segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A FÉ SEM OBRAS...


A fé sem obras é morta. Este lance de Paulo, escrito a Tiago, revela claramente que as pessoas que rezam muito e nada fazem ou pouco fazem para transformar as  estruturas sociais injustas, para ao menos diminuir a intensidade de tanta dor que existe por ai, podem ter grande surpresa.

Há pessoas que rezam o rosário todos os dias, que vão à Igreja, participam de grupos de oração, vão a Missa, mas não praticam as boas obras, aquelas das quais a Igreja precisa para cumprir sua tarefa, para ser o que deve ser, precisam se perguntar qual é a cor da sua vivência evangélica. Não tem cor, porque assim como o corpo sem o espírito está morto, a fé sem obras é morta. (Tiago 2,26).

Ninguém pode dizer que não é capaz ou que não tem condição: quem disse que não somos nada, que não temos nada para oferecer? A cada um foi dado talentos que importa serem multiplicados e colocados a serviço da família e da comunidade. Importa servir.

Serviço. Eu até posso dizer que sou servo, mas se não sirvo, essa condição fica apenas na teoria em relação a mim. Cada pessoa precisa descobrir as potencialidades que tem para desenvolvê-las e tornar-se ainda mais capaz de servir.

Conhecidos os próprios talentos, encher-se de grande humildade e reconhecimento de que tudo é presente, dom, graça de Deus.

Descubra-se onde o serviço que se é capaz de prestar pode ser mais útil e até mais necessário, servir ao irmão. Jesus está presente ou representado em cada um deles e considera feito a si o que se fizer ainda que ao menor de todos.

Nossa Senhora é modelo nesse tipo de tarefa, convém não prescindir nunca da companhia dela.
Do Programa 5 minutos com Maria
12 de novembro de 2003.

O PASSADO QUE IMPORTA

Agora que o tempo se tornou propício, venho fazendo com mais intensidade, coisa que sempre fiz e da qual sempre gostei: escrever. Pergunte-se a uma das minhas irmãs que responderá logo: ela escrevia de noite, à luz de vela, quando papai parecia levantar, apagava a vela. Mas acendia logo, porque o castiçal se constituía da caixa de fósforos, onde colava a vela com sua própria cera. Entendido?

Para escrever, vale qualquer subsídio. Um, entre vários demais, tem consistido
em traduzir com palavras, velhos postais, principalmente de São Mateus. É interessante como a terra em que se nasce penetra na gente e ocupa tantos espaços. Como dá gosto, falar dela e decantá-la. Protestar contra o descaso que a vitima e a todos em consequência, também.

São velhos postais, alguns com cerca de cem anos, amarelados pelo tempo, mas ainda nítidos. Observando-os, podem-se divisar detalhes que não identifico, entretanto, ou que mesmo tendo ouvido falar, não tenho precisão.

Em busca de esclarecimento, a primeira pessoa que me ocorre acorrer é mamãe, ela que sempre gostou de contar o que sabia, - até de falar... nem sempre bem de certos personagens... - ao mesmo tempo, em que me surpreendo ao sentir explodir em mim, grande desilusão: não vou nem mostrá-los a ela, o que em outro tempo, traduziria grande alegria, alegria não causará. Sua visão anda em muito reduzida, não perceberia talvez o que é mais evidente, quanto mais os detalhes e quedaria triste.  Não vou fazer isto, aliás, nem posso.

A televisão mostrava nesta manhã de 15 de dezembro de 2013, como se expressava o apresentador: o enterro de Nelson Mandela. Acho enterro uma palavra demasiado agressiva, prefiro falar em sepultamento.

Ao acompanhar aqueles momentos seguidos pela inteira população da África do Sul e expressivo número da que ocupa o resto do mundo fui refletindo do quanto é verdadeiro que a morte é a única certeza que temos, de como ela chega em dia e hora que não sabemos, não tem idade para acontecer, ou se faça depender de qualquer detalhe. Simplesmente, chega.

E se fez presença na minha lembrança, uma dessas máximas que sempre me acompanham: pode ser que não passe duas vezes pelo mesmo caminho. Importa fazer o que deve ser feito, sem adiar ou esquecer.

