quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

MÚSICA ANTIGA

                                                                                                    Ana Célia Dias Curtinhas


Na Academia Popular da Pessoa Idosa, na Praia do Canto.
-Dona, o dia está lindo. Agora, vou fazer hidroginástica.
-Você faz todos os dias?
-Não. São três vezes por semana, mas a nossa turma faz cinco. Com três anos, sabemos tudo de cor e salteado. Vem, também.
-Obrigada. Um dia eu irei.
Alonguei-me e comecei a caminhada, agradecendo a Deus por estar naquele pedacinho do céu. Louvei ao Senhor pelo Convento, de onde Nossa Senhora da Penha nos acompanha com olhar materno e pela alegria dos garis.  Um deles fez da vassoura uma guitarra e acompanhou a música do seu celular cantando e dançando. Louvei-O pelos guardas, que nos protegem abaixo de Deus; pelos ciclistas e banhistas; pelos velejadores, nadadores, pescadores e vendedores ambulantes. Pela imensidão do mar com seus diversos peixes e simpáticas tartarugas, tirando a cabeça da água como se nos dessem ‘bom dia’; pelos pássaros, acostumados com os caminhantes e pelo colorido das flores. Pelo vai e vem de veículos na terceira ponte: pelos veranistas lotando o Shopping Vitória; pelos coqueiros e castanheiras.
Pensei: quantas castanhas no chão! Umas pisadas e outras comidas. É o ‘maná’ enganando a fome dos nossos irmãos sem norte, que dormem na praia debaixo das árvores, marquises...
Chutei as castanhas, como fazia em criança; as cascas de abricós e os caroços dos coquinhos das palmeiras. Após esta safra, amadurecem as pitangas e os ingás, ou não. São colhidos antes.
-Bom dia! Você está bem?
-Estou ótima, graças a Deus, e você?
-Ontem, antes de entrar no mar, minha pressão subiu.  Por que você não faz hidroginástica conosco? É bom e é de graça. Só precisa trazer o laudo médico.
-Este é o segundo convite de hoje. Como é o seu nome?
- Maria Amélia.
-Aquela da música antiga que diz: ‘Amélia que era mulher de verdade’?
-A própria.
-Tenho dúvida se a sua xará existiu. E, se existiu, ela não era boa da cabeça. Onde já se viu achar bonito não ter o que comer? Os moradores de rua que o digam.
Amanhã eu voltarei, se Deus quiser. Com certeza, Ele quer e eu também. Amo este lugar. É maravilhoso! É di-vi-no!!
Até lá, Maria Amélia.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A FÚRIA DAS ÁGUAS

