sexta-feira, 7 de setembro de 2018

PÁTRIA AMADA


Na noite de ontem, quando me recolhia, pensei o quanto seria muito bom, se no dia da Pátria, amanhã (hoje), ao alvorecer, fôssemos despertados pelos mais de duzentos milhões de vozes da brava gente brasileira cantando feliz, alto e em bom som: “Já podeis da Pátria, filhos, ver contente a mãe gentil, já raiou a liberdade, no horizonte do Brasil”...

Trata-se do Hino da Independência, cuja composição data de 1822, mesmo do evento comemorado.  A música foi composta por D. Pedro I ao piano, tem letra da lavra de Evaristo da Veiga, poeta, jornalista, livreiro, que com esta oportunidade notabilizou-se, ficou na história.

O ritmo e a melodia exprimem o orgulho possuído pelos autores por tão ditoso acontecimento. É um sentimento comum que pode tomar uma pessoa e mesmo uma nação que vê no que celebra, esperança de dias melhores.

“Já raiou a liberdade”, somos livres, podemo-nos unir para construir juntos a Pátria que queremos, para que nossas riquezas não sejam levadas para além das nossas fronteiras, privando do bem estar que delas advêm, seus verdadeiros donos.

Entre os versos, neste particular momento, o que mais me diz é: “Brava gente brasileira", que vá para longe o temor servil, que você assuma sua responsabilidade, cumpra seu dever, ocupe cada cantão ou pedacinho do chão que lhe pertence, não deixe que alguns poucos a usurpem tornando-se biliardários, (tri...) enquanto a base da pirâmide alcança sempre maiores e mais desastrosas dimensões, onde a falta de políticas públicas relega os direitos que devido a sua importância denominam-se fundamentais, sobrepõem-se e devem ser respeitados mais que quaisquer outros. 

Este dia da Pátria neste ano, nos coloca a um mês das eleições que  representam uma hora mágica nas nossas vidas, de todos os povos. Tudo que  é nosso em comum, nossas riquezas, nosso futuro, nossas próprias vidas. Vamos eleger aqueles aos quais entregaremos a gestão da coisa pública e dos quais esperamos competência, honestidade, altruísmo, sinceridade e todas as virtudes que o exercício do mandato requer. Já cansamos de tantos mentirosos, de demagogos, de tanta desonestidade, de tanta barganha, do ultraje do poder, de tanta imoralidade que acaba por levar o homem a ter vergonha de ser honesto, como afirmou Ruy Barbosa em seu discurso, “Oração aos Moços”, como paraninfo da turma de 1920, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, São Paulo. Há quase cem anos.

Passado todo este tempo, a nação ainda não aprendeu. Na época de eleição, escolhe o mais populista, ou que tem mais dinheiro para pagar um bom marqueteiro e o unge como “o cara”, mas depois não vigia o que ele faz, não cobra como é seu direito e dever as promessas feitas na campanha, omite-se e ainda “paga dobrado e perde calado”.

Só se exibe brasilidade no ano da 'copa do mundo de futebol", quando seus carros trafegam ornamentados com bandeiras do Brasil que bailam ao sopro do vento. Portam uma camisa amarela, que corresponde ao ouro como representa nossa Bandeira, ouro que é nosso, mas que às nossas mãos nunca chega.

“Nosso peito, nossos braços são as muralhas” da Pátria, é preciso saber erguê-las não deixando passar quem não merece. É preciso estar atento para os tapinhas nas costas, os sorrisos que só se abrem no tempo de campanha, verdadeiros “astutos ardis” que nos cegam, quem sabe, absurdamente comovem.

Deixo o que escrevo aqui, como pista para quem quiser valer-se dela e encontrar nos sábios dizeres do poeta, uma riqueza imensa por toda letra do belíssimo e magistral hino. Este artigo viraria “um tratado” se me ocupasse de todas.

Que este dia da Pátria, seja um dia novo. O primeiro dia do resto de nossas vidas como gente que pela Pátria é capaz de “desafiar a própria morte”.

Este pais continente, “com tanta fartura, tanta paz e tanto amor” não seja negado a ninguém e quem se sentir lesado, não se amofine na resignação e lute pelo que é seu.

