terça-feira, 7 de agosto de 2012

BOITATÁ

O Boitatá ocupou minha imaginação de menina como um ser extranormal sem nada a ver com o que depois consegui e resolvi publicar. Gosto de lendas, pretendo escrever mais algumas. Quem me quiser subsidiar, far-me-á grande prazer.

De origem tupi-guarani, o termo Boitatá (Baitatá, Biatatá, Bitatá ou Batatão), é usado para designar, em todo o Brasil, o fenômeno do fogo-fátuo e deste
derivando algumas entidades míticas, um dos primeiros registrados no país.

O termo mais difundido é boitatá. O termo seria a junção das palavras tupis boi e tatá, significandocobra e fogo, respectivamente - ou ainda de mboi - a coisaou o agente. Significa, assim, cobra de fogo, fogo da cobra,em forma de cobra ou coisa de fogo.

Sobre a etimologia, escreveu Couto de Magalhães que "como a palavra o diz, mboitatá é cobra-de-fogo'" (in: O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876).

No Centro-Sul é chamado de baitatá ou batatá e até mesmo de mboitatá. Na Bahia aparece como biatatá. Em Minas Gerais chamam-no de batatal. No Nordeste é comum o termo batatão. Nos estados de Sergipe e Alagoas recebem os nomes de Jean de la foice ou Jean Delafosse.[2]

Em 1560 registrou o Padre José de Anchieta:

"Há também outros (fantasmas), máxime nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatá, que quer dizer cousa de fogo, o que é o mesmo como se se dissesse o que é todo de fogo. Não se vê outra cousa senão um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras; o que seja isto, ainda não se sabe com certeza." (in: Cartas, Informações, Framentos Históricos, etc. do Padre José de Anchieta, Rio de Janeiro, 1933)

No folclore brasileiro, o Boitatá é uma gigantesca cobra-de-fogo que protege os campos contra aqueles que o incendeiam. Vive nas águas e pode se transformar também numa tora em brasa, queimando aqueles que põem fogo nas matas e florestas.

A causa desse mito pode ser explicada com uma reação química, ossos de animais, como bois, cavalos etc. que são ricos em fósforo branco, que é um material inflamável(diferente do fósforo vermelho que é usado como medicamento), se aglomeram em um lugar, o osso começa a se decompor, e sobra apenas o fósforo. Quando um raio ou faisca, entra em contato com os ossos semi-decompostos causa uma enorme chama.

A palavra, de origem indígena como a lenda, tem o significado de cobra (mboi) de fogo (tata), sendo Mbãetata em sua lingua original. Pensaram entao, em juntar as duas palavras (mboi e tata) para transforma-las neste mito: Boitatá.

Na obra Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto, há um conto com este nome que descreve bem o que seja a lenda. Há registro de que a primeira versão da história foi feita pelo padre José de Anchieta, que o denominou com o termo tupi Mbaetatá - coisa de fogo. A idéia era de uma luz que se movimentava no espaço, daí, "Veio a imagem da marcha ondulada da serpente". Foi essa imagem que se consagrou na imaginação popular Descrevem o Boitatá como uma serpente com olhos que parecem dois faróis, couro transparente, que cintila nas noites em que aparece deslizando nas campinas, nas beiras dos rios. Em Santa Catarina, a figura aparece da seguinte maneira: um touro de "pata como a dos gigantes e com um enorme olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição de fogo".

A versão que predominou foi a do Rio Grande do Sul. Nessa região, narra a lenda que houve um período de noite sem fim nas matas. Além da escuridão, houve uma enorme enchente causada por chuvas torrenciais. Assustados, os animais correram para um ponto mais elevado a fim de se protegerem. A boiguaçu, uma cobra que vivia numa gruta escura, acorda com a inundação e, faminta, decide sair em busca de alimento, com a vantagem de ser o único bicho acostumado a enxergar na escuridão. Decide comer a parte que mais lhe apetecia, os olhos dos animais e de tanto comê-los vai ficando toda luminosa, cheia de luz de todos esses olhos. O seu corpo transforma-se em ajuntadas pupilas rutilantes, bola de chamas, clarão vivo, boitatá, cobra de fogo. Ao mesmo tempo a alimentação farta deixa a boiguaçu muito fraca. Ela morre e reaparece nas matas serpenteando luminosa. Quem encontra esse ser fantástico nas campinas pode ficar cego, morrer e até enlouquecer. Assim, para evitar o desastre os homens acreditam que têm que ficar parados, sem respirar. e de olhos bem fechados. A tentativa de escapar da cobra apresenta riscos porque o ente pode imaginar fuga de alguém que ateou fogo nas matas. No Rio Grande do Sul, acredita-se que o "boitatá" é o protetor das matas e das campinas. A verdade é que a idéia de uma cobra luminosa, protetora de campinas e dos campos aparece freqüentemente na literatura, sobretudo nas narrativas do Rio Grande do Sul.

