentes, idosas e sós, nem que seja através dos meios de comunicação social, todos podem alcançar a indulgência”. 

O Papa sabe como são grandes os danos causados pelo pecado que prolifera cada vez mais entre os homens. A cada dia perde-se a consciência da luz, a maldade brota de todo lado e ninguém se exclui.

Jesus já veio e já morreu pelos nossos pecados, mas não conservamos os benefícios da redenção por Ele operada, emporcalhados das pontas dos dedos dos pés aos fios de cabelo do alto da cabeça, carecemos de novo perdão, carecemos de reconciliação, que a misericórdia de Deus se derrame sobre nós.

O tempo é propício. Peçamos a Nossa Senhora que seja companhia das nossas jornadas, que aprendamos com seu exemplo a amar a Deus como convém, a entendermos sempre mais a importância de termos para com a criação e para com as criaturas todo carinho, dispensemos a todos, todo cuidado  e busquemos para todos o que estivermos buscando para nós mesmos.
Dá-nos, Senhor, um coração misericordioso!


                                                  Vitória,14/12/2015                                                                                                                 

Entenda o sentido do jubileu da misericórdia: 

http://noticias.cancaonova.com/entenda-o-significado-do-jubileu-da-misericordia/

domingo, 13 de dezembro de 2015

NENHUM INDIVIDUO É DETENTOR DO PODER.

Nenhum indivíduo é detentor do poder.

Sucessivamente à constatação de que o homem se afigura tal qual lobo em confronto com outro homem, Tomas Hobbes concluiu que “cada homem tinha direito a tudo” do que resultou um estado de guerra permanente entre eles. Todos queriam ao mesmo tempo tudo, apoderar-se de tudo. Acabaram por ser capazes de pagar qualquer preço, inclusive matar, para tanto.

Diante da impossibilidade de viver nessa condição, a saída foi buscar a dimensão social do sossego em favor da sobrevivência. Então, estabeleceram-se contratos com a transferência mútua de direitos, dando vez ao surgimento da sociedade civil, assim considerada, toda aquela “politicamente organizada que se orienta pelos preceitos de uma Constituição a qual dita o relacionamento entre governantes e governados”.

Nossa Constituição e outras esclarecem: “todo poder emana do povo”. E aqui, ao sentido de povo equivale uma entidade jurídica. Difere de Nação. Esta, mais forte, é uma comunidade de consciência, no dizer de Azambuja, unida por um sentimento complexo, indefinível e poderosíssimo: o Patriotismo!

Fiquemos com o sentido de povo como o adotou nossa Carta, ou seja, no sentido político. É formado de pessoas que convivem em determinado espaço físico sob um sistema de organização política e administrativa.

É dessa coletividade o poder que vai-se manifestar na forma legislativa, executiva e judiciária. Para sua efetivação, no primeiro e no segundo caso, o povo escolhe pelo voto secreto e universal aqueles que quer como seus representantes. Para o terceiro, inicialmente por meio de concurso de provas e títulos, depois através dos sufragados, quando se tratar de outras instâncias.

No papel, está tudo muito bem explicado, o contrato prevê tudo e não contempla surpresas. Mas implica em estudar, ao menos ler, refletir, coisas das quais tem quem não goste. E da ignorância, advêm desastres imensuráveis, com resultados impagáveis.

Ao menos se aprendesse com os fatos ou pelo subir das consequências. Segue-se indiferente ao ponto de acabar por ter a própria alma vendida ao inimigo, “a preço de banana” que não vai dar sequer para satisfazer necessidades primárias pessoais e da família.

Crê-se em discursos populistas. Ignoram-se as fortunas despendidas em campanhas políticas tocadas por terceiros, cuja cara não se vê e cujos bolsos se enchem. Insiste-se na não adoção de critérios nas escolhas em quem votar, deixando-se levar por promessas, não há sentido de bem comum e a própria visão de si é empobrecida.

É preciso educar, forçar o entendimento, despertar para o coletivo, para a dimensão social de uma única e de todas as vidas, sem o que nunca será.
  

