sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

ENTREVISTA COM MARINA SILVA



No último mês de outubro, o Banco Santander premiou professores universitários de cursos de Economia e Administração que integram o tema da sustentabilidade em suas disciplinas. A cerimônia de entrega do concurso Práticas em Educação para a Sustentabilidade teve abertura de Marina Silva. Com 30 anos de vida pública e muitos importantes “ex” no currículo – senadora, ministra e candidata à presidência da República -, Marina reiterou seu talento também como disseminadora “da ideia cujo tempo chegou”. Segundo ela, é na educação, afinal, que o mundo deve buscar resignificar-se para a crise civilizatória instalada no planeta.

Educação e liderança para a sustentabilidade nas empresas foi o tema da entrevista exclusiva que Marina Silva concedeu à Ideia Sustentável na ocasião.

Ideia Sustentável: A senhora costuma dizer que o mundo carece de “ideais identificatórios”. Na sua opinião, a sustentabilidade já representa um ideal, hoje, nas empresas e no mundo corporativo?

Marina Silva: Acredito ver isso nas pessoas, em primeiro lugar. Pessoas virtuosas criam instituições virtuosas. Aos poucos, os projetos identificatórios vão para as empresas. Os ideais se transformam em projetos. É bom quando isso adquire sentido transversal, que não seja só uma atividade ou ação dentro das corporações, mas uma cultura de sustentabilidade. Cada vez mais, as pessoas impingem essa visão na cultura das empresas. E já temos alguns exemplos, no Brasil e no mundo – mais do que discurso, muitas já se esforçam pelo sustentável.

IS: De que maneira acredita que as empresas podem envolver e educar lideranças para a sustentabilidade?

MS: A principal ferramenta é liderar – e ensinar – pelo exemplo. Se for discursivo, o apelo não tem a mesma força que o exemplo, de assumir atitudes. São práticas: desde tratar corretamente os resíduos, ter um envolvimento respeitoso com comunidades locais, uma atitude correta no uso da energia. É preciso fazer algo que traduza esses valores, tanto no próprio tecido da empresa como nos produtos ou serviços que ela aporta à sociedade.

IS: A senhora acredita que algumas empresas já tenham valores estabelecidos a ponto de transformar o padrão mental para ajudar a promover a revolução civilizatória de que necessitamos?

MS: Começam a surgir empresas com esse compromisso, de que o dinheiro não é apenas um fim em si mesmo, mas uma ferramenta para se construir um mundo e vida melhores. Essa é a grande mudança de padrão civilizatório. Não se pode mais produzir e consumir, produzir e consumir. Precisamos compreender que temos um mundo limitado, portanto, ser criativos. Enquanto há limites para o ter, não há para o ser, nem para generosidade, cooperação e erudição. É essa a cultura da sustentabilidade que precisa fazer parte da visão e do objetivo das empresas.

IS: Na sua vida política, a senhora se aproximou de lideranças empresariais, como Guilherme Leal (presidente do conselho da Natura) e Ricardo Young (ex-candidato ao Senado e vereador eleito da cidade de São Paulo). O que empresários trazem de novo à visão atual da política?

MS: O mais importante é que, para estas pessoas, meio ambiente não é uma estratégia de propaganda, mas a narrativa de um compromisso de vida. Eles correram e ainda correm riscos ao assumir essa bandeira no cotidiano de suas vidas e empresas. Fizeram isso em um tempo em que não havia glamour para o tema da sustentabilidade. São verdadeiros pioneiros no fazer e no dizer.

IS: Seria possível citar exemplos ou valores de algumas empresas que mereçam ser replicados?

MS: Acho difícil citar especificamente uma empresa, corre-se o risco de parecer propaganda. Hoje, o que se tem de diferente é um compromisso que foi transformado em cultura, ainda que em pouca quantidade no Brasil e no mundo. Cada vez mais, no entanto, isso se constitui enquanto tendência e processo de retroalimentação. Os pioneiros mostram que é possível fazer diferente. Então, a opinião pública demanda mais do que simplesmente um produto sanitário, estético, técnico ou de valor financeiro. Passa a querer coisas que estejam associadas a valores, que são intangíveis, mas igualmente importantes para se constituir a qualidade de um produto.

