domingo, 5 de abril de 2015

FEMINICÍDIO, SOLUÇÃO OU APARÊNCIA

Esse fundo branco, quando sai, não consigo tirar.
Deixo ou não publico o artigo.


Não consigo deglutir o advento de tantas leis. Como se repetem! Legisladores, quem sanciona e respectivo séquito fazem pose de quem finalmente encontrou a solução.
- Ah! mata sua mulher, sua irmã, ou mesmo sua mãe, agora. Seu crime vai ser um feminicídio, você vai pegar de 12 a 30 anos de cadeia. “Conheceu, papudo”! 
Refiro-me à tão festejada Lei 13.104/2015 que denominou feminicídio, os crimes que “resultam de violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher”: ou “os crimes contra mulher por razões da condição de sexo feminino”.
O Código Penal, nos exatos termos que dele constam foi repetido em si mesmo com o feminicídio. Entre as circunstâncias que agravam a pena, sempre teve e tem esculpido no art. 61 que o agravamento acontece no caso de a vítima ter “as seguintes condições: e) contra ascendente, descendente, irmão ou cônjuge; f) com abuso de autoridade ou prevalecendo-se de relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade, ou com violência contra a mulher na forma da lei específica; (Red. da Lei 11.340/2006);    g) com abuso de poder ou violação de dever inerente a cargo, ofício, ministério ou profissão”.
A questão não é de lei, mas de omissões impunes, infindavelmente repetidas. Elas atravessam placidamente os tempos, indiferentes à ausência de políticas sérias que produzam resultados senão imediatos, no mais curto prazo. 
Em vigor, a lei vai ser aplicada a todo aquele que já é adulto que em casa é a maldade personificada em relação aos familiares, máxime em relação à mãe e às irmãs, em relação à esposa, às próprias filhas, pois, (segundo seus argumentos insanos) a elas compete estar a seus pés, servi-lo, do nascer ao pôr-do-sol, refeição na medida do seu gosto, mesmo que não tenha comprado, roupa lavada e passada e essas outras coisas mais de conhecimento geral.
São insanos, não são normais, assemelham-se antes a animais que a humanos. O que mais se desenvolveu nesse tipo foram as células do machismo. Tornaram-se tão cegos que sua visão só alcança o limite do umbigo. Nem pensar nos pequenos aprendizes de macho, os filhos.
Entretanto, pergunte-se: receberam proteção integral do Estado quando se desenvolviam?


Proferida há mais de dois mil anos, posto que atualíssima, repita-se esta máxima: “educai as crianças e não será preciso punir os homens” (Pitágoras). Acrescento Goethe: Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a.
Marlusse Pestana Daher
Vitória, 2 de abril de 2015  8:20

MOMENTOS HÁ POUCO

Gabriela e Rachid em Mraflores - Lima  - Por-do-sol

Marquinhos

Mateito

Domingo em família. 

Idem

Sonia e Jim na posse dela
como amaletrista

Neusa e Valsema
Posse Amaletras 

Amaletristas 

Com Wanda Alckmin e Gilcea Rosa
Comendadoras "Cecília Mereles"

Bolo ocomemoratvo
Ano Cecília Meireles - Amaletras 

Posse Afesl de Neusa Glória
Parecia a deusa Atenas 

Em Éfeso

sexta-feira, 3 de abril de 2015

RUMO AO ENCONTRO DE JESUS NO CAMINHO DA CRUZ


Quinta-feira santa. Findara a celebração da Missa em particular comemoração ao que ela representa: o dia da instituição da Eucaristia e consequentemente, do sacerdócio. É a esses ungidos que compete celebrá-la “em memória de mim” (Jesus).

Depois da oração final o Celebrante ainda deu alguns avisos. Entre mais, disse: “por essas horas Jesus tendo sido preso e condenado, está sendo torturado. Amanhã, celebraremos sua morte”.