Vitória, 7 de dezembo de 2015
                                                              01:25


Comentário para marlusse2010@gmail.com. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

E DEPOIS NOS AFLIGIMOS



São fatos dos quais já se falava há muitos anos. Trechos do pensamento de Cícero (107 a.C.), de Roosevelt (1882) e outros grandes reverenciados pela história, se afiguram por vezes atualíssimos, portanto, aplicados ao cenário de hoje, sem nenhuma necessidade de serem reescritos. Assim, se atesta que quase nada ou nada tem mudado, a não ser a degradação dos atingidos, sejam humanos ou não, a humilhação e o sofrimento que lhes são impostos, enfim, tudo o que diminui e até esquece os direitos fundamentais.

Se alguém disser que analfabeto não deve votar ou coisa semelhante, receberá uma avalanche de críticas de uma outra parte da sociedade que numa interpretação errônea do que são direitos coloca tudo no mesmo patamar e ainda que seja mero “militante de poltrona”, sente-se recompensado pela defesa feita. Tal qual acontece com os que são complacentes com o adultério, por exemplo, “que perdeu a conotação de proibição ética ou normativa, não obstante ficar de pé o questionamento sobre a relevância moral da fidelidade como propriedade do matrimônio autêntico”. (Luiz Feracine).

A indiferença com que a sociedade se comporta perante quase tudo que lhe diz respeito é verdadeiramente uma lástima. Entra neste detalhe, o ato de votar que se determina por muitas outras razões, muito pouco pela importância que tem, pelas consequências que traz.  O ato quase isolado dos estudantes de São Paulo, dos “gatos pingados” paranaenses, que agiram por antecipação, difere da facilidade com que a sociedade brasileira costuma aceitar as decisões dos executivos entre resignados, ou como melhor se pode dizer, em consequência de ignorância que dá pena.

Indubitavelmente, é muito preocupante e ergue questionamento sobre o analfabetismo funcional – dos que até podem ler, mas não entendem - que assola nosso país. Portanto não se pergunte, como é que se pôde fazer vista grossa para as denúncias de corrupção (havidas em outros tempos como inicialmente se disse), escancaradas desde que o PT assumiu o poder, do que são exemplos entre tantos, o enriquecimento do tal Lulinha, o empoderamento incrível de empresas que elegem maiorias no Congresso Nacional, os empréstimos do BNDES, mensalão, petrolão e muitos outros “ão”.

E a Nação entra em estado de choque na hora em que uma barreira de mineradora se rompe e projeta 35 milhões de metros cúbicos de rejeitos sobre a terra onde vivia uma gente simples ali arraigada por tantas razões, matando os seus, destruindo tudo o que tinha.

Não se dá suficiente atenção aos ditames legais, temos a melhor legislação ambiental do mundo, mas o poder sempre encontra uma forma de driblá-la para satisfazer a cobiça neoliberal, a que não tem em conta que o pensamento primeiro deve ser direcionado ao humano. Nunca me esqueço do desalento de Beatriz Abaurre, então presidente do Conselho Estadual de Cultura, referindo-se àquela decisão judicial que autorizou o desrespeito pela integridade do “Penedo” na Baia de Vitória, simplesmente afirmando: “não turvará a contemplação do Penedo nas tardes de domingo”.  Que fundamentação foi essa, quando se tratou do meio ambiente e mediante desprezo por um patrimônio cuja importância lhe imprimiu o caráter de tombado? Falou mais alto o interesse da empresa.

Urge que tomemos as rédeas do governo. Governo equivale a poder, poder não existe em uma pessoa, está na Nação, portanto no povo que dele investe governantes cujos  nomes são sufragados pelo voto universal e secreto em eleições democráticas.

Se o governo é ruim a responsabilidade é do povo, que vota em pessoas erradas.

É hora de amadurecermos, de aprendermos, de não sermos subservientes, de protagonizarmos nossa história. 

Vitória, 6 de dezembro de 2015. 16:16


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

ACREDITÁVAMOS POR RESPEITO


“Era assim mesmo, acreditávamos por respeito e confiança nos mais velhos, muito carinho e amor por nossos pais... Onde foram parar todos esses valores”?
Exatamente, estas são as palavras com as quais minha amiga, Ady Gomes Lencastre, comentou a crônica que escrevi ontem: “Crendices mateenses”. Citando várias, disse que acreditávamos sem perguntar, por exemplo, “por que beber leite e comer manga faz mal”?

