terça-feira, 24 de julho de 2012

O AMOR DE JUQUITA E INÁ

    Iná pousara o crochê nos joelhos e deitou o olhar através da janela a contemplar no fundo do vale, a cachoeira que rumorejava e deslizava incansavelmente por anos sem fim. Mais além, balouçavam os galhos das roseiras, cobertas de flores que se desgarravam ao vento e deixavam o chão como um tapete imenso, todo matizado... Ao longe, pastavam alguns bois e por já ser tarde, os passarinhos antes de se recolherem aos ninhos, trinavam melodiosos cantos que espargiam na amplidão.

        Era uma tarde assim, aquela em que Iná viu Juquita pela primeira vez, ele tinha 20 anos, ela 16. E o amor nasceu. A princípio, consistia na passagem cotidiana dele, frente à sua porta, ela naturalmente, lá estava feliz, desde antes, como a Raposa do Pequeno Príncipe, porque ele ia passar. Sorriam um para o outro, olhavam-se, era tudo, eram felizes.

         Numa tarde de domingo, à saída da igreja, se encontraram, quase não falaram, a presença recíproca bastava.  O amor botão desabrochou, fez-se forte e quatro anos depois se concretizava num sim.

         E como este sim os levou longe!

         As finanças nunca eram bastante, veio o primeiro filho e foi uma alegria imensa. Apesar de pobres... bem, pobreza não impede o nascimento de frutos do amor. E apesar de tudo eram felizes; veio o segundo filho, o terceiro veio, outros também vieram. A vida interiorana produzia pouco e as dificuldades não eram compreensíveis, abatiam-se implacavelmente. Mas Juquita foi sempre um folgazão, alegre, brincalhão, sempre a gozar de tudo e de todos e tristeza com ele não tinha vez.

        Os meninos cresciam, precisavam ir para a escola, começaram a frequentar a mais próxima. E todos os dias as mesmas coisas aconteciam. Carinhosamente preparados pela mãe, estavam sempre limpas suas roupinhas ainda que de gente pobre.

         Iná via-os sair, continuava depois a cuidar dos menores que não estavam em idade escolar e naqueles tempos, não havia este luxo de jardim de infância.

        Na volta da escola, o Maurílio sempre apanhava do seu predecessor na família, o Marcelo.  Mas também, com vontade ou sem ela, chorava até chegar à casa, só para ver o outro levar uns petelecos do pai.

         O tempo passou. Os meninos se tornaram homens, cada qual foi-se colocando, os mais velhos ajudando os mais novos, todos se formaram e os velhos pais que também não eram tão velhos, chegados ao ápice de sua missão, rendiam graças a Deus, pelos netos que vinham, pela família que se reunia e enchia a casa com os risos das crianças, as gargalhadas  dos rapazes.

         Mas a saúde do Juquita debilitou e foi descendo sempre mais. Inspirava cuidados, muitas proibições lhe foram feitas e exatamente das coisas que mais gostava, o cigarro, uma gostosa polenta prá comer prá valer...

        Um dia, num gesto muito seu, sobe numa goiabeira, ao vê-lo, a boa Iná o repreende:

         - Juquita, você não tem juízo não?

         - É que eu fui tirar esta goiaba prá você.

        E quem podia dizer mais alguma coisa?

         Solicitados pelos filhos, cada qual em cidades distantes, vão os dois passar dias aqui, recepcionar netinhos ali, visitar F. que quebrou o braço... E foi exatamente numa dessas visitas, São Mateus, onde mora Maurílio, que depois de ter conversado com tanta gente, de ter sido visto na janela por outros tantos, ele a chama:

         - Iná, vem cá.

         Pressurosa, ela corre e o encontra com aquelas características que o médico prevenira antecipar-lhe o fim.  Apela para a mãe da nora, pessoa que lhe estava mais perto, o médico é chamado, vem rapidamente, tudo se fez, mas aquele era o dia em que o Senhor o elegera.


