sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

ANO LITERÁRIO RUBEM BRAGA


2013 ano comemorativo do centenário do cronista capixaba RUBEM BRAGA.
 
A AMALETRAS, Academia Mateense de Letras, também comemora  ano literário com o nome do ilustre conterrâneo. 
Para tanto instituiu uma medalha com seu nome e com ela vai agraciar pessoas que se destacam na literatura e nas artes.

UMA MULHER PAPISA, QUE TAL?

CEBI

E se o Papa fosse uma mulher? Dirceu Benincá

Quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013 - 16h50min


"Não soaria absurdo que uma mulher fosse Papisa, como não o seria que outras mulheres tivessem o direito a ser cardeais, bispas, sacerdotisas, diaconisas... Não seria absurdo que a Igreja fosse mais democrática em todas as suas instâncias e possibilitasse direitos iguais entre homens e mulheres. Direitos não só de presença e de coordenação de alguma pastoral, mas de decisão e ocupação das mais diversas funções na hierarquia", escreve Dirceu Benincá , teólogo e sociólogo.
Sobre Leitura Feminista da Biblia, conheça O belo, as feras e o novo tempo, Exegese Feminista e outros livros.
Eis o artigo.
A notícia da renúncia do Papa Bento XVI tomou o mundo inteiro de surpresa. O caso inusitado provocou pronunciamentos, manifestações e reflexões em diversas direções. Umas demonstrando tristeza, outras incompreensão, outras ainda alegria pela atitude humana, prudente e coerente do Papa. As razões oficiais apresentadas e aquelas eventualmente não anunciadas, mas que teriam contribuído para essa decisão, estão a merecer ampla análise no mundo católico e fora dele.
O fato adquire contornos e impactos especiais por se tratar de uma instituição milenar com forte tradição em torno da figura do Papa. O exame dos caminhos trilhados pelo papado na Igreja, sobretudo pelos últimos papas, e, especificamente a análise do perfil, da trajetória e do legado de Bento XVI, vem acompanhado de especulações, previsões e expectativas acerca de quem será o novo Papa. Neste sentido, entre outros importantes artigos, destaco um escrito pelo especialista no assunto, o teólogo Leonardo Boff, intitulado “Que Papa esperar que não seja um Bento XVII?”
Diante dos fatos e das circunstâncias, é fundamental refletir sobre a estrutura da Igreja tendo por base as primeiras comunidades cristãs. A propósito, o título deste texto traz uma provocação estrutural. Creio não ser possível pensar a função do Papa desvinculada da estrutura da Igreja e do contexto de modernidade avançada em que nos encontramos, com seus múltiplos desafios. O Papa é um elemento constituinte da conjuntura da Igreja, mas, ao mesmo tempo, com poder para fomentar a manutenção ou a alteração de bases estruturantes da própria Igreja.
Na atual estrutura eclesial parece inconcebível, por exemplo, imaginar a possibilidade de termos no comando geral da Igreja uma mulher. Não se trata de discutir o desejo, as condições ou a capacidade de alguma mulher no mundo ser Papa, ou, no caso, Papisa. O fato seria inédito, a não ser que a Igreja admitisse como realidade e não como lenda a existência da Papisa Joana da Idade Média. Então, ao sair fumaça branca na chaminé do Vaticano, a Igreja poderia proclamar de maneira amplamente inovadora: Habemus Papisa.
O que pode parecer algo totalmente fora de cogitação ou em pleno desacordo com a doutrina, não seria, contudo, um absurdo ou uma aberração. Não mesmo, ainda mais em se pensando na quantidade de mulheres que fazem a Igreja acontecer na prática. Não seria absurdo também se considerássemos a necessidade da Igreja, enquanto instituição histórica, caminhar no compasso do mundo moderno, que garantiu às mulheres direitos políticos, sociais, econômicos, culturais.... Que lhes possibilitou não só o direito de votar, mas também de serem eleitas para os mais altos postos, inclusive da Presidência de Estado.
Não soaria absurdo que uma mulher fosse Papisa, como não o seria que outras mulheres tivessem o direito a ser cardeais, bispas, sacerdotisas, diaconisas... Não seria absurdo que a Igreja fosse mais democrática em todas as suas instâncias e possibilitasse direitos iguais entre homens e mulheres. Direitos não só de presença e de coordenação de alguma pastoral, mas de decisão e ocupação das mais diversas funções na hierarquia. Do mesmo modo, a muitos já não parece absurda a superação do celibato obrigatório e a recondução de padres casados a funções ministeriais para animar a vida das comunidades e dos diferentes serviços pastorais.
Não seria absurdo igualmente que os papas e, eventualmente, as papisas fossem eleitos por um período não superior a dez anos, como exemplificou ser possível o próprio Bento XVI. Se a um bispo, que lhe cabe uma responsabilidade infinitamente menor que a de um Papa, é exigido que entregue a função de titular de sua diocese aos 75 anos, porque não aplicar o mesmo princípio ao Papa? Essa contradição exige, logicamente, que os papas ou papisas eleitos sejam mais jovens. E isso não soaria nada absurdo, já que o somatório de idade traz consigo uma série de limites humanos.
Ainda não seria absurdo imaginar que os futuros papas ou papisas fossem escolhidos em forma de rodízio, contemplando cada vez um continente ou região do mundo católico. Ter-se-ia, assim, uma real expressão de colegialidade, democracia e dinamismo na Igreja. Se, em tese, todos os cardeais têm o mesmo poder de representação, tal ideia não incorre em absurdo e inconveniente. Afinal de contas, a democracia e a representatividade não é um valor de menor importância para a sociedade e para as nações em geral. Por que haveria de sê-lo para a Igreja de Cristo?
Enfim, não se constitui em absurdo que a Igreja dê um ou vários passos adiante, sem, contudo, desviar-se de sua mais nobre missão que é contribuir na construção do Reino de Deus. A opção preferencial pelos pobres, a espiritualidade profético-libertadora, a promoção da dignidade e da fraternidade humana, o fortalecimento da justiça, da paz e da igualdade e o cuidado com a Mãe Terra estão em perfeita sintonia com os vários desafios estruturais que a Igreja tem à sua frente. Se, um dia, uma mulher chegar a ser Papisa, quiçá tenhamos enfrentado também outros importantes desafios. Avançar nessa direção: eis a grande questão...


