domingo, 19 de maio de 2013

PÁTRIA! PÁTRIA! PÁTRIA!



Pendão da esperança!
Acabo de ter sob os meus olhos, uma fotografia de arrebol no Rio Amazonas,(acima) nuvens se dispuseram em V invertido. Ao se projetarem nas águas espelhadas do imenso caudal, compuseram um losango, coube à mata ciliar se encarregar do divisor e a imagem da Bandeira Brasileira se desenhou.

- “Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo augusto da Pátria”!

Pátria, ando pensando no sentido de Pátria, talvez saudosa da sensação boa que nos causa seu abrigo, sensação de não estar só, de compor um imenso corpo, um respirar de sentimentos que coincidem,  decidida a escrever.

Ao proceder a questionamentos ou a partir de quando se deu, minha impressão é de que tenha sido na linguagem de oposição dos políticos do MDB e seus aliados, na época dos militares no poder. Ao se referirem ao Brasil, usavam – ainda usam - o termo país: “este país, neste país, deste país”... Aos meus ouvidos ainda ressoa como termo de menor expressão, enquanto a denominação Pátria ficou reservada aos poetas, aos pensadores. Rui Barbosa assim a definiu: “A pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgâ­nicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício. É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. Multi­plicai a célula, e tendes o organismo. Multiplicai a família, e tereis a pátria. Sempre o mesmo plasma, a mesma substância nervosa, a mesma circulação sanguínea”.

Ai de mim se ousasse dizer de outro modo o que é Pátria. Plagiaria somente. O termo Pátria de há muito vem fazendo falta enorme no nosso linguajar. Muito se disse contra o líder boliviano, Hugo Chávez, que há pouco a morte silenciou, mas quem reparou não vai negar as quantas vezes que nos seus discursos inflamados repetia Pátria, meu amor pátrio.

Certamente, deixou sentimento pátrio em seu país, agora sim, soa no seu lugar, no sentido próprio o termo país, uma região geográfica considerada o território físico de um Estado soberano.

Exemplifico com o fecho de um discurso chaviano, em homenagem às mulheres: “Y a las mujeres en su día: todo mi amor patrio! ¡¡mujeres, de nuestro amor, nacerá la patria de nuestros hijos!!

Igual impressão me foi passada em apenas cinco dias de convívio com gente panamenha e no Uruguai.

O culto à língua implica em amor pátrio – ou se entrega a alma ao estrangeiro antes de ser por ele absorvida (Rui) – importa o uso das palavras de acordo com o seu melhor significado. A Pátria agradece.

 

 

 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

NÃO DEIXE DE LER

Carta do Zé a Luís.

A carta a seguir, tão somente adaptada por Barbosa Melo, foi escrita por Luciano Pizzatto que é engenheiro florestal, especialista em direito sócio ambiental e empresário, diretor de Parque Nacionais e Reservas do IBDF-IBAMA 88-89, detentor do primeiro Prêmio Nacional de Ecologia.
 
Prezado Luis, quanto tempo.
 
Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão e que por isso o sapato sujava.
 
Se não lembrou ainda, eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra, né Luís?
Pois é. Estou pensando em mudar para viver aí na cidade que nem vocês. Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos aí da cidade. To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.
 
Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro de uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.
 
Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou, deve ser verdade, né Luís?
Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né), contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou.
Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana, aí não param de fazer leite. Ô, os bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?
Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encompridar uma cama, só comprando outra, né Luís? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.
 
Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom, Luís, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelos fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.
 
Depois que o Juca saiu, eu e Marina (lembra dela, né? Casei) tiramos o leite às 5 e meia, aí eu levo o leite de carroça até a beira da estrada, onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.
 
Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos, as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não vai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luís, aí quando vocês sujam o rio também pagam multa grande, né?
Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios aí né?
 
Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luís? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora! Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.
 
Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no IBAMA da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vir fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo, aí eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foram os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.
 