“A terra é dom de Deus e os frutos que ela produz são de todos”. (Zumbi dos Palmares).



Marlusse Pestana Daher
Escritora, poetisa, acadêmica presidente da Amaletras, promotora de justiça aposentada.

Vitória, 7 de setembro de 2018.


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

EM NOME DE DEUS?

PORQUE NADA MUDOU

Quem assistia o “Fantástico” de domingo, 30 de setembro último, ao ouvir a voz grave do Cid, acompanhada de um jogo simulado de imagens correspondentes ao que ia sendo dito, deve ter ficado mais do que impressionado!

Refiro-me à provável oração proferida por um dos terroristas, na manhã do fatídico dia 11 daquele mês, quando o mundo mudou por causa dos ataques terroristas na América.

Chamamos terroristas, mas não sei quantos de nós outros, que cremos na divindade de Jesus Cristo que eles negam, rezamos com tal consciência da presença de Deus, com tal entrega, suplicando sua ajuda e pedindo que ilumine nossos caminhos.

Igualmente, teremos concluído a quanto mais intensa há de ser a nossa súplica, quanto com mais empenho devemos fazer chegar a Deus nossa oração, no sentido de que, se não, em perfeita paz, tenhamos ao menos, menos intranqüilidade e menos medos nestas nossas vidas.

São fanáticos e de fato encarnam a advertência do Nazareno quando disse: virá o tempo em que vos matarão julgando prestar serviço a Deus. 

Cultuam o Deus de Maomé que creu ter tido uma visão, enquanto se encontrava em uma caverna do Monte Hera, ao norte de Meca. Tinha 40 anos e era um mercador. Denominou “Corão” (do árabe quaram = leitura), o livro onde registrou as revelações colhidas.

Islamismo vem do árabe,  islam, significa resignação, a mais absoluta submissão a Deus. São também chamados mulçumanos (crentes) ou ainda maometanos. Monoteístas, professam como fé que "Não há outro Deus senão Alá e que Maomé é o seu profeta"; consoante a IV sura do Corão, afirmam: "Acredito em Deus, em seus anjos, livros e mensageiros, no último dia, na ressurreição dos mortos, na predestinação de Deus, no bem e no mal, no julgamento, na justiça, no paraíso e no fogo do inferno".  

Assumem quatro deveres básicos: a oração (salah), feita cinco vezes ao dia; o jejum,  que consiste na abstinência completa de comida, bebida, tabaco e relações sexuais;  a esmola (zakah) traduzida num dízimo a altura de cada um e ao menos uma vez na vida, ir a Meca.

Além disso, a religião prega a prática de circuncisão, proíbe a bebida, o jogo, a ingestão de carne de porco e de animais que tiveram morte natural.

Em síntese,  no que crêem e o que  praticam homens cujas mulheres são escravas, devendo andar inteiramente cobertas. No Afeganistão,  se um só dedo aparecer, podem ser espancadas pelo primeiro que as encontrar.

Mas são bem menos do que todos os outros povos que enchem a terra, que se devem unir portanto, para contê-los, usando todas as armas com que pudermos contar.

Depois de terem tornado em inferno os ambientes que dominam, mantêm o mundo refém de eventual surpresa com que possam atacar quem sabe primeiro onde, sob a mira de armas que podem destruir todas as pessoas mantendo intatas as construções.

E tudo isto, pasmem,  em nome de Deus!

Marlusse Pestana Daher
Escritora, poetisa, acadêmica, promotora de justiça aposentada.
08/10/2001

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A CAÇA ÀS BRUXAS


Sou contra botar fogo no boneco da filósofa gay. Sou contra dar nota zero a redações  Enem
RUTH DE AQUINO
Atualizado 10/11/2017 20h21