Certamente, sentíamo-nos amadas. Jamais duvidamos do que ouvimos dos
lábios de mamãe. Era sempre dela a autoria das narrativas. Ainda que não enfatizássemos, é certo que ao nosso inconsciente não passava despercebido tudo que fazia, as diversas mulheres em que ela cotidianamente se desdobrava para que tivéssemos o essencial sempre a tempo e a hora. Ela nos defendia dos castigos de papai. Ela brigava se fosse preciso, com quem ousasse nos atingir.

E o carinho que dispensava a cada uma das irmãzinhas que nascia, até chegar a oitava. Ao irmãozinho, o sexto da constelação. Sem sentir nenhum ciúme, porque toda por quem era menor, não era menos em favor de quem já estava crescidinha. 

Uma vez fiz fogueira do montinho de lixo que o varredor deixou na rua. O carroceiro que recolhia, deu a maior bronca ao passar, só por isto. E vovó quis me bater. Sai correndo, entrava pela porta da frente, saia pela dos fundos, rodando pelo terreno vazio ao lado, vovó atrás. Ao passar por dentro de casa ouvia sua voz que me animava: corre! E claro, eu corria.  Acho que vovó se deu por vencida e quando voltei mais tarde, nada aconteceu.

Éramos mais inocentes? Claro que sim. Eu tinha perto de dez anos, quando Hilda nasceu. Estava conversando com umas coleguinhas, na frente da casa de Marivete. Nesse tempo, morávamos em Linhares. Marilene atacou a conversa da cegonha com repercussão entre todas nós, o que deixou aquele papo ainda mais animado.

Uma delas saiu-se com essa. “Tem vezes que é cegonha que traz o nenê, tem vezes que é uma garça”. Em seguida, afirmei convencidíssima: eu nasci com garça! Até hoje, não se apagou da minha lembrança o sorriso de Marilene, num rosto emoldurado por cabelos negros e lisos e que pegando nos meus, disse: “é por isto que seus cabelos são louros”...

Quem disse que não existia Papai Noel? Certa feita, começamos a escrever cartas para o bom velhinho. Mamãe assegurou que se colocássemos em determinado lugar, era dentro de casa mesmo, ele passaria para apanhar. Assim fizemos e ela dizia que era preciso que nós estivéssemos fora da casa. Claro que saíamos.

Passados alguns instantes, realmente, Papai Noel havia passado e levado as cartas. Encantadas com o prodígio, minhas irmãzinhas e eu redigimos outras cartas, colocávamos no local indicado por mamãe, saiamos, quando voltávamos, Papai Noel recolhera também essas outras.  

Nossa! Ficamos em estado de êxtase.

Pois é, a criança que fomos era assim. Não tínhamos discernimento aguçado por tantos apelos, nem sempre salutares, do mundo que não é mais aquele. Jogávamos peteca, cantávamos roda em noite de lua cheia, descalças, na rua de terra, sujava os pés de poeira... Nunca concluímos em verdade, onde foi parar a “bela condessa, língua de França, onde nasceu”.
Não tinha televisão. As estórias contadas à voz eram afazer típico das vovós. Se não tivesse tanta variedade não nos importava, ouvíamos as mesmas sem qualquer objeção.

Bem se vê que o mundo em torno do qual giravam nossos sonhos era pleno de mistérios, de figuras misteriosas nunca vistas, de personagens criados pela imaginação ou transmitido de geração após geração.

O lobisomem, gente, era o bicho da sexta-feira. Que aparecia, aparecia. Nunca o vi, mas quem disse que não o concebi: grande, feio, olhos pretos, peludo, dentes enormes, garras incríveis, aquela mão horrorosa de dedos longos demais. Estremecia só de pensar. 

À mãe só tratávamos de a senhora. A ela todo respeito, admiração, gratidão.
Experimente dizer que mentia, que não era o símbolo de tudo que de bom e melhor Deus nos podia dar. Ia dar briga, das feias.