        Que pena! Ela fica em pranto, choram todos, os amigos a cercam.  Será que é possível continuar vivendo, voltar àquela casa... como sobreviver se ele já não existe? Como?

         Eram estas as lembranças que aquela tarde, já quase absorvida pela noite, lhe trazia.  De fato, era duro demais!

                Contudo, como ensinara o Pajé a Tibicuera, os pais não morrem nunca. Eles continuam a viver nos filhos... é quando a pequenina Danielle, netinha de três anos, achegando-se a ela, toma-lhe as mãos e convida:

         - Vovó, vem jantar vem!

         Ela se deixa conduzir, uma estrela despontara no céu e dava-lhe impressão de falar-lhe como se fosse ele: À frente, Iná, a vida continua, no dia do Senhor, nós ressuscitaremos.

         No coração de Iná reacende-se a fé que sempre a sustentara nos dias difíceis de outrora, quando nem tudo eram flores. Na igrejinha pequenina da cidade, os sinos dobravam, do seu coração brotou a prece do Angelus e em tempo algum foi mais intenso o seu ardor ao repetir: “faça-se em mim segundo a vossa vontade”.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

ORA PORQUE!

 Quando ele nasceu já vigia em toda a plenitude a Carta Magna que proclamou o Brasil como um “Estado Democrático de direito” que tem como “fundamento entre outros: a dignidade da pessoa humana”.

Do seu artigo 227 consta: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, a educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Uma prescrição tão clara que dispensa explicações ou comentários. Mas não é cumprida. Às famílias faltam meios, possibilidades, até porque apesar de surgidas sob a égide da mesma Constituição, quando crianças, seus personagens principais não foram preparados para a missão futura, surgiram “em qualquer de repente” (Zezinho – Oração pela Família) e povoam a terra despidas de capacidades e recursos indispensáveis à preservação da  dignidade humana.

O Estado, cuja mão pesada alveja sem cessar, o bolso do contribuinte, se omite em altura e profundidade, em largura e extensão. E o Brasil continua esperando que “cada um cumpra o seu dever”.

“14 anos, 13 homicídios, por quê?” Ora porque, porque não estavam onde deviam estar as mãos que o deviam proteger, os braços que o deviam acolher, a palavra que o devia iluminar, a atenção particular que sua particular condição requeria, a educação de qualidade que ele merecia, a vida, o alimento o lazer, a profissionalização a cultura, tudo a que constitucionalmente tem direito e lhe foi negado.

Ao invés, a negligência vedada, grassou. A tal ponto, que desde os 12 anos (e por isto foi-lhe reconhecido ser um trabalhador) ele trabalhou no pesado, com burro e carroça, fazendo transporte rústico e ganhando alguma coisa sim, mas não a ponto de desviá-lo do encantamento exercido pela “fortuna do tráfico” que se projeta sobre muitos como ele, verdadeira coação moral irresistível, que é atenuante de pena (c, III, art 65 CPB). Devem ser punidos os coatores. Quem são?

E meu pensamento voa para o episódio da prostituta que fariseus queriam apedrejar. Ela se aproxima de Jesus que depois de escrever no chão (os pecados da turba?), se ergue e autoriza: “quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”. “Não ficou um para contar história”! Quanta gente atirando pedras e condenando o menino. É preciso ter para com ele, os mesmos sentimentos de misericórdia que o Mestre tem para com cada um de nós, ao menos isto.

As questões que afligem a sociedade é assunto que diz respeito a todos. Omissão é o mesmo que negligência da qual o texto constitucional fala.

Há muita co-autoria nos 13 homicídios noticiados, entre muita gente que ainda não está sendo incluída, talvez os que mais condenam, mais se omitem e menos contribuem para as mudanças que urgem!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

AFESL FAZ 63 ANOS.




A ACADEMIA FEMININA ESPIRITOSSANTENSE DE LETRAS foi FUNDADA em 18 de julho de 1949, sob patrocínio da “Academia Espíritossantense de Letras” para que mulheres escritoras “também pudessem ser imortais” considerando que aquela se constituia só de homens onde invisivelmente se lia “mulher não entra”.

