quinta-feira, 6 de junho de 2013

PARTES DE UM QUEBRA-CABEÇA

Heliana Mara Soares, 
do livro "Depois do silêncio.

Eu quero ouvir você falar do mundo, da vida,
alimentar-me do seu pensamento.
Sentar-me ao seu lado e me encher dos seus olhos,
me alegrar com seu sorriso.
... É que você é o complemento.

Eu quero ser sua alma para saber até onde estou.
Nós somos como quebra-cabeça de um brinquedo
que a vida ajuntou.
A vida o fez diferente, mas, como numa corrente,
os elos se encontram na volta que dá.

Como no quebra-cabeça deste brinquedo,
tudo é possível.
Partes desiguais se encaixaram.

Como um menino travesso, a vida continua a brincar.
Nós, desunidos, distantes, tentamos voltar:
tateando, procurando, quando juntos somos
a paz e a aflição.

Somos partes de um mesmo brinquedo:
de um quebra-cabeça.

Somos, de longe, tão diferentes.
Somos peças de um quebra-cabeça,
que nos separa a todo momento,
mas nos une num mesmo sentimento.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

MEIO AMBIENTE

UM DIA PARA O MEIO AMBIENTE

Faz-se sempre mais necessário repensar o meio ambiente. Um dia especial por isto lhe está consagrado! Trata-se do 5 de junho e se comemora com mais ou menos ênfase ou eventos em toda a terra.

O quanto o meio ambiente seja coisa nossa, certamente, ninguém mais pode pôr em dúvida. Reportando-nos a de onde vem, vamo-nos deparar com um Deus, aquele que é o Senhor, nosso Senhor, se ocupando com ele, criando-o com tal ternura, possível somente ao próprio Deus.

Assim é que, na abertura das Sagradas Escrituras, o primeiro dos seus livros, o Gênesis, registra: "Deus contemplou a sua obra e viu que tudo era bom. O Senhor Deus quando criou o homem, tinha plantado um jardim no Éden, ao lado do oriente e colocou o homem nele. O Senhor fez brotar da terra toda sorte de árvores de aspecto agradável e de frutos bons para comer, um rio saia do Éden para regar o jardim e dividia-se em seguida em quatro braços. O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim para o cultivar e guardar".

Tudo era bom, mas o homem caminhando no compasso do passo de um desenvolvimento a qualquer preço, onde ele mesmo pouco conta, porque o lucro passou a ser mais importante, foi devastando e cada vez mais comprometendo à própria qualidade de vida, via de conseqüência, sua saúde, outros bens próprios e igualmente valiosos.

Se por um lado, pode ser dito que em nenhum outro tempo, houve tanta riqueza e tanta fartura no mundo, por outro, é inegável que em nenhum outro tempo, houve tanta miséria, tanta degradação ambiental, tanta poluição e tanta desarmonia neste mesmo mundo, o meio em que o homem vive.

O resultado foi que a situação se tornou de tal forma gritante que finalmente começou-se a pensar numa saída que conciliasse desenvolvimento econômico e preservação ambiental incluindo o fim da pobreza na terra. "A humanidade de hoje tem a habilidade de desenvolver-se de uma forma sustentável, entretanto, é preciso garantir as necessidades do presente sem comprometer as habilidades das futuras gerações em satisfazer suas próprias necessidades" afirmaram os que escreveram a Agenda 21.

Em outras palavras, o que se pretende não é interromper o curso do desenvolvimento ou do progresso, mas sim, levá-lo a efeito de tal forma, que as futuras gerações possam caminhar sem artifícios, sem que estejam privadas de um ambiente capaz de assegurar-lhes uma vida conforme a sua natureza e respectivas necessidades. A este projeto se denominou desenvolvimento sustentável.