Prosseguimos, uma vez sucessores, seremos sucedidos. E a vida continua, mesmo sem dar resposta ao que minha amiga perguntou: “Onde foram parar todos esses valores”?

Hum... foram substituídos por outros, não foram?


Vitória, 2 de dezembro de 2015 17:55


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

CRENDICES MATEENSES


Eu sei que são praticamente as mesmas, seja de onde quer que tenham vindo ou fato do qual se originaram. O certo é que, como eu as conheço, são crendices mateenses.

Sempre foram transmitidas, como se diz de pai ou mãe para filhos, de geração à geração e faziam parte dos próprios costumes. Contadas pelos pais então, revestiram-se de indesmentível veracidade. Eu que o diga. Devia ter lá pelos meus oito para nove anos de idade e vi minha mãe espantadíssima depois de uma noite em que o vento uivou com toda força. Disse que não havia dormido, porque o Saci assobiou toda a noite rodando a nossa casa.

Saci não era então este moleque travesso e simpático de quem as crianças não têm medo e até correm atrás, onde quer que ele apareça, imitando-lhe os pulos ou o que mais fizer.  De capuz, cachimbo do lado da boca e tudo.

Tudo para concluir muitos anos depois, que o que realmente acontecera foi o uivar do vento penetrando por gretas existentes em janelas de madeira, então sem suficiente vedação.

Ai, ai, quem me convenceria de tomar banho depois de uma refeição? Bastou que me tenham dito: faz mal, nunca me disseram o mal que faz. Nunca me disseram, nem eu perguntei.

Nem morta eu tomaria um copo de leite se tivesse comido abacaxi ou chupado uma manga, quanto mais, comeria uma banana à noite.

Coitado daquele nenê, filho de uma prima, com o qual me deparei com forte soluço. Dei um grito perto do “bichinho”. Tomou um susto tal – como foi meu propósito – que disparou a chorar convulsivamente, mais prejudicado que antes. Levar susto para acabar com soluço? E dai que quem mais se assustou fui eu.

Ai, ai, ai, encontrar um gato preto em dia de sexta-feira, quanto mais se for um 13, o azar vai bater na sua vida e fazer estrago. De jeito nenhum, deixe um chinelo ou sapato com a sola virada para cima, “sinal de morte certa para sua mãe”. Que horror!

Você trabalhou o dia todo, depois do jantar, era a hora mais propícia, aparecia aquela visita na sua casa, marido, mulher, os filhos e conversa, conversa... lá se vai chegando a meia noite... Rápido, pegue uma vassoura e coloque-a virada atrás de uma porta. É tiro e queda, os visitantes se despendem e vão-se.

O número sete ligado a maravilhas do mundo antigo e outras virtudes, é a conta do mentiroso. Agosto é o mês do desgosto, não se case nele, o casamento não vai vingar. Sua sorte pode ser ainda qualificada de má, se cantar na quaresma, pois vai virar mula-de-padre. Passar debaixo do arco-íris? nem pensar, vira mula-sem- cabeça. Corra e vá se benzer urgente, não antes sem jogar fora o espelho quebrado, pois lhe causará sete anos de mau agouro.

Não, por favor, não coloque sua bolsa no chão, seu dinheiro vai acabar. Coma sete sementes de romã e verá quão grande será sua posteridade. Ou ainda, achando uma ferradura, pegue-a, leve para casa, pregue um prego atrás da porta de entrada e a pendure, com ela chega a sorte. Igualmente, bons resultados podem ser obtidos, se você carregar um pé de coelho no bolso, ou encontrar um trevo de quatro folhas.

Chi, você comeu muito chocolate, a prova está no seu rosto cheio de espinhas. Não por favor, não revire os olhos porque está ventando e você pode ficar caolho. Garanto que você apontou estrela com o dedo, olha a berruga (com b mesmo) do seu dedo. Tá doida, criatura, não arranque esse fio de cabelo branco da sua cabeça, no lugar dele, vão nascer dois.

A enumeração iria ainda mais longe, por enquanto, fiquemos por aqui.