Premida pelo compromisso que tinha em seguida, sai logo da Igreja, mais tarde, deitei-me para dormir. Eis que nesta manhã, ao despertar, me lembro que Jesus se encontra em apuros, na mão dos seus algozes. E o vejo exangue, corpo em chagas e insultos indizíveis brotam de cada lábio daqueles insanos que parecem ansiosos pelo passar ainda mais rápido das horas para levá-lo ao patíbulo infame.

Detenho-me alguns instantes na observação desses fatos, quando reparei que se revezavam nos açoites. O que cedia o chicote, não o fazia sem antes golpear-lhe mais uma vez a cabeça, onde a coroa de espinhos pontiagudos, a certo ponto, se entortavam no contato com o osso do crânio e da fronte que  só por milagre, não conseguiam ultrapassar. Como prêmio recebiam mais uma dose de uma bebida certamente alucinógena, que aumentava-lhes o ódio e o desejo de matar.

Mas o Senhor nada dizia. Sequer uma lágrima rolava-lhe pela face e não porque a dor não fosse intensa, mas porque sua capacidade de refazer-se a cada golpe tinha como condimento o amor de quem é capaz de “amar até o fim”.

De repente, sou impelida a levantar-me, vestir-me, tomei meu café sim, não deixei sem cumprimento nenhuma parte dessa minha liturgia matinal. Mas claro que acelerei e reduzi o tempo. Logo estava pronta, fechei a porta do meu apartamento por fora, desci pelo elevador, ganhei a rua disposta a ir ao encontro de Jesus, unir-me aos amigos que o acompanhavam.

No portão, pergunto-me que direção tomar e sem esperar resposta, vou em frente. Estou decidida, preciso encontrar Jesus.

A manhã está ligeiramente nublada, fresquinha, mas ainda assim brilha o sol. As ruas estão limpas, o ar é bom, as folhas das árvores não estão tristes, balouçam ao ritmo do vento que sopra.  Poucas pessoas trafegam pelas ruas, estarão possuídas pelo silêncio da prepotência imposta pelo julgamento cruel.

- Por que aquela caixa ali? Ao aproximar-me, vejo que há duas pessoas que forraram a calçada com outra caixa e dormem embaixo daquela. Os pés estão sujíssimos da caminhada sobre o pó preto, privilégio desta cidade. Roupas velhas, desbotadas e sujas também. 

Passo, só pude ter compaixão naquele momento, não lhes ouso perturbar o sono que me parece profundo apesar do ambiente. 

Mais a frente, um adolescente louro dá sinal de que acordara por ali. Num bocejo enorme, expõe por inteiro o interior de uma boca pouco saudável, de dentes que começam a enegrecer.

Prossigo e vejo aquela senhora que com uma criança nos braços envolta “em faixas”, corre afoita rumo ao primeiro ponto de ônibus que encontra e olha ansiosa a chegada de cada coletivo. Ao ver que os primeiros a passarem não eram o que a levaria ao hospital infantil demonstra enorme desalento. Refaz-se, renova a expectativa. Ao surgir o que a interessava, entra rapidamente e parece um tiquinho mais tranquila.

- Que é aquilo, gente? Dois policiais espancam severamente um rapaz já rendido, antes que eu chegasse perto, vejo-os empurrarem para dentro do cofre da viatura e saírem em disparada. Acabara de furtar um celular.

Por aquela via perpendicular pela qual eu seguia, vejo sair de uma transversal um casal, mais outro e outros mais. Aprofundo o olhar e vejo que rumavam à Igreja lá no final. Vão adorar Jesus, em oração, acompanhá-lo até a hora nona do seu sacrifício.

Na minha busca, no meu ir ao encontro de Jesus, vou imaginando tudo que ia acontecendo.  Contemplo-O, quando aos empurrões e açoites é posto para fora do lugar do tormento (o sinédrio), quando lhe põem nos ombros a cruz pesada, quando cai e se levanta.

De repente, não posso conter a interrogação:  “Deus meu, por que os abandonaste”? Vejo Maria, sua mãe, que ao ficar sabendo da condenação veio-lhe ao encontro, chega acompanhada de outras mulheres. Diante do que vê não pode calar o que na alma explode: “vós que passais, vede se há dor maior que a minha dor”.

