sexta-feira, 6 de maio de 2011

ORA POR QUÊ?

Quando ele nasceu já vigia em toda a plenitude a Carta Magna que proclamou o Brasil como um “Estado Democrático de direito” que tem como “fundamento entre outros: a dignidade da pessoa humana”.
Do seu artigo 227 consta: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, a educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.
Uma prescrição  tão clara que dispensa explicações ou comentários. Mas não é cumprida. Às famílias faltam meios, possibilidades, até porque apesar de surgidas sob a égide da mesma Constituição, quando crianças, seus personagens principais não foram preparados para a missão futura, surgiram “em qualquer de repente” (Zezinho – Oração pela Família) e povoam a terra despidas de capacidade e recursos indispensáveis à preservação da  dignidade humana.
O Estado, cuja mão pesada alveja sem cessar, o bolso do contribuinte, se omite em altura e profundidade, em largura e extensão. E o Brasil continua esperando que cada um cumpra o seu dever.
“14 anos, 13 homicídios, por quê?” Ora porque, porque não estavam onde deviam estar as mãos que o deviam proteger, os braços que o deviam acolher, a palavra que o devia iluminar, a atenção particular que sua particular condição requeria, a educação de qualidade que ele merecia, a vida, o alimento o lazer, a profissionalização a cultura, tudo a que constitucionalmente tem direito e lhe foi negado.
Ao invés, a negligência vedada, grassou. A tal ponto, que desde os 12 anos (e por isto foi-lhe reconhecido ser um trabalhador) ele trabalhou no pesado, com burro e carroça, fazendo transporte rústico e ganhando alguma coisa sim, mas não a ponto de desviá-lo do encantamento exercido pela “fortuna do tráfico” que se projeta sobre muitos como ele, verdadeira coação moral irresistível, que é atenuante de pena (c, III, art 65 CPB). Devem ser punidos os coatores. Quem são??? E meu pensamento voa para o episódio da prostituta que fariseus queriam apedrejar. Ela se aproxima de Jesus que depois de escrever no chão (os pecados da turba?), se ergue e autoriza: “quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”. “Não ficou um para contar história”! Quanta gente atirando pedras e condenando o menino. É preciso ter para com ele, os mesmos sentimentos de misericórdia que o Mestre tem para com cada um de nós, ao menos isto.
As questões que afligem a sociedade é assunto que diz respeito a todos. Omissão é o mesmo que negligência da qual o texto constitucional fala.
Há muita co-autoria nos 13 homicídios noticiados, entre muita gente que ainda não está sendo incluída, talvez os que mais condenam, mais se omitem e menos contribuem para as mudanças que urgem!

domingo, 1 de maio de 2011

GRANDE DIA

 1º DE MAIO, além de representar o primeiro dia do mês de Maria é também DIA DO TRABALHO comemorado no mundo inteiro. A partir deste ano de 2011, uma comemoração se acrescenta à data: Hoje, na cidade eterna de Roma foi beatificado de grande memória, o Papa João Paulo II.