Em nosso país, adaptada aos ditames da atual Constituição, data de 1981, a Lei 6.938 que traça os rumos da Política Nacional do Meio Ambiente e que tem como "objetivo: a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana". Ela define o meio ambiente como "o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas". Como degradação da qualidade ambiental diz que é "a alteração adversa das características do meio ambiente" e como poluição, "a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que de forma direta ou indireta, prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; afetem desfavoravelmente a biota; afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos".
Poluidor é "a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de degradação ambiental". Finalmente, são recursos ambientais: "a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo e os elementos da biosfera".

Neste meio, está o homem, agente reflexivo de suas ações. Ao mesmo tempo que age, sofre em bem ou em mal, os resultados do que faz.

Meio ambiente inclui a cidade com suas construções e sua memória.
Daí é que, quem de forma insensível causar desarmonia a ordem natural do ambiente é passível de ser repreendido. Não é que a legislação específica sobre cada um dos integrantes desse grande ecossistema, já não previsse, como é caso do código florestal, do de proteção a fauna e a flora, etc. Já eram previstas reprimendas equivalentes a toda conduta delitiva, mas foi com a festejada Lei 9605/98, a lei da natureza, que os crimes ambientais passaram a ter mais peso, até pela qualificação como crime e não mera contravenção, além da expressão do valor das multas que prevê. Sem se esquecer que estabeleceu como se reprime, quando a criminosa é uma pessoa jurídica.

E por falar em ecossistema, eu sempre penso que se as pessoas parassem e refletissem sobre o que é, não só cresceria seu respeito pelo meio ambiente como passaria a ter por ele mais que um simples olhar de contemplação sobre a beleza da qual é dotado. Haveria nada menos que reverenciá-lo. Certamente, o mínimo gesto que o pudesse afetar seria reprimido, ao menos muito pensado. É dolosa a ação que o agride.

São hediondos os crimes dolosos contra a vida. É hedionda a conduta de quem não se compraz com o meio ambiente.

Um ecossistema é aquele meio, o mar, o mangue, a floresta, onde os seres que o habitam se integram, se comunicam, repartem o que são com todos, repartem não apenas o que os circunda, mas a própria essência, o próprio ser; não vivem apenas por si, nem simplesmente deixam os outros viverem, mas asseguram reciprocamente vida em comum, vida em plenitude, vida em potencial. E não obstante as próprias diferenças, não importa que este seja lama, enquanto aquele é crustáceo ou molusco; um é água o outro é raiz. A força do ar e a luz do sol também vão-lhes ao encontro e quando são plenitude servem ao homem indistintamente, mesmo àquele que o molesta.

Se quando olhas um ventre te enches de ternura, porque ali um novo ser se faz, quando olhares o ambiente lembra-te que aquela vida vai depender dele para viver em condições saudáveis. Se não tens coragem de agredi-lo porque sabes que tua mão perturbaria a paz de quem nele se encontra, poderia afetar seu vir a ser, antecipar uma hora que não é aquela da maturidade da vida, do vir à luz, jamais também a uses de forma a agredir o meio ambiente, em outro aspecto, ele tem igual sensibilidade; tua vida depende dele, em proporção e intensidade muito maior do quanto com toda tua inteligência, por mais brilhante que seja, possas imaginar.

A QUESTÃO É A CASA

Sim, a casa! Aquele "eco" que vem do grego "oikos" componente da palavra ecologia, quer dizer casa. Você sabia?

A preocupação com a nossa casa fez surgir uma consciência mundial da necessidade de todos os povos contribuírem na redução da emissão na atmosfera, de gás carbônico considerado o principal causador do "efeito estufa", que ameaça o aquecimento do planeta em até três graus Celsius, em cem anos, derretendo geleiras, causando alterações climáticas, repercutindo em ainda pior qualidade de vida dos que no futuro viverão.

