segunda-feira, 18 de junho de 2012

DESPERDÍCIO DE FORÇAS



O dia está claro e estou transitando pelas ruas da cidade, atenta em meio de um trânsito caótico. É necessária toda atenção para não bater em ninguém e evitar que o outro bata em você, isto é, no carro. Paro em obediência à lâmpada do semáforo que ficou vermelha e logo se aproxima da janela do meu veículo um rapaz alto, traja-se com dignidade, sua roupa está limpa, o cabelo bem cortado, ainda é muito jovem.
Com diligência e visivelmente colocando todo empenho no que faz, com a agilidade que suas forças lhe permitem com vantagem, entrega panfletos. E logo me apercebo da presença de um outro, ambos se ocupam do mesmo trabalho.
O sinal permite agora que eu avance, mas já não vou só, levo comigo a imagem daqueles dois homens, duas pessoas, dois filhos de um país altaneiro, dois brasileiros cheios de direitos que não têm como alcançar.
Digo-me que é um desperdício de forças. Eles poderiam estar ocupados em empresas que requerem as qualidades da qual são dotadas e que lhes podem permitir melhor ganho. Não encontram essa mina, as circunstâncias que os rodeiam militam de forma inacessível aos seus esforços, resta-lhes entregar panfletos para receber muito pouco em recompensa, é um serviço ocasional, nem exige maiores esforços. Não supre as necessidades de suas vidas.
São evidências de que não obstante o país vá crescendo, as desigualdades ainda são gritantes. Mas eles estavam trabalhando. Outros preferem enveredar por caminhos menos dignos e tortuosos, em pouco tempo o ganho fácil através do tráfico, o mais provável nos dias que correm e o próprio vício, arrebatarão suas vidas e embora vivos perderão a própria liberdade, porque a fidelização naquelas paragens tem preço de vida ou morte.
Pelo restante do meu dia, a lembrança daqueles dois rapazes ocupou parte do meu pensamento. Hoje, talvez mais de seis meses depois a miragem deles ainda ocupa minha lembrança, até porque já me deparei com outros em igual circunstância, ocupando-se da mesma tarefa.
Que pena! Que desperdício de tanta força, meu Deus!

sábado, 9 de junho de 2012

ÉTICA DO CUIDADO


O QUE SIGNIFICA MESMO O CUIDADO?
Leonardo Boff Teólogo/Filósofo

Hoje as discussões em torno do desenvolvimento sustentável, um dos temas centrais da Rio+20: seqüestraram a categoria de sustentabilidade. Ela não se reduz ao desenvolvimento realmente existente que possui uma lógica contrária à sustentabilidade. Enquanto aquele se rege pela linearidade, pelo crescimento ilimitado que implica exploração da natureza e criação de profundas desigualdades, a sustentabilidade é circular, envolve a todos os seres com relações de interdependência e de inclusão de sorte que todos podem e devem conviver e coevoluir. Sustentável é uma realidade que consegue se manter, se reproduzir, conservar-se à altura dos desafios do ambiente e estar sempre bem. E isso resulta do conjunto das relações de interdependência que entretém com todos os demais seres e com seus respectivos habitas. A sustentabilidade funda um paradigma que deve se realizar em todos os âmbitos do real.

Para que a sustentabilidade realmente ocorra, especialmente quando entra o fator humano, capaz de intervir nos processos naturais, não basta o funcionamento mecânico dos processos de interdependência e inclusão. Faz-se mister uma outra realidade a se compor com a sustentabilidade: o cuidado. Ele também funda um novo paradigma.Antes de mais nada, o cuidado constitui uma constante cosmológica. Se as energias originárias e os elementos primeiros não fossem regidos por um sutilíssimo cuidado para que tudo mantivesse a sua devida proporção, o universo não teria surgido e nós não estaríamos aqui escrevendo sobre o cuidado. Nós mesmos somos filhos e filhas do cuidado. Se nossas mães não nos tivessem acolhido com infinito cuidado, não teríamos como descer do berço e ir buscar o nosso alimento. O cuidado é aquela condição prévia que permite um ser vir à existência. É o orientador antecipado de nossas ações para que sejam construtivas e não destrutivas.