Nós o cantamos como João de Deus. Sua imagem se foi progressivamente revelando ao mundo, com seu sorriso, com seu carisma, com sua devoção à Igreja amada, com sua absoluta consciência do papel que lhe estava reservado entregou-se ao amor, ao desamor, às críticas, aos aplausos, aos gestos de carinho, às homenagens, aos apupos, de quantos se quiseram manifestar em relação a ele. Foi acolhedor, amigo, reconhecido do valor de cada um e de todos, haja vista o número de pessoas tornadas santas por sua decisão e vontade, mediante o poder que lhe vinha do alto. Percorreu o mundo levando a Boa Nova de Jesus, sem se importar em desagradar.  Tratou com Chefes de Governo e de Estado, civis e religiosos, crianças, jovens e adultos, gente de qualquer condição.
Foi um grande Papa!
Ficou na lembrança da humanidade inteira e agora reconhecido como Beato vai continuar testemunhando ao mundo quanto vale a dedicação inteira de uma vida ao serviço de Deus.
Em seus escritos abordou todos os assuntos que dizem respeito aos homens, analisando, se posicionando, instruindo. Sobre o trabalho escreveu também uma Encíclica. Não é preciso procurar muito para transcrever um pequeno trecho que seja bem ilustrativo do que se diz, onde quer que se deseje fazê-lo. Eis:
O homem deve submeter a terra, deve dominá-la, porque, como “imagem de Deus”, é uma pessoa; isto é, um ser dotado de subjetividade, capaz de agir de maneira programada e racional, capaz de decidir de si mesmo e tendente a realizar-se a si mesmo. É como pessoa, pois, que o homem é sujeito do trabalho. É como pessoa que ele trabalha e realiza diversas ações que fazem parte do processo do trabalho; estas, independentemente do seu conteúdo objetivo, devem servir todas para a realização da sua humanidade e para o cumprimento da vocação a ser pessoa, que lhe é própria em razão da sua mesma humanidade. (L.E. 6)
Durante todo esse mês, lembraremos Maria, Mãe de Deus, Mãe dos pobres, nossa Mãe. Com certeza aprenderemos sobre ela ainda um pouco mais. Apesar de sua declaração formal de ser apenas Serva, Maria é fonte inesgotável de exemplo de amor, de serviço, de entrega a Deus. Temos muito o que aprender com ela.
Com todo esse abastecimento: um bom mês de maio para você!

sábado, 30 de abril de 2011

Sobre o Lago


Veja, veja quanta luz
no espaço,
quanta cor,
quanta beleza,
quanta certeza
de grandes encontros
sem desencontros,
sem bruma
e lampejam
                       pirilampos entre flores,
                       colibris que beijam cores,
                       passarada em revoada,
                       em descompasso
                       no espaço,
                       ecoando, esvoaçando.

Sou componente nesta vertente,
sou parte deste todo,
sou nascente, sem poente,
sou plenitude na limitação.

                       Ah,a vida,
                       grande ou dura,
                       contida ou plenificada
                       seja qual  for,
                       ou em que estrada deslize.

Há ressonância de infinito
que enche a amplidão,
que ressoa na alma,
                  no chão,
                 no coração.

Marlusse Pestana Daher
16/06/01 – l8 hs 28 m
 Cometida ao som do “Lago de Come”
Pianista Fanny Lowenstain