Buscando amenizar, realizou-se em Kyoto, no Japão, (1997), uma conferência, no curso da qual ficou definido que os países mais desenvolvidos, líderes, por ironia, na emissão desse gás, deveriam diligenciar para que entre 2008 e 2012 tal emissão esteja reduzida em uma média global de 5,2%. Feito o cálculo do investimento respectivo resultou que são necessários bilhões e mais bilhões de dólares.

Surgiu portanto um outro questionamento, quem vai pagar a conta? E este foi, sem resultado satisfatório e sem unanimidade na conclusão, objeto da Conferência de Haia, encerrada na sexta-feira da semana que passou. O certo é que tem que ser feito. O desenvolvimento que já não se concebe sem o qualificativo sustentável, impõe o encontro dos meios, é problema de inadiável solução. E para dar continuidade ao debate, a VIIª Conferência se realizará no Marrocos, já no próximo ano.

O Brasil foi representado por Fábio Feldman, secretário executivo do "Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas". Por Luciana (16) de Brasília e por Martim (15) de Pelotas. É consolante constatar que as questões ambientais estão em pauta e são capazes de reunir gente do mundo inteiro e de toda idade.

O meio ambiente fascina! Carecemos de vontade inquebrantável, que impeça o desrespeito a bem que depois de ferido, nunca mais será o mesmo, é o caso do "Penedo", na Baía de Vitória. E não foi por falta de fazer ver "que um filho teu não foge a luta", porque sabemos dos esforços ingentes envidados por Beatriz Abaurre e seus colegas do Conselho Estadual de Cultura, quando ela estava presidente, no sentido de impedir. Inclusive, por se tratar de bem tombado. Quem sabe a ameaça que representa para o ecossistema mar, em Aracruz, a implantação Thotam? Está na Justiça, esperamos que ela não seja tão cega!

Notícias recentes nos chegam de que se pretende melhor proteger o Parque Nacional do Caparaó, o que se traduz no aumento de sua área de entorno. Embora devidamente indenizada, significa destruição de lavouras de café. E ai coloco uma questão: tudo bem, proteger o meio ambiente é uma aspiração humana e justa, aquela beleza merece, mas não consigo entender, que a solução preservar, passe exatamente por arrancar o que com muito trabalho alguém plantou.


Há muito mais meio ambiente sendo degradado por aqui, esperando solução muito mais urgente do que o entorno de Caparaó e não se diga que faltam recursos, pois, pelo visto, quando a vontade é forte, o dinheiro sempre aparece. Logo, não é por falta de recurso que não se faz.

 


terça-feira, 4 de junho de 2013

DOIS POEMAS DE ZEZINHO


                               José - Zezinho - da Silva Casanova é poeta maranhense.   Há 270 dias, passou por uma grande dor, mas continua inteiro na sua poesia.
Dia 7 (junho) será lançada “AUTORES MARANHENSES”, antologia da qual faz parte. Foi apresentado pela amiga comum Rosenita Cantanhede.

 


POEMARANHA

 

Teço

De maneira vã

Minha teia de desejos

Na esperança de fisgar teus seios

A pulsar nos teus segredos.

 

Vejo

De maneira sã

Minha insana teoria do amar

Na incerteza que me tortura a alma

A desafinar tua canção.

 

Teço

De maneira fã

O emaranhado de contradições

Do tríplice aspecto da vida

Amar...viver... e ser (in)... feliz.

AUTOR: ZEZINHO CASANOVA

 

QUERENÇA

Busco em vão tua presença
na brisa leve em sutileza
caixa preta de minha querença
dos segredos de tua beleza
desejos esculpidos à nobre mão
meus desejos íntimos de saudade
ponto de contato da solidão
de evolução pra outra realidade
felicidade, livre, leva-me à mutação
onde pasmo, dominado e mudo
tento controlar a transformação
superar, cá dentro, o sentimento em estudo
tua tirania tende jogar ao mar
ausência causar, do direito de amar.



Sugiro que leiam após a leitura do segundo poema
 a primeira palavra de cada verso.