Em tudo o que fazemos, entra o cuidado. Cuidamos do que amamos. Amamos do que cuidamos. Hoje pelos conhecimentos que possuímos acerca dos riscos que pesam sobre a Terra e a vida, se não cuidarmos, surge a ameaça de nosso desaparecimento como espécie, enquanto a Terra, empobrecida, seguirá, pelos séculos afora, seu curso pelo cosmos. Até, quem sabe, que surja um outro ser dotado de alta complexidade e cuidado, capaz de suportar o espírito e a consciência. Resumimos os vários significados de cuidado construídos a partir de muitas fontes que não cabe aqui referir, mas que vem da mais alta antigüidade, dos gregos, dos romanos, passando por Santo Agostinho e culminando em Martin Heidegger, que vêem no cuidado a essência mesma do ser humano, no mundo, junto com os outros e voltado ao futuro. Identificamos quatro grandes sentidos, todos mutuamente implicados.

Primeiro: Cuidado é uma atitude de relação amorosa, suave, amigável, harmoniosa e protetora para com a realidade, pessoal, social e ambiental. Metaforicamente podemos dizer que o cuidado é a mão aberta que se estende para a carícia essencial, para o aperto das mãos, com os dedos que se entrelaçam com outros dedos para formar uma aliança de cooperação e a união de forças. Ele se opõe à mão fechada e ao punho cerrado para submeter e dominar o outro.

Segundo: Cuidado é todo tipo de preocupação, inquietação, desassossego, incômodo, estresse, temor e até medo face a pessoas e a realidades com as quais estamos afetivamente envolvidos e por isso nos são preciosas.Esse tipo de cuidado acompanha-nos em cada momento e em cada fase de nossa vida. É o envolvimento com pessoas que nos são queridas ou com situações que nos são caras. Elas nos trazem cuidados e nos fazem viver o cuidado existencial.

Terceiro: Cuidado é a vivência da relação entre a necessidade de ser cuidado e a vontade e a predisposição de cuidar, criando um conjunto de apoios e proteções (holding) que torna possível esta relação indissociável, em nível pessoal, social e com todos os seres viventes. O cuidado-amoroso, o cuidado-preocupação e o cuidado-proteção-apoio são existenciais, vale dizer, dados objetivos da estrutura de nosso ser no tempo, no espaço e na história, como no-lo tem mostrado Winnicott. São prévios a qualquer outro ato e subjazem a tudo o que empreendermos. Por isso pertencem à essência do humano.

Quarto: Cuidado-precaução e cuidado-prevenção constituem aquelas atitudes e comportamentos que devem ser evitados por causa das conseqüências danosas previsíveis (prevenção) e aquelas imprevisíveis pelo insegurança dos dados científicos e pela imprevisibilidade dos efeitos prejudicais ao sistema-vida e a sistema-Terra (precaução).O cuidado-prevenção e precaução nascem de nossa missão de cuidadores de todo o ser. Somos seres éticos e responsáveis, quer dizer, nos damos conta das conseqüências benéficas ou maléficas de nossos atos, atitudes e comportamentos.

Como se deduz, o cuidado está ligado a questões vitais que podem significar a destruição de nosso futuro ou a manutenção de nossa vida sobre esse pequeno e belo planeta. Só vivendo radicalmente o cuidado garantiremos a sustentabilidade necessária à nossa Casa Comum e à nossa vida.

Leonardo Boff é autor de O cuidado necessário a sair em julho de 2012 pela Editora Vozes.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

NOVIDADES

No momento encontro-me em Santiago de Compostela em visita a minha sobrinha Gabriela e sua famìlia.
Tudo bem e muitas novidades, Idem saudades da família, das pessoas, das minhas coisas...
Até lá!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

OBJETIVO OU DIREITO UNIVERSAL

PROJETO NO SENADO QUER TRANSFORMAR FELICIDADE EM UM DIREITO SOCIAL


Agora parece que felicidade será definida por lei. Uma resolução da ONU reconhece que a busca da felicidade é direito humano fundamental.


A ONU aprovou: felicidade agora é um objetivo humano fundamental. No Brasil, uma proposta de emenda à Constituição está em discussão no Senado. A ideia é transformar a felicidade em direito social. É possível ser feliz por decreto?


Felicidade é o quê? Felicidade é ter um filho nos braços ou a neta. Ou um filho a caminho. Felicidade é o tempo passar e os sonhos continuarem vivos. Felicidade é ter sempre o pão e nunca passar o horror da fome. Para alguns, é ter muito dinheiro, jogando na loto ou herdando, não importa. Para outros, felicidade é encontrar o amor para a vida toda.


“O que é a felicidade? A felicidade é ter a Silvia ao meu lado. Acho que a felicidade é o seguinte: quando se apaixona, a gente vai até o fim com a mesma paixão. Isso é que é felicidade”, diz o poeta Ivo Barroso, ao lado da esposa Silvia, com quem é casado há 51 anos.


“Não vejo a hora de chegar dezembro para rever minha família em São Luís, porque sou maranhense. Eu acho que o momento mais feliz é quando eu estou do lado da minha mãe”, conta a doméstica Benigna Vieira.