terça-feira, 26 de abril de 2011

BELEZA NÃO É FUNDAMENTAL

Na prática do vale tudo para sobreviver, naquela megalópole, reparei que ninguém buscou o belo no que se quis transformar.
São Paulo é um vai e vem sem trégua, cada um vai onde pretende, desvia-se daqui e dali, corre para pegar o ônibus, para não perder o metrô que passa, mas precisa chegar inteiro lá. Pode ter que esperar a passagem de dezenas de carros antes de poder atravessar uma rua e nesse ínterim, a condução que podia fazer chegar mais cedo à casa, não espera e a frustração acontece. Algum tempo passará antes que surja igual oportunidade.
São executivos, operários, de toda ocupação, gente de qualquer raça, desempregados, gente de qualquer casta, religiosos e gnósticos, gente de toda procedência, de todas as idades, de todas as culturas, ambiciosa ou indiferente.
Há ruas que, além do comércio no interior das construções, estão tomadas de vendedores ambulantes que aos gritos oferecem seus produtos, testam em você o aparelho que vendem para provar eficiência. Fico pensando o que seria da gente, se de repente, fizessem o mesmo com depiladores de nariz e orelha.
É enfeiando-se como iniciei dizendo, que se encontra aqui: a estátua viva de um frade imensamente gordo, cabelo à franciscano que retribui com uma mensagem a quem fizer “um depósito no seu chapéu”; ali, um rapaz que colocou seios, bumbum, barriga, todos exuberantes (exuberantíssimos) peruca  embaraçada, alta e carapinha, dentes que impedem os lábios se encostarem, quanto mais a boca se fechar.
No largo de São Bento, um homem travestido, vestido de um azul intenso, seios grandes e pontiagudos, ponchete na barriga (onde guarda o cachê), sapatos pretos, meia soquete branca. Celular na mão, fala frequentemente com alguém da sua terra. Enquanto ouve, faz caretas incríveis, tremula os lábios superiores, bochecha e toda a face, como só ele(a) sabe fazer. A certa altura dispara: Cara, estou em São Paulo há trinta anos, uma maravilha, tudo o que não presta no nordeste está aqui! E na praça ecoam em coro estrondosas gargalhadas.
Todos têm o mesmo objetivo “ganhar a vida”, mesmo à custa de serem ridículos e se tornarem tremendamente feios.
É o vale tudo também pela falta de trabalho digno para todos, é o embrear-se pela primeira saída que encontram na luta pela sobrevivência e pela vida.
Serão artistas? Pode ser. Divertem não se pode negar, ao redor deles onde quer que estejam, há sempre bem mais que uma dezena de quem assiste. O círculo pode ser tão denso que o curioso que passa terá que se aproximar para ver entre ombros o que acontece.  Sem esquecer que não  falta quem queira fotografar-se ao lado deles, claro, para levar para casa como lembrança.
Eu também me diverti e refletia. E surge meu não temor de discordar e se quiser, até pedindo desculpas ao Poetinha, inverto o que ele disse, para afirmar que nesse jogo de luta pelo vale tudo para viver: beleza não é fundamental!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

ALVÍSSARAS MARIA HELENA!