Instituto Humanitas Unisinos (IHU)
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
www.cebi.org.br

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

ARTICULAÇÃO


rumo ao sistema de participação?
Ana Claudia Chaves Teixeira
Clóvis Henrique Leite de Souza
Paula Pompeu Fiuza de Lima*


As entidades e movimentos reunidos em torno da Plataforma da Reforma Política já alertavam, desde 2006, que o pouco diálogo entre os espaços dos conselhos e das conferências estava reproduzindo a fragmentação das políticas públicas. Com seu caráter majoritariamente consultivo, setorial e distante das decisões econômicas, a avaliação era de que conselhos e conferências pouco estariam influenciando e controlando as políticas públicas. Por isso, uma das bandeiras da Plataforma - mesmo sem entrar em detalhes - era um sistema integrado de participação popular nas políticas públicas.      

Como já afirmamos em artigo anterior, o governo Lula contribuiu para o aumento do número de conselhos e conferências nacionais. De alguma forma, disseminou-se em vários Ministérios a ideia de criar sistemas participativos por políticas públicas, muito impulsionados – é importante dizer – por lutas e bandeiras da sociedade civil. Alguns lograram essa meta, como a área de Segurança Alimentar, e outros sistemas estão se constituindo. Ao analisarmos as resoluções das conferências nacionais encontramos que em pelo menos outras nove áreas de políticas, há propostas de criação de sistemas: cidades, cultura, segurança pública, pessoa idosa, educação, juventude, esportes, ciência e tecnologia e direitos humanos. E no caso da cultura, a lei que cria o sistema foi aprovada recentemente pela Câmara dos Deputados***. Ou seja, a ideia de criar sistemas de políticas públicas com canais de participação (como conselhos e conferências) parece ser hoje uma das grandes alternativas para a descentralização administrativa.                

Outras políticas criaram conselhos e conferências com o mesmo tema, mas ainda não falam de um sistema participativo ou deliberativo. Este artigo vai discutir em que momento nos encontramos no debate sobre um sistema de participação e quais os principais desafios que ainda temos pela frente. Nesse sentido, duas iniciativas merecem destaque no debate sobre um sistema de participação.     

Em 2010, no fim do Governo Lula, foi levantada uma discussão a respeito da necessidade de regulamentação das políticas sociais em desenvolvimento no país. Chegou-se a falar na formulação de um projeto de lei chamado "Consolidação das Leis Sociais". A proposta incluía garantir em lei o funcionamento de mecanismos de participação social no processo de elaboração das políticas públicas, como conselhos e conferências.

A ideia não foi para frente. Além de ser um ano eleitoral (quando dificilmente o Congresso Nacional teria tempo hábil de discutir e aprovar a proposta), ela foi alvo de questionamentos pela possibilidade de engessamento das ações sociais. Afinal, soluções adequadas em um momento poderiam não ser pertinentes quando a situação se alterasse e o detalhamento legal poderia impedir inovações.           

Em 2011, a Secretaria-Geral da Presidência da República elencou como uma de suas prioridades a constituição de uma Política e de um Sistema de Participação. Em novembro de 2011, foi realizado, por esse órgão, um seminário nacional com a presença de mais de 350 participantes para elaborar propostas para um Sistema Nacional de Participação Social, a ser implementado até 2014. Além disso, foi rearticulado o Fórum Governamental de Participação Social, espaço voltado aos gestores federais para a discussão de questões relacionadas ao tema.     

Mas como pensar um Sistema de Participação em um país como o Brasil? Quais são de fato os sistemas de participação já existentes (que já articulam instâncias participativas diversas) e o que é possível aprender com eles? Quais são os espaços onde potencialmente poderia haver maior integração?  

O que são sistemas de políticas públicas com participação?           

Em geral, os sistemas de políticas públicas dizem respeito a como atribuir responsabilidades e distribuir recursos públicos entre os entes federativos, procurando responder à questão sobre como deve se dar a descentralização naquela área. Em uma pequena parte desses sistemas, há a previsão de criação de conselhos em todos os níveis da federação, e conferências do nível local ao nacional com certa periodicidade. O que parece estar em jogo aqui é que as conferências seriam espaços mais abertos à participação e mais eventuais, enquanto os conselhos espaços mais permanentes, e mais fechados a alguns participantes. E, segundo as leis que criam esses espaços, seria desejável que as duas instâncias se articulassem de alguma forma. Em uma pequena parte das áreas de políticas - como assistência social, saúde e segurança alimentar – já há a previsão legal dessa articulação.           