IS: Ao seu ver, a exigência do consumidor promoverá essa mudança nas empresas?

MS: Como falei, trata-se de um processo de retroalimentação, não existe via de mão única. Os que se dispõem a liderar pelo exemplo mostram, em várias dimensões, que é possível um produto integrar valor econômico, social, ambiental e cultural. E o consumidor que busca um consumo admirável e sustentável demanda produtos que fazem com que aqueles que ainda não estão comprometidos com esta agenda, tornem-se. Existem duas formas de entrar nesse esforço: pelo coração ou pela razão. Há aqueles que estão de coração. No entanto, outros enxergam, pela tendência, “uma ideia cujo tempo chegou”, como dizia Vitor Hugo, e acabam seguindo. Penso como o poeta Thiago de Mello: “Não é preciso se preocupar com o novo caminho, basta uma nova maneira de caminhar”. Aqueles que são pioneiros nessa maneira acabam trilhando um novo caminho para servir a todos.

* Publicado originalmente no site Ideia Sustentável. Autor da entrevista.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

PAPAS TAMBÉM RENUNCIAM

por Frei Betto*

“O papa não adoece, até que morra”, diz um provérbio romano. João Paulo II, homem midiático, não temeu expor–se enfermo aos olhos do mundo. Agora, Bento XVI dá um testemunho de humildade e, admitindo as limitações de seu precário estado de saúde, anuncia que renunciará no último dia de fevereiro.

Na história da Igreja quatro papas renunciaram ao ministério petrino: Bento IX (1º de maio de 1045), Gregório VI (20 de dezembro de 1046), Celestino V (13 de dezembro de 1294) e Gregório XII (4 de Julho de 1415). Bento XVI será o quinto, a partir de 28 de fevereiro.

Sagrado papa aos 20 anos, em 1032, Bento IX não primava pela ética e muito menos pela moral. Sua vida era um escândalo para a Igreja. O povo romano expulsou-o da cidade em 1044. No ano seguinte, voltou a ocupar o trono de Pedro e, meses depois, renunciou. Retornou ao papado em 1047, do qual foi deposto definitivamente no mesmo ano.

João Graciano, padrinho de Bento IX, pagou considerável quantia de dinheiro para que o afilhado lhe cedesse o lugar. Eleito papa em maio de 1045, adotou o nome de Gregório VI e governou a Igreja até dezembro de 1046, quando o afilhado o derrubou sob acusação de simonia.

Morto Nicolau IV, em 1292, cardeais italianos e franceses fizeram do consistório arena de disputas pelo poder, movidos mais por interesses políticos que pelas luzes do Espírito Santo. Após dois anos e três meses de impasse na eleição do novo papa Pedro Morrone, eremita italiano, de sua caverna nas montanhas enviou carta ao consistório, instigando-o a não abusar da paciência divina.

Os cardeais viram na carta um sinal de Deus e decidiram fazer do monge o novo chefe da Igreja. Pedro Morrone relutou, não queria abandonar sua vida de pobreza e silêncio, mas os prelados o convenceram de que o consenso em torno de seu nome tiraria a Igreja do impasse.

Com o nome de Celestino V, tornou-se papa em agosto de 1294. Menos de quatro meses depois, a politicagem vaticana o levou ao limite de sua resistência. Em consulta a seus eleitores, levantou a pergunta-tabu: pode o papa renunciar?

O colégio cardinalício não se opôs e, numa bula histórica, Morrone justificou-se, alegando deixar o trono de Pedro para salvar sua saúde física e espiritual. A 13 de dezembro do mesmo ano retornou à solidão contemplativa nas montanhas. Vinte anos depois foi canonizado, exaltado como exemplo de santidade. A 19 de maio a Igreja celebra a festa de São Pedro Celestino.

Também o papa Gregório XII renunciou, no início do século XV – período em que três papas reivindicavam legitimidade – para evitar que o cisma na Igreja se aprofundasse.