Spi fã de Ruth de Aquimo; /Leia o que escrbru há´um ano. 
Quando vi populares atear fogo a um boneco com o rosto da filósofa americana de 61 anos Judith Butler em frente ao Sesc Pompeia, em São Paulo, sob gritos de “queima, bruxa”, senti arrepios de medo pelo que nos espera em 2018. Outro boneco foi queimado: o do “bruxo” Fernando Henrique Cardoso. Logo ele, FHC, um bruxo sem magia, que não consegue o milagre de unir o PSDB e frear a vaidade incontrolável de Aécio Neves.
Um jovem pisoteava os dois bonecos. Usava um boné virado para trás e um agasalho da Gap. Ria, filmava com o celular os bruxos no chão com as tripas para fora. Uma petição on-line com 350 mil assinaturas e deputados da bancada evangélica pressionaram o Sesc a cancelar o seminário da filósofa, Os fins da democracia. Uma senhora de batom rosa, óculos rosa e laçarote rosa na cabeça exibia cartaz com desenhos de menino brincando de boneca e menina brincando de trenzinho: “Sonho de Judith Butler é destruir a identidade sexual dos seus filhos”.
Judith Butler era, até a semana passada, uma total desconhecida do pessoal que se reuniu em frente ao Sesc Pompeia. A maioria absoluta dos brasileiros nunca ouviu falar da acadêmica.  É professora da Universidade da Califórnia. Nos Estados Unidos, é considerada uma das filósofas mais importantes. Em 1990, publicou um livro, Problemas de gênero – Feminismo e subversão da identidade. É casada com uma mulher. Dentro do Sesc, Judith se mostrava surpresa com a reação indignada, mas minimizava: “Deve haver muitos robôs por trás disso”.
O problema é que os robôs estão ganhando vida e se assanhando de tal maneira que, em vez de simplesmente se expressar, transformam seus argumentos em ódio e linchamento. É nítida a onda conservadora. Contra gays. Contra o direito ao aborto. A favor de uma população armada. Os manifestantes gritavam “I love you, Trump”. Entoavam slogans pró-Bolsonaro. Skinheads gritavam palavras de ordem nacionalistas. Muitos pediam buzinaço a favor do casamento “como Deus o fez”, entre um homem e uma mulher. O protesto era “contra a depravação de nossa cultura”.
Todas essas pessoas têm o direito de se manifestar, mas não de tentar censurar uma palestra, bloquear aulas de história ou fechar uma exposição artística, simplesmente por achar que “atentam contra a família” e as nossas criancinhas. A mensagem transmitida pela caça às bruxas dá arrepios de medo. Daqui a pouco, não poderemos mais pensar, dependendo de quem for eleito presidente. Patrulhas e populismos de direita e de esquerda me apavoram. A militância cega torna o mundo mais burro e mais perigoso.
Seguindo o mesmo raciocínio, sou contra dar nota zero a redações do Enem que “desrespeitem os direitos humanos”. Coloco entre aspas porque esse julgamento é subjetivo. Nessa questão, estou com a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal. Como dar a uma junta de professores o poder de anular redações que eles considerem ofensivas a direitos humanos? É possível, sim, dar nota zero a uma péssima redação. Mas não sem ao menos considerar sua qualidade de argumentação. Entraríamos aí no terreno do obscurantismo, da patrulha política ou religiosa. Do fanatismo. Da censura.
Sou contra multar Bolsonaro em R$ 150 mil por ter dito que seus filhos tiveram uma “boa educação”, com um pai presente e, por isso, ele “não corre o risco” de ter um filho gay. Bolsonaro é homofóbico. Bolsonaro é a favor de tortura. Bolsonaro é um militarista, a favor de porte de armas para todo cidadão. Bolsonaro é um perigo concreto de totalitarismo no Brasil, com sua candidatura à Presidência. Não deveria ser transformado em vítima por dizer o que acha. Os correligionários do deputado federal do PSC se consideram imbuídos de uma cruzada pela justiça, tradição, família, moral e bons costumes. Quando vemos que o ódio, o preconceito e a censura vêm muito do povo, de gente comum, podemos imaginar o apelo da fala de Bolsonaro. Deveríamos combatê-lo com a sensatez.
O bom exemplo da semana é que o Museu de Arte de São Paulo (Masp) decidiu que a exposição Histórias da sexualidade deixou de ser proibida para menores de 18 anos. Agora, a mostra passa a ter apenas a classificação indicativa, não proibitiva. Menores de idade poderão ir à exposição do Masp se acompanhados por seus responsáveis. Esse recuo do museu é respaldado por procuradores dos direitos do cidadão, que disseram: “Não cabe ao Estado impedir o acesso de crianças ou adolescentes a eventos tidos como ‘inadequados’ a sua faixa etária”.
No momento em que o Estado decidir tudo por nós, como pensamos, o que ouvimos, o que vemos, o que nossos filhos podem ou devem ver, ler, ouvir, será o fim da democracia e o começo da ditadura