A história precisa ser escrita e preservada. A geração que me precede, do lado de papai, inclusive ele, todos já se foram. Quando tia Martha morreu, foi a última, sem que eu lhe tenha feito todas as perguntas que pretendia, tive a sensação de ver uma porta que se fechou.   Do lado de mamãe, tia Idatília, 100 anos, a professora, há três meses nos lançou seu último beijo de despedida, também não travei com ela, o diálogo que enchi de muito carinho e amor, que cuidadosamente preparei. Tio Durval, menino levado que vovó Rosinha surrava, (faz parte da biografia dele) esperto, brincalhão, gozador, inteligente, se rende às consequências dos seus 104 anos em Curitiba onde mora com o filho único, de quem pessoalmente e de toda família recebe muito carinho.

Todos deixaram lembranças. No âmbito da nossa vida familiar tiveram mais expressão que Mandela para o mundo. É que em família, tudo que se vive vale mais.

27 anos numa prisão, expressiva parcela de sua vida, sobreviveu o líder sul africano. Recusou-se a não estar entre grades, enquanto ser livre representasse apenas ter faculdade de poder ir e vir, mas calado. 

Mandela deixa para seu povo e para toda a humanidade um legado de altruísmo, de luta e definição clara de que todos os homens nascem livres, devem ser respeitados e são iguais.

Como tudo passa e todos passam, Mandela passou. Passaram tantos, e ai, vamos que vamos, passando também nós.

Façamos o que pudermos. Parece pouco? Não, o passado importa. É preciso também saber o que aparece, numa fotografia do Porto de São Mateus, até meio em cima do cais, noutra, só na água, seria o tal vapor que levava o pessoal ao Rio de Janeiro? O que será? Porque:

O que será o amanhã?   
Responda quem puder. 
O que irá me acontecer?     
O meu destino será como Deus quiser.      
                          (João Sérgio)

Pronto. Fiz registros e ponto final.

 

Marlusse Pestana Daher
Vitória, 15 de dezembro de 2013. 11:53

A foto que ilustra o texto foi colorida pela arte de um mateense, hoje, Pastor Matheus Ernesto dos Santos (Recife).

domingo, 15 de dezembro de 2013

DIANTE DE DEUS E DOS HOMENS

Do Programa
5 minutos com Maria.
Velas do Advento - Acende-se a terceira.

Entramos na terceira semana do tempo do advento, há 2013 anos, portanto, do dia em que Jesus nasceu.

No Evangelho sobre o qual refletimos na liturgia de hoje, temos os sinais mais concretos da realidade naquele tempo em que os fatos se deram e que ainda é exatamente, a mesma hoje.  Está, como se diz, senão dentro da nossa casa, do lado de fora da porta, no máximo.

Fala do pobre, personalidade recorrente na pregação de Jesus, o cego, o surdo e o coxo. São exemplos de um mundo de gente excluída e esquecida. Observa o  voltar a andar do coxo e o voltar a ouvir do surdo como causas de alegria par o discípulo de Jesus.

Na verdade, essas são mais que curas de deficiências do corpo, são curas da alma, libertação de alguma escravidão em consequência do pecado.  

Muitas pessoas recebem o batismo, mas não vivem em conformidade com as normas que a vida tem pelo batismo. O reflexo será evidente na prática, mãos que enfraquecem pela inação, joelhos debilitados porque não se curvam, o reflexo numa comunidade que não vive como missionária, que não atende ao apelo de Jesus: ide e fazei discípulos meus todos os povos.

Advento tempo de conversão, de voltar nossos olhares para um menino que nasce, assimilar toda história de amor que o presépio encerra. Para tanto, é bom que nos tornemos  pequenos na vida espiritual também, para depois ir crescendo como Ele, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens.