No caso da Saúde, o sistema mais antigo (desde 1990), a lei 8.142/90 instituiu o conselho e a conferência como instâncias colegiadas nos diferentes níveis do Sistema Único de Saúde (SUS) e explicitou o caráter permanente e deliberativo do conselho. À Conferência coube “avaliar a situação de saúde e propor as diretrizes para a formulação da política de saúde nos níveis correspondentes” e ao Conselho a atribuição de “formulação de estratégias e no controle da execução da política de saúde na instância correspondente, inclusive nos aspectos econômicos e financeiros” (lei 8.142/90).        

No caso da assistência social, o Conselho e a existência de Conferencias precederam o sistema legalmente construído. Em 1993, foi aprovada a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) que trouxe mais elementos ao redesenho institucional fortalecendo a gestão descentralizada e reafirmando a necessidade de articulação de ações em torno de uma política nacional. Já na LOAS, há menção aos Conselhos de Assistência Social como instâncias deliberativas do sistema descentralizado e participativo de assistência social, de caráter permanente e composição paritária entre governo e sociedade civil. Durante a 4ª Conferência Nacional de Assistência Social, em 2003, foi deliberada a necessidade da construção e implementação do Sistema Único de Assistência Social – SUAS, que seria o principal instrumento para dar efetividade a uma política pública de assistência social. Tanto a LOAS como o SUAS visam à gestão descentralizada e participativa da política. Em 2011, o conselho passou a ter como competência o encaminhamento das deliberações das conferências, sem dúvida, um avanço na gestão participativa da política.

Já na área de Segurança Alimentar, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) foi criado em 1993, e desativado em 1995. Em 2003, no início do governo Lula, voltou a funcionar, e está garantido pela Lei Orgânica, de 2006, fazendo parte do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN). Inspirado nas deliberações das respectivas Conferências Nacionais, o Consea acompanha e propõe diferentes programas, como Bolsa Família, Alimentação Escolar, Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar e Vigilância Alimentar e Nutricional, entre outros. Tem por objetivo, ainda, convocar a Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, com periodicidade não superior a quatro anos, bem como definir seus parâmetros de composição, organização e funcionamento, por meio de regulamento próprio.      

O Conselho mudou de papel a partir do momento em que o Sistema foi criado, em 2006. Ele permaneceu como órgão de assessoramento da presidência, mas passou a ter um papel mais pro-ativo na articulação entre setores do governo. Houve um empoderamento também das conferências como lugar privilegiado para a formulação de diretrizes da política e decisão sobre formas de indicação dos representantes da sociedade civil. Houve também uma maior estruturação interna do Consea, com mais estruturas de apoio e de funcionamento (como secretaria executiva). Há grande ênfase na articulação, apostando-se na Câmara Interministerial, e na necessidade de articulação com outros conselhos, e incluem-se mais ministérios entre os representantes do governo.    

Vemos com os exemplos da Saúde, Assistência Social e Segurança Alimentar que a participação pode ser elemento constitutivo dos sistemas de políticas públicas. Os conselhos e as conferências, na medida em que existem em diferentes níveis da federação, podem ser parte da estratégia de articulação do sistema. Um dos desafios é justamente desenvolver arranjos institucionais capazes de garantir legalmente o espaço para a participação, mas também permitir a adaptação ao contexto político daquele setor. Outro elemento crucial é a articulação entre os próprios espaços de participação, seja em nível municipal, estadual ou nacional.

Para além dos sistemas previstos legalmente, quais politicas públicas estão – com alguma regularidade – fazendo conferências e mantêm um conselho nacional regular?  

Dentre os 59 conselhos nacionais existentes, menos da metade (para ser preciso apenas 24) têm conferências nacionais com o mesmo nome. Dentre esses 24 conselhos, se levarmos em conta quais áreas mais se abrem à criação de conselhos e conferências, e quais menos se abrem, foi possível perceber que a distribuição é muito desigual. Para melhor entender quais são as áreas de políticas que mais integram conselhos e conferências nacionais, agrupamos os ministérios em quatro áreas temáticas, a saber: Articulação Político-Institucional; Econômica; Infraestrutura e Socioambiental.    

A área de política que possui mais conselhos com conferências correlatas é a socioambiental. A classificação por áreas foi feita considerando os órgãos governamentais aos quais os conselhos e as conferências estão vinculadas. A área que menos possui esses espaços de participação é a área econômica. Isso corrobora a tese que circula entre as organizações participantes desses espaços de que há participação em áreas sociais, mas pouca participação em áreas econômicas e em decisões estratégicas como àquelas relacionadas à infraestrutura (energia, transportes etc.).        

Entre as possíveis formas de atuação do conselho na realização da conferência estão: a) o conselho coordena a conferência, b) o conselho é criado ou reformulado a partir da conferência, c) o conselho integra a comissão organizadora e, d) o conselho apenas participa da conferência. Não é preponderante, mas considerável, a proporção de conselhos que coordenam a conferência: 32%. Ao mesmo tempo, apenas três foram os casos de conselhos criados ou reformulados a partir das conferências. Ambas as informações sinalizam baixa institucionalização se consideramos o pequeno enraizamento das relações entre conselhos e conferências.