Joseph Ratzinger, atual Bento XVI, é, sobretudo um teólogo. Enquanto papa, não deixou de escrever, tanto que lançou uma trilogia sobre Jesus. São raros os papas-autores, sem considerarmos os documentos pontifícios, como encíclicas, bulas e alocuções, quase sempre redigidos por assessores.

Em geral, intelectuais não se dão bem com funções de poder. As questões administrativas parecem enfadonhas diante de tantos livros por ler e escrever. O político quer administrar; o intelectual, criar. Ratzinger talvez tenha decidido reservar o que lhe resta de tempo de vida para recolher-se à oração e à produção teológica.

Inicia-se agora a mais sutil campanha eleitoral: a da eleição do sucessor de Bento XVI. Entre os atuais 209 cardeais da Igreja Católica, 118 têm direito a voto, pois ainda não completaram 80 anos.

D. João Braz de Aviz
foi Bispo Auxiliar de Vitória -ES
Entre os eleitores figuram cinco brasileiros: Geraldo Magella, arcebispo emérito de Salvador (79); Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo (78); Raymundo Damasceno, cardeal-arcebispo de Aparecida (76); João Braz Avis, ex-arcebispo de Brasília, atualmente em Roma como Prefeito da Congregação para a Vida Consagrada (64); e Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo (63).

Com certeza o novo papa fará sua primeira viagem pontifícia ao Rio de Janeiro, em julho, para a Jornada Mundial da Juventude.

* Frei Betto é escritor, autor de Alfabetto Autobiografia Escolar

 Eu voto em D. João e você? Aquela simplicidade dele vai ser (desculpe a palavra) show no Vaticano.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ÉTICA DO CUIDADO


O cuidado é a essência concreta do ser humano.

Por ética do cuidado Boff entende "um consenso mínimo a partir do qual possamos nos amparar e elaborar uma atitude cuidadosa, protetora e amorosa para com a realidade... esse afeto vibra diante da vida, protege, quer expandir a vida". A ética da responsabilidade se orienta, segundo Boff, pelo seguinte princípio: "Aja de tal maneira que sua ação não seja destrutiva. Aja de tal maneira que sua ação seja benevolente. Ajude a vida a se conservar, a se expandir, a irradiar". E, por fim, a solidariedade é o elo final que amarra essa tríade de valores capazes de estabelecer, diz Boff, "um patamar mínimo para que alcancemos um padrão de comportamento que seja humanitário, isto é, tratando humanamente os seres humanos e tratando bem a vida que vai além da nossa vida".
Nota: Sugiro que aprofundemos o assunto.
Há muita coisa. Veja no google.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

PROFETA DAS NAÇÕES




A liturgia da Palavra da Santa Missa de hoje, 03/02/2013, 4° domingo do chamado tempo comum, isto é, não é advento, nem quaresma, nem páscoa, teve como primeira leitura parte do cap. 1° do livro de Jeremias, do qual destaco o versículo 5, onde se lê:  Antes que fosses formado no seio de tua mãe, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações.

Existe até um canto deveras vibrante que todos gostamos de cantar com essa passagem.

Tem-se ai, um profeta deslumbrado com a constatação feita. É uma afirmação que tem tudo a ver conosco, que a cada um em particular, nos diz respeito.

Não aparecemos nesse mundo simplesmente pela força biológica do ato que acontece entre um homem e uma mulher capaz de gerar vidas, mas porque fazemos parte de um projeto, brotado do coração de um Deus cheio de amor, que nos chamou à vida, que diz textualmente, eu te concebi, tu és meu.

Importa ter ideia clara a tal respeito. Nossas mães não ficaram sabendo que nós formos gerados no ventre delas, exatamente no momento em que aconteceu, só percebem a gravidez dias depois, meses, às vezes.

Que esta constatação nos encha de gratidão, de vontade firme de assumir a vocação a qual fomos chamados. Reconheçamos o dom de Deus, alegremo-nos com a certeza de que somos resultado de um projeto, repito, cada um de nós e todas as pessoas e criaturas que estão ao nosso lado, com as quais convivemos, entre as quais nos movemos o que implica aquele cuidado que impede que seja quem for, se melindre com qualquer atitude que venhamos adotar ou palavra que possamos dizer.