 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

E SERÁ QUE ESSA LEI PEGA

Marzia Figueira, (24/07/1937-16/12/2000) jornalista, escritora, membro da Academia Feminina Espirito-santense de Letras.

Deus é pai – além de Filho e Espírito Santo, amém. Mas não é que o congresso, até que enfim, faz algo de saudável dentro do caos que é a falida saúde brasileira?  Os homi aprovaram  a lei    contra o fumo! Tá proibido fumar em tudo quanto é recinto fechado. Breve, com a graça divina influindo e contribuindo mais uma vez, o cigarro vai ser vetado também em área aberta... Maravilha! O Brasil, devagar e sempre como sempre, ainda chaga a Primeiro Mundo, pode crer.

Vai ser proibido fumar em restaurantes, por exemplo. Um grande suspiro de alívio, além de uma profunda e revigorante inspiração de ar puro, saúda a medida. Sim, porque, finalmente, acaba a falta de educação geral e generalizada: enquanto os mais lentos ainda não terminaram sua refeição à mesa, os mais apressadinho qu, aliás comem cru, ou queimam a língua porque comem fervendo, sacam suas armas . Isqueiro e cigarro na mão, atacam sem dó nem pena – ou respeito.

Também vai ser proibido fumar em avião. Acaba a inútil escolha por poltronas para fumantes e não-fumante. Inútil porque não dá para separar a fumaça, nem prender a fumaça., nem cercar a fumaça, a fim de impedir que ela se evole e atinja as narinas mais sensíveis ao lado ou em frente.... Nos shoppings a farra dos fumantes também vai acabar – arrrááá! E nos ônibus municipais e interestaduais idem ibidem. O ilustre passageiro ao seu lado não corre mais o risco de morrer de bronquite. Salvo não pelo velho Rum Creosotado mas pela lei... Se é que essa lei pega no Brasil. No que pegar, todo mundo de mente e corpo sãos vai poder trafegar em paz e sossego, longe da prejudicial fumacinha e do odo  indefectível, seja de charuto, cachimbo, cigarrilha, cigarro, mata rato, o escambau.

Os fabricantes devem estar esperneando e tomando medida  gástricas, como diria a Magda de Marisa Orth, impagável no programa da TV, Sai de Baixo, e mexendo todos os pauzinho disponíveis para não permitir que essa lei vigore. Mas não vai adiantar. Porque mesmo que uma marca famosa de cigarro veicule por aí que fumar significa free, não existe ninguém mais escravo que um fumante em exercício de sua deprimente atividade. Como disse há muitos anos o garoto que venceu com sua frase o concurso lançado pela Liga contra a Tuberculoso sobre o fumo: “Não fume ao meu lado, morra sozinho”. Ou o outro, 4° lugar, que aniquilou com os fumantes, viciados, assumidos: “Adulto também chupa chupeta: o cigarro” ... Que vexame. Vade retro! Chupetas fora! Afinal, vocês são Homo sapiens ou Pés de coentro?!... Pois recolham-se a sua humilhante condição de tempero (argh!), encerrem-se em sua autoclausura e deem vazão a sua patética escravidão.

Enquanto isso, a gente canta a liberdade. Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós – o povo eleito e autossuficiente que não depende de um rolinho de papel recheado com veneno para ser feliz.

Marzia Figueira em Os Inocentes, p. 108

domingo, 2 de junho de 2013

MINHA GRÃ-MESTRA


 

Weber José Vargas Müller é membro                                                                    
das Academias Marataizense de Letras, Letras e Cultura e Guaçuí,                                   da CAPAZZ- Confraria de Artistas e Poetas pela PAZ,                   
 Membro da Academia de Letras de G.