Maria Helena Teixeira de Siqueira voltará a ser foco de homenagens na Academia Feminina Espírito-santense  de Letras, depois de o seu nome ter sido dado à Cadeira 40, pois, além de ficar imortalizado, como literariamente se diz, significa que toda mulher que vier a ocupá-la como Acadêmica titular a terá como Patrona. Desta feita, por ocasião do II Encontro Capixaba de Escritoras (12 a 14 de maio deste ano), quando o jovem Acadêmico Anaximandro Amorim apresentará faces de Maria Helena discorrendo sobre o tema que intitulou: As várias frentes de Maria Helena Teixeira de Siqueira: Escritora, Mãe, Mulher.
Não tive oportunidade de conhecer Maria Helena mais a fundo. É verdade que tivemos uma convivência acadêmica em que nunca lhe neguei o que foi merecendo: estive em sua posse como Presidente da Academia Espírito-Santense de Letras a qual ela pertencia também, inclusive elogiei o seu discurso de posse com o que se demonstrou lisonjeada. Compareci ao lançamento do seu último livro “Janelas Abertas”. Sempre comentei, quando gostava, seus artigos publicados semanalmente no jornal A GAZETA. Mandei-lhe mensagens de aniversário e por ocasião do Natal. Dela recebi um cartão de bons augúrios quando assumi função particular na AFESL.
De colegas-amigas mais próximas dela, ouvi maravilhas a respeito de sua generosidade, mas Maria Helena não tinha a mesma facilidade de permitir à maioria ter igual sorte, podendo melhor conhecê-la e ainda mais amá-la.
Aqueles olhos verdes cintilantes podiam passar do derretimento em ternura que testemunhei diante de uma sua neta, à improvisa incógnita mesmo de como abordá-la.
Não tenho dúvidas, se tratava de uma mulher virtuosa e sensível como expressam seus versos, a cadência melódica de sua prosa, a capacidade de fotografar com palavras o frescor de sua terra de nascimento, os Pampas e sua terra de eleição, a Capixaba.
Como na última reunião da Academia falamos do II Encontro, falamos dos temas que seriam abordados e de Maria Helena. Diversas Acadêmicas tiveram palavras elogiosas em homenagem à sua lembrança, coisas que para ela não teem mais nenhuma importância. Poderiam tê-la feito sentir-se amada e dar-lhe até mais desenvoltura no estar entre nós e outras gentes, se tivessem sido ditas enquanto ela ainda estava aqui.
Não digo que não é válido prestar homenagens póstumas, mas por que calamos elogios aos vivos? Por que não homenageamos em vida, quem merece? Por que não adotamos a moderna “terapia do elogio” que deve ser praticada de um forma muito sincera, jamais se nossos motivos se traduzem no alcance de uma meta pessoal, algum título, um certo status...
Por outro lado quem recebe o elogio, não é para emproar-se ou se colocar num pedestal, acima de tudo e de todos, pensar que é mais. Há muita gente inteligente, ótima. Cada um tem um pouco e nos completamos. Depois, como bem diziam os antigos, “o fim de todos são iguais sete palmos”.
O elogio constrói, o elogio ajuda a produzir, o elogio anima a caminhada, auxilia na obtenção de forças. É aplauso. O elogio chama para perto.  Curiosamente, as pessoas calam. Talvez até reconheçam o brilho, o mérito, o arrojo do seu semelhante, mas não dizem. Seria medo de perder? O quê? Seria obstinação de não ser o primeiro, ter a iniciativa, dar o primeiro passo? Que pena!
Já li muitas coisas ditas e sobre a Madre Teresa de Calcutá, mas de tudo que li “guardo e sei de cor” um trecho de uma sua fala numa oportunidade de recebimento de uma das tantas homenagens que lhe foram prestadas: “Durante todo esse tempo em que trabalho com os mais pobres, tenho entendido sempre mais que o pior dos males, não é a lepra, nem a tuberculose, mas a sensação de não ser querido, de não ser amado”.
É o amor: “love is a many splendored thing”, “que mexe com a minha cabeça e me deixa assim”, “o amor é tudo que eu sonhei”, etc.
E viva Maria Helena! E vivam todas as Marias Helenas! E se preste homenagem a Maria Helena Teixeira de Siqueira, seus filhos talvez venham a conhecer na oportunidade, um aspecto de sua vida que só quem perscrutou descobriu e dirão: obrigado.
Eis o que pensei dizer quando escrevi “Maria Helena”. Comecei, tive que fazer outras abordagens, preferi deixar essa parte para depois, quando disse: voltarei ao tema. Ele aqui está.
Finalizando, formulo votos, antes a mim mesma e só depois a quem espontaneamente, quiser ser destinatário: façamos ao outro, tudo o que quisermos que a nós seja feito, em síntese: amemos o outro, como amamos nós mesmos. (JC).

segunda-feira, 18 de abril de 2011

SEM POR VIR

Diariamente ele era visto por aquelas cercanias, sem perspectiva, sem objetivo que não fosse perturbar quem passava, turbar a tranquilidade dos moradores, apoderar-se do que fosse alheio, de qualquer valor, embora para frente, passasse simplesmente por quanto lhe quisessem pagar.

Havia quatro anos deixara o barraco em que morava, onde dividia espaço mesmo inexistente com mais quatro irmãos, três meninos e uma menina. Presenciara quando o primeiro dos irmãos foi arrebatado do canto em que ainda dormia exprimido entre os demais, não obstante seu protesto, da mãe que formulou súplica sentida: deixem meu filho viver, do pai que ousando o uso da força ao se interpor aos três algozes, ainda levou “um murro na cara”, caindo em cima dele mesmo desmaiado. 

À perplexidade que se fez, sucedeu estremecimento indizível com a oitiva de tiros. Com exceção do pai que ainda restava desacordado, com um impulso gerado da mesma fonte, projetaram-se todos porta a fora em direção ao patíbulo, espaço único disponível naquela “realidade”  que servia para tudo, campo de futebol, recreação de qualquer sorte, momentos de hipocrisia, quando enganadores por ali apareciam em busca de voto por exemplo e tornou-se certeza o que supunham.