                                                                                                                                               Jô Drumond

No pluvioso janeiro de 2011, com tantas tragédias causadas por inundações em Minas e em São Paulo, assim como por deslizamentos das encostas na região serrana do RJ, os mortos se multiplicam a cada dia. Muitos corpos são encontrados, a cada instante, afogados ou soterrados sob toneladas de lama e de escombros. A ira das águas arrasta e submerge cidades inteiras, incluindo casas sólidas, prédios, hospitais, supermercados, postos de abastecimento e meios de transporte. Diversas pontes e estradas de rodagem estão totalmente destruídas.  Em menos de uma semana já foram encontrados mais de 600 corpos sob os escombros. Esse número não pára de crescer. A mídia mundial e nacional amplia a cada instante as proporções da tragédia. Na busca aflita por parentes e amigos desaparecidos, vêem-se, estampados nas fisionomias focalizadas pelas reportagens, o desespero de alguns e a esperança de outros. Nas cidades e lugarejos ilhados, tudo é feito precariamente por meio de helicópteros, único meio de transporte possível. Pessoas localizadas no alto das vertentes não conseguem descer a pé, nem podem ser resgatadas por via aérea.  Ao avistarem alguma máquina voadora, fazem gestos aflitos demonstrando sede e fome. Cenas inesquecíveis são registradas a todo o momento: famílias inteiras soterradas sob monturos de entulhos e lamaçal; dos escombros extraem-se crianças assustadas, às vezes incólumes, algumas feridas e muitas já sem vida.  Vêem-se, a cada instante, casas, carros, seres humanos e animais domésticos arrastados pelas águas barrentas. A negra dama da foice, afoita, “singing in the rain” vai ceifando o que bem lhe convém. No entanto, em meio a tanta desgraça, uma imagem amena: uma jovem dá à luz a um novo ser. É a eclosão da vida desdenhando da morte.
Sinto-me numa situação extremamente incômoda pelo fato de não poder ajudar nas buscas aos desaparecidos, no alento aos feridos e aos enlutados, nem na distribuição de víveres. Ao abrigo das chuvas, assentada confortavelmente num sofá, diante do televisor, vejo o noticiário diário. Sob o ritmo intermitente da chuva entrecortado pelo ribombar de trovões, sinto-me impotente, pequena, cada vez mais diminuta diante da catástrofe. Pior que isso, sinto-me culpada pelo fato de ter casa sólida, fora das zonas de risco, de estar rodeada pela família e de ter mesa farta. À noite, deito-me pensando naqueles que estão ao relento ou amontoados em abrigos improvisados. Durante as refeições, penso nos famintos e sedentos. Minha culpa cresce proporcionalmente à tragédia. Pergunto-me a razão de ser da própria sorte, que me é madrinha, mas madrasta a tantos outros.
A exaustiva repetição das cenas, no jornal televisivo e na Internet, assim como a inclusão de notícias aterradoras, causam-me um efeito de entorpecimento.  Fortes emoções e lágrimas cedem lugar a uma espécie de distanciamento ou torpor. Distante da zona de risco, sem nenhum parente ou conhecido radicado na região serrana, sinto-me afortunada pelo fato de me encontrar incólume. As cenas vistas, revistas e “trevistas” passam a ter uma conotação ficcional, diante de meus olhos. Habituada às tragédias noticiadas cotidianamente, passo a encarar esse evento como um a mais nas estatísticas mundiais de cataclismos. A meu ver, o excesso de informação tem o poder de enrijecer a sensibilidade do espectador, que só entra em desespero ao se dar conta de que algum parente, amigo ou colega, por desventura, passa férias ou faz turismo na região afetada. Nesse caso, o que está distante entra abruptamente em sua casa e em sua vida. A desgraça alheia é bem menos impactante do que a desgraça de pessoas queridas. Foi o que aconteceu comigo. Óbitos oriundos dos deslizamentos de Nova Friburgo, que apenas figurariam nas estatísticas anuais, estão cravados em mim, como desoladoras lanças pontiagudas. 



16/01/2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

ANO INTERNACIONAL DAS FLORESTAS


2011 ANO INTERNACIONAL DAS FLORESTAS.

As florestas cobrem 31% de toda a área terrestre do planeta e têm responsabilidade direta na garantia da sobrevivência de 1,6 bilhões de pessoas e de 80% da biodiversidade terrestre. Pela importância que têm para o planeta, elas merecem ser mais preservadas e valorizadas e, por isso, a ONU declarou que 2011 será o Ano Internacional das Florestas

A ideia é promover durante os próximos 12 meses ações que incentivem a conservação e a gestão sustentável de todos os tipos de floresta do planeta, mostrando a todos que a exploração das matas sem um manejo sustentável pode causar uma série de prejuízos para o planeta. Entre eles:
– a perda da biodiversidade;
– o agravamento das mudanças climáticas;
– o incentivo a atividades econômicas ilegais, como a caça de animais;
– o estímulo a assentamentos clandestinos e
– a ameaça à própria vida humana.

Para saber a respeito dos eventos que serão realizados durante 2011, em homenagem ao Ano Internacional das Florestas, acesse o site oficial da iniciativa. No portal, ainda é possível divulgar as ações que você pretende promover nos próximos 12 meses em homenagem à causa.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Querida gente,

é com sentimento de gratidão e alegria que acolho cada pessoa que publica o seu seguimento expresso no nosso blog.
Já houve quem me dissesse que gostaria de incluir-se e ainda não sabe como. É assim,  depois a gente descobre.  Foi  sem querer que me inclui e agora não sei como me eliminar.  Um dia descubro.