Não. Só mais uma para completar. Não sabe aquela figa? Constituída de uma mãozinha fechada com uma parte do braço? Nossa, usar uma era obter muita sorte. Em ouro, adornaram desde colos enormes de madames até peito de criancinhas. Pouca gente sabe sua verdade.

Diz-se que superstições e crendices foram trazidas pelo colonizador, pelo negro escravizado, enfim é tudo coisa importada... Incrustou-se na nossa cultura, fez parte da vida de muitos no papel de ingênuos ou dos que os manipulavam como é o caso do senhor de escravos que dizia a estes para não comer manga, porque tinham jantando (apenas) um copo de leite. Podiam “assaltar” as mangueiras, por exemplo. Ufa!

Acho que fiz um registro e se quem ler se sentir de qualquer forma ameaçado, não se perturbe, não me queira mal, o remédio é simples, basta bater três vezes com os dedos de sua mão fechada em qualquer madeira e diga: isola.

Boa sorte.


Vitória, 1° de dezembro de 2015 23:30

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

FACES MÚLTIPLAS DE VITÓRIA


Ali, exsurge a cúpula da imponente basílica de Santo Antônio, sonho do religioso que um dia deixou pátria, mãe e família, para trazer a estas terras a mensagem do Evangelho, o conhecido Pe. Mateus, um passionista. Aqui, os espigões das torres da catedral, de estilo neogótico, inspirado na Catedral de Colônia, Alemanha. Ali, entre duas palmeiras, modestamente, também se pode ver a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que vai testemunhando tempo a fora a existência daquelas irmandades, sonhadas primeiro como forma de libertação para  os escravos, ou em forma de  enlevo espiritual, permitir esquecer as agruras pelas quais cotidianamente passavam.

Por todos os lados, águas, às vezes menos, outras, mais revoltas, a certo ponto, cooperando generosamente com a vida existente em outros ecossistemas contíguos, marulham em acordes únicos produzindo sempre sinfonias inacabadas ou desenham na superfície, traços sempre novos que não permanecem, tocadas, momentaneamente se espalham e em seguida,  retornam ao conjunto inseparável. Beijam-lhe em rito permanente as extremidades, sem afetar-lhe as bordas.

Seu centro de geografia irregular é mesmo um sobe e desce. Experimente chegar nas imediações da Rua São Bento e prosseguir pela Graciano Neves. Lá, vire à direta, pode ser à esquerda, o que muito morador desconhece e se continua subindo, sem contudo chegar ao céu. Tem uma ladeirinha de inclinação respeitável se sua descida se der sobre rodas, pode sentir calafrio.

Por uma rua, você vai, por outra poderá vir, para chegar às extremidades. Se ao norte, dará de frente com o que foi o mais charmoso bairro da cidade, de casas que quase totalmente se foram, onde uma rua já não evoca a lembrança de Maria Antonieta Tatagiba, a poetisa de São Pedro de Itabapoana, onde se pegava um bonde que levava quem quisesse até a prainha no sopé do Convento da Penha – Vila Velha. Se ao sul, encontrará o bairro de Santo Antônio, onde está o grande dormitório no qual apesar de dor tirana, muitos ainda depõem os entes queridos que nos precedem, no aguardo do dia da eternidade.

Pela sua conformação ou aspecto com que aos olhos criativos de alguém se apresenta já recebeu diversos epítetos. Cidade presépio, visto que os morros que se mostram exuberantes por toda parte sempre guardaram inúmeros casebres que, à noite, iluminados pela luz elétrica sugeriam os arrabaldes de Belém onde Deus se fez homem como nós, ao nascer de uma Virgem que aceitou o projeto daquele em que depunha suas certezas e as consequências de uma gravidez tão pródiga, aos olhos de tantos, improvável. Cidade sol de um céu sempre azul. Pode ser este o mais próprio de todos, visto que ao sorriso do astro rei, como que raios se projetam nas águas do seu entorno e refletem por toda parte a magia da luz. Ilha do mel. Ilha sim, mas por que do mel um líquido doce que resulta do labor de numerosas colmeias. De onde vem o doce que sugeriu tal qualificativo? Talvez do resultado harmônico de tudo quanto sua beleza provoca em corações que adocicados só reste explodir em exclamativos ou dizeres de qualquer coisa.