Entreolham-se profundamente, dos respectivos olhares o outro recebe acalanto e lado a lado, seguem o restante do trajeto. Com assentimento do olhar, ela anima as mulheres para que interpretem bem a advertência de Jesus de que deveriam antes chorar pelos próprios filhos.  Ela o vê cair mais duas vezes. Agradece ao Cirineu que a certo ponto, ajudou seu Filho a carregar a cruz.

No Gólgota, a profecia do velho Simeão lhe ressoa aos ouvidos: ele tinha razão. Uma espada de dor transfixa o peito de Maria. Mas tem oportunidade de assistir a mais um gesto corriqueiro dos que praticava nas estradas da vida. Concede ao ladrão que lhe pede: “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. Como poderia não sofrer tanto, vendo o filho ser desnudo, deitado na cruz, ser crucificado. Esvair-se, clamar pelo Pai, receber vinagre ao invés de água, ao clamar “tenho sede”. Finalmente, expirar depois de um grande grito, ter o peito furado por uma lança de soldado frio,  de onde saiu a última gota de sangue.

Ainda recebe o corpo do Filho morto em seus braços e o acompanha à sepultura. Ali se daria a confirmação do que Jesus dissera: “destruí este templo e em três dias, o reerguerei de novo”.

Sexta-feira santa, dia de silêncio, de respeito. Encontrei parte dos Jesus que sofrem em cada uma das pessoas que citei: “aqueles que não têm onde repousar a cabeça”, os que dormiam na calçada; aquele que é desprezado ou considerado sem importância por ser “filho  de um simples carpinteiro” (ou de quase ninguém), o adolescente que despertava; as mulheres angustiadas que correm em busca de tratamento para os filhos doentes, como a cananeia; os esquecidos pelo Estado que não os educou na infância, mas uma vez adultos tem o desplante de punir pura e severamente. Os que descobriram o valor da fé e que seguem nas práticas sugeridas pela Igreja assegurando-se a vida eterna. São os que entoarão aleluias na páscoa!

Eu sabia que Jesus, aquele que “renunciou à sua condição de Deus, despiu-se de sua natureza, humilhou-se até a morte e morte de cruz” não estaria por ai, mas não tenho dúvida de que em todos os que encontrei ele estava. Ele está em todos, máxime nos que sofrem.

Passei por aqui, por esta escrevinhação-reflexão bem umas três horas. Valeu como imersão no clima de Paixão do Senhor.

Renovo meu propósito de servir e repetirei sempre como o fez o Mestre, “eu vim para servir”.






Marlusse Pestana Daher                                                                           Vitória, 3 de abril de 2015 12:40.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

NÃO É QUESTÃO DE IDADE

A Constituição de 1988 proporcionou a criação das condições necessárias para 
a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
 afastando-se da doutrina da situação irregular para se vincular 
à doutrina da proteção integral, pela qual toda criança ou adolescente é considerado
 sujeito de direitos e por se encontrar em fase especial de desenvolvimento, 
necessita, portanto, da proteção do Estado. 
Adv Everton André Luçardo Borges

Não sou contra a redução da maioridade penal, sou a favor de que os direitos fundamentais de todas as pessoas sejam indistintamente reconhecidos, dando a cada uma os meios de gozá-los e cumpri-los.

Sempre se disse que o Congresso Nacional é movido à ocasião, que o legislador não usa da acuidade necessária no sentido de que no destino, a norma seja eficaz. Porque dizer: “as leis são como salsichas, se soubéssemos como são feitas não as comeríamos”.


É ruidosa a grita por implantação de políticas públicas, na direção da educação e da saúde. Entretanto, ainda não se viu determinação necessária ou vontade de realizar, por parte dos que recebem o poder que emana do povo, mas o esquece e age em vista de seus interesses, da consecução do próximo mandato, mesmo com o sacrífico dos interesses do Estado como um todo.

Quer-se reduzir a maioridade penal. Preparemo-nos para ver adolescentes de idade inferior serem usados com o mesmo fim.