Felicidade é mesmo tanta coisa diferente. “A saúde para mim é tudo”, diz um homem. “Estar bem com o meu marido”, afirma uma carioca. “Eu fico feliz com falta de violência”, conta um jovem.


Para a filosofia, felicidade não é exatamente o que a maioria de nós acha que a felicidade é. “A ideia de felicidade, em geral, historicamente, está relacionada a um estado de complementação, de duração dessa complementação, ou seja, da ausência de conflito. Estar feliz é estar com todas as coisas ajeitadas e resolvidas. E isso é falso. A pessoa sente que está feliz, mas se ela é honesta com sua sensação, ela vai ter de admitir que já se sentiu assim, mesmo quando nada objetivamente estando no lugar”, afirma a filósofa Viviane Mosé.


Agora parece que felicidade será definida por lei. Como assim? Uma resolução da ONU reconhece que a busca da felicidade é direito humano fundamental. No Brasil, existe até uma proposta de emenda à Constituição em que felicidade individual e direitos sociais estão ligados.


É a chamada PEC da felicidade. Na proposta, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) estabelece que o Estado tem o dever de prestar bem os serviços sociais previstos na Constituição. Na visão do ex-ministro da Justiça Célio Borja, a ONU e a proposta brasileira estão equivocadas. A felicidade é um direito constitucional?


“É muito difícil enquadrá-la como tal, porque ela pertence à ordem do afeto. Creio que quando nós transportamos para o mundo do direito essas coisas, nós cometemos, a meu ver, um trágico equívoco. Creio o que me torna feliz é a esperança de realizar minhas aspirações”, diz Célio Borja.


A filósofa Viviane Mosé acha a proposta simpática e pouco mais que isso. “Parece-me fofa, me parece bacana, porque é legal ter isso. É bonito. Mas isso não quer dizer absolutamente nada, porque ninguém garante ao outro o direito de ser feliz ou de buscar a felicidade. Só você garante a você mesmo essa possibilidade”, conta Viviane Mosé.


O constitucionalista Célio Borja usa a poesia de Vicente de Carvalho para dar uma lição:
Essa felicidade que supomos árvore milagrosa
Que sonhamos, toda arreada de dourados pomos Existe sim
Mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.






sexta-feira, 27 de abril de 2012

UM MESTRE INDIGNADO

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA

Luiz Antônio Simas 

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais “O cravo brigou com a rosa”. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada". Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que “O cravo brigou com a rosa” faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos, cacete! Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/Tá com a cabeça quebrada/Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar”. Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, melodia de Heitor Villa Lobos e letra da Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz. Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichanos. A Sociedade Protetora dos Animais cairia em cima com processos.Quem entra na roda dança, nos dias atuais. Não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil, estimula o sexo sem amor, a vulgaridade.Ninguém mais canta: “Pai Francisco entrou na roda, tocando seu violão, vem de lá Seu Delegado, e pai Francisco foi pra prisão”. O pobre do Pai Francisco foi preso apenas por vadiagem, mas atualmente ficaria sob a suspeita de ser traficante.Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não lembrar à garotada a desigualdade de renda entre os homens. Dia desses alguém (não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda) foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse que algum filho estava militando na causa da preservação do mico-leão-dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho. Vivemos tempos do 'não me toques que eu magoo'. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do humor, da criatividade, da divertida sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma. Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão-de-chácara de baile infantil - de deficiente vertical. O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afro descendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, “Orca, a baleia assassina” e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto-de-fome, pau-de-virar-tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha. Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil. O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra puta-que-o-pariu e o centroavante pereba tomar no olho-do-c... , cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de “Jesus, Alegria dos Homens”, do velho Bach. Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé-na-cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro-funeral, o popular tá-mais-pra-lá-do-que-pra-cá,  já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade". Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do Pé-Junto.
Luiz Antônio Simas (Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio)