Ainda hoje, esta lenda folclórica impressiona adultos e crianças, sendo citada, inclusive, como personagem de destaque em várias obras contemporâneas como, por exemplo, “Quem tem medo do Boitatá?”, de Manuel Filho, lançada em 2007. Nesta história infanto-juvenil, o avô do protagonista, Sandrinho, é cego pelo próprio Boitatá. A serpente também é relembrada na história de José Santos, “O casamento do Boitatá com a Mula-sem-cabeça”, onde o autor descreve de forma lúdica a união de vários seres do nosso folclore. Nas referidas obras, assim como em muitas outras, o ser fantástico é citado como “o Boitatá”, mas é possível encontrar citações como “a Boitatá” tal como ocorre na obra recente de Alexandra Pericão, "Uaná, um curumim entre muitas lendas" [5], em que a serpente, também comedora de olhos, é descrita de um jeito bem contemporâneo, com citações divertidas como “Mas ninguém, até hoje, e isso é o mais espantoso de tudo, conseguiu colocar uma foto sua na internet. Apesar do tamanho gigante, a serpente é tão discreta, que só conseguem vê-la aqueles que ela mesmo captura”. Também José Simões Lopes Neto, em obra supramencionada, refere-se ao ser no gênero feminino, valendo citar o trecho: “Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela primeira vez viram a boiguaçu tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamam-na desde então, de boitatá, cobra do fogo, boitatá, a boitatá!”.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

18 ANOS, A MAIORIDADE

Cinco minutos com Maria

18 anos no ar

 Todos os dias são dias de agradecer a Deus pelos inúmeros benefícios que sempre recebemos do seu favor. Hoje, particularmente, agradeço pelos 18 aos do meu programa “Cinco Minutos com Maria” o qual produzo e apresento de segunda-feira a sábado na Rádio América, AM 690, (Fundação Nossa Senhora da Penha - Arquidiocese de Vitória –ES).

Programa dos 18 anos.
Tudo começou por proposta pessoal que fiz a então diretora Maria da Luz Fernandes que aceitou e a quem devo as muitas observações que fazia para seu gradual aperfeiçoamento. Tem o mesmo formato, uma crônica que fale de Nossa Senhora ou de algum outro assunto que esteja em evidência, mas sempre com fundo religioso ou com raízes no Evangelho. Finaliza com uma consagração a Nossa Senhora da Penha.
A Salve Rainha de autoria do Carlos Bona é cantada por ele e por mim.

São 18 anos a serviço do Reino de Deus, em companhia de Maria, a mulher do Sim, a virgem imaculada, predestinada desde o princípio dos tempos para ser a Mãe do Redentor do mundo e em vista deste papel, ser quem mais próxima esteve Dele nos grandes momentos em que se operou a salvação.

NA ENCARNAÇÃO

Maria gerou o filho de Deus no seu ventre. O homem Deus que Jesus encarnou era geneticamente filho só de Maria. Se se falar em traços fisionômicos de Jesus, esses traços só podem ser dela, o sangue derramado na paixão e morte na cruz era sangue de Maria.

NA DIVULGAÇÃO DA BOA NOVA
DO PAI

Maria esteve presente em todos os grandes momentos da vida terrena de Jesus e logicamente, no céu também. Procurou-O com aflição na volta de Jerusalém, quando ele dialogou com os doutores. Deixou-se admoestar, penso que não porque não soubesse, mas para que ao responder-lhe num tom que pode ter parecido menos delicado, na verdade, contribuiu para que os doutores que o ouviam soubessem de quem se tratava: não sabíeis que me devo ocupar das coisas do Pai.

Maria viveu na terra uma vida igual a de todos os mortais disse o Concílio Vaticano II, mas certamente, com um amor muito maior, muito mais intenso, muito mais  amor.

São temas que abordamos com frequência nestes 18 anos e queremos continuar até quando Deus quiser.

