quarta-feira, 24 de novembro de 2010

SEMPRE GOSTEI DE ESCREVER

De repente me deparo que escrevi de mim, sempre gostei de escrever. Numa confirmação de minhas palavras meu pensamento volve ao passado, lá pelo início da segunda década da minha vida, quando assentada sobre travesseiro e mais o que podia reunir para dar altura, naquela cama patente, ao lado de uma parede, onde certa feita tive impressão ter subido uma aranha caranguejeira que me mordeu o dedo da mão, ainda que ao exame a luz de um lampião a querosene, nada se tenha confirmado por papai e mamãe que ouvindo-me gritar, vieram em meu socorro.
Ao lado da cama, uma mesinha quadrada, que papai mandou um carpinteiro fazer. Teria uns cinqüenta centímetros de cada lado e gaveta. Era envernizada. Tudo em reconhecimento ao meu gosto de escrever. Foi um dos melhores presentes que me deu, exceção feita é claro, à caneta Parker, daquela listradinha de cor marron, a pena grande é de ouro, quando fiz oito anos e que ainda hoje conservo.
Imaginem minha pose levando-a ao peito, enquanto no Grupo Escolar, em dia de prova, os colegas levavam uma caneta daquelas e um tinteiro que não raramente causava verdadeiros banhos azuis. Viam-se aquelas mãos, blusa e a saia vermelha e pregueada do uniforme sujíssimas de tinta.
Quando me predispunha a escrever, após ir-se a luz elétrica, após o terceiro sinal para tanto, (a luz era fornecida por um motor, acho que a Diesel. Acendia ao anoitecer e se apagava por volta das 23 h, invariavelmente), pois bem, eu sempre tinha uma vela colada numa caixa de fósforos e à luz de vela escrevia talvez até meia noite, digo-o, no entanto sem muita certeza. Nunca conferi o despertador que ficava em cima do armário na cozinha da casa.
Se ouvisse algum barulho e pensasse que podia ser o papai levantando-se, apagava a vela. Muito fácil, bastava um sopro, ainda que ficasse aquele odorzinho característico de vela apagada.
Como escrevia! Poesias e crônicas e o que me viesse a cabeça e que onde foram acabar jamais saberei. Não havia preocupação com estilo, era escrito o que o pensamento ia ditando.
Assim me lembro que foi o começo. O gosto permanece, portanto, tranqüilizo-me que corresponde a uma verdade por inteiro o meu dizer, sempre gostei de escrever.

Marlusse Pestana Daher
24/11/2010 16:36

Um comentário:

  1. É isso, Marlusse. A caneta, motivo do seu orgulho quando menina, ainda está consigo. Leva, então, além das letras, a lembrança bela de sua infancia. Lindo! Abraço amigo, Sonia

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