A FOLHA ACADÊMICA, jornal de São Mateus, me entrevistou esclarecendo que
a proposta da matéria era apresentar as contribuições de algumas pessoas para a
construção da história da cidade.
Pedi que me mandassem por e mail e procurei fazer o melhor possível. Aqui vai a íntegra, porque jornal todo mundo sabe como é, não coloca
tudo que se diz e até não deixa de acrescentar o que o entrevistado não disse.
FA - Há quantos anos mora em São Mateus? É filha
da terra?
MPD - Antes
de tudo quero registrar que me sinto como quem leva um tremendo puxão de
orelha. Isto porque, quando convidada para esta entrevista fui esclarecida que
me encontro entre pessoas escolhidas, ao menos, como prováveis contribuintes
para a construção da história de São Mateus.
Construir
a história é edificar e de tal forma que ao ouvir seu nome ressoe como de bons
ventos que possam ter semeado por essas plagas, sementes que uma vez deitadas
ao solo, venham germinar, crescer, produzir frutos.
Só com
um bom exame de consciência é possível responder, mas vou tentar.
Nasci
em São Mateus, bem do lado da Igreja de São Benedito, naquela casa da esquina,
hoje só loja, terei gargalhado ao ouvir o bimbalhar os sinos? Nunca me
disseram...
Cresci
na Rua do Alecrim, alfabetizada por D. Dadosa, estudei no “Amâncio Pereira”,
tomei banho no Corguinho, aquele que está gemendo e quase acabando. Aliás, por
onde passava, não passa mais.
Como
todo mateense canto as palmeiras que só conheci através de fotografias e que
margeavam o rio, sou fascinada pela curva do Cricaré, gosto da cidade, sou
devota do Glorioso e gosto muito de mateensear.
FA -
Quais as contribuições para a transformação do municÍpio, em termos políticos,
econômicos e sociais? Qual é a sua história com a cidade?
MPD - Meio
desconcertante esta pergunta, requer colocar a modéstia de lado. Meu primeiro
ofício foi professora e nisto envidei todos os esforços, despendi todas as
forças físicas e da alma ensinando português. Severa, talvez demais, os alunos
tinham até certo medo de mim.
Morreria sem saber, se de muitos não ouvisse,
quando o tempo passou, tanto reconhecimento da parte de tantos. Sem que nada
perguntasse, um aluno me revelou ter saído da escola por minha causa. Adulto,
no trabalho, teve que voltar a estudar e reconhecia ter perdido tempo, por não
me ter compreendido, “você tinha razão”, me disse ele. Duas outras resolveram
desafiar-me de uma forma mais que salutar, estudavam muito para obterem
os melhores resultados.
Nesse
contexto, fui musa também, guardo poesias que adolescentes cometeram para mim,
cheguei a paraninfar duas turmas de professorandas, enfim, sem orgulho, mas em
verdade posso dizer que plantei e colhi graças a Deus.
FA -
Em que áreas atua e qual é o envolvimento e correlação do trabalho realizado
para a consolidação de uma cidade desenvolvida?
MPD - Depois, tornei-me advogada e como Defensora Pública fui guerreira
a ponto de incomodar não só os ex adversos, mas quem fazia parte do sistema do
judiciário e não gostava de ver tanto caso de pobre ocupando espaços em suas
mesas, não havia isso antes de mim. Ardorosa defensora contra toda e qualquer
injustiça muitas vezes em dor, nunca abandonei uma causa.
Eleita
vereadora, não transigi nunca com coisas erradas, e claro, desagradava e como!
Um Presidente da Assembleia Legislativa chegou a me aconselhar que aliviasse. Não o atendi, nem entendi.
Assim,
foi procurando fazer bem tudo que fizesse que acho que contribui para minha
terra ser mais respeitada e querida.
FA - Como
se sente em ser representante de parte de uma história tão rica como a de São
Mateus?
MPD - Representante
de parte de uma história tão rica são palavras suas. Chego a estremecer! Depois do
magistério estadual, fui parar no Ministério Público Estadual. No meu discurso
de posse afirmei que tudo faria para que depois de mim a Instituição fosse
melhor, porque eu teria passado por ela. Ali também dei o melhor de mim. Travei
grandes batalhas, enfrentei, nada menos que corrupção, autoritarismo, mas nunca
me verguei. Às vezes, ainda me pergunto o porquê de alguns acontecimentos e
outra dúvida volta a pairar: se eu não atinava com a motivação não seria
inveja? Mesmo sem respostas eu só queria trabalhar e muito.
Realizei
como Promotora de Justiça tudo que planejei. Jamais saberia o que significa
plena realização profissional se não tivesse passado pelo Ministério Público. E
foi tudo tão intenso que eu mesma não me surpreendo por não sentir saudades.
Acho
que é isto. Fazer história, como notado ou anônimo é desincumbir-se bem do seu
ofício, fazer a sua parte, pois cada um é parte da engrenagem com que o Estado
se move para servir bem ao destinatário da sua razão de ser, o povo.
FA -
Deixe a sua homenagem, os parabéns à cidade no aniversário de 470 anos.
MPD - No dia em que o Povoado do Cricaré completa 470 anos de história
só posso desejar que encontre ainda mais prosperidade e desenvolvimento, que
nossos governantes preservem o que temos e destinem da melhor forma os recursos
orçados para tanto, sobretudo, que cada mateense tenha o que merece, a
atenção devida na satisfação de suas necessidades básicas, o respeito a todos
os seus direitos, ao mesmo tempo que não se omita quanto aos deveres e como
sempre, saiba que pode sempre contar com essa conterrânea convicta que a todos
quer bem.
Omiti minha atividade atual, em relação à literatura.