No chão, jazia sem vida e já abandonado o corpo do irmão. Desespero, gritos e pranto despertaram a vizinhança.

O quase líder comunitário tomou-lhes as dores e foi quem fez os contatos de praxe que lograram a chegada da polícia e de peritos, umas quatro horas depois. E o corpo foi levado para o IML (Instituto Médico Legal).

Desde os dias em que deixara a família, juntara-se a outros garotos mais ou menos de sua idade, encontrados na rua vítimas da mesma sorte. E conheceu a violência. Sentimento ainda que inconsciente de não ser nada, gera reações e entrega-se a tudo que encontra, desde a promiscuidade, às drogas, a todos os vícios, à vida sem perspectiva que goza com qualquer apelo negativo dos sentidos e suga até as extremidades e sorve até a última gota, indiferente a quem passa e assiste e atônito meneia a cabeça ante a impotência de fazer qualquer coisa ou simplesmente segue indiferente naquela atitude acomodada equivalente ao “nun tô nem ai”.

Viciou e o vício acaba por cumprir sua parte e surge aquele dia em que procura forças para se levantar e não tem mais forças, pelo que só lhe resta quedar-se, permanecer onde está, entregar-se à impotência e esperar pelo que nem sabe o quê.

A imobilidade é cada vez maior e de tal forma que a pomba branca que no bando ciscava por ali, não se sente ameaçada e acaba presa por mãos ressequidas que não obstante a retêm e pelo calor que emanam como se se apercebesse da carência extrema sentida, não se opõe e fica fazendo companhia a quem nenhuma outra tem. Nem tem dias por vir.

É assim que é visto pelos piedosos devotos que no interior da Catedral, celebram o Natal entoando glórias ao Filho de Deus.

Mas não tarda o instante em que Jesus Menino que nascia, compadecendo-se dos seus ais, abre-lhe as portas em direção à eternidade, única solução que ainda lhe restava depois de consumido por inteiro pelo vírus HIV.

São Paulo, 18 de abril de 2011.

sábado, 16 de abril de 2011

MONTADO NUM JUMENTINHO, O MESSIAS POBRE E DESARMADO

                                                                       Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Orofino
Ampliar imagem
 Introdução
                                    
   Jesus termina a viagem e chega em Jesuralém, onde se darão os acontecimentos  mais importantes da sua vida. Ao entrar na cidade, ele realiza três gestos simbólicos que revelam sua identidade messiânica:
1 . Entra montado num jumentinho que, conforme as profecias, era a característica do rei justo, pobre e desarmado (Mt 21,1-11).
2. Entra no Templo, expulsa os vendedores e denuncia a hipocrisia do comércio dos animais para os sacrifícios (Mt 21,12-17).
Ampliar imagem
Conheça o livro!
3. Amaldiçoa a figueira para expressar sua crítica contra o povo de Israel, por ele não ter produzido frutos de justiça (Mt 21,18-22). Quando Jesus entra em Jerusalém, a cidade fica agitada e se pergunta: "Quem é este?" (Mt 21,10). A multidão respondia: "E o profeta Jesus de Nazaré, da Galiléia" (Mt 21 , 11).
A palavra usada por Mateus para descrever a reação da cidade era usada também para descrever os tremores de terra. Esta reação da cidade e da multidão nos dá urna chave para entender o que estava acontecendo nas comunidades para as quais Mateus escrevia o seu evangelho. Os fariseus e os chefes da sinagoga se agitavam, reagiam contra os seguidores de Jesus e se recusavam a aceitá-lo como Messias. No entanto, a multidão, as pessoas simples o identificavam como o profeta anunciado por Moisés (Dt 18,15.18), em total continuidade com a história e as esperanças de Israel.