quarta-feira, 25 de abril de 2012

DESPERTAR


Quantos já terão alguma vez percebido a grandeza do despertar. Todos que já estiveram à beira de uma praia, vendo a aurora despontar ou o dia nascer, terão ficado encantados com a maravilha das cores que variam de acordo com a incidência da luz, é sempre um es-pe-tá-cu-lo! Tal qual se canta naquela canção: quando amanhece o dia no meu rincão, parece que a natureza tem coração!
Pois o amanhecer de um homem ou de uma mulher é ainda mais bonito! Todos os órgãos, o organismo inteiro que se achava adormecido, entregue ao sono reparador, desperta aos poucos, se encaixa o coração, comandando o pulsar das veias e finalmente acontece o abrir dos olhos  e  Deus que nos diz com infinito amor paterno: Olá! Acordou filho(a)? tenha um bom dia e para tanto não lhe faltará a minha graça!
Tenhamos consciência e avaliemos o dom de Deus que cada dia se constitui. Um dia são horas que se multiplicam em oportunidades que nos são dadas de praticarmos um mundo de ações, oportunidade de ser bons, de ajudar o próximo nas suas dificuldades, ser companheiro de caminhada, ser Cirineu (sabe o que significa ser Cirineu não é? Cirineu foi aquele que ajudou Jesus a carregar a pesada cruz).
Em cada momento, sejamos misericordiosos, semeemos amor. Evitemos que a inveja domine nossos sentimentos. Façamos elogios aos outros (ao menos três vezes no dia).
Será muito gratificante e nunca mais provaremos aquela sensação de um sentir estranho, sem saber porquê.

sábado, 21 de abril de 2012

ENSAIO SOBRE O AMOR

Na obra “A Arte de Amar” do poeta Italiano Ovídio, que nasceu em 43 A.C. diz que  “É com arte que se manejam a vela e os remos que faz com que os barcos naveguem céleres; é a arte que permite aos carros correrem velozes; e a arte deve governar o Amor;”.   Se o amor é governado pela arte, tudo o que amamos, fazemos com arte, e a apreciação e o exercício da arte nos deixa mais aptos a realizar qualquer coisa que amamos com mais destreza. 

Sem arte, não há vontade, e sem vontade, não há vida. Refiro-me aqui à vontade de fazer qualquer coisa. No meu caso, uma boa aula, uma boa tradução, a arte de atender bem as pessoas ...  Nesse sentido, somos todos artistas, porque tenho certeza que se todos os indivíduos, artistas profissionais ou não, exercessem a arte em suas vidas e carreiras, viveríamos em um mundo bem melhor.

 Nos tempos de hoje, tenho visto pessoas com a fronte espremida, o olhar vago e fundo, com uma interminável pressa de que o dia termine, de que o ano termine, e inconscientemente, de que a vida termine. Para esses
homens “sérios”, que acham que a arte é distração, refresco, bobagem,
Nietzsche diz no prefácio de “O nascimento da tragédia”: A esses homens sérios, sirva-lhes de lição o fato de eu estar convencido de que a arte é a tarefa suprema e a atividade propriamente metafísica desta vida”

Vez por outra, tenho também encontrado homens e mulheres sérios e responsáveis, que na maioria das vezes cumprem com suas tarefas e obrigações, mas não se esqueceram da graça da vida, da alegria, do riso, dos devaneios, da gentileza, do amor ao próximo.  Isso é algo extremamente precioso que torna a vida desses indivíduos muito mais rica e valorosa. Valor que acaba transcendendo suas existências e alcançando o mundo de tantas outras pessoas que acabam absorvendo e reproduzindo esse amor.

Para falar desse sentimento, vou contar com a ajuda do poeta americano Walt Whitman. Nada melhor que o maior dos transcendentalistas, para falar disso. E ele disse assim nas primeiras três linhas do poema “Song of Myself” (Canção de Mim Mesmo):
 “Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.”
 O trecho fala que somos feitos dos mesmos átomos, ou seja, da mesma matéria humana, independentemente da existência individual . O que fazemos conosco, não afeta só a nossa vida, mas a vida de todos os que nos cercam, e mesmo indivíduos que nem sonhamos que vamos afetar. Alguns cineastas têm retratado essa cadeia de ações e reações, como nos filmes “Crash” de Paul Haggis, e “Amores Perros” e “Babel” de Guillermo Arriaga.

A expressão artística oferece não só bonitas palavras e sons que agradam aos ouvidos, ou imagens que agradam os olhos.  Por exemplo, quantas vidas transformará um professor que exerce a arte de educar , ou os pais que fazem de seu lar um refúgio seguro para seus filhos, ou médicos que olham nos olhos de seus pacientes enquanto conversam com eles.

Hoje, a maioria de nós tem se esquecido de viver com base no amor, as pequenas delicadezas que cativam as almas, o “bom dia” e o “obrigado” que valorizam os trabalhos mais simples ou os mais complexos. Tudo que trata do amor é piegas, fora de moda, perda de tempo, bobagem. Sem a arte e o amor, nossos barcos seguem navegando sem rumo, espatifando-se uns nos outros e afundando num mar de rancor e tristeza. Somos robôs sem alma ou destino, perdidos em uma república platônica.

Fernanda Hott, membro da AFESL