sábado, 27 de julho de 2013

COLCHA DE RETALHOS

     

Scarlet tinha os olhos marejados pelas lágrimas tiradas da alma em conflito consigo mesma. Os cabelos grisalhos,  desalinhados, esfarelados sobre os ombros num completo desatino com suas reflexões íntimas. Na silhueta da tarde morna, entre os ventos roçando suas lágrimas rolando feito um córrego faces abaixo, pensativa, olhava o horizonte como se a olhassem de dentro para fora e lhe via refletida em si mesma. Um breve portal reflexo num espelho enferrujado. Uma triste poetisa vencida pela estesia do tempo vazio!
  O tempo lhe havia roubado à beleza, os amores, as cores vibrantes, a vivacidade, os costumes de mulher arredia, os fogosos bailes, os amantes secretos. Às vezes, estragulada pela mórbida solidão, arrumava as cortinas empoeiradas, ajeitava as almofadas e pensava na ingratidão da vida. Soluçava afugentando o enorme desejo de ingerir uma dose fatal do veneno, único, sólido e eficaz. Chegava a sentir o aroma lírico a lhe ferir as mandíbulas como se as gotículas amargas ao decapitá-la a vida permitissem sentir o voo das gaivotas sobre o mar imaginário, as asas livres, soltas, batendo contra todos os ventos cruciais ou lhe permitisse pousar , vagarosamente ,sobre um enorme jardim repleto de crianças inocentes e  felizes. Seria assim a visão da morte?
   Sua vida de amores perversos, salientes, clandestinos; erros inconsequentes, desses que levam o indivíduo ao fundo do poço ou numa tristonha melancolia, resultando em depressão aguda. Pensava atordoada, deixaria apenas erros e agonias que atropelam as pessoas e a cidade, cúmplices desta tragédia humana que a todos, às vezes, comovem ou apenas crucificam a mulher e seus devaneios perversos? Cairia eternamente na boca do povo... Os erros, lamentavelmente, não seriam esquecidos na cidadezinha pacata. Que triste miséria humana, deixaria esses dissabores amorosos, suas frustrações cotidianas, como herança involuntária? Passaria assim, na vida, desapercebida?
    Scarlet, depois dos seus oitenta anos de vida, cheia de aventuras, poesia, loucuras, desprovida de bens materiais, almejava deixar uma única herança para os netos. Sua figura, embora envelhecida, não era  nada  frugal para que os netos pudessem guarda-la na parede da memória  como relíquia de uma velhinha sentada  numa cadeira de balanço, fazendo tricô ou crochê ;  ou aquela pequena idosa  com seus óculos bem grossos tecendo costura em sua velha máquina!... Nada desses dotes do pedestal e da  sentença da idade lhe refletiam como metáfora do envelhecimento. Scarlet possuía todos esses dotes, mas era poetisa , dessas que amanhece sobre suas folhas brancas e com as mãos trêmulas,  compunha versos e sonhos como se fossem restituir vidas... Vidas alheias e a sua própria vida!... Passou refletida na possível herança, por longas noites, até que,  num dia cinzento anunciando chuva, prestou atenção  nuns ruídos vindos do sótão, esquecido em meio à bagunça, eram os ruídos da velha máquina de costuras. Ficou atenta, pois todo o cômodo exala  um silêncio profundo. Olhou sorrateira e atentamente  a velha máquina e de súbito lhe veio à mente a ideia de  emendar os retalhos de pano. Eram restos de todas as cores que ao longo do tempo foram ficando estendidos no chão nu de taboas rústicas.
  A tarde caía, num crepúsculo cinzento e triste. Os pássaros , em revoada voltavam  aos ninhos e a velha máquina, manipulada pelas mãos trêmulas de Scarlet ia remendando,  sutilmente,  os retalhos,  panos de todos os tons que  ao serem emendados formariam uma linda colcha de retalhos. Scarlet pensava enquanto costurava: as cores representam sua vida -  os vermelhos escaldantes são como os dias de famosos bailes em que a mulher seduz. Encantava ao roçar-se, sensualmente, aos  charmosos cavalheiros. Cada retalho representa um pedaço de si própria  e,  costurando-os,  formava e emoldurava  a sua vida!  O pálido cinza, sozinho, abandonado assemelhava-se  à tristeza de seus dias, escorrendo como as águas desembocadas num mar sem retorno; seria como a garça em seu voo rotineiro de encontro aos filhotes aquecidos num sótão qualquer. Ó!...O vermelho sempre insistente, predominante, como os bailes, os belos cavalheiros e a música a  renovar as esperanças e expectativas; às vezes o roxo também necessário às tonalidades, simbologia de um luto, dos quais sempre esteve ausente, já que a morte tão naturalmente,  é a coisa mais certa. 