No compasso da carruagem da vida, vamos realizando o sonho de Deus, faz-se mister que cada um assuma seu papel de profeta, aquele que fala em nome de Deus, portanto, todo pensar,  todo falar, todo agir, seja pensar,  falar e agir  como convém aos filhos de Deus

sábado, 2 de fevereiro de 2013

SINAL DE CONTRADIÇÃO


De acordo com o evangelho, Maria e José levaram o Menino Jesus para o Templo de Jerusalém, quarenta dias depois do nascimento para completar o ritual de purificação de Maria após o parto e para realizar a redenção do primogênito, de acordo com a torá.

Lucas explicitamente afirma que José e Maria escolheram a opção disponível para os pobres (os que não podiam comprar um cordeiro), sacrificando «Um par de rolas ou dois pombinhos." (Lc. 2,24) indica que este evento deve se realizar quarenta dias após o nascimento de um menino, daí a Apresentação ser celebrada quarenta dias depois do Natal.

Ao trazer Jesus até o Templo, eles encontraram Simeão. O evangelho relata que Simeão recebeu uma promessa de que ele «ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor.»(Lc. 2,26). Simeão então entoou uma oração que ficaria conhecida como Nunc Dimittis ou Cantico de Simeão", que profetiza a redenção do mundo por  Jesus:


«Agora tu, Senhor, despedes em paz o teu servo Segundo a tua palavra; Porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste ante a face de todos os povos: Luz para revelação aos gentios, E glória do teu povo de Israel.» (Lc. 2,29-32).
 

Simeão então profetizou a Maria: «Este menino é posto para queda e para levantamento de muitos em Israel, e para sinal de contradição. (Uma espada traspassará a tua própria alma), para que os pensamentos de muitos corações sejam revelados.»(Lc. 2,34-35).

A idosa profetisa Ana  também estava no Templo e ofereceu orações e glórias a Deus, contando a todos os que estavam por ali sobre Jesus e seu papel na redenção de Israel. 

2 de fevereiro, purificação de Nossa Senhora, apresentação de Jesus segundo costume.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A MORTE NÃO TIRA O FÔLEGO


D. Pedro Casaldáliga
Pedro Casaldáliga: A morte não tira o fôlego!

No começo de dezembro de 2012, o bispo Pedro Casaldálida teve que deixar São Félix do Araguaia, MT, por uma nova série de ameaças de morte. “Ele não queria que seu povo sentisse que estava fugindo”, conta Mari Pepa Raba que, assim como seu marido,José María Concepción, mora há muitos anos perto de Casaldáliga. Ambos, hoje, nos introduzem nesta história.

Felizmente, hoje, Pedro volta a estar em sua casa, em sua diocese e com sua gente, no “simples palácio episcopal” que nos descreve Mari Pepa: “Uma casa simples com janelas de madeira e telas contra mosquitos”.

Ambos nos falam da causa indígena pela qual, segundo reconhece José María, “o Governo brasileiro (também) tomou a decisão política clara”, e confessam que “a morte não tira o fôlego de Pedro Casaldáliga”.           

Conheça: Profetas da Bíblia: gente de fé e de luta

Eis a entrevista.    

Como está Pedro Casaldáliga neste momento?    

José – Ele retornou a São Félix no dia 29 de dezembro, feliz por retornar à sua casa, que havia deixado no dia 07 [de dezembro]. A situação foi se normalizando. Ele nunca quis sair de São Félix, nem sequer quando se aposentou. Para ele é muito importante. Escolheu, inclusive, o lugar no cemitério onde quer ser enterrado.

O que aconteceu para que tivesse que sair dali?  