Tendo atuado na Vara da Infância e adolescência credencio-me a falar por experiência vivida. Atendi mãe pedindo que o filho fosse “preso”; mãe fingindo que era manca com pano na boca como se babasse, pedindo entrega do filho; adolescente que matara cinco pessoas, a última reduzida a pedaços, posta em saco e jogada num rio. Praticamente, todas, famílias uni parental, sem emprego, sem salário, habitando guetos, quem sabe, vivendo do resultado da prática dos atos infracionais perpetrados por esses mesmos filhos.

O delinquente é produto da desordem na qual foi gerado, foi criado e vive. É produto do meio sim, porquanto, suscetível de receber influências de toda parte, desde o glamour do estrelato, à opulência do poder, ao encantamento do aplauso, à ganância do ter. Se não alcança, toma outro rumo no qual, ao menos aparentemente, encontra o que procura.

Não se vai ao alto pelo último degrau da escada. Não nos faltam leis. Ignoramos o que ditam. Nenhuma, por si, alcança o próprio fim.  Não será a segregação em prisões que reduzirá a criminalidade. Ali, se  formam doutores nela.

Antes, importa que se proceda ao reconhecimento da condição de pessoa da pessoa humana, a cada uma seja dado o que é seu. Coloquemos esse contingente de crianças na escola, propugnemos no sentido de que pela educação sejam despertadas suas virtudes, o potencial de dotes em tantos sentidos e áreas que com certeza todas têm. Façamos com que ouçam nossos aplausos.


A Nação que não educa suas crianças deve-se envergonhar de puni-las na idade adulta. 

sábado, 28 de março de 2015

ESCALADA DE UM JUIZ

Encontrei casualmente este artigo, relendo-o, quis publicar aqui. 

        A maioria das coisas que valem a pena, geralmente, não chegam ao
conhecimento “das gentes”. Continua sendo verdade que tanto quanto “o barulho não faz bem, o bem não faz barulho”, por exemplo., se fazemos N coisas boas, ninguém elogia, ninguém toma conhecimento, quem toma, finge que não viu, mas se alguém tem a desdita de cometer um deslize, coitado...

        Nos últimos dois anos, o Tribunal de Justiça renovou de ao menos seis dos  seus vinte e um integrantes, o último a chegar lá, foi o Desembargador Arnaldo Santos Souza, que como sempre fizeram seus predecessores, ao tomar posse, também fez questão de lembrar as origens. E como é bonita e simples a origem do desembargador!

        Como se ele mesmo revisse em filme, sua trajetória, lembrou o casebre de estuque onde nasceu em Guarapari, na aldeia de pescadores. De um  pai “calafeteiro” o  que significava  preencher com cordão ou  estopa os espaços intermediários das tábuas na estrutura dos barcos; de uma mãe cujos  dias transcorria inteiramente presa aos trabalhos domésticos, administrando com sabedoria o pouco que tinha, para que nada a ninguém faltasse.

        Acostumado à contemplação dos horizontes vastos do mar, o menino via longe e empenhou-se nos estudos valendo-se de “bolsas” e foi com garra que um dia viu a hora de sua colação de grau no curso de direito, em tempo que ainda era privilégio de bem poucos. O incentivo de amigos levou-o ao concurso para juiz, função que  ocupou  vinte e seis anos de sua vida.

        Na alvorada do novo milênio, tornava-se Desembargador.

        Foi gratificante constatar o ânimo revelado para desempenhar a nova função, quando afirmou em seu discurso, da necessidade que “o Juiz seja sensível para compreender a realidade em que vive, desinstalando-se ante as mutações pelas quais passa a sociedade em um mundo que se globalizou”, daí porque,  “além de dominar a ciência jurídica,  o magistrado deve  adentrar o campo da sociologia, da filosofia, da psicologia o que lhe facilitará a realização de um interrogatório e  a subsequente  aplicação da pena. Hodiernamente, o juiz  não pode ser aquele ser isolado, distanciado do mundo, em uma redoma de cristal”.