quarta-feira, 18 de julho de 2018

A MORADA HUMANA



        
Não é da casa que falo, mas daquela parte do mundo que cada indivíduo separa para si, que a faz do seu jeito, para ali se abrigar permanentemente e que está sempre em construção; que deveria ir modelando de forma a torná-la melhor  habitável,  mais segura. Trata-se do ethos = ética, que em grego significa a morada humana. “Ético, por sua vez, é qualidade do que ajuda a melhorar o ambiente tornando-o morada saudável: moralmente sustentável, psicologicamente equilibrada, espiritualmente fecunda”.

        Se perguntarmos à maioria das pessoas o que é ética, dificilmente  nos responderá, ou seja, não saberá fazê-lo usando palavras, mediante emissão de um conceito. Mas terá tais reações e expressões que acabará por fazer entender que sabe do que se trata. Dará exemplos, usará outros argumentos, por fim, pode ser que diga que sabe o que é,  mas não sabe responder.

Esta última é a realidade. É verdade que todo mundo sabe o que é ética, até porque é pela ética que se move, quando se  surpreende,  aprovando ou reprovando condutas. Tem dentro de si solidamente esculpidos,  princípios basilares que lhe ditam o pensamento crítico e é mediante ele que oportunamente se expressa. Há uma unanimidade entre  todos os seres humanos sobre a realidade de fatores como justiça, igualdade de direitos, de todos os direitos, dignidade da pessoa humana, a serem por todos preservados e que, se inversamente  ocorrer, sucederá o caos,  a subversão da ordem.
        Não é o mesmo que moral, ainda que a ela continuamente se associe.

        Ser ético é uma exigência humana, haja vista que todas as profissões legalmente constituídas e reconhecidas redigem, mediante princípios basilares, regras disciplinadoras da conduta pela qual se devem pautar seus integrantes no exercício profissional e a elas denominam “código de ética”.

Partindo-se  de tais pressupostos, é forçoso reconhecer a degradação moral em que mergulhou o país, principalmente no que se refere ao mundo da política.

                Constitui-se verdadeira oposição à ética o espetáculo circense onde  detentores dos mandatos por nós confiados, se mostram indecorosos,  pautam-se por normas tão indignas e desonestas no trato com a coisa pública, fazendo pouco caso dos que estamos nas bases, como se fôssemos imbecis.

        Ah que bom se pudesse ser dito “em verdade, em verdade, verás que um filho teu não foge a luta”!  E houvesse,  se não unanimidade,  ao menos maioria, um número suficiente de bons cidadãos e cidadãs  brasileiros que queiram inverter o que ai se vê.

        Ser ético é também não fazer de conta que não está vendo o que de mal acontece ou perdoar inconsequentemente quem tanto mal já fez.

        Mas por que estou eu aqui a falar de ética  se a maioria não me pode compreender, por nos constituirmos em uma população a qual é negado o bem da educação e da cultura,  na medid

a certa; se somos um país com fome, onde é considerável  o risco de morrer antes de ser atendido por um médico ou pela falta do remédio que ele receitou, pela falta do dinheiro para comprá-lo; onde a ciência e a tecnologia não estão a serviço da ética; quando tremula sempre mais a sustentabilidade ambiental do desenvolvimento; onde se torna cada vez mais distante a independência econômica que nos permite olhar de igual para igual para quem não tem o que temos e mesmo assim nos domina?

        É... talvez me mova a esperança que falando de ética, faça com que quem precisa se lembre que ela existe.