NÃO FALTOU BOLO

Ao finalizar o programa com a parceira do Ricardo, os funcionários da Rádio entraram no estúdio com um bolo e cantando parabéns.

Tudo muito lindo, para jamais ser esquecido.

Só me resta, cantar como Maria: Minha alma engrandece ao Senhor, exulta meu espírito em Deus meu Salvador!

Primeiro de todos agradeço a Deus, agradeço também a D. Luiz Mancilha Villela, Arcebismo Metropolitano, a D. Silvestre Scandian, a Maria da Luz, aos ouvintes a esses simpáticos e sorridentes amigos e colegas da Rádio Améica. A todos e todas.

terça-feira, 31 de julho de 2012

JULGAMENTO DO MENSALÃO E O RISCO DE RECOMEÇOS

Finalmente, o Supremo Tribunal Federal vai iniciar o julgamento dos "réus do mensalão". Se só aqueles foram denunciados na forma da lei, foi porque no inquérito policial, base da ação penal, se havia indícios de autoria, faltava comprovação de materialidade, conditio sine qua non. O Ministério Público, em sua função de magistrado, procede ou não a denúncia contra alguém.
A tensão envolve atores, espectadores e quantos mais estiverem atentos a esse momento que se pode considerar histórico e que marcará época no país, além de passar a integrar currículos de vida.

Os 11 ministros estão sob fogo cruzado, competindo-lhes aguçar conhecimentos, fazer valer suas prerrogativas, manterem-se isentos e livres. Ou mesmo que apadrinhados, não são capazes para o exercício da função? Nem podem entregar a alma como pleito de gratidão. Um juramento sério foi proferido. Serve de alento a reação do ministro Gilmar Mendes na oportunidade em que foi assediado pelo ex-presidente, portador de ingredientes para uma boa pizza. Ele não aceitou.

Não hão de faltar tentativas de embargos ao curso dos trabalhos, mesmo que na fase a que se chegou ou iniciada a votação, o rito processual já não comporte ingerência das partes. Compete a S. Exas manterem o ritmo dos trabalhos e saberem que qualquer deslize está sendo visto pela nação, que por sua vez os julgará, resultando daí o acionamento do nível de credibilidade no Poder Judiciário, especialmente, na sua mais alta Corte.

É repetitivo dizer da necessidade de passar a limpo a política no país. De passos concretos de iniciativa popular, resultou a Lei da Ficha Limpa, que deixou gente de fora na próxima eleição. Tudo indica que o povo quer mudanças, quer desenvolvimento, quer transparência, quer honestidade.

Certamente, o volume do processo dos réus do mensalão assusta, mas nem tudo é interessante. Tantas folhas que se juntaram a ele são somente de carimbos sobre ocorrências, pelo que todos os ministros, assim como a nação inteira, conhecem as provas e quem são os responsáveis. É inútil qualquer adiamento.
Toda oportunidade no sentido de que algo seja feito deverá ser aproveitada, ou corremos o risco de eternas expectativas ou recomeços.


Artigo publicado hoje em A GAZETA



DA LAVRA DO AMARILDO (A Gazeta)