        Revelou “a consciência da invariável frequência com que um magistrado, mais que aplicar, tem que suprir lacuna da lei”, o que é grande verdade, pois, “um juiz há de ser criativo”, não se pode julgar generalizando. Os homens e os fatos que lhe dizem respeito, ainda que com aparência de igual, com certeza divergem na essência. Combateu a súmula vinculante que considera “obstáculo impeditivo à normalidade e à liberdade de julgar”, com o que concordo, principalmente, porque as leis não são formas de dimensões delimitadas, implicando que a aplicação das mesmas se traduza em colocar ali o fato, se couber, coube o direito.

        Vali-me hoje de um discurso de posse, para demonstrar que habitar os píncaros e chegar a cargos de expressão não é privilégio de quem nasce em berço de ouro, mas de quem é obstinado e não foge à luta, de quem sabe que não se constrói uma sociedade fechando os olhos para a realidade, mas com a honestidade de quem reconhece os próprios erros e deficiências e se propõe continuar lutando. Sobretudo, de quem “entende que a democracia, o estado democrático de direito não se compadece com um judiciário frágil e sem expressão”.
Marlusse Pestana Daher
A GAZETA 08-11/06/01


quinta-feira, 5 de março de 2015

TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão


e levou os, em particular, a um alto monte e transfigurou Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.   
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés a  outra para Elias».   
Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai O».
Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito. Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».
Esta página de catequese, destinada a ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projeto que Ele propõe vem de Deus, está construída sobre elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que elementos são esses?
O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo.
A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei.
A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34).     
Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18; Mal 3,22-23).
       
O temor e a perturbação dos discípulos são a reação lógica de qualquer homem ou mulher diante da manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus (cf. Ex 19,16; 20,18-21).
As tendas parecem aludir à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto.

A mensagem fundamental, amassada com todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias do Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Mais ainda: ele é um novo Moisés – isto é, aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova aliança.       

Da ação libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse novo Povo, Deus vai fazer uma nova aliança; e vai percorrer com ele os caminhos da história, conduzindo-o através do “deserto” que leva da escravidão à liberdade.
Esta apresentação tem como destinatários os discípulos de Jesus (esse grupo desanimado e frustrado porque no horizonte próximo do seu líder está a cruz e porque o mestre exige dos discípulos que aceitem percorrer um caminho semelhante). Aponta para a ressurreição, aqui anunciada pela glória de Deus que se manifesta em Jesus, pelas vestes resplandecentes (que lembram as vestes resplandecentes dos anjos que anunciam a ressurreição – cf. Mt 28,3) e pelas palavras finais de Jesus (“não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos” – Mt 17,9): diz-lhes que a cruz não será a palavra final, pois no fim do caminho de Jesus (e, consequentemente, dos discípulos que seguirem Jesus) está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.       



Uma palavra final para o desejo – manifestado por Pedro – de construir três tendas no cimo do monte, como se pretendesse “assentar arraiais” naquele quadro. O pormenor pode significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus. Jesus nem responde à proposta: Ele sabe que o projeto de Deus – esse projeto de construir um novo Povo de Deus e levá-lo da escravidão para a liberdade – tem de passar pelo caminho do dom da vida, da entrega total, do amor até às últimas consequências.

segunda-feira, 2 de março de 2015

CARTA A ANTONIETA

A Acadêmica, Mestre e doutoranda Karina de Rezende Tavares Fleury coordena o Ano Literário Maria Antonieta Tatagiba da Amaletras.  Na abertura dirigiu-lhe a seguinte carta, lida pela acadêmica, mestre e Doutora Renata Bonfim.

Vila Velha, 27 de fevereiro de 2015.
Querida amiga,

foi em 2005 que ouvi falar de você pela primeira vez. O professor Francisco Aurelio Ribeiro escreveu seu nome no quadro junto ao de outras dez escritoras capixabas conhecidas no passado, mas totalmente desconhecidas de nós, imagina, de nós estudiosos da literatura!
Antonieta