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O SIGNIFICADO DE MANDELA

PARA O FUTURO DO RESTO DO MUNDO

Leonardo Boff


Nelson Mandela, com sua morte, mergulhou no inconsciente coletivo da humanidade, para nunca mais sair de lá, porque se transformou num arquétipo universal do injustiçado que não guardou rancor, que soube perdoar, reconciliar polos antagônicos e nos transmitir uma inarredável esperança de que o ser humano ainda pode ter jeito. Depois de passar 27 anos recluso,

eleito presidente da África do Sul em 1994, se propôs e realizou o grande desafio de transformar uma sociedade estruturada na suprema injustiça do apartheid (que desumanizava as grandes maiorias negras do pais condenando-as a ser não-pessoas) numa sociedade única, unida, sem discriminações, democrática e livre.


E o conseguiu ao escolher o caminho da virtude, do perdão e da reconciliação. Perdoar não é esquecer. As chagas estão ai, muitas delas ainda abertas. Perdoar é não permitir que a amargura e o espírito de vingança tenham a última palavra e determinem o rumo da vida. Perdoar é libertar as pessoas das amarras do passado, é virar a página e começar  a escrever outra, a quatro mãos, mãos de negros e de brancos. A reconciliação só é possível e real quando há a admissão completa dos crimes  por parte de seus autores e o pleno conhecimento dos atos por parte das vítimas. A pena dos criminosos é a condenação moral diante de toda a sociedade.

Uma solução dessas, seguramente originalíssima, pressupõe um conceito alheio à nossa cultura individualista: o Ubuntu, que quer dizer: “eu só posso ser eu através de você e com você”. Portanto, sem um laço permanente que liga todos com todos, a sociedade estará, como a nossa, sob risco de dilaceração e de conflitos sem fim.

Deverá figurar nos manuais escolares de todo mundo esta afirmação humaníssima de Mandela:”Eu lutei contra a dominação dos brancos e lutei contra a dominação dos negros. Eu cultivei a esperança do ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas e em harmonia e têm oportunidades iguais. É um ideal que espero alcançar e pelo qual quero viver. Mas, se preciso for, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer”.

Por que a vida e a saga de Mandela funda uma esperança no futuro da humanidade e de nossa civilização? Porque chegamos ao núcleo central de uma conjunção de crises que pode ameaçar o nosso futuro como espécie humana. Estamos em plena sexta grande extinção em massa. Cosmólogos (Brian Swimme) e biólogos (Edward Wilson) nos advertem que, a correrem as coisas como estão, chegaremos por volta do ano 2030 à culminância desse processo  devastador. Isso quer dizer que a crença persistente no mundo inteiro, também no Brasil, de que o crescimento econômico material nos deveria trazer desenvolvimento social, cultural e espiritual é uma ilusão. Estamos vivendo tempos de barbárie e  sem esperança.

Cito o insuspeito Samuel P. Huntington, antigo assessor do Pentágono e um analista perspicaz do processo de globalização, no término de seu ‘O choque de civilizações’: “A lei e a ordem são o primeiro pré-requisito da civilização; em grande parte no mundo elas parecem estar evaporando; numa base mundial, a civilização parece, em muitos aspectos, estar cedendo diante da barbárie, gerando a imagem de um fenômeno sem precedentes, uma Idade das Trevas mundial, que se abate sobre a Humanidade” (1997:409-410).

Acrescento a opinião do conhecido filósofo e cientista político Norberto Bobbio que, como Mandela, acreditava nos direitos humanos e na democracia como valores para equacionar o problema da violência entre  os Estados e para proporcionar uma convivência pacífica. Em sua última entrevista, declarou: “não saberia dizer como será o Terceiro Milênio. Minhas certezas caem e somente um enorme ponto de interrogação agita a minha cabeça: será o milênio da guerra de extermínio, ou o da concórdia entre os seres humanos? Não tenho condições de responder a esta indagação”.

Em face destes cenários sombrios, Mandela responderia seguramente, fundado em sua experiência política: sim, é possível que o ser humano se reconcilie consigo mesmo, que sobreponha sua dimensão de sapiens  àquela de demens e inaugure uma nova forma de estar  juntos na mesma Casa.

Talvez valham as palavras de seu grande amigo, o arcebispo Desmond Tutu, que coordenou o processo de Verdade e Reconciliação: “Tendo encarado a besta do passado olho no olho, tendo pedido e recebido perdão e tendo feito  correções, viremos agora a página — não para esquecer esse passado, mas para não deixar que nos aprisione para sempre. Avancemos em direção a um futuro glorioso de uma nova sociedade em que as pessoas valham não em razão de irrelevâncias biológicas, ou de outros estranhos atributos, mas porque são pessoas de valor infinito, criadas à imagem de Deus”.