Para que tantas lamentações? Achava isso um tédio, a hipocrisia em algumas reclamações, mas presenciara o luto de uma dor imensurável, tal qual se perde a vida plena de gozo. E quando percebia,as doloridas lágrimas ensopavam as rugas trêmulas. Pensava: velórios são todos iguais, só mudam as personagens.  A ferida entreaberta, no espaço do peito esquerdo,  rompe-se  com a navalha cortante na despedida com sabor de sangue estilhaçado nas retinas quase cegas ao tempo. O tom metálico é o resplendor das baladas, o sol escaldante neste amarelo e no verde das esperanças de um pobre poeta brasileiro sem fama... Que importa aos brasis os seus poetas anônimos?... O branco existente em qualquer situação, retrata a bandeira da paz! E tudo termina em um azul, num indo e vindo infinito azul  da cor do mar!
  A colcha está pronta! O silêncio da noite é arrebatado pelas ondas do mar!...Lá longe, impermeada pelo soluço de su’alma plagiada nas recordações do passado... retalhos de um tempo vivido e um futuro certo!  Neste momento,  mistura-se ao som do mar e às gotas pesadas da chuva forte, parecendo uma prece murmurada em desalinho comovendo Scarlet. Os ruídos da velha máquina de costura, por certo, cessaram ,como cessam as chuvas barulhentas e até o amor platônico.Solene, a poetisa e seus medos perversos... Da solitária escrivaninha vê a morte de forma poética e  lírica. Os restos mortais seriam jogados em cinzas sobre o mar de Marataízes? Entre as mãos trêmulas,segura firme e convicta, a única herança que deixará para os netos. Uma colcha de retalhos, costurada por ela mesma, no cio da saudade tecida nas vísceras , já tão serenamente  dilaceradas pela dor e pela solidão.Mas essa dor e solidão lhes  são , necessariamente, companhia.
Scarlet enrola a colcha num ritual silencioso.  Ouve-se,  lá fora,  o pio sorrateiro do Iambu , prelúdio da morte do dia indo desfalecer ao entorno do mar. Seria uma das tantas réplicas de despedidas. Um cenário que até Scarlet já acostumava sentir como um adeus poético de  quem se despede da arte de descrever a própria missão. No  momento da entrega da única herança, seria inevitável um choro de despedida, uma lágrima estirada ao vento, sem grandes denominações domésticas. Apenas um ritual lírico deixado em marcas e cicatrizes nas cores da vida vivida e da colcha de retalhos . Deixaria, ali mesmo, a colcha e os sentimentos, todos emendados, costurados, tecidos  na vivência. Por certo, o neto mais velho a encontraria, alguns anos depois... Não se sabe,   há quanto tempo? Junto à colcha de retalhos, restos de tecidos de todas as cores formaram a sua vida agregada de valores éticos  e poéticos na decadência do anonimato inconsequente. As cores são representatividades de uma nobre existência plebeia, rastreada pela poesia.
 Sorria um riso desbotado e pensava: será que o neto mais velho entenderá a simbologia de cores ou de colchas de retalhos? A deixou, ali, nas entranhas do sótão, ajuntada a um encardido papel amassado, desfalecido pelo tempo, contendo um poema tal qual seu estado de espírito lírico encenado, imortal e intitulado:
Doloroso dever
Anuncia, por favor, que tal dia numa derradeira hora, eu fiz a passagem.. .
Que ninguém mais vai me falar, nem ao pior me ouvir,
Nada de choros, lamentos, rezas, nem questionamentos.
Avise aos amigos mais chegados, aos parentes queridos;  mas, por favor, coloque um aviso bem diferente, aos companheiros de poesia e trovas, às amigas íntimas e às parceiras de vinhos,
Mas fale de forma justa: A poetisa partiu! Diga que não houve “causa mortis”.
Nenhum diagnóstico técnico foi procedido, Portanto,  sê  natural , sem dramatizar...
Nada de  choros, nem velas, nem rezas...
Nem anúncios entristecidos ao som de Ave-Maria Penses  numa música latente , fervente , que tocará aos meus ouvidos uma serenata flamenca.
Quero cor, música e batons coloridos na minha boca que requer um símbolo diferente, que disfarce qualquer tristeza.
Aos que perguntarem a causa, disfarças ou ri e dize que apenas não sabe ao certo, se, no entanto, ao todo for impossível, de forma bem discreta diga que morri de amor...
Que estou morta de paixão...Assim morrem os poetas!...
Junto ao bilhete deixo-te a colcha, sobras de tecidos de todas as cores, costurando-os, foram formando a colcha, pedaços de cores, pedaços de vida. Cores alegres e tristes. Ó...a colcha subia e descia ao costurar, como a vida e a poesia e deposito nas tuas pequeninas mãos , como lição de vida!
Neto-filho, mais que filho, como a vida, a colcha tem erros que consertamos ao costurar, mas na vida nem sempre há remendos, nem sempre há consertos. Deixo a colcha de retalhos, a poesia e o perdão pela vida inconsequentemente lírica e cheia de erros. Lamento, meu neto, não deixar nada mais que uma modesta colha de retalhos, a poesia me bastou!