Ser filho de professora é muito bom, principalmente no meu caso, em que fui aluno da minha mãe, por dois anos consecutivos e pude estudar com todos os professores e professoras que ela mesma escolhia e me matriculava na turma 
Weber Müller


em que percebia que eu me  adaptaria aos métodos e prática pedagógica dos mestres. Pois bem, assim o fez durante toda a minha vida acadêmica  no ensino fundamental, onde pude experimentar maravilhosos saberes e vivências pedagógicas de verdadeiros  educadores, que me  motivaram a alçar voos mais altos  e ilustraram as páginas da minha vida com magias, palavras, conhecimentos, afetos, dedicação e vocação pelo magistério.


Exatamente no ano de 1980, ainda aluno na Escola de 1º. Grau “Antonio Carneiro Ribeiro”- Colégio Estadual, deparei-me com inúmeros professores, dedicados, zelosos, porém fora amedrontado pelos alunos mais velhos e de séries mais adiantadas de que eu não gostaria de estudar com uma determinada professora porque ela era  brava demais, exigente, severa, rígida e eu iria passar muito aperto. O desafio estava lançado. Minha reação inicial fora a de pedir à minha mãe para me transferir de sala, querendo logo fugir dessa “cascavel”, procurando o caminho mais fácil, quer seja , o de livrar-me e estudar com um professor menos exigente. Minha mãe, com sua sabedoria magistral, tino de educadora  e astuta, foi logo dizendo-me que nem sempre o caminho mais fácil é o melhor. Advertiu-me e desafiou-me a enfrentar a professora, procurando me empenhar , estudar e mostrar a ela que quando nós queremos, nós podemos e conseguimos  vislumbrar sucesso, independente de quem seja o nosso mestre. Assim o fiz. Fiquei, a contragosto, naquela turma  e fui, pouco a pouco, me encantando e  fascinando pela tão temível professora de Língua Portuguesa.  Não perdia uma palavra, um gesto, um detalhe sequer de suas aulas. Tomava nota de tudo o que ela falava, registrava seus comentários, fazia todas as tarefas, copiava tudo o que ela escrevia e passava como exemplos no quadro-negro e fui, a cada dia, me aliando à mestra, desmistificando essa figura horrenda que havia sido formada em minha memória. Construí no meu coração uma nova imagem: o de uma mulher rígida, porém doce. Uma imagem de uma mulher brava e ao mesmo tempo carinhosa. A figura de uma professora  que destruía o aluno, foi posta por terra e ergui uma imagem de uma professora  construtora de castelos e admiradora de todos os talentos edificados por ela. Essa imagem foi me proporcionando o amor pelas letras e pela sua maestria  como educadora, terna e eterna em minha vida. Recordo-me de suas aulas de gramática, à luz dos ensinamentos de Domingos Paschoal Cegalla, onde viajava por horas em suas lições e socialização de conhecimentos  incorporados por sua vivência em sala de aula. Conclusão: aquela cascavel não era venenosa, nem tampouco ameaçadora. Era sim uma  ourives que lapidou pedras brutas e nos transformou em joias de pessoas, homens responsáveis, comprometidos e verdadeiros cidadãos. Seus saberes  iam além dos parâmetros curriculares exigidos. Ela não se prendia a métodos e paradigmas, ensinava-nos a ser estudantes, pois sempre dizia que essa era a nossa profissão e devíamos exercê-la com dedicação e compromisso. Jamais esquecerei de uma grande lição deixada por ela. Numa de suas aulas, de interpretação de texto, em que líamos silenciosamente o texto e depois era feita uma leitura por vozes alternadas. Durante a leitura silenciosa, deparei-me com uma palavra desconhecida e perguntei a ela o significado e a professora , sem titubear, respondeu-me. Prossegui a leitura e novamente outro vocábulo tornou-se pedra no meu caminho. Perguntei à professora o significado e percebi que aquilo começara a tirá-la do sério , mas mesmo assim respondeu-me, com exatidão. Ao dar sequência à leitura, mais uma vez me vi obstaculizado por uma palavra desconhecida , não me hesitei e fui logo perguntando:

- Professora, o que significa Grão-mestre? Ela  retirou os óculos, olhou-me com uma expressão severa , respondeu-me o significado . Aquele olhar  tinha a intencionalidade de fazer-me parar de perguntar e apenas fazer a leitura silenciosa. Mas eu não poderia continuar a ler, se eu não soubesse o significado de vocábulos, pois assim não conseguiria depreender do texto a mensagem desejada e, certamente, não haveria comunicação alguma.