Tô preocupado, Luís, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, aí tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.
 
Eu vou morar aí com vocês, Luís. Mas fique tranquilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Aí é bom que vocês é só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem plantar, nem cuidar de galinha, nem porco, nem vaca, é só abrir a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.
 
Até mais Luis.
 
Ah, desculpe, Luís, não pude mandar a carta com papel reciclado, pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.
 
Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa a atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.

 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

CONFERÊNCIA DAS CIDADES

Direito da Cidade é Direito do Cidadão,
não existe Cidade, sem Cidadão.
Deve-se reconhecer que conferências, tipo a Conferência Nacional das Cidades que se realiza a cada três anos em nossa Pátria, se constituem em excelente espaço para o mais pleno e expressivo direito ao exercício da cidadania.

Com o lema “Quem muda a cidade somos nós, reforma urbana já” acontecerá entre 20 a 24 de novembro deste ano, em Brasília, a 5ª edição da Conferência Nacional das Cidades.

Antecede-a grande articulação. Evidencie-se de como se compõe: Dos 2.681 delegados, 250 são indicados pelo Poder Público Federal e pelo Congresso Nacional. A grande maioria ou 2.341 delegados são  indicados por entidades nacionais (561). 1.689 (+ de 60%) serão eleitos nas conferências estaduais, os 181 restantes são delegados natos, os conselheiros do “Conselho das Cidades de Âmbito Nacional”.

Desde 06 de junho de 2012, o Conselho Nacional das Cidades editou a Resolução Normativa n° 14 e com ela aprovou o Regimento da 5ª Conferência, fechando-o com o respectivo cronograma até a Nacional.

Estabeleceu que os Executivos Municipais deveriam convocar a Conferência Municipal até 22 de fevereiro do corrente ano. Fora deste prazo, entre 23 de fevereiro a 30 de março 2013, a sociedade civil se tornou poder concorrente, poderia proceder a tal convocatória (se fosse organizada).

Vencidos tais prazos é utilíssimo saber em quais municípios a conferência vai acontecer. Com a resposta, ter-se-á a dimensão exata da importância que os Municípios ou suas administrações dão a eventos de tal importância e grandeza, se estão interessados numa reforma urbana condizente com as necessidades dos novos tempos, dos problemas com os quais se estão defrontando na administração pública, representados, sobretudo, pela crescente demanda em educação, saúde, refletidas no crescimento descontrolado da violência disseminada não só nos antros de marginais, mas na família, na escola, nas cidades, onde quer que transite, viva ou conviva gente.

Se a Sociedade Civil não usou o poder de convocar a conferência e fazê-la realizar, pode-se perguntar quem é que sabe disto? Quem é que acompanha publicações oficiais? Nem mesmo um Vereador mais esperto soube aproveitar a oportunidade.

Anda deveras capenga nossa cidadania, mesmo que as consequências de “tudo que vai de mal a pior” nos continue vitimando. Sem conferência municipal, não haverá participação na conferência estadual que por sua vez condiciona presença na nacional.

Tudo apesar de sabermos que as mudanças que queremos só nós poderemos promover. Vamos à luta.
 
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Conferência da Cidade em ANCHIETA - ES

A Sociedade Civil do município de Anchieta marcou presença na Conferência da Cidade realizada nesta data, (15 de maio de 2013)  sob a coordenaçao da Secretária de Governo, Soraya Doelinger Assad. Tema: QUEM MUDA A CIDADE SOMOS NÓS, REFORMA URBANA JÁ. E ninguém mais tem dúvida disto, ou procedemos às mudanças que queremos ou nada muda.
 
A abertura contou com a presença do Prefeito Municipal Marcus Vinicius D. Assad, do Vice Prefeito, Vereadores e outras autoridades.
 
Três palestrantes contribuiram na condução dos Participantes à elaboração das propostas a serem apresentadas na conferência estadual.
 