 Assim,Scarlet balbucia as últimas palavras e cerra as pálpebras trêmulas.

Bárbara Pérez.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A MULHER BEM PAGA

A NOITE DE AUTÓGRAFOS DE MÁRCIA ANTUNES FRANÇA

A escritora apresenta sua obra.

Recebe flores. 

Participa do Sarau. 
Lê uma de suas crônicas


A MULHER BEM PAGA, livro de estreia da escritora Márcia Antunes França, é resultado de um sonho, ela afirma que, em sonho, lhe foi comunicado que o escreveria com exato esse nome. Narra a vida de Sofia, oriunda de família humilde, provou muitas dificuldades, uma mulher que tenazmente, buscou sua independência financeira.
O aplauso de amigas.
Carinhosamente. 

Curiosos quando tomaram conhecimento do nome da futura obra, chegaram a lhe  perguntar, se entendia de prostitutas, ao que respondeu não, o que deriva do título que sugere pagamento com dinheiro. Não, não é o caso. 

Como exemplo do que diz, testemunha com sua própria vida, sente-se uma "mulher bem paga" pelo que pode fazer, destacando um particular momento em que viu-se numa batalha pelo não fechamento de determinada escola, útil para seus filhos e todos de sua condição.

Seguem alguns trechos do livro:

Primeiro baile: Sofia começou então, a providenciar uma fantasia, pois suas primas iriam fantasiadas. Pensou em fantasiar-se de índio.

A jovem professora: quando contou às suas amigas como gastara o primeiro salário chegou a ser censurada por algumas. Ela deveria ter gasto consigo mesma, comprando roupas e sapatos novos, perfume, bolsa e outros acessórios tão almejados por uma jovem.

Namoro: De vez em quando, Sofia olhava pela porta da sala para ver se Erick estava chegando. Volta e meia, olhava-se no espelho para ver se estava tudo certo com sua roupa e ter certeza de que receberia muitos elogios do namorado.

Dificuldades: Depois de ouvir o relato do seu sonho, a secretária do médico a tranquilizou, dizendo-lhe que deveria mesmo enterrar a Sofia sofrida e ressuscitá-la numa Sofia extrovertida e esperançosa, como fora na sua adolescência.

Aos setenta anos... Bem, vou deixar que vocês leiam o livro.

São quase trezentas páginas de narrativa de um vida que conheceu muitas variações.

No Programa CAFÉ COM LETRAS, realização do poeta Leonardo Picinati, todas as quintas-feiras,  no Shopping Norte Sul, ontem, 25 de julho, ocorreu o primeiro lançamento da obra. 

MÃOS QUE CANTAM

Mãos que cantam

                                                Aos jovens do Conjunto “Mãos que cantam”.

Mãos que cantam?
Como é?
Como as mães cantam?
Desde quando acontece
esta de mãos que cantam?

Preciso saber
me disseram que era um coral
e o som que ouvi
não brotava de nenhum
daqueles lábios que vi.

Eu chequei um por um
não eram os lábios,
eram as mãos
coordenadas com perfeição
que traduziam em gestos
as palavras ouvidas.

Sim, mãos cantam.
Não duvidem,
acreditem,
eu vi.