domingo, 29 de julho de 2012

SALVE BIQUINHA


Avenida Cricaré de casas simples, desniveladas, não aparelhadas, onde mora gente boa e que vale a pena. É assim denominada, porque margeia o rio do mesmo nome que banha nossa cidade. Se me refiro à avenida não o faço exatamente por ela, mas por que no seu curso se encontra a “Biquinha” que junto com o judeu, peixe que se tornou raro e quando encontrado, bem menor do que era uma vez, fez nascer o que eu prefiro chamar de slogan, antes que uma verdade inexorável ou porque invariavelmente aconteça o que sentencia: quem come judeu e bebe água da bica, não sai mais de São Mateus.
Ouso acrescentar que mais soa, no bom sentido, como certo bairrismo, que toma posse de mateenses que não veem lugar nenhum do mundo melhor que esta cidade para morar. Até poderia citar nome daqueles e daquelas que se recusam não só a deixá-la, ainda que por um só dia, mas que de fato, jamais ultrapassaram seus confins.  Nunca vão chorar de saudades ou de fazer próprios os versos do poeta Gonçalves Dias: ... ai que saudades que eu tenho ...minha terra tem primores que tais não encontro eu cá, ...
Depois das interferências
Na sua quase extrema simplicidade, a Biquinha é uma nascente (na verdade um conjunto), na encosta de um morro (dito de outro modo: no sopé do Vale do Rio São Mateus) que dá para a cidade alta, mais para as cercanias da Praça do Padroeiro, São Mateus. Na sua origem, destinou-se ao abastecimento através do chafariz no porto.
Jorra água de qualidade que, portanto, pode ser bebida ali mesmo, não precisa ser purificada de qualquer modo, ou filtrada, antes de ser ingerida.
Algumas lendas estão associadas à sua existência: um caminhante sedento passando por ali, não ousava aproximar-se do rio por não conseguir ultrapassar a vegetação que a guarnecia. Eram ainda áureos os tempos em que a natureza era respeitada. Fugiam-lhe as forças e daí foi que reunindo toda fé, lembra que uma parente lhe avisara de que a frente daquele caminho, estava a Igreja de São Mateus cujos sinos como para lhe confirmarem o que acabava de se lembrar, dobraram em seguida, espargindo pela amplidão dos céus, os acordes sonoros do fim de tarde, lembrando a Ave-Maria. Pensou também naqueles dois altares, vistos em fotografia de coroação, um à direita que tinha Nossa Senhora Auxiliadora e outro à esquerda, onde se via Nossa Senhora da Penha. Lembrou de quantas foram as vezes em que Nossa Senhora satisfazia os pedidos que lhe são feitos e apela: valei-me, minha Nossa Senhora, preciso encontrar água, já não aguento mais. Ouviu imediatamente o som de águas que caiam e ao mesmo tempo, jorravam em abundância à sua frente.
Segue inversamente o curso de onde vêm e com força descem o barranco, antepondo-se ao seu caminho, vai dar com água cristalina que de ofuscado, mas não menos poderoso olho d’água, brotava cantando e em prodigalidade.
Na atualidade.
Não sem antes fazer o sinal da cruz, abaixa-se um pouco, entreabre os lábios e deixa rolar através do queixo e pelo pescoço,  o que sobrava da garganta. Bebe, bebe, bebe, até se saciar.
Acabo de visitar a Biquinha, o que fiz apenas para poder contar. Encontrei-a ressentida pelo descaso com que é tratada, pelas ingerências que ao longo dos anos são feitas no seu escoar, mas ainda plena, translúcida, generosa e saudável, continua doando-se a quantos por ali passam e que possam como aquele caminhante de um certo dia, sentir sede.

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Gostaria demais de receber mensagens dos que estão lendo meus escritos por este mundão a fora.

sábado, 28 de julho de 2012

MEU CRICARÉ


Nessa tarde, o quanto mais pude, em pé no cais do antigo porto, aproximei-me dele, meu Cricaré,  rio que desliza lentamente e faz curvas em verso e prosa decantadas, antes de chegar ao mar.
Foi a placidez de suas águas a lhe fazer valer o nome “Kiri Karé” que significa “rio de águas calmas”, na língua Tupi, língua cujo direito de uso como nossa, nos foi arrebatado. O pseudo descobridor impôs-nos o Português que mesmo sendo “a última flor do Lacio, inculta e bela” na expressão de Bilac, era a dele e não a que o povo indígena que aqui já habitava, falava de há muito tempo. Como continua manso e continua belo o meu rio!
Naquele exato momento, um pequeno barco a vapor passa à jusante singrando-o e deixando na superfície espelhada, ondulações semelhantes às marítimas que se desfazem ao esbarrarem de encontro a margem, junto a mata ciliar de verde intenso, do outro lado se contorcem como em remoinho, mas é curto o tempo do qual precisam para logo se recompor.
Quedo-me em contemplação, as águas que passam a cada instante não são mais as mesmas que vejo, mas outras que ao mesmo tempo tomam o espaço deixado, sendo substituídas por outras que chegam. É impossível distingui-las pela forma, ou origem, cor ou intensidade que demonstrem, prossegue acariciando-se com ternura, na mais absoluta harmonia, o caudal que não se cansa, não afrouxa o ritmo que ostenta, ansioso pela consumação plena do encontro com o mar,  momento de espetáculo que acontece na belíssima Barra Nova.
Quantas e quantas gerações já terão feito o mesmo que eu, já terão provado da mesma magia e desembocado em fascinação indescritível só possível, se o caminho empreendido se faz nas asas da poesia.
Certamente, é sempre um encantamento mirar tal paisagem que mão humana nenhuma será capaz de repetir e, se tenta, como é o caso de quem pinta um quadro, carecerá de outros elementos ou agentes que lhe dêem suporte. É a terra que produz toda matéria prima: da forma em madeira que recebe a tela, do pincel e da tinta, antes de a mão humana fazer surgir o retrato.
Não se pretenda, pois, que meu perdão perdoe, se direito tenho a tanto, quem egoisticamente constrói irregularmente, desfaz o que não pode refazer, ou impede a todos o direito de tal visão, mas igualmente, não me deixo atormentar por lembranças, meu rio de águas calmas! Entro e saio, parto e volto, mas se estou presente (mateenseando), com a sensação de que minha visão nunca se interrompeu,  faço absoluta questão te ver.