O poeta a incrusta no seu verso inspirado, o compositor a amalgama nas notas melodiosas do seu canto, todos se apossam de ambos para externar o amor que lhe devotam.

E se é para falar de sabores capixabas, nem se olvide a frase mais célebre vazada da inspiração de Cacau Minijardim que definindo o que com peixes em toda parte se faz, saiu-se com esta: “moqueca só a capixaba, o resto é peixada”.

Todos usam coentro, cebolinha verde, uma cebola média, três dentes de alho, quatro tomates, pimenta malagueta, azeite de oliva, urucum e até azeite de dendê. Dispõem as postas de um badejo, dourado, outro bom peixe, mas o melhor mesmo de um robalo, em uma bela panela de barro, leva ao fogo e tal, mas se, enquanto vai cozinhando, não for recebendo ares de uma terra capixaba, a peixada pode até encher de água a boca, mas não será uma moqueca.

É uma cidade ilha esta Vitória! Pequenina, vestiu trajes de gente grande, abriga mais gente do que o recomendável para a tal qualidade de vida.
É berço de gentes de todo porte, de toda expressão, de qualquer sorte. É tudo e de tudo tem para quem a escolheu como morada. Viu-se constrangida pelo que já não detém, porque a modernidade roubou, ou em nome do desenvolvimento se fez.

Nem assim perdeu qualquer daqueles atributos, tal qual eternizada nos versos de Pedro Caetano: Cidade Sol, com o céu sempre azul / Tu és um sonho de luz norte a sul / Meu coração te namora e te quer / Tu és Vitória um sorriso de mulher / Do Espírito Santo, és a devoção / Mas para os olhos do mundo, és uma tentação / Milhões te adoram, e sem favor algum / Entre os milhões, eis aqui mais um.

                                
                           Marlusse Pestana Daher                                                                   21 de novembro de 2015  17:00

ETERNA PRIMEIRA DAMA

                     A ETERNA PRIMEIRA DAMA

                   Terezinha Abreu Ferreira de Rezende

A mulher foi criada por Deus para preencher e completar o mundo, dotada de sentidos, habilidades e uma magnífica complexidade, para representar alguns atributos do próprio Deus na Terra. Assim como o homem, não foi feita para estar sozinha, mas para constituir... Não apenas ao homem, e vice-versa, mas para completar a unidade de toda a Criação. Assim o é a “Nossa Eterna Primeira Dama”, Dona Terezinha Vieira de São José do Calçado. Com sua postura elegantíssima, desfila pelas ruas e ladeiras, todas as manhãs, como um pacto com Deus e a natureza das montanhas e das flores,  “desfilar” para completar a beleza da verde alma da cidade. 

Dona Terezinha Vieira, como todos a conhecem, nos seus oitenta e seis anos de plenitude e vitalidade, encarrega-se, ainda, dos cuidados e afazeres com as tarefas dos negócios e da casa com suas amigas servidoras. Ela seguia imponentemente a vida social e política do falecido marido Senhor José Vieira de Rezende, aquele que na política calçadense, foi o homem correto, justo, solidário, foi o político que durante décadas lutou pelas comunidades pobres, ajudando as pessoas fora e dentro da política.

Esteve, lindamente, ao seu lado por cinco vezes como vereador (mandatos em 1966-1970-1972-1976-1982) e uma vez prefeito, em 1988, com 2.750 votos pelo PTB, cargo que exerceu com amor e dignidade. Sendo ela a primeira dama, cuidou da creche “Tia Augusta”, cargo que, na época, não era renumerado. Porém, com sua elegância e bondade, nas manhãs ensolaradas com o perfume das rosas da Praça Pedro Vieira, subia as ladeiras, orgulhosa e sensível pela causa justa da colaboração com as crianças de sua “Calçado”. Ordenava carinhosamente as costureiras para a fabricação de roupinhas para as crianças e orientava as cozinheiras sobre o preparo dos alimentos. Nesta época, não existia profissionais tais como: assistentes sociais, nutricionistas e outros, como nos dias atuais. Estes ofícios eram designados às esposas dos prefeitos. Esta missão de Primeira Dama lhe fora confiado pelas mãos divinas, pois todos os ilustres calçadenses a têm com a Eterna Primeira Dama! 