MEDICINA X POLÍTICA

           Em face da nova determinação do governo PT, de que o curso de  formação de médicos deve se extender a oito anos, com a obrigação para os alunos de mais dois anos de dedicação ao estado para a obtenção de diploma  médico...
Admitindo ainda que para o atendimento da população mais carente o atendimento medico deve ser exercido por profissionais ainda em formação, concedendo apenas ao alto comando da política os recursos  especializados... ...
 A medicina é uma das muitas áreas do conhecimento ligada à manutenção e restauração da saúde. Ela trabalha, num sentido amplo, com a prevenção e cura das doenças humanas e animais num contexto médico. Não pode ficar subordinada a interesses partidários
Em lugar de obrigar acadêmicos ao exercício da medicina pública, ainda despreparados, o correto e honesto é ceder- lhes ambientes e estudos de aprimoramento, como respeito ao ser humano e, logicamente, respeito à estrutura da saude nacional
          “ Mente sana in corpore sano”
Saude, segundo a Organização Mundial, não é apenas a ausência de doença. Consiste no bem-estar físico, mental, psicológico e social do indivíduo.            
É um estado cumulativo, que deve ser promovido durante toda a vida, de maneira a assegurar-se de que seus benefícios sejam integralmente desfrutados em dias posteriores.1 Nesse contexto, diretrizes de organizações supra-nacionais compostas por eminentes intelectuais do globo, relacionados à área  médica,  estabelecem um novo paradigma de abordagem para o atendimento e tratamento médico.
Em lugar de médicos cubamnos com a missão, tembem de pregações  políticos sociais, que ofendem nossa tradição Cristá, que venham médicos técinidos cientistas aprimorados dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Alemanha, da França e alem de tudo com profundas vivencias e conceitos emocráticos  e não humildes trabalhadore cubanos seduzidos pelos REAIS  QUE TANTO PODEM ESTAR FAZENDO  FALTA PARA A ELEVAÇÃO CULTURAL E TÉCNICA DOS  NOSSOS ESCOLARES, QUE ASSUMEM DOENÇAS POR FALTA DE CONHECIMENTOS E VIVÊNCIA DE APOIO,  POR POLÍTICAS DE INTERESSE DE DOMÍNIO,  COM MEDO DA VERDADEIRA DEMOCRECIA  DE   CULTURA  M,ENTAL  E  ESPIRITUAL
Santo patrono da Medicina é São Lucas  nunca Karl Marx .

Fahed Daher é médico, Governador 95/96 do Distrito 4.710  de Apucarana PR, pertence a Academia de Letras de Londina, ao Centro de Letras do Paraná, a Academia de Letras José de Alencar entre outras.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O PERDÃO, RAIZ DE TUDO

Ame seu familiar e próximo, apesar de todas as brigas que houve entre vocês.


Pelas decepções e revoltas causadas por um irmão ou uma irmã que foi injusto(a) com você, que o desprezou, lesou, ofendeu, causando-lhe prejuízo econômico e prejuízo à sua honra, que falou mal de você, embora fosse seu irmão. Pelas decepções por causa de herança e terra...

Às vezes, irmãos e cunhados brigam entre si até por causa do cachorro. O problema com o animal passa, mas fica a decepção, a inimizade, enquanto o cachorro está belo e folgado.

Impressionante: no perdão está a raiz de tudo! Derrama, Senhor, sobre cada um de meus irmãos, a decisão de perdoar e amar.

Que Deus abençoe

Monsenhor Jonas Abib

Fundador da Comunidade Canção Nova









segunda-feira, 22 de julho de 2013

O PAPA CHEGOU

Vim para a JMJ para encontrar os jovens que vieram de todo o mundo atraídos pelos braços abertos pelo Cristo Redentor. Estes jovens provêm de diversos continentes, falam línguas diferentes, são portadores de variadas culturas e, todavia, em Cristo encontram as respostas para suas mais altas e comuns aspirações e podem saciar a fome de verdade límpida e de amor autêntico que os irmanem para além de toda diversidade."


Papa Francisco

O Papa Francisco chegou ao Brasil às 15h43 desta segunda-feira (22) para presidir a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e saudou os jovens em seu primeiro discurso, no Rio de Janeiro. "Cristo bota fé nos jovens", afirmou o pontífice argentino, que faz sua primeira viagem internacional desde que foi escolhido sucessor de Bento XVI. O Papa fica no país até domingo (28) e ainda visitará a cidade de Aparecida (SP), nesta quarta.