Mandela nos deixa essa lição de esperança: nós ainda viveremos se, sem discriminações, pusermos em prática de fato o Ubuntu.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

TEATRO NO PORTO, SIM OU NÃO.


Imagem do que foi. 
Fiquei sabendo que o Secretário de Cultura, Maurício Silva, pretende deixar em São Mateus um marco de sua passagem pelo honroso cargo. Para   tanto, ele tem não uma única, mas também outra razão, sua amada nasceu naquela terra. Ele mesmo tem seu nome escrito nas páginas da vida cultural mateense.

O local seria o casarão (onde S. Dodo Rios teve uma venda) ao lado daquele, da esquina, (dos Jogaib) já reconstruído. Mas só resta a fachada e fundos para o Rio Cricaré.

Eu sei porquê. O Porto? Há um misticismo que envolve aquela terra... um rio que corre para cima... e quando o vento sopra desenha velhas figuras na sua superfície espelhada. Ao passar por entre as folhas das árvores, canta um canto, inaudível embora.

À espera de navio. 
O velho Porto continua sendo envolvido de sacrossanto misticismo ou mistério, pela prosperidade que assegurou à região, no tempo em que navios como o Lóid, aportavam ali. Tempo em que sua chegada levava toda uma comitiva de gente bem vestida à espera.

Ao lado disto, quem não sente ternura pela lembrança daquele mercado onde havia algumas vendas, açougue e malandragem, onde se bebia muita “pinga”, conversava-se alto e se dizia... cada palavrão!

A sua frente, eternizava-se o Menino com lata d’água na cabeça, o chafariz, cuja generosidade era devida às seis fontes de água nascidas lá na Biquinha.

Mas há quem prefira do Porto, a lembrança de uma constelação de mulheres prostituídas às quais se deve agradecer a ainda que precária, conservação dos casarões. É o que acham. Depois que elas espontaneamente ou constrangidas se foram, os casarões tombaram e veio o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional que o restante tombou, isto é, declarou o conjunto como sendo: patrimônio cultural.

O mercado.
Sou capaz de dizer nome por nome dos comerciantes que tinham lojas diversas no andar térreo dos casarões, viro a esquina e encontro o Banco Agrícola do Espírito Santo, onde tio Othovarino trabalhava para um outro banco, era um agente.

A casa da esquina seguinte, ora, era a venda do tio Zé Daher, no cruzamento das Ladeiras de São Mateus, mais íngreme e que na extensão, passava a se chamar Rua Sete, com a ladeira de São Benedito, mais extensa e mais transitada, de onde se contemplava o serpentear do rio e onde cegos – dos piores porque não quiseram ver – permitiram construções e nunca mais uma criança desceu por ali fazendo a descida de escorregador, sentado numa folha de coqueiro.

Gente de posses morava no Porto, havendo quem de tal forma teria pressionado um Prefeito da época que o mesmo cometeu o crime do qual ficaria sem perdão por todas as gerações. Por ouvirem falar das palmeiras imperiais que margeavam o cais e da beleza que tinham e que foram cortadas, sentem de tal forma a prepotência daquela lembrança e se indignam que ainda visualizam os grandes troncos que jogados no rio para serem levados pela correnteza, resistiam em se apartar do solo onde haviam crescido.

No porto, uma garotada traquinas encontrava o lugar dos banhos de rio. Deliciava-se com saltos incríveis do trampolim do trapiche de S. Ermelindo. Infelizmente, dessas oportunidades há registro de quem não voltou. Terá sentido câimbra ouvia-se dizer e o fato é que “no verde dos anos” se foram dessa vida.

O Porto foi berço da cidade de São Mateus, os primeiros palpitares da vida mateense aconteceram no Porto. A palavra é dura, mas é verdadeira, foi quando se deu a decadência portuária que as famílias foram subindo e acabou que “lá em baixo” só ficou, quem não tinha outra opção.