Comentando o texto

1 . Mateus 21,1-5: O messias pobre e desarmado.
A cena da entrada de Jesus em Jerusalém revela a sua identidade como Messias pobre e desarmado. Jesus mesmo toma as providências para entrar na cidade montado num jumentinhho, o transporte dos pobres daquela época. Ao narrar este episódio, Mateus se inspira na tradição profética. Para dar à cena o sentido do cumprimento da profecia, ele cita literalmente o texto de Zacarias 9,9: "Dizei à Filha de Sião: eis que o teu rei vem a ti. Ele é manso e está montado num jumento, num jumentinho, cria de um animal de carga!"
2. Mateus 21,6-7: Acolher Jesus tal como ele se revela e se apresenta
Os discípulos são encarregados de preparar o animal para a entrada de Jesus na cidade. Eles vão e fazem exatamente como Jesus mandou. Por trás desta narração tem um recado para as comunidades: verdadeiro discípulo é aquele que aceita Jesus do jeito que ele é e quer ser, e não do jeito que elas gostariam que ele fosse. Se Jesus se fez Messias pobre e desarmado, não podem fazer dele um messias glorioso e poderoso.
3. Mateus 21,8-9: Eles queriam um grande rei
A multidão reage entusiasmada, estendendo seus mantos no chão para Jesus passar, e grita: "Hosana ao Filho de Davi !" Eles reconhecem em Jesus o Messias, o descendente do rei Davi. "Eles queriam um grande rei, que fosse forte e dominador!" Jesus não apreciava muito este título de "Filho de Davi" e chegou a questio¬ná-lo (Mt 22,41-46). Pelo seu jeito de entrar na cidade sentado num jumentinho, ele estava dizendo que a sua maneira de ser rei era diferente.
4. Mateus 21,10-11: Quem é este?
A entrada de Jesus em Jerusalém questiona o povo da cidade. Ela fica abalada, agitada e se pergunta: "Afinal, quem é este que a multidão acolhe como rei messiâ¬nico? Por que ele vem como um pobre?"

Alargando o texto
1. As várias imagens de Messias
A causa do desencontro entre Jesus e o povo tinha a ver com a esperança messiânica. Havia entre os judeus uma grande variedade de expectativas. De acordo com as diferentes interpretações das profecias, havia gente que esperava um Messias Rei (Mt 27,11). Outros, um Messias Santo ou Sacerdote (Mc 1,24). Outros, um Messias Guerrilheiro subversivo (Lc 23,5; Mc 15,6; 13,6-8). Outros, um Messias Doutor (Jo 4,25). Outros, um Messias Juiz (Lc 3,5-9; Mc 1,8;). Outros, um Messias Profeta (Mt 21,11). Ao que parece, ninguém esperava o Messias Servo, anunciado pelo profeta Isaías (Is 42,1 ; 49,3; 52, 13). Eles não se lembraram de valorizar a esperança messiâ¬nica como serviço do povo de Deus à humanidade. Cada um, conforme os seus próprios interesses e conforme a sua classe social, aguardava o Messias, livrinho na mão, querendo encaixá-lo na sua própria esperança. Por isso, o título Messias, dependendo da pessoa ou da posição social, podia significar coisas bem diferentes. Havia muita mistura de idéias!
2. Os ramos na festa da entrada de Jesus
Hoje celebramos a entrada de Jesus em Jerusalém com ramos. A origem desta aclamação vem da Festa das Tendas, que era realizada no outono, depois da colheita (Dt 16, 13; Lv 23,34). Ela lembrava o tempo em que o povo israelita fazia sua caminhada pelo deserto (Lv 23,43), morando em tendas. Por isso, durante uma semana, eles recolhiam ramagens e formavam tendas por toda parte (Ne 8, 14-17). O povo agitava os ramos e dizia: "Bendito o que vem em nome do Senhor" . E os sacerdotes respondiam: "Da casa de Javé nós vos abençoamos" (Sl 118,25-27). A Festa das Tendas era um momento de alegria e de louvor, que mantinha a identidade do povo e lhe dava resistência.

                                    Disponível em: http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=21&noticiaId=1911