Como aluno crítico e sempre questionador que fui, atrevi-me a perguntar à professora o feminino de grão-mestre, porque fiquei pensando:  a professora não pode ser grão-mestre....O que ela será?

Não imaginem vocês a reação da professora.... Respondeu-me: Grã-mestra!!!!   E disse-me mais: de hoje em diante, nunca mais pergunte a professor algum o significado de uma palavra. Todas as vezes que você se deparar com algum verbete que desconheça, consulte o dicionário. Se não encontrar o que deseja, consulte alguém mais experiente, mais sábio.

A resposta veio-me à ponta da língua imediatamente:

- É o que tenho feito, Grã-Mestra, desde o início da aula!!!!!



Essa Grã-Mestra, é minha querida, amada, entusiasta e incentivadora Comendadora Ivanete da Silva Glória Dalmácio, ou, essencialmente,   IVANETE GLÓRIA!
Esta crônica, valeu ao autor o titulo de Melhor Cronista, pela Academia de Goiás, com a outorga da Comenda Palma Dourada.

sábado, 1 de junho de 2013

HONESTIDADE, CADÊ VOCÊ?


A palavra Honra resulta do terno latino Honor. Daí o ser humano honrado
dever ser puro, fiel, leal, digno, distinto, decente, consciencioso, sério, respeitoso, correto, precavido, escrupuloso, autêntico, verdadeiro, íntegro, enfim, probo. De igual modo, a palavra Honestidade origina-se do Latim: Honestas. A raiz de Honestidade é Honor. Honesto, por seu turno, é todo aquele que nutre lealdade, fidelidade, respeito, franqueza, decoro, responsabilidade, dignidade, decência, retidão, seriedade, correção, consciência, autenticidade, integridade, enfim, probidade. Daí a palavra tão em voga, hoje, especialmente pelo fato de reinar, no no País, certa liberdade de expressão: (im)probidade.

A meu ver, a Honestidade é uma virtude de natureza moral e cívica, em cujo território deve habitar o bom caráter. O caráter encerra, sempre, um conjunto de atributos, que classificam as pessoas. Se o conjunto de atributos corresponder a valores éticos e morais, seus portadores serão pessoas honradas, honestas.Se, ao contrário, tal conjunto encartar atributos aéticos e amorais, seus portadores serão, por óbvio, pessoas desonradas, desonestas, quer estejam na Política, quer estejam fora dela (em qualquer segmento da Sociedade), pois, quem perde o caráter, perde tudo. Tanto a Honestidade quanto a Desonestidade se revelam através da conduta que externamos diuturnamente. Se formos desonestos, praticaremos, por óbvio, condutas ilegais, imorais, injustas, desumanas. Ao contrário, se formos honestos, praticaremos condutas legais, éticas, justas e humanas.

Vejamos, primeiro, algumas expressões que traduzem o bom caráter, que, por conseguinte, deságuam na Honestidade: respeito ao direito alheio, que traduz a paz; transparência na conduta, que permite visibilidade ampla; humanismo na ação etc. etc. Em contrapartida, oportuno é também transcrevermos, aqui, o pensamento de Greta Garbo (1905-1990), atriz sueca, consistente no que segue: “Cada um de nós vive a sua vida apenas uma vez, se formos honestos, viver uma vez é suficiente.”