José – A causa fundamental foram duas ameaças concretas, a mais decisiva das quais aconteceu no dia 05 de dezembro. A razão é a causa indígena: o retorno dos Xavante à sua terra de origem, que é um processo que foi se dilatando. O Supremo Tribunal Federal finalmente reconheceu a área indígena que corresponde a este povo Xavante, e pediu a desocupação dos invasores. O Governo brasileiro decidiu cumprir a sentença do Supremo Tribunal, e cada pessoa foi comunicada pessoalmente, latifúndio por latifúndio, que teria que sair. Os latifundiários (entre os quais há políticos, prefeitos, juízes...) chegam a ter latifúndios de 9.000 hectares, e nas mãos de uma mesma família.      

Ou seja, que estão devolvendo as terras aos xavantes?

José – Sim, o retorno ainda não foi executado, mas o processo está começando. A expulsão dos Xavante aconteceu na década de 1960, antes da ditadura. Os governos brasileiros decidiram levar a cabo uma espécie de expansão econômica através da colonização e do desenvolvimento da Amazônia. Então, começaram a criar programas subvencionados para as grandes empresas que quisessem investir ali. Havia bancos brasileiros, multinacionais, montadoras... Mediante a redução dos impostos e outra série de benefícios e subsídios, todas as empresas aceitaram, e chegaram a uma zona onde estava a tribo indígena Xavante. Começaram a explorar essa região, criando um latifúndio de quase um milhão de hectares. Um território maior que a província de Madri. 

Os índios Xavante foram obrigados a trabalhar como escravos, e quando já não lhes serviam, os expulsaram. O próprio Exército brasileiro colocou um avião para transferir toda a população Xavante a uma espécie de reserva dos salesianos, que trabalharam muito com a etnia Xavante. Assim se iniciou o desmatamento, o aproveitamento da terra para gado, etc., da Amazônia brasileira.      

Na I Conferência do Clima de 1992, realizada no Rio de Janeiro, o governo italiano, que participava dessa exploração através de uma empresa, fez o gesto de devolver 160.000 hectares de terra ao governo brasileiro, para que os Xavante pudessem retornar.         

Quando os políticos e os latifundiários brasileiros tomaram conhecimento da notícia, se anteciparam e invadiram a terra. Sempre utilizam o artifício de tomar eles mesmos a maior parte possível de terra, mas também o de incentivar que haja camponeses simples, para colocá-los como desculpa no momento em que voltassem a tentar expulsá-los. É mais fácil comprar os camponeses. Sobre esta estratégia, e a invasão que começou em 1992, há muitos documentos.

Uma vez que o Governo brasileiro recebeu as terras, começou um processo de homologação e demarcação. Foram realizados trabalhos antropológicos para decidir se, efetivamente, aí haviam vivido os Xavante, foram feitas escavações nos cemitérios... E em 1998, o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou o decreto que diz que esses 165.000 hectares passavam a ser de uso dos Xavante.

Mas os invasores recorreram aos seus próprios recursos, até que em outubro passado o Supremo Tribunal Federal decidiu desestimar todos os recursos e apelações, para que se iniciasse efetivamente a devolução. Então, todos os organismos próprios (como a Fundação Nacional do Índio – Funai e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra) começaram a trabalhar no plano, e os latifundiários culparam Pedro Casaldáliga por aquilo. Alguém tinha que ser o bode expiatório, e Pedro é conhecido por ter defendido sempre os índios. “O bispo vermelho”, como o chamam.          

A vida de Casaldáliga correu perigo real?   

Mari – Depois da primeira ameaça um delegado do governo e a Polícia Federal vieram falar com Pedro. A situação já estava muito inflamada, e o Exército estava alerta. Ali todo o mundo sabe que as coisas se arranjam com uma “visitinha” ao bispo. Isso significa que chegam à tua casa com uma pistola e atiram.