Marlusse Pestana Daher
Escritora, acadêmica, promotora de justiça aposentada

quarta-feira, 11 de julho de 2018

CHAMADOS PELO NOME, NO FLUXO DA VIDA




“João é o seu nome” (Lc. 1,63)
João o  Batista

A natividade de João Batista assemelha-se às festas da infância de Jesus. O espírito da festa é tipicamente de Lucas, ou seja, ela é inspirada e sustentada pela manifestação da graça e da bondade de Deus.
O nascimento de João se dá num clima de intensa alegria. Isabel se alegra e com ela os vizinhos. É a alegria de haver nascido um menino de uma mãe que era estéril e de idade avançada. Esta alegria do coração se manifesta no louvor: o Senhor tem favorecido com grande misericórdia. O reconhecimento agradecido dos grandes feitos do Senhor proporciona alegria.
A alegria é um sentimento central na experiência cristã. Nisto consiste a verdadeira alegria: sentir que um grande mistério, o mistério do amor de Deus, nos visita e plenifica nossa existência pessoal e comunitária.
Alegria que brota do interior e é um dom do Espírito. “O fruto do Espírito é: amor, alegria” (Gal 5,22). Este dom nos faz sentir como filhos(as) de Deus, capazes de viver e saborear sua bondade e misericórdia.

O nascimento de João Batista é cheio de mistério, porque ali todos descobrem o agir misterioso de Deus.
É o mistério da vida. É o mistério de Deus que dá a vida como presente; é o mistério de um ventre seco que se torna fértil; o mistério do novo em um ventre que carrega a “novidade”.
Dois anciãos, Isabel e Zacarias: uma grávida, o outro mudo. No entanto, uma vida que cresce.
“Os vizinhos e parentes ouviram dizer...” Não tinham percebido até o nascimento? Alguém afirmou que, de vergonha, Isabel se retirou a um sítio vizinho para esconder o mistério de Deus em seu ventre.
Pode-se ocultar a gravidez; não se pode ocultar o filho. Para eles, é o filho esperado no silêncio que faz amadurecer a fé. Para os vizinhos e parentes, o filho da surpresa. E todos o veem “como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela”. E todos se perguntavam: “O que virá a ser este menino?”

A natividade de João é uma visibilização do mistério da misericórdia de Deus; é o mistério da missão que Deus tinha para ele. Não seria sacerdote como seu pai; seria um mensageiro que prepara caminhos.
João Batista é a primeira ruptura com o passado. Já não se chamará Zacarias, porque não será como seu pai. Chamar-se-á João porque anunciará o novo que está ali mesmo, a seu lado, no ventre virginal de Maria.
Não será o “homem do templo e do culto”, mas o “homem do deserto e do anúncio”.
Não será o “homem que recorda o passado”; será o “homem que anuncia a proximidade do novo”.
Não será o “homem que anuncia a esperança”; será o “homem que anuncia que a esperança já é realidade”.
Não será o “homem da lei”; será o “homem que abre caminhos onde tudo parece estar bloqueado.

Por isso, o tema central do Evangelho deste domingo é este: “João é seu nome”. Esta frase é uma mensagem da gratuidade e bondade de Deus. João é um nome muito especial. Nele são guardadas muitas e importantes lembranças. De fato, o nome “Yohanan” significa “Deus se mostrou misericordioso”.
João é um dom gratuito de Deus, pois está além dos cálculos humanos; pertence plenamente a Deus. Nem sempre Deus elege o tradicional, o velho costume, o caminho trilhado. Agora nasce um tempo novo: o Espírito vai por caminhos novos, que nem sempre são fáceis de conhecer.
É Deus quem toma a iniciativa e chama pelo nome. O “nome” encerra toda a verdade da pessoa e, ao mesmo tempo, todo o mistério da sua relação direta com Deus.
Na Bíblia, o nome é algo dinâmico, é um programa de vida. A troca de nome implica uma missão que deve ser realizada pela pessoa (Gen, 17,5; Jo. 1,42).
Um nome novo: uma aventura que começa; uma história a ser construída.
O nome é ponto de partida e de chegada na relação com Deus.