A certa altura, tudo despencava. Foi conseguida uma verba federal para proceder à revitalização do Porto. Alguma coisa foi feita, mas de tudo que o Porto foi, agora é apenas um lugar que luta em busca de recuperação não se diga de todo apogeu de um tempo, mas ao menos, relativamente.

Vez ou outra, os tambores de congo ainda se ouvem por lá, um artista sonhador daqui e dali refugia-se nas lembranças e onde encontra um espaço, abriga-se, como pode. Sente como que obrigação de cantar loas aos casarões, num faz de conta que tudo ainda é igual como fora antes.

Visitantes que descem a ladeira, continuam se deslumbrando, afinal de contas, por ali, um rio de águas mansas continua passando rumo ao mar, não sem dar uma certa impressão de que vez ou outra,  talvez para se juntar ao contingente das águas que caminham atrás, como que volta.

Há quem por alguma mágoa desvinculou-se do velho Porto. Sem desvalorizar suas realidades, mas também sem ver razão para “mover uma única palha” que seja, pró recuperação ou para lhe assegurar atualidade.

Se emparelhado, você caminhar com o rio, chegará no Vale do Cricaré, de uma vegetação de verde verdíssimo, beleza de se ver. Por ai, vai ficar mais longe, mas se continuar caminhando, chegará à Barra Nova, onde o rio se entrega ao mar.

Eis, são argumentos num intervalo de tempo, digamos de sessenta minutos. Pinceladas entre encantos que não só geram, mas se fazem a própria poesia.
Entendo quem em São Mateus, quer sempre colocar algo que diga respeito à cultura no velho Porto, em uma das casas que existem ou que ainda possam ser reerguidas, mas, permitam-me que diga ou sugira: quer fazer faça, mas não se esqueça que os tempos passaram e mudaram tudo.

Um teatro, por exemplo? Então antes, torne o lugar mais atraente e mais frequentado, não só por quem quer ver, mas por muitos que caminhem pra cá e para lá, que se mexem, que circulam por um objetivo, que trabalham, produzem, vivem e convivem.

Mais gente, mais infraestrutura, saúde e educação. Teatro é representação do dia a dia, sem dia a dia, como ter teatro? Representar o quê,  por que questionar.

Um teatro novinho, no meio de quase tudo velho no entorno, acabará  por não ser usado e se terá feito um gasto inútil, só porque se deu ouvido apenas à voz do coração.

Marlusse Pestana Daher
Vitória, 12 de dezembro de 2013

22:55

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

IGUALDADE RACIAL

Democracia é processo que se compõe de uma infinita sucessão de atos democráticos. É um caminhar firme, legal, justo e democrático para um futuro promissor. É uma obra inacabável, pois em permanente aperfeiçoamento. É a busca diuturna da mais ampla e justa igualdade: racial, educacional, cultural e econômica. Contrário senso, quando se retroage, não se visa a Democracia, mas, sim, a sua negação: a Ditadura.

Nélson Mandela (1918-2013), sul-africano, pacifista, democrata e humanista, logo que libertado da clausura, que lhe impuseram por 27 anos, retomou, em 1943, sua luta para, a partir do combate ao apartheid - segregação da maioria negra por uma minoria branca da África do Sul - implantar regime harmonioso, democrático e progressista em benefício de pretos e brancos indistintamente.

Até 1994, a África do Sul foi dirigida  apenas por representantes brancos, apesar de minoritários. Nélson Mandela, primeiro Presidente negro, elegeu-se em 1994 e governou o seu País por apenas um mandato, que se exauriu em 1999. Não aceitou ser reeleito, o que, também nesse particular, demonstrou seu caráter eminentemente ético, partindo-se do pressuposto de que a alternância no Poder é parte integrante do processo democrático, o que deveria ser atributo de todos os políticos.

Entretanto, durante esse curto período de governo (05 anos), mudou, ele, a conduta e os rumos do seu País, para gáudio temporário do seu povo. Temporário, porque, segundo manifestação pública que acabou de ocorrer durante o seu velório, o povo presente, tendo o seu atual Presidente, Jacob G. Zuma, como desonesto, vaiou-o longamente.