Pedro está tranquilo, porque a questão da morte não se impõe absolutamente, mas a polícia e o governo insistiram na gravidade da situação. Disseram-lhe que tinha que ter um mínimo de cuidado, as portas fechadas... porque a casa de Pedro sempre está aberta. É um palácio episcopal muito simples: uma casa simples com janelas de madeira e telas contra mosquitos. Seu quarto sequer tem porta, apenas uma cortina. E a polícia lhe disse para não confiar tanto. Mas ele disse que a Providência sempre está com ele, e queria esperar. Parecia mais consciente do risco que nós podíamos correr do que do seu próprio. Resistiu para sair porque ele nunca fugiu diante de outras ameaças. Em 2004, um capanga o seguia em seu passeio de todas as manhãs, e Pedro não lhe dava importância. Nós também estávamos relativamente tranquilos, porque ele inspira muita tranquilidade. Creio que ele não queria que seu povo sentisse que estava fugindo, e, além disso, a polícia dizia que estes elementos ameaçavam toda a Prelazia, isto é, todas as pessoas que trabalhavam na Prelazia.    

Pedro já apresenta limitações próprias a qualquer pessoa de idade. Por essa razão, o fato de ter que sair de seu lugar e fazer uma viagem longa representa muitíssimo. Eu, pessoalmente, preferia ter escolta na casa ao fato de Pedro ter que sair. Mas também é verdade que não se vê Pedro como um ancião. É um monstro, apesar do pequenininho que é. A simplicidade com que reflete, a liberdade com que conta as piadas, e sua fé, que move montanhas, são enormes.

Finalmente, foi decisão sua deixar o local? 

José – Ele se reuniu com as pessoas da casa, com o advogado, com o atual bispo e alguns agentes de pastoral, e depois da oração nos disse que tinha pensado sobre o assunto à noite e que estava disposto a sair. Alugamos um avião pequeno, de apenas dois lugares, e eu saí com ele. Primeiro fomos à cidade de Goiás, porque Pedro queria participar de uma homenagem feita a ele por dom Tomás Balduíno, que foi bispo de São Félix do Araguaia antes de Pedro, e que tem 90 impressionantes anos. Foi um encontro muito bonito, no aeroporto desértico, e depois Pedro pôde participar, com Tomás, de uma reunião com amigos do mosteiro. A homenagem também foi bonita, porque os dois foram dois grandes bispos do Brasil, fundadores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e daComissão Pastoral da Terra (CPT) – ambos organismos que pertencem à CNBB.

No dia seguinte, participamos de uma missa em um mosteiro beneditino onde reside o atual bispo de Goiás, e após a celebração o povo pediu que Pedro falasse. Eu fiquei impressionado como ainda é capaz de, apesar do Parkinson, ajeitar o microfone para falar da esperança com uma lucidez surpreendente. A mim, que o conheço tanto, ainda me surpreende com novas argumentações.

Como está de saúde?     

José – É verdade que se cansa muito. É preciso recordar que está com 84 anos. Mas sempre é dependente da sua medicação. 

Vão continuar a manter segredo sobre o lugar onde estiveram por aqueles dias?

José – Sim, por uma necessidade de ter de voltar, para que siga sendo um lugar reservado. Posso apenas dizer que era na casa de amigos.        

Como casal que vocês são, como viveram esta situação, de perigo objetivo?       

Mari – As coisas são tomadas como chegam. É verdade que vinham à casa para nos dizer para que não saíssemos, que estavam ameaçando os agentes de pastoral, diziam que sabiam que havia espanhóis... Mas também não pensávamos nessa ameaça. O que mais respeito nos dava é que havia muito movimento da polícia e do Exército no vilarejo. No domingo, na eucaristia nos demos conta de que as pessoas se sentiam sozinhas sem Pedro. Notava-se sua ausência. O povo estava triste, perguntavam por ele, se iria voltar...

Como foram os dias na clandestinidade? Pedro sentia-se irrequieto por ter se afastado dos seus?           

José – Como tínhamos acesso à internet, continuamos com o nosso ritmo de trabalho. O lugar também era muito agradável, na natureza, embora não pudéssemos sair para caminhar como em casa. De Brasília nos inteiravam da situação, iam nos informando sobre o que a imprensa local brasileira, que é muito tendenciosa, não dizia. Não recebíamos visitas, mas podíamos ler e nos comunicar pela internet.           

Por que foi possível que Pedro voltasse à sua casa?      