Todo nascimento é um mistério. Por isso, cada um de nós é fruto do mistério da misericórdia de Deus. E todos somos o mistério do anúncio do novo. Não somos repetição de ninguém. Somos únicos. E somos preparadores dos caminhos de Deus. Nosso nome, escrito na palma da mão de Deus, é uma missão a realizar.
É preciso crescer na consciência de que o próprio nome tem uma história e manifesta uma identidade única, irrepetível, original. O nome próprio está relacionado com nossa realidade pessoal, responsável, criativa e livre. Essa identidade vai sendo elaborada ao longo de nossa história pessoal, com os avanços e recuos, vitórias e fracassos, as alegrias e os sofrimentos... que vão pontilhando nossa existência e formando esse ser único que somos nós.


Na linguagem bíblica, “nome” significa aquilo que torna a pessoa única.  O nome é um símbolo que exprime a individualidade de cada um. No nome está toda a pessoa. O nome é a pessoa.
Interessar-se por conhecer o nome é interessar-se pela pessoa; é o primeiro passo para o encontro pessoal; é pelo nome que nos identificamos.
Os orientais, por exemplo, não dizem o seu nome a qualquer um. Só aos amigos, aos seus mais íntimos.
Conhecer o nome de alguém, para eles, é conhecer a pessoa toda. Fazer saber o seu nome é prova de amizade. Interessar-se por conhecer o nome é interessar-se pela pessoa.
O nome é referência reveladora da verdade da pessoa. É a porta de entrada de cada história particular.
Deus sabe o nosso nome: “Eu te gravei na palma de minha mão” (Is. 49,16).
Deus nunca pode olhar Sua mão sem ver o nosso nome. E o nosso nome quer dizer: “EU mesmo”
Deus garante a nossa identidade: podemos ser nós mesmos.
Ter recebido um nome de Deus significa tomar um lugar na história, uma missão a cumprir.
Nosso nome secreto Deus o conhece.

Cada um de nós tem um nome, que é próprio, não comum. É de uma pessoa. Ele expressa o nosso ser,  indica uma missão a realizar, uma vocação a viver, um apelo a responder.. Somos seres chamados. É isso que significa ter um nome.
Nós realizaremos nossa vocação, sendo nós mesmos, com nosso modo de ser, nossas possibilidades, nossa originalidade. Ninguém realiza-la-á por nós. Ser fiel ao nome é ser fiel à própria vocação.
A dinâmica da relação com Deus passa através da nossa história, das nossas alegrias, dos nossos sofri-mentos, e das nossas perguntas: “Quem sou eu?”, “O que quereis de mim?”.
Não posso permanecer indiferente. É preciso ter coragem de perguntar: “Quem me chama?” e “a quê me chama?”; pedir ajuda para conseguir entender, reconhecer, descobrir o próprio nome.
Deus, no momento em que me chama pelo nome, me revela a mim mesmo.
Assim, meu nome se torna a minha própria vida, o meu patrimônio existencial, a minha realidade.

Texto bíblico:  Lc. 1,57-66

- Tome consciência de que também você tem um no-me, é pessoa única e com características muito parti-culares. Você tem uma dignidade imensa: é imagem e semelhança de Deus.
-  Para realizar o seu nome, você deve ser você mesmo. Você tem a sua própria vida, o seu modo próprio e original de ser.
- Ser “João” é ser graça amorosa de Deus na vida e na história de tantas pessoas.
- Rezar o sentido do seu nome.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A NAÇÃO SOMOS NÓS





O Brasil acaba de ser eliminado da Copa do Mundo que se realiza na Rússia, pela eficiente, organizada, forte e lutadora seleção da Bélgica. Pais que é um dos membros fundadores da União Européia (UE) e hospeda sua sede, além de outras grandes organismos internacionais, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)

A Bélgica que tem uma área de 30,528 quilômetros quadrados, uma vigésima parte do Brasil e uma população de apenas 10,7 milhões de habitantes (menos do que o municipio de São Paulo) enquanto o Brasil já ultrassa a casa dos 230 milhões. 

O time que entrou em campo como favorito, considerado mais time, falhou “e falhou feio”. O Brasil, segundo comentários que ouço na CBN, perdeu quase três dezenas de chances não colimadas ou seja “de encher a rede com  a bola”.