Participantes animados
Dr. Miguel Lobato Silva, Delegado Nacional da Conferência: Reforma Urbana, Direito de Todos.  Dr.Julio C.S. Prezotti, falou do seu encantamento em despoluição e assegurou que "quanto mais feio o esgoto, mais  entusiasmo tem em trabalhar ali". Tema Meio Ambiente X Ocupação Urbana. Um entusiasta que merece ser ouvido. O tema abordado sobre Marlusse Pestana Daher foi: A Reciprocidade entre o Direito do Homem e o Direito da Cidade.
 
Como previsto, a conferência foi encerrada após as conclusões em grupos, com apresentação das propostas e eleição de delegados.

No último slide da fala de Marlusse, os participantes leram:

QUE DEUS DÊ JUIZO A TODOS VOCÊS , MANDE O ESPÍRITO

SANTO  ACLARAR SUAS MENTES  E INSPIRAR  SUAS AÇÕES, PARA

QUE AS PROPOSTAS QUE  FIZEREM CONTRIBUAM PARA UMA CIDADE EM QUE TODOS OS
 
 DIREITOS HUMANOS SEJAM RESPEITADOS.
 

 
 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

ENQUANTO DURE

Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

CANÇÃO DO AFRICANO

                                                                           Castro Alves
 

Lá na úmida senzala,

Sentado na estreita sala,

Junto ao braseiro, no chão,

 Entoa o escravo o seu canto,

E ao cantar correm-lhe em pranto

Saudades do seu torrão ...

 De um lado, uma negra escrava

 Os olhos no filho crava,

Que tem no colo a embalar...

E à meia voz lá responde

Ao canto, e o filhinho esconde,

Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,

 Das bandas de onde o sol vem;

 Esta terra é mais bonita,

Mas à outra eu quero bem!

 "0 sol faz lá tudo em fogo,

Faz em brasa toda a areia;

 Ninguém sabe como é belo

 Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,

Tão compridas como o mar,

Com suas poucas palmeiras

Dão vontade de pensar ...
"Lá todos vivem felizes,

Todos dançam no terreiro;

A gente lá não se vende

Como aqui, só por dinheiro".

O escravo calou a fala,

Porque na úmida sala

O fogo estava a apagar;

 E a escrava acabou seu canto,

Pra não acordar com o pranto

O seu filhinho a sonhar.



OUTROS POEMAS DE CASTRO ALVES


AS DUAS FLORES
 São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
 
Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
 
Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!
 
 
AMAR E SER AMADO
 
 Amar e ser amado!
Com que anelo
Com quanto ardor
este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
 Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano,
Beijar teus labios em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante, amado
Como um anjo feliz... que pensamento!?

A CRUZ DA ESTRADA

Castro Alves

 Caminheiro que passas pela estrada,

 Seguindo pelo rumo do sertão,

 Quando vires a cruz abandonada,

 Deixa-a em paz dormir na solidão.

 
 Que vale o ramo do alecrim cheiroso

 Que lhe atiras nos braços ao passar?

 Vais espantar o bando buliçoso

 Das borboletas, que lá vão pousar.

 
 É de um escravo humilde sepultura,

Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.

Deixa-o dormir no leito de verdura,

Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.

 
 Não precisa de ti. O gaturamo

 Geme, por ele, à tarde, no sertão.

 E a juriti, do taquaral no ramo,

 Povoa, soluçando, a solidão.

 
 Dentre os braços da cruz, a parasita,

 Num abraço de flores, se prendeu.

 Chora orvalhos a grama, que palpita;

 Lhe acende o vaga-lume o facho seu.

 
 Quando, à noite, o silêncio habita as matas,

 A sepultura fala a sós com Deus.
 
 Prende-se a voz na boca das cascatas,

 E as asas de ouro aos astros lá nos céus.

 

 Caminheiro! do escravo desgraçado

 O sono agora mesmo começou!

 Não lhe toques no leito de noivado,

 Há pouco a liberdade o desposou.