Marlusse Pestana Daher
Em São Mateus, 28 de julho de 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

REFLEXÕES AO POR DO SOL


Decidi viajar. Coloquei algumas roupas numa pequena mala e, não, não foi para nenhum lugar além de 215 quilômetros,  Vitória X São Mateus. Entardecia, quando superei a passagem por Linhares. Olhar atento a frente, quem dirige não pode facilitar.
Mas eis que de repente, a cor do céu me desperta atenção, o azul transformara-se em ouro, a minha esquerda, punha-se o sol. A visão era esplendida!
A primeira, daquele por de sol se deu através de uma estrada perpendicular que se desenhava como sobredito à esquerda, o caminho que oferecia integrou-se à composição da paisagem, acrescentando-lhe magia. Desde a entrada tudo se desenhava em harmonia, às margens, árvores e outros componentes faziam alas, alguns animais como que tudo compreendendo se deixavam ficar por ali, não passava nenhum humano. No fundo, o sol distribuía entre as nuvens seu tom áureo limitando-se naquele momento à  exibição apenas de um quarto de sua grandeza. Quando pensei em fotografar já me distanciara e curvar para voltar em uma BR tem suas complicações, até porque um pouco mais a frente, caminhoneiros em manifestação de protesto obstaculavam a passagem dos demais veículos.
Tanto quanto pude deixei-me contemplar. Ora a miragem se mostrava apenas em reflexo sobre casas, mais a frente através de coqueiros e o ápice daquele momento se fez, depois, pouco a pouco através de galhos, delirantemente.
Como seria ver esse por de sol na Lagoa Juparanã? Volta-me o assedio da contemplação e penso parar ali, mas como se trata de momento único no dia, tão lindo quanto mais fugidio, ao divisar parte do espelho de suas águas que se divisa da estrada, provei da melancolia da saudade. O céu retomara quase por inteiro sua cor de fim de tarde depois que o sol nos diz até amanhã.
Prossegui embalada pela lembrança que seria substituída por outros pensamentos, quando o trânsito para e mais a frente entendo porquê, havia uma manifestação dos caminhoneiros. O trabalho deles é exaustivo e quem de direito resolveu condicionar seus horários a seis horas diárias com um repouso de trinta. Protestavam pois não ganhariam o suficiente para pagar as próprias contas. O que será, será.
O sol que nasceu para todos e a todos aquece e cumpre sua jornada, despedindo-se em esplendor cumpre fielmente seu horário, faz sua parte, mesmo quando as nuvens se fazem densas e ofuscam sua luz, por sobre elas ele permanece a brilhar, registre-se, sempre intensamente.
Pobres homens que não se contentam, querem sempre mais e quem mais alcança quer ainda mais e absorve com o excesso a parte que já seria de um outro. É assim que caminha a humanidade entre lutas e passividades, entre vitórias e fracassos, entre ambições e comodismos, entre querer o que não pode ter e desfazer do que pode saborear.
Ah se fôssemos como o sol, que se já não brilha aqui é porque, por ordem do giro da terra se foi para uma outra parte dela onde, registre-se, continua a brilhar, persevera impávido e nunca deixa de fazer o que deve fazer e de ser o que é.

Marlusse Pestana Daher
Mateenseando em 27 de julho de 2012

terça-feira, 24 de julho de 2012

O AMOR DE JUQUITA E INÁ

    Iná pousara o crochê nos joelhos e deitou o olhar através da janela a contemplar no fundo do vale, a cachoeira que rumorejava e deslizava incansavelmente por anos sem fim. Mais além, balouçavam os galhos das roseiras, cobertas de flores que se desgarravam ao vento e deixavam o chão como um tapete imenso, todo matizado... Ao longe, pastavam alguns bois e por já ser tarde, os passarinhos antes de se recolherem aos ninhos, trinavam melodiosos cantos que espargiam na amplidão.