Levou dois “gols de placa” e fez suando muito, um só. Não se contentou com o penta e queria a todo custo o hexa, para mostrar ao mundo que é bom de futebol e que “a taça do mundo é nossa, com o brasileiro não há quem possa”. Não é verdade, pode sim. Desta vez foi até pouco, ninguém nunca se esquecerá daqueles 7 X 1 presenteados (presente de grego, é claro) pela  Alemanha.

O futebol se constitui no esporte de maior atração entre os que existem; arrebata massas, leva milhares aos estádios enquanto outros muito mais se concentram em espaços públicos para ver a bola rolar. Faz sorrir e faz chorar, envolve rios de dinheiro, seus dirigentes recebem o nobiliárquico título de “cartolas”, alguns dos quais, hoje, não passam de presos mesmo, tem acontecido com muitos do “colarinho branco”. 

Em quantas praças, cordas improvisadas serviram para exibição de camisas que muitos, passando, não resistiam e compravam. Outros dirigiam-se ao local de propósito para comprar a amarelinha. Lojas venderam e como venderam, desde as mesmas camisas, cornetas, chapéus e outros símbolos. Havia estoque para satisfazer torcedores até o final da copa, mas o trem encalhou. Nem podem fazer liquidação porque os compradores não estão interessados. Liquidação também não deve ser o caso pelo mesmo motivo. Mas é provável que o quanto faturaram permita dar um destino qualquer ao restante do estoque.

Tempo de copa é tempo de delírio, de emoção, de viver como se não existissem problemas, que importa o dólar em alta,  bom mesmo é estar na Rússia.

Mas “e agora, José, a festa acabou”... e melhor que recitar, é cantar. Vejam como se encaixam muito bem estes versos de Roberto Carlos:  “O show já terminou, / vamos voltar a realidade / não precisamos mais / usar aquela maquiagem / que escondeu de nós /” verdades que fazem parte do nosso dia a dia, que dizem respeito à nossa sobrevivência, ao nosso presente e ao futuro das novas e das futuras gerações, porque somos o país do futebol e do carnaval, tudo bem é alegria,  mas não somos o país das instituições decentes, onde os poderes constituídos são formados por pessoas capazes de tudo proporcionar porque é regra e: “ou ficar a pátria livre  ou morrer pelo Brasil”; do país cujo potencial de riquezas permitiria uma “Pátria mãe gentil”, cuidando de todos, prevenindo todos os cuidados dos quais carecem, não permitindo que falte pão em nenhuma  mesa como fruto do trabalho compensado por um salário digno e suficiente como se constitui direito de todos.

“Vamos voltar à realidade”, estamos num ano eleitoral e não falta a nenhum brasileiro a convicção de que é preciso mudar toda a classe política, de agir como cidadão porque a Nação se constitui do povo do qual emana todo poder que em seu nome é que é exercido. A força é do povo, ele é quem manda, embora verdade também seja que muitos preferem ignorar, fingir que esqueceram e preferem migalhas à posse do que lhe pertence em virtude de sua dignidade. 

Não precisamos de maquiagem, “pintar a cara”, todos ao nos entreolharmos devemos reconhecer quem somos e do que somos capazes, aliás é preciso ser tão honesto que nunca nos tenhamos de esconder de nada, ou acelerar o passo para não ouvir o que dizem, quanto mais renunciar à verdade.

“Nação é uma comunidade humana com certas características culturais compartilhadas  em um mesmo território ou estado. É uma concepção política entendida como o sujeito que constitui a soberania de um estado”.

Esta nação somos nós!



                                  Marlusse Pestana Daher                                                                                   Escritora, Acadêmica, Promotora de Justiça aposentada.
Vitória, 6 de julho de 2018 19:00


terça-feira, 3 de julho de 2018

VAI PASSR? VAI MESMO?


Nos tempos dos porões da ditadura que o país viveu,  para os defensores da cultura, a instituição do “Conselho Superior de Censura” em 1979, representou o brilho de uma estrela que suavizaria a atuação repressiva sobre a liberdade de expressão que fortemente vigia, quanto mais em relação a cabeças excelentes que diziam verdades incríveis, cantando.