Saiba cada um que está no meu coração.

Marlusse

CINCO MINUT0S COM MARIA

A Virgem do Sim. 


" Nossa Senhora é citada dezenove vezes no Novo Testamento, entre elas: «A virgem engravidará e dará à luz um filho ... Mas José não teve relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho. E ele lhe pôs o nome de Jesus.» (Mateus 1:23-25), "Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. ... será chamado Filho do Altíssimo." Maria pergunta ao anjo Gabriel: "Como acontecerá isso, se sou virgem [literalmente: se não conheço homem]?" O anjo respondeu: «O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que nascer será chamado santo, Filho de Deus.» (Lucas 1:26-35)."

No dia 03 de agosto deste ano, o Programa
CINCO MINUTOS COM MARIA
contará 17 anos. Tem produção e apresentação minhas.

P O D E  O U V I R.

15 horas - Rádio América 690 AM
15 h
segunda-feira a sábado

Rádio América é um dos instrumentos de evangelização da
Arquidiocese de Vitória - ES

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A ESCRAVA QUE NÃO SORRIA

            Vó Zica costumava sentar-se à beira do fogão de barro de sua casa, para “quentar fogo”, como ela dizia. Será que vó Zica  “quentava o fog o” ou  era o calor do fogo que a “quentava”?
            Alegre, depois de saborear com boa disposição o prato de comida que a filha lhe preparava, estava sempre disposta a repetir velhas histórias. Principalmente, do tempo da escravidão. Entre tantas que ouvi, guardei bem a da preta Zuma.
            Era uma negra muito bem traçada, rosto de Sinhá em cara de escrava. Um nariz afiladíssimo... E como tinha graça no andar! Tudo que botava em cima, nela resplandecia. Muito asseada, cheirava que nem flor.
            Zuma acordava sempre antes do sol, vestia-se como princesa nos seus andrajos de mucama, dirigia-se à cozinha. Não se passava muito tempo e o cheiro do café e do pão fresquinho se espalhava pelo casarão. Tinha uma mão de fada.
Era também a preferida de Sinhá, que a solicitava para todo serviço. Nunca se viu Zuma resmungar, nem muito menos sorrir.
            Foi exatamente Sinhá quem resolveu a perguntar-lhe um  dia:
- Zuma, vejo-a sempre ocupada nos diversos afazeres. Tudo seu é muito bem feito! Mas por que nunca sorri?
Com um olhar amigo e doce, envolveu a Senhora, mas não lhe deu resposta. Havia tanta  grandeza naquela atitude, que nem mesmo o fato de se tratar de uma escrava diante de sua Senhora, fez com que Sinhá se ofendesse. Respeitou aquele silêncio, como quem compreendera que eram muitas e sólidas as razões.
Zulu, filho do escravo Dundi, enamorou-se de Zuma com quem pretendeu casar-se. Era um negro alto, corpo de atleta. Bem olhado por todas as negras casamenteiras da senzala.
Havia outros pretos que muito gostariam de casar com ela. Zulu, no entanto, se destacava, porque tinha grandeza de alma e era muito respeitoso. Se a moça reunia todas as qualidades para ser uma boa mulher, não faltavam ao rapaz, as de um bom marido.
Ao se aproximar, assim que pode, da escolhida e pedir-lhe a mão em casamento, ouviu como resposta:
- Não. Não quero me casar. Não quero ser mãe de outros escravos que devam viver a vida como nós. Aprendi no catecismo que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e que todos somos seus filhos. Ou surge o dia da liberdade e todos seremos mesmo iguais, ou, pelo menos, eu não gerarei escravos.
Os dias passaram-se. Certa manhã, não se espalhou pela casa, o cheiro do café e do pão fresquinho de Zuma que também não era vista em qualquer outro lugar.
Procurada na velha cama, num canto da senzala, a escrava  ardia em febre, pronunciando palavras que ninguém pôde entender.
Avisada, Sinhá mandou que lhe chamassem um médico. Antes que ele chegasse, a alma de Zuma voou para Deus no céu.  Exalava o último suspiro, enquanto um negrinho  que surgiu correndo, anunciava a boa notícia: Somos livres, somos livres, acabou a escravidão!!!
Zuma não viu despontar a aurora da liberdade física na terra, mas viu-a em grandeza sem fim, nascendo para a vida eterna ao chegar ao céu.