José – Nós tínhamos a ideia de que no final do ano pudesse voltar, e Brasília confirmou a data de 29. Devemos reconhecer que o governo brasileiro tomou uma decisão política clara a favor dos índios e a favor da justiça, contrariando muitíssimos políticos. Pedro segue sendo crítico com o governo de Dilma Rousseff por outros motivos, porque são muitos os temas pendentes, inclusive dentro da causa indígena (além dos Xavante, os Guarani, no Mato Grosso do Sul...). Pedro é muito crítico sempre com os megaprojetos e o agronegócio. Dilma é a criadora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). É uma economista desenvolvimentista. Por outro lado, o primeiro objetivo que assumiu foi a erradicação da miséria, e é certo que está trabalhando por esse fim, mas forçando o crescimento. E disso Pedro não gosta, porque muitas vezes o crescimento acelerado é invasor. O agro-business está convertendo o Brasil em um dos maiores fornecedores de matérias-primas do mundo, é verdade; mas a monocultura da soja, por exemplo, não deixa lugar para o pequeno camponês, nem para a agricultura familiar da nossa região. Já praticamente tudo é soja.

Mas no caso dos índios da região onde Pedro vive, o governo do Brasil enfrentou o governador do Mato Grosso, a maioria dos políticos e deputados que eram contrários à desocupação de terras, e se manteve firme. 

Pedro sentiu falta, por parte do Vaticano ou da Conferência Episcopal Espanhola, de algum tipo de pronunciamento por um bispo da Igreja católica que foi ameaçado de morte e que teve que abandonar sua casa?

José Pedro não manifestou nada parecido. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pronunciou-se a favor de Pedro, com uma nota de apoio explícito, e aquele que é seu atual secretário visitou várias vezes São Félix do Araguaia e fez uma aposta pela aldeia.           

Não sei como soou a Pedro o silêncio da Conferência Episcopal Espanhola, porque ele nunca faz comentários do que outras pessoas poderiam fazer e não fazem, etc. Não faz comentários desse tipo. Ele não quer nenhuma importância para si mesmo. Sempre diz que o importante não é ele, mas suas causas.

Quais são as grandes causas de Pedro Casaldáliga?     

José – A terra e a causa indígena. Agora está muito preocupado, em relação à primeira, por este avanço desenvolvimentista que vai tirando espaço do mais humano. E a segunda remonta a 1968, quando Pedro chegou ao Brasil e se encontrou, em sua diocese, com três etnias: os índios Tapirapé, os Carajá e os Xavante, que já haviam sido expulsos. Com a tribo Tapirapé estavam as Irmãs de Jesus que haviam vindo da Argelia. Para entender a origem da causa de Pedro é preciso remontar à espiritualidade de Carlos de Foucauld, cujo lema era “gritar o Evangelho com sua vida”. E para isso é fundamental encarnar-se no povo. Por isso, as Irmãzinhas de Jesus “se fizeram tapirapés”. Isso é evangelizar. E daí surgiu o Cimi fundado por Pedro, a evangelização dos indígenas sem retirá-los de suas aldeias para levá-los a colégios nem nada disso. Pedro se deu conta de que a única coisa que havia que fazer era dignificar a pessoa, e isso consiste em demonstrar que têm qualidades. Ser teimoso. Por isso o Cimi lutou desde o princípio pela defesa da cultura indígena, de seus mitos, sua forma de viver. E logo gerou um movimento social em todo o Brasil, que ainda existia na época da ditadura.

Quando chegou o período constituinte, em 1988, a Constituição outorgou aos índios uma série de direitos que não teria sido possível sem esse movimento social. Atualmente, a elite agrária do Brasil quer reformá-la, de fato, retirar estes direitos que foram conquistados pelo Cimi. Pedro soube lutar por esta causa e comunicá-la, porque ele é um grande comunicador.

Como vocês conheceram Pedro?      

Mari – Nós viemos, pela primeira, como turistas, a um povoado muito pobre que se chama Santa Teresinha. Começamos a colaborar nos projetos, perto da aldeia Tapirapé. Um ano nos pediram alguns painéis solares, e através da organização Engenheiros sem Fronteiras e empenhando-nos muito, os conseguimos e os levamos para lá. Ao chegar a São Félix eu fiz um comentário sobre o quanto a viagem tinha sido cansativa carregando os painéis, e Pedro me disse: “Os do Primeiro Mundo, se não trabalharem a solidariedade, não vão se salvar, haja o que houver”.