Era a mentalidade da época da qual, mesmo sabendo a fundamentalismo, nem intelectuais escapavam. Ou principalmente?

Contou inicialmente com doze acadêmicas, Anna (Annette) de Castro Mattos, Arlette da Silva Cypreste e Cypreste, Doralice de Oliveira Neves, Hilda Pessoa Prado, Ida Vervloet Finamore, Judith Leão Castello Ribeiro, Maria José Albuquerque de Oliveira, Maria Stella de Novaes, Sylvia Meirelles da Silva Santos, Virginia Gasparini Tamanini, Yamara Vellozo Soneghet Melchiors e Zeny Santos.
Por muitos anos teve a sua frente a Acadêmica Annette de Castro Mattos que com muito trabalho fez o que pode. Sofreu vários períodos de recesso ou completa inatividade, até que Annete viu em Maria das Graças Silva  Neves, estatura e garra para levar o sonho a frente, como de fato aconteceu. Gracinha realizou um grande trabalho, além de fazer das dependências de sua Escola de Música, sede da Academia.

Desde seu soerguimento, a AFESL vem demonstrando a que veio.


Ester e Marlusse
 Neste 18 de julho completou 63 anos particularmente assinalados com a inclusão da atual Presidente, Ester Abreu de Oliveira como homenageada, mediante apresentação de sua vida e de suas obras no programa da Bibilioteca Estadual, já revestido de sucesso, conhecido como DEBATE PAPO, uma criação do Poeta Sérgio Blank.

Qualificado número de pessoas marcou presença além de algumas Acadêmicas.

Não faltou um excelente coquetel.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

CONFIAR EM DEUS

O profeta Isaías, ao se referir à grandeza de Deus e à confiança que nEle deve ter o homem, diz: "Os que esperam no Senhor,adquirirão sempre novas forças, tomarão asas como de águia, correrão e nãofatigarão, andarão e não desfalecerão." (Isaías 40:31)

É muito singular que o Profeta compare os que confiam no Senhor às águias. É que elas têm uma forma toda especial de enfrentar as tempestades. Quando se aproxima uma tempestade as águias abrem suas asas, capazes de voar a uma velocidade de até noventa quilômetros por hora, e enfrentam a tormenta. Elas sabem que acima das nuvensescuras e das descargas elétricas, brilha o sol.
Nessa luta terrível elas podem perder penas, podem se ferir, mas não temem e seguem em frente. Depois, enquanto todo mundo fica às escuras embaixo, elas voam vitoriosas e em paz, lá em cima. Confiança que traduz certeza é o seu lema. Para além da tormenta,brilha o sol, e o sol elas buscam.
Na morte, as águias também dãoexcelente lição de confiança. Como todos os seres vivos, elas também morrem umdia. Contudo, alguma vez você já se deparou com o cadáver de uma águia? Épossível que já tenha visto o de uma galinha, de um cachorro, de um pombo. Quemsabe até de um bicho do mato nessas extensas estradas de reserva ecológica.Mas, com certeza nunca encontrou um cadáver de águia.

Sabe por quê? Porque quando elas sentem que chegou a hora de partir, não se lamentam nem ficam com medo. Localizam o pico de uma montanha inatingível, usam as últimas forças de seu corpo cansado e voam naquela direção. E lá esperam, resignadamente, o momentofinal. Até para morrer, as águias são extraordinárias.

Quando, por ventura, você se deparar com um momento difícil, em que as crises aparecem gerando outras crises, não admita que o desânimo se aposse das suas energias. Eleve-se acima da tempestade, através da oração. Pense que Deus é o autor e o sustentador de todo o bem. Pequenos dissabores que estejam atingindo você são convites a reexame dos empecilhos que enchem a estrada da sua vida.
Discórdia é problema que está pedindo ação pacificadora. Desarmonias domésticas é exigência de mais serviçoa os familiares. Doença é processo de recuperação da verdadeira saúde. Até mesmo a presença da morte não significa outra coisa senão renovação, e mais vida.