O sol da liberdade propiciou a Chico Buarque no ano de 1984 – coincidentemente  com a votação das “diretas já” – compor com Francis Hime o maravilhoso samba ”Vai passar” que se constituiu em hino da “Campanha das Diretas”.

Num dos últimos fins de semana, 24 de junho deste ano, Francis ao seu piano, cantou o samba no programa do Faustão e ao lhe ser perguntado, se composto com vista em outra(?) realidade tinha relação com à atual e a resposta foi sim.

De se destacar a estrofe que diz: “Num tempo / Página infeliz da nossa
história”... Eu escreveria: neste tempo, eta história que continua sem viço e nada diz às nossas novas gerações, que não lhes dá exemplo de patriotismo, que vive de intolerância, e mesmo que o  hino da independência cante: “já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”, não é verdade, a  verdade é que tudo que acontece tem origem no fato de se pensar que é permitido “ficar deitado eternamente, até porque o berço que é da Pátria já não é tão esplêndido”, roubaram nosso ouro, desmataram nossas florestas, expuseram ao calor do sol, que nunca deixa de cumprir o seu dever, nossas nascentes e os nossos rios secam ou têm suas águas salinizadas, pela falta de forças de se projetarem no oceano,  acabando por ser invadidas por eles.  Inviabilizaram a vida dos nossos pássaros e os animais se estinguem. E já não se pode repetir o que disse o Senhor Deus: “e viu que tudo era bom”.

Também, “dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída, em tenebrosas transações”, com governantes que o que menos fazem é zelar pelo bem do povo, que ao serem empossados juram cumprir a Constituição. Será que esquecem?

Carnaval é um tempo muito bom, a cada ano nossas Escolas de Samba se apresentam cada vez mais coloridas, exuberantes, transbordando criatividade e contando histórias que nos livros não foram escritos. Enche os corações, quem gosta de desfilar não poupa sacrifício, endossar uma fantasia daquelas é o mesmo que se vestir de rainha e rei.  Copa do Mundo, mesmo que aconteça a cada  quatro anos,  quando uma termina, já começa a expectativa da seguinte e os veículos exibem a Bandeira Brasileira que tremula ao vento, formando um bonito espetáculo pelas vias e em quase todos corações de brasileiro, o anseio para que a seleção vença, idolatram os bons jogadores, propiciam-lhes  o enriquecimento impensado em pouco tempo.

Claro, como poderia ser diferente nesta Pátria em que “seus filhos erram cegos
 pelo continente, carregam pedras feito penitentes”, na busca de um emprego e formam filas de milhar para uma meia dúzia de vagas, gemem de dor, até pelo chão dos corredores de hospitais, ou choram as mortes de sua gente, antes mesmo de ter sido olhada por um médico! Onde mães não podem trabalhar porque não têm com quem deixar seus filhos, faltam creches. Os adolescentes se tornam jovens marginais, porque acham bonito os meliantes que ostentam armas, que demonstram poder, paralisando cidades, tirando o sossego da população, usurpando a função do estado, porque este prefere  cogitar das já citadas “perigosas transações” ao exercício de suas funções constitucionais. E as catedrais que se supõe lugares sagrados não são vistas, não se constroem.

Chamar a isto de ‘vida boa olerè, olarará”, só pode ser ironia. 

Agora, tomara que sim, repitamos: Meu Deus, vem olhar / Vem ver de perto uma cidade a cantar / a esperança de que surja o quanto antes a liberdade, antes mesmo de o dia clarear.

E o samba era desabafo pelo que provavam os autores. Ao menos um continua intolerante com o que não é mentira a respeito dos desmandos da época. Ele só não viu que nunca cessou e ainda cresceu em proporção “antes nunca vista neste país”.

Rufem mais fortes os tambores, tamborins e quanto mais faz barulho, desperte-se esta gente acomodada que se troca por migalhas, nossa Pátria é grande e generosa, ninguém precisa sair daqui para viver melhor, mas tem que querer “tocar na banda ao invés de ficar olhando-a passar”.

Marlusse Pestana Daher
Escritora, Acadêmica, Promotora de Justiça aposentada.
Vitória, 02/03 de julho de 2018   00:26