Em razão da repercussão mundial da eloquente obra democrática, pacífica e, sobretudo, humana, que Madiba (nome tribal de Mandela) realizou na sua terra natal, o mundo inteiro se vê obrigado a curvar-se diante da sua altiva, corajosa, irrepreensível e determinada estatura ética e moral, de que é exemplo a ida, “conjunta e misturada”, da Presidente Dilma Rousseff e dos ex Presidentes Sarney, Collor e Fernando Henrique, ao seu concorrido e educativo funeral.

Para homenageá-lo a contento, invocamos, aqui, o sintético, mas objetivo, discurso de outro grande e injustiçado personagem do século passado. Referimo-nos a Bertold Brecht (1898-1956), dramaturgo e poeta alemão, cuja lapidar dicção retrata perfeitamente o Mandela pacífico, democrático, humano, enfim, verdadeiro estadista:

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis".

Eis o que foi Nélson Mandela para a humanidade!
Entretanto, voltando o nosso olhar para o nosso maltratado e sofrido Brasil, apesar de reconhecermos que, nos últimos vinte anos, houve alguns avanços, e de invocarmos, garbosa e frequentemente, o atual texto constitucional, em especial no concernente à Igualdade e até mesmo à Democracia, lamentamos que a real situação do nosso País se situe muito aquém da situação ideal, almejada, sobretudo, pelas camadas mais carentes da população, pois, entre a forma e o conteúdo, entre a teoria e a prática, divisamos, incontestavelmente, enorme vácuo, imenso vazio, que, há muito, reclama preenchimento!
Parece-nos não pairar qualquer dúvida de que, entre nós, a desigualdade, sinônimo de discriminação, especialmente entre ricos e pobres, e entre pretos e brancos, é, indiscutivelmente, chocando, gritante, agressiva até mesmo para os menos sensíveis aos dramas alheios, porquanto tal exclusão é plenamente visível nos mais diversos setores da Sociedade: no acesso à escola, no acesso a justiça célere, no acesso ao mercado de trabalho, no acesso a igualdade de remuneração, enfim, no acesso às políticas públicas em geral (como saúde, segurança, transporte etc.).
Quanto à taxa de desemprego: em 2012, negros (12,2%) e brancos (10%). O índice maior de emprego dos negros é na construção civil e nos serviços domésticos. Quanto à remuneração: em 2012, a dos pretos era inferior à dos brancos em 36,11%. Definindo a ausência de políticas públicas voltadas para as camadas mais pobres da população (pretos e brancos), que moram (ou vegetam!) nas periferias, já se disse que: “... o Estado só chega pelas mãos da Polícia”.
Relativamente ao nosso sistema carcerário, nada melhor para defini-lo do que a transcrição de trecho de recente entrevista do atual Presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, Desembargador Pedro Valls Feu Rosa: “Quando passamos por uma prisão brasileira e vemos que lá estão 99,99% de miseráveis, fica claro que há uma cultura de impunidade aqui.”
Sobre Violência: em 2010, para cada assassinato de um jovem branco, foram assassinados 2,5 jovens negros. Segundo dados de 2011, o homicídio era a principal causa de mortes violentas dos jovens em geral: 53,4 assassinatos para cada 100 mil jovens. Segundo dados do Mapa da Violência de 2012, havia uma pandemia de mortes de jovens negros. Entre 2002 e 2010, caiu em 33% o número de assassinatos de jovens brancos e cresceu 23,4% o número de  assassinatos de jovens negros.

Nesta quadra deste modesto arrazoado, parece-nos oportuno e conveniente, porque pertinente, transcrevermos, aqui, o poema Haiti, da lavra de Caetano Veloso e Gilberto Gil:

Quando você for convidado pra subir no adro
Da Fundação
Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados,
quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros
quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos
pobres como pretos
Como é que pretos,
pobres e mulatos
E quase brancos
quase pretos
de tão pobres são tratados”.

Concluindo: pregamos que, em razão das evidentes, graves e amplas injustiças e da vergonhosa e irritante corrupção que se espraia, sobretudo, pelas Administrações Públicas nos três níveis de governo, urge que surja um Mandela brasileiro capaz de dizer, especialmente aos gestores públicos, uma só palavra: basta!