Leia a íntegra do discurso a seguir:

"Senhora Presidenta, Ilustres Autoridades, Irmãos e amigos!

Quis Deus na sua amorosa providência que a primeira viagem internacional do meu Pontificado me consentisse voltar à amada América Latina, precisamente ao Brasil, nação que se gloria de seus sólidos laços com a Sé Apostólica e dos profundos sentimentos de fé e amizade que sempre a uniram de modo singular ao Sucessor de Pedro. Dou graças a Deus pela sua benignidade.

Aprendi que para ter acesso ao Povo Brasileiro, é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração; por isso permitam-me que nesta hora eu possa bater delicadamente a esta porta.

Peço licença para entrar e transcorrer esta semana com vocês. Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo! Venho em seu Nome, para alimentar a chama de amor fraterno que arde em cada coração; e desejo que chegue a todos e a cada um a minha saudação: “A paz de Cristo esteja com vocês!”

Saúdo com deferência a senhora presidenta e os ilustres membros do seu governo. Obrigado pelo seu generoso acolhimento e por suas palavras que externaram a alegria dos brasileiros pela minha presença em sua Pátria. Cumprimento também o senhor governador deste Estado, que amavelmente nos recebe na sede do governo, e o senhor prefeito do Rio de Janeiro, bem como os Membros do Corpo Diplomático acreditado junto ao governo brasileiro, as demais autoridades presentes e todos quantos se prodigalizaram para tornar realidade esta minha visita.

Quero dirigir uma palavra de afeto aos meus irmãos no Episcopado, sobre quem pousa a tarefa de guiar o Rebanho de Deus neste imenso País, e às suas amadas igrejas particulares. Esta minha visita outra coisa não quer senão continuar a missão pastoral própria do Bispo de Roma de confirmar os seus irmãos na Fé em Cristo, de animá-los a testemunhar as razões da Esperança que d’Ele vem e de incentivá-los a oferecer a todos as inesgotáveis riquezas do seu Amor.

O motivo principal da minha presença no Brasil, como é sabido, transcende as suas fronteiras. Vim para a Jornada Mundial da Juventude. Vim para encontrar os jovens que vieram de todo o mundo, atraídos pelos braços abertos do Cristo Redentor. Eles querem agasalhar-se no seu abraço para, junto de seu Coração, ouvir de novo o seu potente e claro chamado: "Ide e fazei discípulos entre todas as nações".

Estes jovens provêm dos diversos continentes, falam línguas diferentes, são portadores de variadas culturas e, todavia, em Cristo encontram as respostas para suas mais altas e comuns aspirações e podem saciar a fome de verdade límpida e de amor autêntico que os irmanem para além de toda diversidade.

Cristo abre espaço para eles, pois sabe que energia alguma pode ser mais potente que aquela que se desprende do coração dos jovens quando conquistados pela experiência da sua amizade. Cristo “bota fé” nos jovens e confia-lhes o futuro de sua própria causa: “Ide, fazei discípulos”. Ide para além das fronteiras do que é humanamente possível e criem um mundo de irmãos. Também os jovens “botam fé” em Cristo. Eles não têm medo de arriscar a única vida que possuem porque sabem que não serão desiludidos.

Ao iniciar esta minha visita ao Brasil, tenho consciência de que, ao dirigir-me aos jovens, falarei às suas famílias, às suas comunidades eclesiais e nacionais de origem, às sociedades nas quais estão inseridos, aos homens e às mulheres dos quais, em grande medida, depende o futuro destas novas gerações.

Os pais usam dizer por aqui: “os filhos são a menina dos nossos olhos”. Que bela expressão da sabedoria brasileira que aplica aos jovens a imagem da pupila dos olhos, janela pela qual entra a luz regalando-nos o milagre da visão! O que vai ser de nós, se não tomarmos conta dos nossos olhos? Como haveremos de seguir em frente? O meu auspício é que, nesta semana, cada um de nós se deixe interpelar por esta desafiadora pergunta.

A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo e, por isso, nos impõe grandes desafios. A nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço; tutelar as condições materiais e imateriais para o seu pleno desenvolvimento; oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construir a vida; garantir-lhe segurança e educação para que se torne aquilo que ele pode ser; transmitir-lhe valores duradouros pelos quais a vida mereça ser vivida, assegurar-lhe um horizonte transcendente que responda à sede de felicidade autêntica, suscitando nele a criatividade do bem; entregar-lhe a herança de um mundo que corresponda à medida da vida humana; despertar nele as melhores potencialidades para que seja sujeito do próprio amanhã e corresponsável do destino de todos.