O que podemos perceber é que as vinculações entre conselhos e conferências nacionais ainda são frágeis. Considerando que somente 38% dos conselhos nacionais mapeados possuem conferências correlatas e que nem sempre esses se envolvem na coordenação da conferência, é possível apontar alguns limites à visão de que conselhos e conferências já fazem parte de um sistema deliberativo. O que existe é um potencial ainda não realizado.

Como se dá a articulação entre conselhos e conferências que a princípio tratam de temas próximos?


Se o potencial de integração entre conselhos e conferências de um mesmo tema ainda é pouco realizado, ainda menos existentes são as interfaces entre espaços participativos de diferentes políticas públicas. É nesse momento que se percebe que o modo fragmentado de funcionar do Estado também se repete nas instâncias de participação social. Ou seja, poucos ou quase inexistentes são os mecanismos formais de articulação entre conselhos de áreas correlatas. Em alguns casos, as conferências nacionais podem ser um instrumento de integração intersetorial, quando há a convocação conjunta de conferência que trata de temas relacionados a diferentes áreas de políticas, como a de Saúde Ambiental, que reuniu o Ministério da Saúde, das Cidades e do Meio Ambiente, com seus respectivos conselhos.     

A baixa articulação entre as instâncias de políticas públicas correlatas acaba por gerar sobreposições de pautas, agendas e representação nesses espaços participativos. Isso coloca em xeque a efetividade dos espaços, já que suas decisões não são apropriadas pelas instâncias executoras. Mais de um Conselho, por exemplo, pode deliberar sobre os mesmos objetos, pois há competências compartilhadas. E, na implementação das deliberações, não são observadas possíveis contradições. Existe, portanto, um desafio imediato quando se pensa a articulação entre conselhos e conferências que tratam de temas próximos: identificar os pontos de contato, como competências comuns, para buscar a sinergia nas ações.         

Um tipo de iniciativa que pode fortalecer a articulação entre colegiados de temas correlatos é a criação de Fóruns Interconselhos. O maior deles está sob responsabilidade conjunta do Ministério do Planejamento e da Secretaria-Geral, convocado com o objetivo de promover a participação no processo de elaboração e monitoramento do Plano Plurianual 2012-2015 e com a expectativa de desenvolver estratégias para o acompanhamento das ações de governo. Além dessa experiência, também houve a criação de Fórum Interconselhos para o monitoramento do Programa Brasil sem Miséria. Essas iniciativas estão sendo incentivadas pelo governo federal e podem ser vistas como oportunidades para a ação conjunta de conselhos, mas a rotatividade na participação, a baixa apropriação do espaço pela sociedade civil e a dependência de relatórios produzidos exclusivamente pelo governo para as ações de monitoramento das políticas transversais não nos permitem afirmar que esses fóruns, de fato, serão capazes de promover a participação empoderada de atores da sociedade civil.          

Quais seriam, então, as pistas para superar a fragmentação e o paralelismo?         


Como é possível perceber, falar em um sistema de participação no Brasil é um enorme desafio. Isso não se deve apenas à extensão territorial do país ou ao complexo arranjo institucional que distribui tarefas e recursos entre os entes da federação. O que percebemos é que mesmo em áreas com sistemas de políticas instituídos em lei há dificuldades de efetivação da articulação entre as instâncias participativas nos diferentes níveis da federação. Além disso, fica apenas como expectativa a real conexão entre conselhos e conferências, mesmo sendo espaços com grande potencial de articulação dentro de um setor de política pública. E, se dentro de um mesmo tema os espaços participativos não conversam, é possível sentir o silêncio entre áreas correlatas.

Conselhos e conferências são instrumentos participativos utilizados amplamente no Brasil desde o período da redemocratização, e difundidos mais amplamente no período recente. Dada a multiplicação das instituições participativas sem a esperada articulação entre elas, tem se debatido a necessidade de um sistema participativo no Brasil, do qual conselhos e conferências por políticas públicas seriam centrais. Nesse debate, além de pensarmos desenhos institucionais flexíveis e adequados às diferentes realidades das políticas públicas é necessário superar a fragmentação e o paralelismo nas instâncias já existentes.      

Para tal, o potencial de articulação entre conselhos e conferências poderia ser explorado buscando a complementaridade. Caberia, pois, deixar claro quais os papéis dos conselhos e das conferências nos sistemas de políticas. Nesse sentido, observar as distintas características de cada um dos tipos de espaços de participação seria fundamental na repartição de competências. Além disso, a interconexão explícita poderia trazer efetiva articulação. Por exemplo, o conselho poderia ser legalmente responsável por colaborar na organização da conferência, tendo assim oportunidade de construir a pauta desse amplo fórum de debates. Poderia também ser explicitada a função do conselho em acompanhar o encaminhamento das propostas formuladas nas conferências. Outras conexões poderiam ser buscadas em um setor de política pública, mas sem descuidar das interações com áreas correlatas. Nesse sentido, instâncias conjuntas entre conselhos ou mesmo conferências com temas transversais poderiam ser instituídas visando à integração.

Publicação: http://www.reformapolitica.org.br/artigos-e-colunas.html
 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

MULHERES E PODER


Entre 10 a 17 de novembro do ano passado, a Federação Internacional das Mulheres de Carreira Jurídica realizou em Dakar, seu XXI Congresso Internacional sob o tema: “Direitos Humanos como condição da paz”.