        Era uma tarde assim, aquela em que Iná viu Juquita pela primeira vez, ele tinha 20 anos, ela 16. E o amor nasceu. A princípio, consistia na passagem cotidiana dele, frente à sua porta, ela naturalmente, lá estava feliz, desde antes, como a Raposa do Pequeno Príncipe, porque ele ia passar. Sorriam um para o outro, olhavam-se, era tudo, eram felizes.

         Numa tarde de domingo, à saída da igreja, se encontraram, quase não falaram, a presença recíproca bastava.  O amor botão desabrochou, fez-se forte e quatro anos depois se concretizava num sim.

         E como este sim os levou longe!

         As finanças nunca eram bastante, veio o primeiro filho e foi uma alegria imensa. Apesar de pobres... bem, pobreza não impede o nascimento de frutos do amor. E apesar de tudo eram felizes; veio o segundo filho, o terceiro veio, outros também vieram. A vida interiorana produzia pouco e as dificuldades não eram compreensíveis, abatiam-se implacavelmente. Mas Juquita foi sempre um folgazão, alegre, brincalhão, sempre a gozar de tudo e de todos e tristeza com ele não tinha vez.

        Os meninos cresciam, precisavam ir para a escola, começaram a frequentar a mais próxima. E todos os dias as mesmas coisas aconteciam. Carinhosamente preparados pela mãe, estavam sempre limpas suas roupinhas ainda que de gente pobre.

         Iná via-os sair, continuava depois a cuidar dos menores que não estavam em idade escolar e naqueles tempos, não havia este luxo de jardim de infância.

        Na volta da escola, o Maurílio sempre apanhava do seu predecessor na família, o Marcelo.  Mas também, com vontade ou sem ela, chorava até chegar à casa, só para ver o outro levar uns petelecos do pai.

         O tempo passou. Os meninos se tornaram homens, cada qual foi-se colocando, os mais velhos ajudando os mais novos, todos se formaram e os velhos pais que também não eram tão velhos, chegados ao ápice de sua missão, rendiam graças a Deus, pelos netos que vinham, pela família que se reunia e enchia a casa com os risos das crianças, as gargalhadas  dos rapazes.

         Mas a saúde do Juquita debilitou e foi descendo sempre mais. Inspirava cuidados, muitas proibições lhe foram feitas e exatamente das coisas que mais gostava, o cigarro, uma gostosa polenta prá comer prá valer...

        Um dia, num gesto muito seu, sobe numa goiabeira, ao vê-lo, a boa Iná o repreende:

         - Juquita, você não tem juízo não?

         - É que eu fui tirar esta goiaba prá você.

        E quem podia dizer mais alguma coisa?

         Solicitados pelos filhos, cada qual em cidades distantes, vão os dois passar dias aqui, recepcionar netinhos ali, visitar F. que quebrou o braço... E foi exatamente numa dessas visitas, São Mateus, onde mora Maurílio, que depois de ter conversado com tanta gente, de ter sido visto na janela por outros tantos, ele a chama:

         - Iná, vem cá.

         Pressurosa, ela corre e o encontra com aquelas características que o médico prevenira antecipar-lhe o fim.  Apela para a mãe da nora, pessoa que lhe estava mais perto, o médico é chamado, vem rapidamente, tudo se fez, mas aquele era o dia em que o Senhor o elegera.


        Que pena! Ela fica em pranto, choram todos, os amigos a cercam.  Será que é possível continuar vivendo, voltar àquela casa... como sobreviver se ele já não existe? Como?

         Eram estas as lembranças que aquela tarde, já quase absorvida pela noite, lhe trazia.  De fato, era duro demais!

                Contudo, como ensinara o Pajé a Tibicuera, os pais não morrem nunca. Eles continuam a viver nos filhos... é quando a pequenina Danielle, netinha de três anos, achegando-se a ela, toma-lhe as mãos e convida:

         - Vovó, vem jantar vem!

         Ela se deixa conduzir, uma estrela despontara no céu e dava-lhe impressão de falar-lhe como se fosse ele: À frente, Iná, a vida continua, no dia do Senhor, nós ressuscitaremos.

         No coração de Iná reacende-se a fé que sempre a sustentara nos dias difíceis de outrora, quando nem tudo eram flores. Na igrejinha pequenina da cidade, os sinos dobravam, do seu coração brotou a prece do Angelus e em tempo algum foi mais intenso o seu ardor ao repetir: “faça-se em mim segundo a vossa vontade”.