Vejamos, agora, algumas expressões corriqueiras, que podem encartar mal caráter, que deságuam na Desonestidade: “dá-se um jeitinho”; “quebra-se o galho”; “falta-lhe jogo de cintura”; “falta de esperteza”; deve ter vivacidade”, “está escolado”, “preciso de uma oportunidade”; em resumo: a adoção da chamada “Lei de Gérson”, que regula a conduta daqueles que querem levar vantagem em tudo. Por oportuno e conveniente, registre-se, aqui, que, dificilmente, os desonestos confessam que o são. Ao contrário, posam, sempre, como honestíssimos. Acho que, por esta razão, Juvenal (60-127 d. C.), poeta romano, teria afirmado: “A honestidade é elogiada por todos, mas morre de frio”. Abraham Lincoln (1809-1865), ex-Presidente dos Estrados Unidos da América do Norte, certa feita, assim se pronunciou sobre o ser humano: “Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder.”

John Emerick Edward Dalberg (1834-1902), historiador britânico, disse: “O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente”. Daí a importância, não só de um regime democrático, mas, também, de uma oposição forte e atuante, para, sobretudo, legislar e fiscalizar, com eficiência e êxito, todos os atos que praticar a situação. A respeito dos desmandos e da corrupção que, há 150 anos, já corroíam as entranhas da Sociedade brasileira, sentenciara o saudoso Rui Barbosa:
“De tanto ver triunfar as nulidades,
De tanto ver prosperar a desonra,
De tanto ver agigantar-se os poderes nas mãos dos maus,
O homem chega a desanimar da virtude,
Rir-se da honra e ter vergonha de ser HONESTO.”

É de se perguntar: honestidade, cadê você? Onde está que não responde?
Concluindo, ouso dizer: não basta sermos honestos e dizermos que somos honesto; é preciso combatermos a desonestidade, sob pena de sermos coniventes com todos os erros (atos aéticos, imorais e ilícitos), que, com muita frequência, ocorrem, à luz do dia, em torno de nós.

Salvador Bonomo.
Ex-Deputado Estadual e Promotor de Justiça aposentado.

O GUERREIRO


Memórias de um Soldado

Bárbara Perez, poetisa, fundadora e presidente da Academia Marataizense de Letras, Correspondente da Academia Cachoeirense de Letras, em breve Acadêmica ACLAV. 
Guerreira e defensora dos ideais literários e poéticos.

Bárbara, à  direita.
       Estou deitado no coração de uma mulher e pelos seus ouvidos apurados em insígnias poéticas, vou ditando palavras em regras assimiladas, postagens de uma missão e pela sua boca transbordante em sons ictéricos, vou murmurando entre lágrimas e dores a minha velha história... Éramos mais de 700 soldados convocados para uma missão de rigoroso treinamento de guerra na Mata Atlântica. Carregávamos nos corações o fardo pesado da saudade, deixada em marcas de cicatrizes por mãos calejadas dos fuzis empinados no corpo da mulher amada. O pesado fardo das mochilas com nossos artefatos, comidas, rifles e bombas não eram tão pesadas quanto à dor da saudade (esse sentimento estilhaçado pelo bombardeio dos nossos corações apaixonados).

     Nossa missão seguiu até certo trecho do caminho em vários caminhões camuflados, depois, dando continuidade ao comando ordenado, seguíamos a pé, embrenhados em cerrado bucólico, na missão de treinamentos ostensivos de guerra, em sentinelas e sentidos, obedientes, submissos aos ofícios determinados.     Era a nossa missão: ofícios de comandos rigorosos e os nossos destinos de homens. Quais são as regras impostas, imposições e regimes altamente treinados, se o coração do soldado camuflado segue uma ética e moral que assimilam a sua conduta e disciplina pessoal? Um intercâmbio entre a missão militar e o homem vulnerável, porém disciplinado!