Presidente Dilma Roussef
Concluiu que nos próximos três anos, todo seu operar há de ser com o objetivo de fazer crescer “O Poder das Mulheres no Processo de Tomada de Decisões," leia-se, na política.

Pelas iniciativas que se veem em evidência, tal objetivo, formulado lá na África, está em sintonia com o que, ainda que debilmente, se vem procurando e acontece aqui e acolá.

Por outro lado, cumpre reconhecer que a marginalização da mulher como acontece, é devida a uma ainda não sepultada cultura encarnada no seio social, que relega as mulheres a um patamar inferior, mesmo ante evidências ou provas de que absolutamente nada deixam a desejar na realização de tudo que se propõem.

Registra a organização internacional, União Interparlamentar, com sede em Genebra, na Suíça: o Brasil ocupa a 146ª posição em um ranking sobre a participação das mulheres nos Parlamentos em 192 países do mundo. Com inexpressivo 9%, perde para Cuba, que conta com 36% de mulheres, no seu parlamento. Logo Cuba... pois é!

Numa tentativa de reverter esse quadro, a Lei 12.034, de 29 de setembro de 2009, estabelece que o partido ou coligação para concorrer aos cargos legislativos, deve apresentar pelo menos 30 % de nomes femininos. Encontram dificuldades em satisfazer tal exigência, daí a corrida que empreendem para fazer candidatas de qualquer jeito, quando chega a hora.

Para isso, partido que se presa, até conta com encantadores cujas flautas mágicas logram atrair mulheres, as quais, depois de muitas promessas, são lançadas “sem eira nem beira” aos lobos, em campanha. O que importa ao partido é que o percentual foi assegurado.

Por outro lado, os mesmos partidos despertaram para um projeto: “Formação Política para mulheres”. Decidiram colaborar. Estão sendo realizados encontros com vista a preparar candidatas para as eleições.

Realmente, uma boa ideia. Mister contudo, que o quanto antes, se encontre o método adequado para que se tire  melhor proveito de tal processo,  se obtenha o melhor resultado. Temos nomes ligados às diversas áreas que têm com que e podem colaborar expressivamente.

Importa escolher com eficiência os temas a serem abordados, improvisar é péssimo. As mulheres capixabas de carreira jurídica já foram convocadas, que digam logo presente.
Publicado em A GAZETA
17/02/2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