De imediato, afeiçoei-me ao seu nome: Tatagiba... quando eu era criança, meu pai jogava futebol com alguns rapazes da família Tatagiba... sempre achei esse nome engraçado... isso foi lá em São José do Calçado, nos idos de 1970. Além disso, seu prenome me remete à Maria Antonieta, austríaca que se tornou a última rainha da França e porque, dentre outras coisas, usou a moda como forma de se impor naquela sociedade, perdeu, literalmente, a cabeça! Sabia que a rainha e a nossa Maria Leopoldina, a mulher de D. Pedro I, eram parentes distantes? Ambas são da família dos Habsburgo!
Karina Fleury
Pois então, desde essa inesquecível aula ministrada pelo Francisco Aurelio, na UFES, dediquei-me a conhecer melhor a sua vida e obra, Antonieta. Ainda me lembro das palavras do professor: “Esta mulher precisa ser estudada!”. Não hesitei: levei você para dentro da minha casa. Seu único livro, Frauta Agreste (1927), tornou-se meu objeto de estudo no mestrado. Sua foto, retirada da Revista Vida Capichaba, estampava a parede no meu escritório. Rafael, meu filho que então contava com quase 2 aninhos, quando perguntavam: “quem é essa mulher aí?” Ele dizia: “Antonieta, uai!”.
Preencher os vazios que o tempo deixou na sua biografia, impulsionou-me rumo não só ao seu passado, mas também ao meu. Voltei a São José do Calçado, fui a São Pedro do Itapaboana, conversei com muitas pessoas. Entrei na casa onde você viveu com sua família depois de casada. Fui buscar seu túmulo no cemitério local... infelizmente, constatei que o tempo também havia apagado seu nome daquele sagrado solo. Busquei contato com pessoas de sua família. Dona Stael, seu Ión, imagina, Geraldo, seu filho que ainda era tão pequeno quando você partiu, me enviou o seu livro, que guardo com tanto amor. Era tamanha a alegria deles ao saberem que, enfim, estávamos reconhecendo o seu valor como poetisa, a primeira a publicar livro no Espírito Santo. Desenvolvi projetos sobre sua vida e obra com professoras de escolas da rede pública e privada, em Vitória. Dei palestras. Você foi homenageada numa das edições do Bravos Companheiros e fantasmas, seminário sobre literatura capixaba. Publiquei na Coleção Roberto Almada: Alma de Flor. Encontrei a antiga rua que levou seu nome no bairro Jucutuquara. Na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, resgatei das páginas de O Jornal, o seu único conto: “A cruz da estrada”! Apresentei minha dissertação, em 2008, e a publiquei com o título: Maria Antonieta Tatagiba: vida e obra. Quanta emoção!
Neste ano de 2015, que faz 120 anos da data de seu nascimento, seu nome volta a brilhar graças à Marlusse Pestana Daher, cidadã mateense, presidente da AMALETRAS e membro de AFESL. Sabendo da sua importância como precursora das letras capixabas, depois de ter escutado eu dizer num evento de literatura aqui em Vitória que eu gostaria muito de ver seu livro reeditado, Marlusse convidou Renata Bomfim, Sonia Rita Sancio Landrith e a mim para, juntas, pensarmos um projeto que ficará nos anais da história de nossa terra. Trata-se do Ano literário Maria Antonieta Tatagiba, que levará a tantas outras pessoas o primor de seus textos e o conhecimento de sua curta, porém, intensa trajetória de vida.
Costumamos dizer que o povo brasileiro tem memória curta, mas não acredito nisso. Penso que a memória se constrói das relações que se estabelecem entre os indivíduos. João Cabral de Melo Neto traduz bem o meu sentimento:
Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, 
se vá tecendo, entre todos os galos.
É na coletividade que as lembranças, ainda que individuais, se reestruturam e se tornam coletivas. Professor Francisco plantou a sementinha, eu a colhi. Replantei-a. Outros a colheram e assim sucessivamente.
Sim, é verdade, a história é feita de esquecimentos. Mas é certo também que, de tempos em tempos, um sonho deixará de ser pessoal e contagiará outros e o passado será (re)atualizado, e o velho será reinscrito na história como novo.
E então, Antonieta, você revive, entoando seus versos em nossos corações, ensinando-nos que a literatura é uma encantadora viagem de descobertas sem ponto final.
Até a próxima parada,

Karina Fleury.