    Ó, Meu Deus! Era até bonito de se ver, mais de 700 soldados seguindo marcha reta, cantando o Hino da Marinha do Brasil: “Soldados da Liberdade”. Adentramos cada vez mais por entre os cerrados bucólicos;  e  ali, longas noites nos foram companhias; perdíamos a noção de tempo, de frações, de minutos... Mas, que tirania a nossa pensarmos em tais detalhes fugazes, se a determinação seria alcançada, a missão cumprida. Venceríamos o tempo, a fome, a solidão covarde e a saudade da mulher amada!  Até nesses momentos rigorosos, o coração guerreiro camuflado, eleva ao infinito esverdeado uma prece de apoio militar. Que importavam os uivos assustadores, os sons extravagantes desconhecidos, típicos da mata, as longas noites de perseguições aos inimigos de uma guerra simulada nas emboscadas frias e calculistas?

   Foram dias intermináveis, onde o silêncio da Mata Atlântica era açoitado pelos tiros e bombas, fazendo retomar o coração selvagem do soldado apaixonado. O homem em confronto com todas as abstinências carnais, deparando entre a missão e a natureza: trava-se um duelo pessoal!

   Quem se importaria com os soldados picados e estraçalhados pelos bichos peçonhentos, olhos vermelhos vencidos pelo cansaço de longas noites em vigílias?

    Que importâncias dariam aos nossos corpos emagrecidos, desfalecidos, perseguidos pela fome na missão determinada? Na hora do “picado”, já também ficando escasso, e quantas vezes em nosso “engodo”, bichos voadores nos faziam companhia invadindo a panela de barro encardido, exposta no chão nu... Mas, para que lamentações indignadas, se nesse momento sofrido, mais parecia uma exuberância destemida dos soldados camuflados?

   E eu a reclamar de coisas tão insignificantes... Se todos esses momentos se transformariam num cenário ao longo dos anos, a ser contado pelos soldados nas mais diversas formas! Foram mais de cem dias embrenhados pela Mata Atlântica... E então, para que falar da malvada solidão, se a mulher amada me espera no parapeito da janela rústica, onde em pose de rainha aguarda o seu soldado guerreiro, vindo de uma missão cumprida?

    O soldado retorna. Feito um bicho feroz, portão adentra, buscando sentir no faro os cheiros domésticos tão peculiares, mas o que encontrou foi um mórbido silêncio fúnebre.

     O cão com os olhos tristonhos não fazia algazarras; o viveiro repleto de canários estava silencioso; a janela majestosa estava fechada e a rainha de olhos brilhantes e festivos não repete a mesma cena, pois havia um vazio em toda a casa.

   O soldado mostra-se estático... Receoso... Alarmado! O coração selvagem dispara os batimentos, alterando-lhe a cor e o pulsar das veias acelerado pelo frenesi do corpo estremecido...

   O cão tristonho já sabia de sua trágica história, os canários, também cúmplices da tristeza, emudeceram e a casa aquietava... Em cada cômodo a dor e a solidão seriam plágios e réplicas de uma saudade interminável, onde o destino em imensuráveis atropelos escondia do homem a sua própria covardia!

   O soldado ao voltar, recebeu a trágica notícia do precoce falecimento de sua amada companheira, levando consigo no abdômen pulsante, um feto em composição de uma vida! E perdeu-se nessas duas vidas, a sua própria vida!

   O soldado fora condecorado nessa missão e em tantas outras também, sendo sempre o melhor dos melhores.

   As medalhas e os troféus estão empoeirados num canto qualquer da casa e representam a história de um guerreiro que até hoje se mantém de pé e lutando.

    Às vezes, quando estendido ao longo de sua solidão, duas lágrimas grandes tiradas da alma vêm lavar seu rosto trêmulo, coberto de rugas, consequências do tempo...

    E, nesse momento perverso, sofrido, ele murmura por entre as duas lágrimas:

      - O soldado perde a sua própria vida, mas não perde uma batalha!

 Dedicado ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil.