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| D. Pedro Casaldáliga |
Pedro Casaldáliga: A morte não
tira o fôlego!
No começo de dezembro de 2012, o bispo Pedro Casaldálida teve que deixar
São Félix do Araguaia, MT, por uma nova série de ameaças de morte. “Ele não
queria que seu povo sentisse que estava fugindo”, conta Mari Pepa Raba que,
assim como seu marido,José María Concepción, mora há muitos anos perto de
Casaldáliga. Ambos, hoje, nos introduzem nesta história.
Felizmente, hoje, Pedro volta a estar em sua casa, em sua diocese e com
sua gente, no “simples palácio episcopal” que nos descreve Mari Pepa:
“Uma casa simples com janelas de madeira e telas contra mosquitos”.
Ambos nos falam da causa indígena pela qual, segundo reconhece José María, “o
Governo brasileiro (também) tomou a decisão política clara”, e confessam que “a
morte não tira o fôlego de Pedro Casaldáliga”.
Conheça: Profetas da Bíblia: gente de fé e de luta
Eis a entrevista.
Como está Pedro Casaldáliga neste momento?
José – Ele retornou a São Félix no dia 29 de dezembro, feliz por
retornar à sua casa, que havia deixado no dia 07 [de dezembro]. A situação foi
se normalizando. Ele nunca quis sair de São Félix, nem sequer quando se
aposentou. Para ele é muito importante. Escolheu, inclusive, o lugar no
cemitério onde quer ser enterrado.
O que aconteceu para que tivesse que sair dali?
José – A causa fundamental foram duas ameaças concretas, a mais decisiva
das quais aconteceu no dia 05 de dezembro. A razão é a causa indígena: o
retorno dos Xavante à sua terra de origem, que é um processo que foi se
dilatando. O Supremo Tribunal Federal finalmente reconheceu a área indígena que
corresponde a este povo Xavante, e pediu a desocupação dos invasores. O Governo
brasileiro decidiu cumprir a sentença do Supremo Tribunal, e cada pessoa
foi comunicada pessoalmente, latifúndio por latifúndio, que teria que sair. Os
latifundiários (entre os quais há políticos, prefeitos, juízes...) chegam a ter
latifúndios de 9.000 hectares, e nas mãos de uma mesma família.
Ou seja, que estão devolvendo as terras aos xavantes?
José – Sim, o retorno ainda não foi executado, mas o processo está
começando. A expulsão dos Xavante aconteceu na década de 1960, antes da
ditadura. Os governos brasileiros decidiram levar a cabo uma espécie de
expansão econômica através da colonização e do desenvolvimento da Amazônia.
Então, começaram a criar programas subvencionados para as grandes empresas que
quisessem investir ali. Havia bancos brasileiros, multinacionais, montadoras...
Mediante a redução dos impostos e outra série de benefícios e subsídios, todas
as empresas aceitaram, e chegaram a uma zona onde estava a tribo indígena Xavante.
Começaram a explorar essa região, criando um latifúndio de quase um milhão de
hectares. Um território maior que a província de Madri.
Os índios Xavante foram obrigados a trabalhar como escravos, e quando já
não lhes serviam, os expulsaram. O próprio Exército brasileiro colocou um avião
para transferir toda a população Xavante a uma espécie de reserva dos
salesianos, que trabalharam muito com a etnia Xavante. Assim se iniciou
o desmatamento, o aproveitamento da terra para gado, etc., da Amazônia
brasileira.
Na I Conferência do Clima de 1992, realizada no Rio de Janeiro, o
governo italiano, que participava dessa exploração através de uma empresa, fez
o gesto de devolver 160.000 hectares de terra ao governo brasileiro, para que
os Xavante pudessem retornar.
Quando os políticos e os latifundiários brasileiros tomaram conhecimento da
notícia, se anteciparam e invadiram a terra. Sempre utilizam o artifício de
tomar eles mesmos a maior parte possível de terra, mas também o de incentivar
que haja camponeses simples, para colocá-los como desculpa no momento em que
voltassem a tentar expulsá-los. É mais fácil comprar os camponeses. Sobre esta
estratégia, e a invasão que começou em 1992, há muitos documentos.
Uma vez que o Governo brasileiro recebeu as terras, começou um processo de
homologação e demarcação. Foram realizados trabalhos antropológicos para
decidir se, efetivamente, aí haviam vivido os Xavante, foram feitas
escavações nos cemitérios... E em 1998, o presidente Fernando Henrique
Cardoso assinou o decreto que diz que esses 165.000 hectares passavam a ser
de uso dos Xavante.
Mas os invasores recorreram aos seus próprios recursos, até que em outubro
passado o Supremo Tribunal Federal decidiu desestimar todos os recursos
e apelações, para que se iniciasse efetivamente a devolução. Então, todos os
organismos próprios (como a Fundação Nacional do Índio – Funai e o
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra) começaram a
trabalhar no plano, e os latifundiários culparam Pedro Casaldáliga por
aquilo. Alguém tinha que ser o bode expiatório, e Pedro é conhecido por
ter defendido sempre os índios. “O bispo vermelho”, como o chamam.
A vida de Casaldáliga correu perigo real?
Mari – Depois da primeira ameaça um delegado do governo e a Polícia
Federal vieram falar com Pedro. A situação já estava muito inflamada, e
o Exército estava alerta. Ali todo o mundo sabe que as coisas se arranjam com
uma “visitinha” ao bispo. Isso significa que chegam à tua casa com uma pistola
e atiram.
Pedro está tranquilo, porque a questão da morte não se impõe
absolutamente, mas a polícia e o governo insistiram na gravidade da situação.
Disseram-lhe que tinha que ter um mínimo de cuidado, as portas fechadas...
porque a casa de Pedro sempre está aberta. É um palácio episcopal muito
simples: uma casa simples com janelas de madeira e telas contra mosquitos. Seu
quarto sequer tem porta, apenas uma cortina. E a polícia lhe disse para não
confiar tanto. Mas ele disse que a Providência sempre está com ele, e queria
esperar. Parecia mais consciente do risco que nós podíamos correr do que do seu
próprio. Resistiu para sair porque ele nunca fugiu diante de outras ameaças. Em
2004, um capanga o seguia em seu passeio de todas as manhãs, e Pedro não lhe
dava importância. Nós também estávamos relativamente tranquilos, porque ele
inspira muita tranquilidade. Creio que ele não queria que seu povo sentisse que
estava fugindo, e, além disso, a polícia dizia que estes elementos ameaçavam
toda a Prelazia, isto é, todas as pessoas que trabalhavam na Prelazia.
Pedro já apresenta limitações próprias a qualquer pessoa de idade. Por
essa razão, o fato de ter que sair de seu lugar e fazer uma viagem longa
representa muitíssimo. Eu, pessoalmente, preferia ter escolta na casa ao fato
de Pedro ter que sair. Mas também é verdade que não se vê Pedro como
um ancião. É um monstro, apesar do pequenininho que é. A simplicidade com que
reflete, a liberdade com que conta as piadas, e sua fé, que move montanhas, são
enormes.
Finalmente, foi decisão sua deixar o local?
José – Ele se reuniu com as pessoas da casa, com o advogado, com o atual
bispo e alguns agentes de pastoral, e depois da oração nos disse que tinha
pensado sobre o assunto à noite e que estava disposto a sair. Alugamos um avião
pequeno, de apenas dois lugares, e eu saí com ele. Primeiro fomos à cidade de
Goiás, porque Pedro queria participar de uma homenagem feita a ele por dom
Tomás Balduíno, que foi bispo de São Félix do Araguaia antes de Pedro,
e que tem 90 impressionantes anos. Foi um encontro muito bonito, no aeroporto
desértico, e depois Pedro pôde participar, com Tomás, de uma reunião com
amigos do mosteiro. A homenagem também foi bonita, porque os dois foram dois
grandes bispos do Brasil, fundadores do Conselho Indigenista Missionário
(Cimi) e daComissão Pastoral da Terra (CPT) – ambos organismos que
pertencem à CNBB.
No dia seguinte, participamos de uma missa em um mosteiro beneditino onde
reside o atual bispo de Goiás, e após a celebração o povo pediu que Pedro
falasse. Eu fiquei impressionado como ainda é capaz de, apesar do Parkinson,
ajeitar o microfone para falar da esperança com uma lucidez surpreendente. A
mim, que o conheço tanto, ainda me surpreende com novas argumentações.
Como está de saúde?
José – É verdade que se cansa muito. É preciso recordar que está com 84
anos. Mas sempre é dependente da sua medicação.
Vão continuar a manter segredo sobre o lugar onde estiveram por aqueles
dias?
José – Sim, por uma necessidade de ter de voltar, para que siga sendo um
lugar reservado. Posso apenas dizer que era na casa de amigos.
Como casal que vocês são, como viveram esta situação, de perigo objetivo?
Mari – As coisas são tomadas como chegam. É verdade que vinham à casa
para nos dizer para que não saíssemos, que estavam ameaçando os agentes de
pastoral, diziam que sabiam que havia espanhóis... Mas também não pensávamos
nessa ameaça. O que mais respeito nos dava é que havia muito movimento da
polícia e do Exército no vilarejo. No domingo, na eucaristia nos demos conta de
que as pessoas se sentiam sozinhas sem Pedro. Notava-se sua ausência. O
povo estava triste, perguntavam por ele, se iria voltar...
Como foram os dias na clandestinidade? Pedro sentia-se irrequieto por ter se
afastado dos seus?
José – Como tínhamos acesso à internet, continuamos com o nosso ritmo de
trabalho. O lugar também era muito agradável, na natureza, embora não
pudéssemos sair para caminhar como em casa. De Brasília nos inteiravam da
situação, iam nos informando sobre o que a imprensa local brasileira, que é
muito tendenciosa, não dizia. Não recebíamos visitas, mas podíamos ler e nos
comunicar pela internet.
Por que foi possível que Pedro voltasse à sua casa?
José – Nós tínhamos a ideia de que no final do ano pudesse voltar, e
Brasília confirmou a data de 29. Devemos reconhecer que o governo brasileiro
tomou uma decisão política clara a favor dos índios e a favor da justiça,
contrariando muitíssimos políticos. Pedro segue sendo crítico com o
governo de Dilma Rousseff por outros motivos, porque são muitos os temas
pendentes, inclusive dentro da causa indígena (além dos Xavante, os Guarani,
no Mato Grosso do Sul...). Pedro é muito crítico sempre com os
megaprojetos e o agronegócio. Dilma é a criadora do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC). É uma economista desenvolvimentista. Por
outro lado, o primeiro objetivo que assumiu foi a erradicação da miséria, e é
certo que está trabalhando por esse fim, mas forçando o crescimento. E disso Pedro
não gosta, porque muitas vezes o crescimento acelerado é invasor. O agro-business
está convertendo o Brasil em um dos maiores fornecedores de matérias-primas do
mundo, é verdade; mas a monocultura da soja, por exemplo, não deixa lugar para
o pequeno camponês, nem para a agricultura familiar da nossa região. Já
praticamente tudo é soja.
Mas no caso dos índios da região onde Pedro vive, o governo do Brasil
enfrentou o governador do Mato Grosso, a maioria dos políticos e deputados que
eram contrários à desocupação de terras, e se manteve firme.
Pedro sentiu falta, por parte do Vaticano ou da Conferência Episcopal
Espanhola, de algum tipo de pronunciamento por um bispo da Igreja católica que
foi ameaçado de morte e que teve que abandonar sua casa?
José – Pedro não manifestou nada parecido. A Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pronunciou-se a favor de Pedro,
com uma nota de apoio explícito, e aquele que é seu atual secretário visitou
várias vezes São Félix do Araguaia e fez uma aposta pela aldeia.
Não sei como soou a Pedro o silêncio da Conferência Episcopal Espanhola,
porque ele nunca faz comentários do que outras pessoas poderiam fazer e não
fazem, etc. Não faz comentários desse tipo. Ele não quer nenhuma importância
para si mesmo. Sempre diz que o importante não é ele, mas suas causas.
Quais são as grandes causas de Pedro Casaldáliga?
José – A terra e a causa indígena. Agora está muito preocupado, em
relação à primeira, por este avanço desenvolvimentista que vai tirando espaço
do mais humano. E a segunda remonta a 1968, quando Pedro chegou ao
Brasil e se encontrou, em sua diocese, com três etnias: os índios Tapirapé,
os Carajá e os Xavante, que já haviam sido expulsos. Com a tribo Tapirapé
estavam as Irmãs de Jesus que haviam vindo da Argelia. Para entender
a origem da causa de Pedro é preciso remontar à espiritualidade de Carlos
de Foucauld, cujo lema era “gritar o Evangelho com sua vida”. E para isso é
fundamental encarnar-se no povo. Por isso, as Irmãzinhas de Jesus “se
fizeram tapirapés”. Isso é evangelizar. E daí surgiu o Cimi fundado por Pedro,
a evangelização dos indígenas sem retirá-los de suas aldeias para levá-los a
colégios nem nada disso. Pedro se deu conta de que a única coisa que
havia que fazer era dignificar a pessoa, e isso consiste em demonstrar que têm
qualidades. Ser teimoso. Por isso o Cimi lutou desde o princípio pela
defesa da cultura indígena, de seus mitos, sua forma de viver. E logo gerou um
movimento social em todo o Brasil, que ainda existia na época da ditadura.
Quando chegou o período constituinte, em 1988, a Constituição outorgou aos
índios uma série de direitos que não teria sido possível sem esse movimento
social. Atualmente, a elite agrária do Brasil quer reformá-la, de fato, retirar
estes direitos que foram conquistados pelo Cimi. Pedro soube
lutar por esta causa e comunicá-la, porque ele é um grande comunicador.
Como vocês conheceram Pedro?
Mari – Nós viemos, pela primeira, como turistas, a um povoado muito
pobre que se chama Santa Teresinha. Começamos a colaborar nos projetos, perto
da aldeia Tapirapé. Um ano nos pediram alguns painéis solares, e através
da organização Engenheiros sem Fronteiras e empenhando-nos muito, os
conseguimos e os levamos para lá. Ao chegar a São Félix eu fiz um comentário
sobre o quanto a viagem tinha sido cansativa carregando os painéis, e Pedro me
disse: “Os do Primeiro Mundo, se não trabalharem a solidariedade, não vão se
salvar, haja o que houver”.