Que nos perdoem todas as que, também, ocuparam o cargo ao lado de seus maridos eleitos, mas Dona Terezinha é um exemplo de beleza, elegância, jovialidade, e através de sua peculiar elegância e sensibilidade, que os munícipes a adotaram, como “Eterna” nos corações calçadenses. Ainda em 2000, esteve ao lado de seu marido como vice-prefeito eleito na gestão 2000/2004, com o prefeito Dr. Jefferson Spadarott Bullus.Com certeza o jovem prefeito,naquela época,aprendeu muito de política e de amor com o velho casal de amigos por quem  tem respeito como se fossem seus pais.

Dona Terezinha Abreu Ferreira de Rezende exerceu a bela profissão de Professora e foi no cargo de Diretora da Escola Jardim da Infância “Marieta Castro” CMEI, que se aposentou. Deixou, nesta escola, seu perfume de rosas, espalhado pelos corredores, pois foi através de seu pedido que aconteceu a primeira reforma da escola e a ela dedicou todo o tempo possível com amor e generosidade incomparável.

O casal “Zé Vieira e Dona Terezinha” está eternizado na rotina e cotidiano das pessoas. Eles, ritualmente, todos os dias, saiam de carro, pelas ruas, ambos com uma serenidade ímpar, saudando,ajudando e conversando com os munícipes. Ela, mesmo o acompanhando no antigo corcel bem vagaroso, nunca dispensou a caminhada a pé, sempre com sua elegância impecável e a postura jovial.

Dona Terezinha Vieira é o orgulho das mulheres e homens calçadenses e porque não dizer do Estado do Espírito Santo. Quando olhamos para a história das mulheres batalhadoras, reconhecemos grandes revoluções provocadas pela ação de mulheres fortemente frágeis, indissoluvelmente honestas, suavemente profundas, altruistamente compassivas e sensivelmente corajosas, na ordem do mundo, mas, principalmente no dia a dia, através dos braços, colo e sorriso das inúmeras mães, donas de casa, profissionais, empresárias, atletas, filósofas, poetisas, artistas, camponesas, professoras, escritoras, musicistas, teólogas, profetas, cozinheiras, crianças, tias, avós, sobrinhas, esposas, mártires, cientistas, doutoras, matriarcas, líderes, servas, viúvas... Delas, os nossos exemplos.

 Entre elas, Desfila “Terezinha Vieira” – contemporânea da vitalidade e amor, nas ladeiras da “Cidade Simpatia entre Montanhas e Flores”.

Para esta Virtuosa Senhora, que tornou São José do Calçado mais bela e um tanto mais amável, dedico este poema do escritor Francês Vitor Hugo:

“O homem é a mais elevada das criaturas;
A mulher é o mais sublime dos ideais.

O homem é o cérebro; A mulher é o coração.
O cérebro fabrica a luz;
O coração, o AMOR.
A luz fecunda,
O amor ressuscita.

O homem é forte pela razão; A mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence,
As lágrimas comovem.

O homem é capaz de todos os heroísmos; A mulher, de todos os martírios.
O heroísmo enobrece,
O martírio sublima.

O homem é um código; A mulher é um evangelho.
O código corrige;
O evangelho aperfeiçoa.

O homem é um templo; A mulher é o sacrário.
Ante o templo nos descobrimos;
Ante o sacrário nos ajoelhamos.

O homem pensa; A mulher sonha.
Pensar é ter, no crânio, uma larva;
Sonhar é ter, na fronte, uma auréola.

O homem é um oceano; A mulher é um lago.
O oceano tem a pérola que adorna;
O lago, a poesia que deslumbra.

O homem é a águia que voa; A mulher é o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço;
Cantar é conquistar a alma.

Enfim, o homem está colocado onde termina a terra;
A mulher, onde começa o céu.”


Bárbara Pérez
Escrevinhadora.