SABEDORIA DE PARACHOQUES


1 - Já cheirei coca. É igual a pepsi...
2 - “Big brother” de pobre é buraco de fechadura.
3 - 100 pecado e 100 juízo.
4 - 70 me passar, passe 100 atrapalhar.
5 - 80 ção! 20 te ver!
6 - 80 ção! 20 te ver! 100 você, não sei viver!
7 - 80 ção, 20 te buscar, mas 100 pressa...
8 - A cal é virgem porque só lida com brocha.
9 - A ciência é infalível, quem se engana são os sábios!
10 - A confiança mata o homem... e engravida a mulher.
11 - A culpa é minha e a coloco em quem eu quiser
12 - A esperança e a sogra são as últimas que morrem.
13 - A fé remove montanhas, mas com dinamite é mais rápido.
14 - A fé remove montanhas...mas os ecologistas são contra.
15 - A mata é virgem porque o vento é fresco.
16 - A medicina não cura a dor da separação.
17 - A moça casa com o pão e morre de fome.
18 - A mulher foi feita da costela; imagine se fosse do filé!
19 - A mulher mandou escolher entre ela e o caminhão...sinto falta dela!
20 - A mulher que eu mais amo tem compromisso com meu pai.
21 - A mulher que se vende vale menos do que recebe!
22 - À noite, todas as pardas são gatas.
23 - A ordem dos tratores não altera os viadutos.
24 - A palavra é prata, o silêncio é ouro.
25 - A pior sexta-feira ainda é melhor do que a melhor segunda-feira.
26 - A primeira ilusão do homem começa na chupeta.
27 - A terra é virgem porque a minhoca é mole.
28 - A união faz açúcar.
29 - A única mulher que andou na linha o trem pegou.
30 - A velocidade que emociona é a mesma que mata.
31 - A vida é dura pra quem é mole.
32 - A vida é um barato, o pobre é que acha caro.
33 - Adultério: antes a tarde do que nunca!
34 - Água mole em pedra dura, tanto bate até que cansa!
35 - Água mole em pedra dura, tanto bate até que molha tudo.
36 - Água mole em pedra dura, tanto bate que acaba a água.
37 - Alegria de poste é estar no mato sem cachorro.
38 - Alegria de rato é ver a ratoeira quebrada.
39 - Ame o próximo. Mas não seja apanhado.
40 - Ame sua Pátria! Ela não tem culpa dos filhos que tem.
41 - Amigo disfarçado, inimigo dobrado.
42 - Amigo é como o sol, só aparece em dia bonito.
43 - Amigo é igual parafuso, a gente só conhece na hora do aperto.
44 - Amigo meu não tem defeito. Inimigo, se não tiver, eu ponho.
45 - Amigos vêm e vão, inimigos se acumulam.
46 - Amizade remendada é igual café requentado.
47 - Amo minha sogra... que Deus a tenha, amém!
48 - Amor de mulher é R EA L
49 - Amor de verdade vai além da cama.
50 - Amor é igual fumaça, sufoca, mas passa.
51 - Amor sem beijo é como macarrão sem queijo.
52 - Amor sem beijo é igual goiabada sem queijo
53 - Amor sem ciúme é flor sem perfume.
54 - Antes dava um boi para não entrar numa briga, hoje brigo por um bife.
55 - Antes de ferir meu coração, lembre-se de que você está dentro dele.
56 - Antes tarde do que mais tarde.
57 - Aproveite a vida, já é mais tarde do que você pensa.
58 - Aqui jaz a minha sogra: descanso em paz!
59 - As mulheres perdidas são as mais procuradas.
60 - As nuvens são como chefes... quando desaparecem, o dia fica lindo!
61 - Até burro pula a cerca se grama do vizinho é mais verde.
62 - Até você explicar que em briga de Saci não tem rasteira... danou-se!
63 - Baixinho só anda em trajes menores.
64 – Banguela não encurta o caminho, encurta a vida.
65 - Bater por traz é covardia.
66 - Bebo para esquecer, só não lembro do quê.
67 - Beijar mulher que fuma é como lamber cinzeiro.
68 - Beijo de mulher casada sempre tem gosto de chumbo.
69 - Beijo é igual cigarro, vicia, mas não sustenta.
70 - Beijo não mata a fome, mas aumenta o apetite...
71 - Bom de briga é aquele que cai fora.
72 - Cabeça de político e privada você sabe o que tem dentro.
73 - Cabelo ruim é que nem assaltante...ou tá armado ou tá preso.
74 - Cachaça e mulher: no começo é bom, depois só dá dor de cabeça!
75 - Cachorro mordido por cobra tem medo de lingüiça.
76 - Cada escola que se abre é uma cadeia que se fecha.
77 - Cada vez sobra mais mês no fim do meu salário.
78 - Calça jeans sem bolsos e mulher sem seios: a gente não sabe onde põe as mãos.
79 - Calúnia é como carvão: quando não queima, suja.
80 - Carro a álcool, você ainda vai empurrar um.
81 - Carteiro feliz é aquele que gosta de sê-lo!
82 - Casamento e caxumba, se não cuidar vai pro saco!
83 - Casamento é igual Av. Paulista: começa no Paraíso e termina na Consolação.
84 - Casamento não é bom. O diabo não se casou e Jesus morreu solteiro.
85 - Casamento pode ser eterno. Minha paciência não.
86 - Casei-me com a cunhada para economizar sogra.
87 - Castigo da bigamia: ter duas sogras.
88 - Cautela e caldo de galinha não faz mal à ninguém... só à galinha.
89 - Celular e celulite, todo bundão tem.
90 – Cemitério: o lugar onde o sono é mais profundo.
91 - Champanhe de pobre é sonrisal.
92 - Cheguei! Me apreciem sem moderação
93 - Cheiro branca... preta, loira, mulata, ruiva, amarela... cheiro até você!
94 - Chifre e dente só dói quando nasce.
95 - Chifre é igual dentadura: demora mas você acostuma.
96 - Chifre é igual dente de neném, só dói, quando nasce!
97 - Coceira na mão de pobre é sarna, na mão de rico é dinheiro.
98 - Como um maestro, a cada 100Km faço um concerto. (Dalton)
99 - Compra caminhão e usa sutiã só quem tem peito.
100 - Confie em Deus e não em candidato.
101 - Convencida eu? Não! Isso era antes, hoje sou perfeita. (Sonia Regina)
102 - Credor e devedor: o primeiro tem uma memória muito melhor.
103 - Cultura enriquece. Pergunte aos donos da escola.
104 - Dá aos pobres, empresta a Deus; empresta ao Governo, dá adeus.
105 - De bigode, nem gato.
106 - Dê férias para a língua, trabalhe com a cabeça.
107 - De onde menos se espera é que não sai nada mesmo.
108 - De pensar, morreu um burro, e, aposto que ainda não entendeu!
109 - Deixei meu coração no Rio, e também o relógio, cordão, carteira ...
110 - Depois que colocaram álcool na gasolina... Hic... carro anda soluçando.
111 - Detesto pessoas egoístas, se preocupam mais com elas do que comigo. (Paulo César)
112 - Deus abençoe as mulheres bonitas e, se tiver tempo, as feias.
113 - Deus cura, o médico manda a conta.
114 - Deus dá o juízo e a pinga tira.
115 - Deus deu a vida para cada um cuidar da sua.
116 - Deus é maior do que você merece
117 - Deus fez a mãe e o Diabo inventou a sogra
118 - Dinheiro de pobre parece sabão; quando pega, escorrega da mão.
119 - Dinheiro e mulher bonita, só vejo na mão dos outros.
120 - Dinheiro na mão de pobre só faz baldeação.
121 - Dinheiro não é tudo. Tem também o Credicard, Visa...
122 - Dinheiro não traz felicidade, mas acalma os nervos.
123 - Dinheiro não traz felicidade; manda trazer.
124 - Discurso é igual vestido de mulher, quanto mais curto melhor.
125 - Dívida pra mim é sagrada. Deus lhe pague.
126 - Divórcio é igual engenho, só devolve o bagaço.
127 - Dizem que dinheiro é coisa do diabo; mas, se quiser ver o diabo, ande sem dinheiro.
128 - Diz-me com quem andas e te direi se vou contigo.
129 - Doei todos meus órgãos: o coração já está em seu nome
130 - Duas coisas gostosas: uma embreagem macia e uma mulher carinhosa!
131 - Duas coisas matam de repente: vento pelas costas e sogra pela frente.
132 - Enquanto não encontro a mulher certa...me divirto com as erradas
133 - LULA é meu pastor...por isto estou pastando
134 - Mais vale chegar atrasado neste mundo, que adiantado no outro
135 - Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador
136 - Não roube! O governo detesta concorrência
137 - O chifre é como consórcio. Quando você menos espera, é contemplado
138 - Eu queria ser pobre um dia, porque ser pobre todo dia é duro.
139 - Qual o problema do Lula beber? afinal ele não sabe dirigir nada mesmo...
140 - Adoro comer perereca... mas vivo engolindo sapo.
141 - Agora estou fazendo a dieta da sopa... deu sopa, eu como!
142 - Beijo é igual ferro elétrico, liga em cima e esquenta em baixo.
143 - Chegou o caçador de perereca perdida.
144 - Cialisado, eu sou mais eu!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