Salvador Bonomo
Ex Deputado Estadual e Promotor de Justiça aposentado
Vitória, ES, 11.12.2013.  

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

D. VITORIA DE S. VIRGULINO

Estou escrevendo sobre personagens de São Mateus.
Poderá surgir o livro: NOSSA TERRA, NOSSA GENTE.
Hoje, D. Vitória Magalhães.

Penso que de altura teria no máximo, um metro e cinquenta centímetros, pelo que, o corpo deveria corresponder, não se pretendendo que fosse esguia, até
porque com tal altura era quase inconcebível que alguém associasse tal qualidade àquele perfil.

Bem gordinha, o que se chama de um “bujãozinho”, avantajado na parte superior, busto e costas, quadris menos. Um rosto meio de cereanse, onde jamais vi apagado, nem que fosse por um simples esboço, um sorriso.

Nascera em Conceição da Barra onde o Meste Virgulino Magalhães, um alfaiate com “tenda” na Praça de São Benedito, três portas na frente, ali, pais severos lhe levavam para aprendizagem do ofício os filhos, de modo que, ao invés de brincarem pela rua, como tinham todo direito, mas eles não pensavam assim,  ficassem de agulha na mão, mesmo que não tivessem nenhuma tendência ou gostassem do ofício. Papai mesmo colocou Abdo lá, por pouco tempo, mamãe deu jeito de tirar.

Ah sim, estava dizendo que em Conceição da Barra S. Virgulino colheu a que também lhe pareceu a melhor escolha e companheira de vida. Casaram-se e tiveram seis filhos: Jefferson, Gibson, Virgulino Filho, José Carlos, Maria Dulcineria e Anna Rita.

Jefinho decidiu ser padre. Permaneceu na Arquidiocese de Vitória, preferindo depois a Diocese de Cahoeiro de Itapemerim, mesmo com a criação da Diocese em sua cidade natal, São Mateus. Gibinho trabalhou no Rio de Janeiro até aposentar-se e hoje mora em Conceição da Barra, a exemplo do pai, casou-se com uma barrense, Gabriela. Zeca casou-se com Alaíde, foi o que mais multiplicou. Carlinhos casou com Maria Eugênia, foi funcionário de carreira do Banco do Brasil. Lica escolheu enfermagem e só voltou para São Mateus, depois que se aposentou. Ana Rita, ao invés, permaneceu como sempre ao lado dos pais, na mesma casa da Rua Dr. Moscoso, é mãe de Carlos Henrique.

Fui contemporânea de ginásio de Anna Rita, tendo em companhia da mesma vivenciando ótimos momentos de adolescente e jovem. Como me lembro daquela voz com a qual ela entoava o COMPREENDEU (abraçou-me dizendo a sorrir...), ela só cantava “compreendeu”, com voz alta e estridente.

Era mestra em inventar histórias e tramar gozações. Certa feita, um rapaz nascido em São Mateus que morava fora, visitando à terra foi à sua casa, os pais eram amigos. Ela se encarregou de apresentar-nos, como se faz com conhecidos, àquela altura, só isto, depois, se encarregou de convencê-lo que eu tinha ficado apaixonada por ele e vice-versa. Assim, os dois bobões em relação ao outro, pensava de estar abafando. Só mais tarde descobri a trama e só deu mesmo para rir.

Eu ia sempre à casa de Anna Rita, até que ela foi estudar em Baixo Guandu, no Colégio Brasil do Pe. Alonso. Nas férias, a seu modo,  contava tantas coisas que dentro de mim foi-se formando um mito ou o que valha. Quando ingressei no Ministério Público, ao ser destinada para Baixo Guandu, na manhã do dia seguinte o que fiz primeiro, foi conhecer o Colégio Brasil.

Naquelas tardes mateenses, como era comum, tomávamos café e nesses momentos sempre à mesa, contávamos com a presença de D. Vitória.