 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

COMPAIXÃO

Por meses, quem sabe, no Rio Grande do Sul vamos comentar e chorar pela tragédia que resultou na morte de mais de 200 jovens estudantes na boate de Santa Maria. Tristemente, ela tem um nome que – a posteriori – revelou-se fatal: KISS. O Dicionário A. Houaiss de inglês-português traduz a palavra assim: beijo, ósculo, contato leve, suspiro. Só num segundo momento, sugere: consolar, confortar com carinhos e beijos. Adiante o dicionário anota: aceitar a perda, sucumbir, ser vencido, prostrar-se, aceitar submissamente o castigo. Lá para o fim dos diferentes usos do termo em outras expressões, o filólogo coloca: acariciar com um beijo, entrar em contato leve.

À medida que fui buscando informações desde segunda cedo, 28/01, sobre a tragédia de Santa Maria, entre consternado, abalado como milhares de pessoas, particularmente as famílias das vítimas, procurava compreender os fatos e confesso que foi difícil. A imprensa cumpre o seu papel. Repete à exaustão os motivos mais evidentes que provocaram a desgraça. Agora, começa a focar o noticiário na urgente e necessária fiscalização de casas noturnas, teatros e outros locais públicos que irão passar por rigorosas inspeções. Isto é uma boa notícia, apesar de toda a tristeza e do verdadeiro calvário por que passam as famílias que começaram a sepultar filhas e filhos, enquanto outras aguardam vigilantes, exaustas, mas cheias de fé e esperança, que os sobreviventes nos hospitais se recuperem e possam, com o tempo, voltar à vida de estudos e sonhos.

Uma palavra, porém, me chamou especial atenção no artigo escrito por Martha Medeiros, palavra que a invadiu desde a madrugada de domingo:compaixão. É bom dizer logo que não se trata de pieguice, ter pena, lamentar simplesmente. Compaixão é algo muito mais forte, profundo, singular. Diz respeito à capacidade humana de se identificar com ador do outro e, na medida do possível, amenizá-la, participando de atos de solidariedade, escutando a revolta de quem perdeu a filha querida, abraçando as pessoas, compartilhando recursos sem segundas intenções, dando a mão literalmente para que as pessoas atingidas não caiam completamente prostradas.

Concordo com Martha Medeiros. Ela encontrou uma joia no meio da tragédia, do fogo e da fumaça preta que cegou os jovens, o ambiente, e lhes obrigou a inalar o beijo da morte. Compaixão é um conceito bíblico central, que aparece de modo especial nos profetas. Deus tem compaixão do seu povo. Ele o levanta do solo como uma mãe ergue seu filho para lhe dar de mamar ou para protegê-lo (Oséias). A compaixão é algo tão sagrado que no profeta Isaías se torna um atributo exclusivo, em sua mais alta acepção, da ação de Deus para com o ser humano.

Nesse momento em que tantas famílias sofrem um luto desesperado, quase sem volta, como falar de esperança? Como acompanhar estas pessoas de modo a respeitar sua dor, mas ao mesmo tempo inspirar-lhes amor, carinho, esperança, verdadeiro consolo e conforto? Como não sucumbir diante da desgraça?

Temos muito pela frente nas próximas semanas. Esta dor provocada da forma mais absurda e – deixem-me dizer – irresponsável ainda irá nos acompanhar por muitos dias. Vamos precisar nos apoiar mutuamente, familiares, amigos, amigas, sociedade civil, comunidades de fé, grupos voluntários. A meu ver, será necessário exercitar acompaixão do modo mais terno, concreto e criativo possível. Para que não venhamos a sucumbir como se tudo fosse um castigo, de resto imerecido e brutal.

Texto: Professor Roberto Zwetsch (Faculdades EST – São Leopoldo, RS – 30/01/2013).