ENTREVISTA COM MARINA SILVA



No último mês de outubro, o Banco Santander premiou professores universitários de cursos de Economia e Administração que integram o tema da sustentabilidade em suas disciplinas. A cerimônia de entrega do concurso Práticas em Educação para a Sustentabilidade teve abertura de Marina Silva. Com 30 anos de vida pública e muitos importantes “ex” no currículo – senadora, ministra e candidata à presidência da República -, Marina reiterou seu talento também como disseminadora “da ideia cujo tempo chegou”. Segundo ela, é na educação, afinal, que o mundo deve buscar resignificar-se para a crise civilizatória instalada no planeta.

Educação e liderança para a sustentabilidade nas empresas foi o tema da entrevista exclusiva que Marina Silva concedeu à Ideia Sustentável na ocasião.

Ideia Sustentável: A senhora costuma dizer que o mundo carece de “ideais identificatórios”. Na sua opinião, a sustentabilidade já representa um ideal, hoje, nas empresas e no mundo corporativo?

Marina Silva: Acredito ver isso nas pessoas, em primeiro lugar. Pessoas virtuosas criam instituições virtuosas. Aos poucos, os projetos identificatórios vão para as empresas. Os ideais se transformam em projetos. É bom quando isso adquire sentido transversal, que não seja só uma atividade ou ação dentro das corporações, mas uma cultura de sustentabilidade. Cada vez mais, as pessoas impingem essa visão na cultura das empresas. E já temos alguns exemplos, no Brasil e no mundo – mais do que discurso, muitas já se esforçam pelo sustentável.

IS: De que maneira acredita que as empresas podem envolver e educar lideranças para a sustentabilidade?

MS: A principal ferramenta é liderar – e ensinar – pelo exemplo. Se for discursivo, o apelo não tem a mesma força que o exemplo, de assumir atitudes. São práticas: desde tratar corretamente os resíduos, ter um envolvimento respeitoso com comunidades locais, uma atitude correta no uso da energia. É preciso fazer algo que traduza esses valores, tanto no próprio tecido da empresa como nos produtos ou serviços que ela aporta à sociedade.

IS: A senhora acredita que algumas empresas já tenham valores estabelecidos a ponto de transformar o padrão mental para ajudar a promover a revolução civilizatória de que necessitamos?

MS: Começam a surgir empresas com esse compromisso, de que o dinheiro não é apenas um fim em si mesmo, mas uma ferramenta para se construir um mundo e vida melhores. Essa é a grande mudança de padrão civilizatório. Não se pode mais produzir e consumir, produzir e consumir. Precisamos compreender que temos um mundo limitado, portanto, ser criativos. Enquanto há limites para o ter, não há para o ser, nem para generosidade, cooperação e erudição. É essa a cultura da sustentabilidade que precisa fazer parte da visão e do objetivo das empresas.

IS: Na sua vida política, a senhora se aproximou de lideranças empresariais, como Guilherme Leal (presidente do conselho da Natura) e Ricardo Young (ex-candidato ao Senado e vereador eleito da cidade de São Paulo). O que empresários trazem de novo à visão atual da política?

MS: O mais importante é que, para estas pessoas, meio ambiente não é uma estratégia de propaganda, mas a narrativa de um compromisso de vida. Eles correram e ainda correm riscos ao assumir essa bandeira no cotidiano de suas vidas e empresas. Fizeram isso em um tempo em que não havia glamour para o tema da sustentabilidade. São verdadeiros pioneiros no fazer e no dizer.

IS: Seria possível citar exemplos ou valores de algumas empresas que mereçam ser replicados?

MS: Acho difícil citar especificamente uma empresa, corre-se o risco de parecer propaganda. Hoje, o que se tem de diferente é um compromisso que foi transformado em cultura, ainda que em pouca quantidade no Brasil e no mundo. Cada vez mais, no entanto, isso se constitui enquanto tendência e processo de retroalimentação. Os pioneiros mostram que é possível fazer diferente. Então, a opinião pública demanda mais do que simplesmente um produto sanitário, estético, técnico ou de valor financeiro. Passa a querer coisas que estejam associadas a valores, que são intangíveis, mas igualmente importantes para se constituir a qualidade de um produto.

IS: Ao seu ver, a exigência do consumidor promoverá essa mudança nas empresas?