S. Virgulino voltou primeiro para a casa do Pai. Viúva, claro que sequer pensava em casar-se de novo, até porque naquele tempo, era deveras incomum, viúvas voltarem a se casar, mas ela sempre tinha um namorado, inventado, é claro, só para contar histórias, para fazer rir, o que não era pouco.

Assim é que, sempre havia um tipo que estava perdidamente apaixonado por ela, mas não queria nada com ele e o cara continuava insistindo. Dava presentes e mandava flores.

Em 1992, assumi uma promotoria em Cachoeiro de Itapemirim. Sabedora de que D. Vitória passara a morar na cidade, para fazer companhia ao filho sacerdote, em companhia de uma amiga que sabia onde ela morava, fui visitá-la, provava muita alegria, sabia o que significava ou me esperava.

Pareceu-me deparar com a mesma face de sempre, ou seja, não envelhecera. Conversa vai, conversa vem, São Mateus, Zeca e Gibinho, Lica e Anna Rita e Carlinhos, enfim levávamos um papo comum de velhas conhecidas, familiarizadas com os mesmos lugares, com as mesmas pessoas.

Absolutamente, sem ter nem pra quê,  mas chegara a hora da graça, ela se coloca em determinada posição permanecendo sentada e diz:

- Ai, mas hoje amanheci com tanta dor nas cadeiras...

- Ôpa, o que aconteceu, D. Vitória?

- Ah, ontem fui lá na rua, requebrei tanto para arranjar um namorado que fiquei assim!

- Quá, quá, quá, rímos convulsivamente, minha amiga e eu, ela junto, por bons instantes.

É isto ai. Claro que D. Victoria teve muitos problemas a superar, criar seis filhos e bem encaminhar todos, não terá sido nada fácil com a evidência que transparecia de sua vida, de que sua riqueza era do sobrenatural.  Terá tido momentos de sofrimento, de apreensão, de angústia,  como têm todas as mães. Terá feito milagre com o que ia para a panela para que o gosto fosse o melhor e suficiente para todos. Terá ficado alguma vez tonta, ao soprar o ferro de engomar (de ferro mesmo) à brasa. Com que carinho terá lavado tanta roupa, pregado botões que se desprenderam, dado pontos para cerzir alguma peça.

Na vida matrimonial, ela também terá provado algum momento amargo que a fidelidade à promessa ajudou a superar. Convém contudo, lembrar a esta altura, que S. Virgulino também era o que se chama de muito engraçado, capaz de, sério, dizer coisas incríveis e fazer rir. Não deu outra, os seis filhos são autêntica farinha do mesmo saco.

No dia da 1ª Missa celebrada pelo filho, Pe Jeferson Luís Magalhães, primeiro padre mateense,  na Matriz de São Mateus, lembro-a com véu preto sobre a cabeça e um terço nas mãos,  ele, num terno que certamente era confecção própria, ao lado um do outro, lá estavam os dois rendendo graças a Deus.

Só me lembro de D. Vitória risonha e fazendo rir. Pergunto-me de onde vinha tanto bom humor, certamente de gente que é capaz de entender que o pouco com Deus é muito, de uma alma livre e cheia de amor, que certamente, e principalmente e sobretudo, optou por ser feliz.

Não é preciso dizer mais nada.

sábado, 7 de dezembro de 2013

JÚLIA DA VOVÓ

Dia 7 de dezembro!

Aniversário de Júlia da vovó! 12 anos!

Minha amada,


Todos os anos, essa vó manda uma mensagem para você. Não sei se é bonita, mas certamente diz a você o que meu coração sente.

Você traz encantamento, alegria, ternura, doçura, cor e muito amor para minha vida, porque é doce como o mais puro mel, alegre como o raiar de um lindo dia, colorida com todas as flores da primavera e carrega um amor infinito no seu coração.

Quero que sua vida seja sempre para o bem e que Deus, na sua infinita bondade, cubra seu viver de  bênçãos.

Desejo, amor meu, que tenha sempre pureza no coração, amigos para conviver, sabedoria para distinguir o bem do mal, alegria e amor para repartir, um colo seguro, quando precisar, e, sobretudo, tenha muita Fé.

Te amo hoje, amanhã e sempre!


                  Vovó Licea e