Pense nisso:
Sempre que as aflições visitem seular em forma de enfermidade ou tristeza, humilhação ou desastre, não seentregue ao desalento.
Recorde que, se você procura pelosocorro de Deus, o socorro de Deus também está procurando alcançar você!

Se a tranquilidade parece demorarum pouco, persevere na esperança, lembrando que o amparo de Deus está oculto ouvem vindo.

(Enviado por Nércia).

terça-feira, 17 de julho de 2012

SIMPLESMENTE AMAR

Perdi-me em pensamentos

que de assalto me possuem

e ausento-me.

Na sala enorme

por uma janela

entra a luz.

Há uma mesa

e uma cadeira apenas,

um urso de pelúcia abandonado

me faz companhia.

A porta fechada

ou entreaberta

não sei bem,

range?

Um sopro de vento

perpassa o ambiente

me renova.

Então levanto-me,

me deixo levar

e se faz um caminho

pelo qual embrenho.

Basta querer,

não custa nada

se o novo sentimento

que de mim se apossa

significa simplesmente, AMAR.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

IR E VIR


Direito de ir e vir,
Direito sacrossanto.
Ir ou vir mas para onde?
Simplesmente para qualquer lugar?

Vir ou ir por quê?
Vir ou ir hoje?
Vir ou ir como?
Vir ou ir até quando?                 

Ir compensa,
se braços abertos                                  
esperam
quem vai chegar.
                                                        
Vir, recompensa,
se braços abertos
traduzem certeza:
alguém espera quem vai regressar. 

Não basta simplesmente ir e vir.

domingo, 15 de julho de 2012

O TESTEMUNHO DE LENA


No sábado, dia 08 de julho deste ano, 2012, entrei num Shopping por necessidade de acesso a um caixa eletrônico. Estava “meio menos”  mas eis que na saída me encontro com uma ex aluna, Lena Almeida, cujas palavras foram um banho de grandeza e um revigoramento de tudo que possa acontecer de bom a alguém.
Inevitavelmente, veio à lembrança, o tempo em que ela frequentava a Escola Estadual “Ceciliano Abel de Almeida” em São Mateus, onde lhe ministrei aulas de português, cuja falta de acento em uma prova lhe subtraiu meio ponto na nota, ao invés de 10, recebeu apenas 9,5.
Reconheci mais uma vez que agi com rigor, assim é que externava o dever a cumprir em face de todos os alunos que passaram por mim. Hoje, praticamente a unanimidade me repete:  valeu a pena.
Lena já fez vários concursos, aprovada em todos. O último como funcionária do Ministério Público Estadual, onde se encontra.
E aqui, a coroação: Marlusse, eu não estudo português para os concursos, vejo o pessoal “se acabar de estudar português” eu nem me preocupo, no último concurso que fiz das vinte questões errei apenas duas, não exatamente porque não soubesse, aconteceu.
Respirei fundo e recebi como presente de Deus, o testemunho da ex-aluna, sem vaidade, mas com profunda alegria.
Revelou mais, “Marlusse, Walkiria (Bastos) e eu desafiávamos você, estudávamos muito para tanto”. Que beleza, que desafio saudável! Acho que o comportamento de Miriam, irmã dela, era o mesmo, obtinha sempre as melhores notas.
Ela me perguntou ainda por Rachid e Evila que também foram suas  professsoras ou de seus irmãos, aliás, todos muito estudiosos e ela me disse que era sua mãe que sempre cobrava deles que estudassem, “pois era o que tinham que fazer”.
Conversamos ainda um pouco, ao se despedir me disse ainda: “você é minha professora inesquecível”. Obrigada, Lena!
Obrigada, Senhor, “ocultaste coisas aos olhos dos sábios, mas as revelaste aos pequeninos”. A verdade jamais virá a menos.