MS: Como falei, trata-se de um processo de retroalimentação, não existe via de mão única. Os que se dispõem a liderar pelo exemplo mostram, em várias dimensões, que é possível um produto integrar valor econômico, social, ambiental e cultural. E o consumidor que busca um consumo admirável e sustentável demanda produtos que fazem com que aqueles que ainda não estão comprometidos com esta agenda, tornem-se. Existem duas formas de entrar nesse esforço: pelo coração ou pela razão. Há aqueles que estão de coração. No entanto, outros enxergam, pela tendência, “uma ideia cujo tempo chegou”, como dizia Vitor Hugo, e acabam seguindo. Penso como o poeta Thiago de Mello: “Não é preciso se preocupar com o novo caminho, basta uma nova maneira de caminhar”. Aqueles que são pioneiros nessa maneira acabam trilhando um novo caminho para servir a todos.

* Publicado originalmente no site Ideia Sustentável. Autor da entrevista.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

PAPAS TAMBÉM RENUNCIAM

por Frei Betto*

“O papa não adoece, até que morra”, diz um provérbio romano. João Paulo II, homem midiático, não temeu expor–se enfermo aos olhos do mundo. Agora, Bento XVI dá um testemunho de humildade e, admitindo as limitações de seu precário estado de saúde, anuncia que renunciará no último dia de fevereiro.

Na história da Igreja quatro papas renunciaram ao ministério petrino: Bento IX (1º de maio de 1045), Gregório VI (20 de dezembro de 1046), Celestino V (13 de dezembro de 1294) e Gregório XII (4 de Julho de 1415). Bento XVI será o quinto, a partir de 28 de fevereiro.

Sagrado papa aos 20 anos, em 1032, Bento IX não primava pela ética e muito menos pela moral. Sua vida era um escândalo para a Igreja. O povo romano expulsou-o da cidade em 1044. No ano seguinte, voltou a ocupar o trono de Pedro e, meses depois, renunciou. Retornou ao papado em 1047, do qual foi deposto definitivamente no mesmo ano.

João Graciano, padrinho de Bento IX, pagou considerável quantia de dinheiro para que o afilhado lhe cedesse o lugar. Eleito papa em maio de 1045, adotou o nome de Gregório VI e governou a Igreja até dezembro de 1046, quando o afilhado o derrubou sob acusação de simonia.

Morto Nicolau IV, em 1292, cardeais italianos e franceses fizeram do consistório arena de disputas pelo poder, movidos mais por interesses políticos que pelas luzes do Espírito Santo. Após dois anos e três meses de impasse na eleição do novo papa Pedro Morrone, eremita italiano, de sua caverna nas montanhas enviou carta ao consistório, instigando-o a não abusar da paciência divina.

Os cardeais viram na carta um sinal de Deus e decidiram fazer do monge o novo chefe da Igreja. Pedro Morrone relutou, não queria abandonar sua vida de pobreza e silêncio, mas os prelados o convenceram de que o consenso em torno de seu nome tiraria a Igreja do impasse.

Com o nome de Celestino V, tornou-se papa em agosto de 1294. Menos de quatro meses depois, a politicagem vaticana o levou ao limite de sua resistência. Em consulta a seus eleitores, levantou a pergunta-tabu: pode o papa renunciar?

O colégio cardinalício não se opôs e, numa bula histórica, Morrone justificou-se, alegando deixar o trono de Pedro para salvar sua saúde física e espiritual. A 13 de dezembro do mesmo ano retornou à solidão contemplativa nas montanhas. Vinte anos depois foi canonizado, exaltado como exemplo de santidade. A 19 de maio a Igreja celebra a festa de São Pedro Celestino.

Também o papa Gregório XII renunciou, no início do século XV – período em que três papas reivindicavam legitimidade – para evitar que o cisma na Igreja se aprofundasse.

Joseph Ratzinger, atual Bento XVI, é, sobretudo um teólogo. Enquanto papa, não deixou de escrever, tanto que lançou uma trilogia sobre Jesus. São raros os papas-autores, sem considerarmos os documentos pontifícios, como encíclicas, bulas e alocuções, quase sempre redigidos por assessores.

Em geral, intelectuais não se dão bem com funções de poder. As questões administrativas parecem enfadonhas diante de tantos livros por ler e escrever. O político quer administrar; o intelectual, criar. Ratzinger talvez tenha decidido reservar o que lhe resta de tempo de vida para recolher-se à oração e à produção teológica.

Inicia-se agora a mais sutil campanha eleitoral: a da eleição do sucessor de Bento XVI. Entre os atuais 209 cardeais da Igreja Católica, 118 têm direito a voto, pois ainda não completaram 80 anos.

D. João Braz de Aviz
foi Bispo Auxiliar de Vitória -ES
Entre os eleitores figuram cinco brasileiros: Geraldo Magella, arcebispo emérito de Salvador (79); Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo (78); Raymundo Damasceno, cardeal-arcebispo de Aparecida (76); João Braz Avis, ex-arcebispo de Brasília, atualmente em Roma como Prefeito da Congregação para a Vida Consagrada (64); e Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo (63).

Com certeza o novo papa fará sua primeira viagem pontifícia ao Rio de Janeiro, em julho, para a Jornada Mundial da Juventude.

* Frei Betto é escritor, autor de Alfabetto Autobiografia Escolar

 Eu voto em D. João e você? Aquela simplicidade dele vai ser (desculpe a palavra) show no Vaticano.