Marlusse Pestana Daher
em homenagem aos que continuam na luta...

sábado, 8 de janeiro de 2011

EU CONTO DE PALMARES

Zumbi dos Palmares
          
 
            Zumbi  e seus amigos iam em direção à terra prometida de Palmares.  No meio da floresta, os passos eram tudo quanto se ouvia. Ora apressados, ora cautelosos, para ver se algum perigo os rondava. Só as palavras absolutamente necessárias eram trocadas. O silêncio no entanto, era verdadeira comunicação.

            De repente, ouvem-se passos pisando folhas de quem corre velozmente. Todos se põem a esperar, dispostos a se defenderem,  "num um por todos e todos por um". 
            Quando o suposto inimigo surge um suspiro de alívio brota de cada peito. Não era inimigo, era um irmão de raça que como  heroi, se coloca a frente de Zumbi. Olham-se imensamente. As palavras  são dispensadas, quando as esperanças de liberdade e o desejo de lutar por ela unem ideais e corações. 

            Zumbi ergue o bordão e com um aceno de cabeça o integra ao grupo. Um sorriso de felicidade brota nos lábios imensos de Zoloá. O grupo retoma a caminhada. Com ele, atrás de todos, mas muito unido a todos, vai o seu novo membro.
           
           Dias depois da caminhada, surge Palmares e um imenso grito nasce no coração dos negros que correm ainda mais, para mais cedo alcançá-la. Começa a construção das novas senzalas, sem casas de senhores por perto. Com a cooperação de todos, em pouco tempo, todos estão acomodados. Tem início uma vida de certa forma nova. Há festa e alegria.

            Vez por outra, os corações batem mais forte no peito. É quando qualquer ruído diferente faz temer a chegada de brancos.
           
              Zoloá é sempre altivo. Bom guerreiro, bom dançarino, bom caçador, bom camarada. Mas como todos os seus irmãos, tem a alma marcada pela opressão que se abateu sobre seu povo. Seu pai contou-lhe as histórias do avô que ele um dia contaria aos próprios filhos. Tudo lhe doía muito, mas ao mesmo tempo, dava forças para lutar. Lutar pela sua gente e pela liberdade.

            Certa tarde, como outras tantas vezes, após a busca de alimento, quando seu cesto sempre vinha cheio das mais diversas especialidades que por ali havia e que era para toda a comunidade, porque nunca se esquecia de "que a terra é dom de Deus e os frutos que ela produz são de todos". Foi ao montinho onde sempre subia e ficava cismando...      
 
            Ali, o pensamento de Zoloá atravessava o oceano, chegava às plagas  da África para
 vir voltando na viagem dos seus irmãos escravizados lá. Acompanhando os gemidos, as agonias, as dores, a morte, até o desembarque nas terras do Brasil.

            Por isto, foi o primeiro a ver que brancos se aproximavam, vinham armados, eram certo número, menos porém que os guerreiros em Palmares. Correu para avisá-los. Foi fácil pegarem as armas que estavam sempre de prontidão. Como conheciam todos os caminhos, entraram floresta adentro, cercando os opressores que em pouco tempo tombavam, sem atingir sequer  um negro.                        
 
             Ao final, a mesma comunicação de olhares, a volta às senzalas, sem comemorações.

            Zoloá retorna ao montinho de seus pensamentos, ergue os braços ao céu e agradece a Deus. Não foi ainda daquela vez que Palmares desapareceria.