Concluindo, peço a todos a delicadeza da atenção e, se possível, a necessária empatia para estabelecer um diálogo de amigos. Nesta hora, os braços do Papa se alargam para abraçar a inteira nação brasileira, na sua complexa riqueza humana, cultural e religiosa. Desde a Amazônia até os pampas, dos sertões até o Pantanal, dos vilarejos até as metrópoles, ninguém se sinta excluído do afeto do Papa. Depois de amanhã, se Deus quiser, tenho em mente recordar-lhes todos a Nossa Senhora Aparecida, invocando sua proteção materna sobre seus lares e famílias. Desde já a todos abençoo. Obrigado pelo acolhimento!"



domingo, 14 de julho de 2013

PATRIMONIALISMO

Patrimonialismo é característica do Estado, no qual não exista distinção entre o que é bem público e o que é bem privado. É uma espécie de vírus que tem o condão de fundir, misturar o interesse público com o interesse privado, sempre em detrimento do interesse público. Era característica marcante dos Estados absolutistas da Idade Média, cujos chefes eram monarcas (reis), dentre os quais figurava Portugal, que descobriu o Brasil. Exemplifica bem tal concepção a frase atribuída ao  “Rei-Sol”, Luís XIV (1643-1715), da França, consistente em “L´É tat c´est moi” (O Estado sou eu). Através da cultura português, herdamos essa imoral endemia.  
O Brasil, frise-se, descoberto (1500) e colonizado por Portugal, obsorveu a cultura portuguesa, dentre cujas características se destacava a mentalidade patrimonialista, que atravessou o Período Colonial (1500-1822), que percorreu o Período Imperial (1882-1889), que enveredou pela República Velha (1889-1930),  chegando aos nossos dias ainda com muita pujança. 

Como o Corporativismo e a Corrupção, o Patrimonialismo é enfermidade, de natureza imoral, que contamina, seriamente, as Administrações Públicas em geral, pelo que, há muito, está a exigir antídoto adequado e urgente. O Patrimonialismo, em regra, assume formas as mais diversas, dentre as quais, destacamos os seguintes exemplos: 1) – concursos públicos fraudulentos para aprovação de parentes e amigos, a ponto de transformarem setores da Administração Pública em verdadeiros “condomínios familiares”; 2) – licitações públicas viciadas, para beneficiarem empresas financiadoras de campanhas políticas; 3) – entrega, a Partidos Políticos “da base”, de Empresas Públicas, Secretarias, com status de Ministério, e inclusive Ministérios, “de porteira fechada””, em troca de algo moral ou eticamente condenável, o que ocasionou, durante o primeiro ano de governo da atual Presidente, a exoneração de 06 Ministros, todos suspeitos de graves irregularidades; 4) – uso frequente de nepotismo, clientelismo e fisiologismo; 5) – uso, bem recentemente,  de 3 aviões da Força Aérea Brasileira, por Luiz Henrique Alves, Presidente da Câmara, por Renan Calheiros, Presidente do Senado, e por Garibaldi Alves, Senador e Ministro da Previdência Social, para atender interesses eminentemente pessoais; 6) – e ... até tu, Joaquim Barbosa!!!   

Quem, afinal, é a vítima do Patrimonialismo? Por óbvio, toda a Sociedade, que deveria ser beneficiária direta, exclusiva e permanente num Estado que se diz Democrático de Direito, cujas Administrações devem observar, rigorosamente, os princípios constitucionais, sobretudo o da legalidade, o da razoabilidade, o da moralidade, o da Impessoalidade, o da publicidade e o da eficiência.  

Concluindo, urge que perguntemos: a quem compete fiscalizar os atos das Administrações Públicas em geral? Resposta: compete às Corregedorias, aos Legislativos, aos Tribunais de Conta, aos Ministérios Públicos, ao Poder Judiciário (como ente julgador) e, também, à Sociedade Civil Organizada, pois a cada qual cabe uma parcela de responsabilidade na luta para que se materialize tal desiderato. A propósito, invocamos a dicção de Louhanne Mota: “Lutar, sempre; vencer, talvez; desistir, jamais”.

 Salvador Bonomo. 

Ex-Deputado estadual e Promotor de Justiça, aposentado.

Vitória, ES, 5.07.2013.