sexta-feira, 13 de junho de 2014

A CASA DA VIRGEM MARIA

Em frente  a Casa da Virgem Maria
Éfesios, cidadãos da cidade de Éfeso, na Turquia, destinatários de uma das cartas, do grupo do cativeiro, escritas por Paulo, o apóstolo das gentes.

Éfeso é uma ilha como outras, formada por ação vulcânica, há milênios. Ainda se pode ver o que foi a cidade, no apogeu de sua história. Construções em mármore, revestida e até calçada de mármore por toda parte.

Quando passávamos pela alameda, bem conservada, em tom gentil, disse a Guia: por aqui, passaram Marco Antônio, Cleópatra e hoje, vocês.

Nas cercanias, num ponto mais alto, uma montanha, onde se diz que a Virgem Maria passou os últimos anos de sua vida, levada pelo Apóstolo João, ao qual Jesus a confiara, antes de morrer na cruz.

É um jardim, em meio a um bosque todo plantado, muito bem cuidado. No topo, uma pequena casinha, a CASA DA VIRGEM MARIA, onde ela passou os últimos dias de sua vida.

Ao lado da casa. 
Terá ali cozinhado, lavado, rezado, provado do amargor do exílio e o quanto foi grande a dor da saudade que terá sentido do seu Filho.

Adentrando aquela casinha de paredes escurecidas, apesar de muito limpas, senti uma profunda emoção, a ponto de meus olhos terem umedecido. Não podia ser diferente, eu pisava o mesmo chão que seus pés pisaram, respirava o ar do mesmo lugar que ela. Surpreendi-me em profunda oração, lembrando de todas as pessoas que amo, de todas aquelas pelas quais devo rezar.

Uma imagem de Nossa Senhora das Graças sem mãos, (digo depois o que acho porquê) ocupa o altar que compõe o ambiente.

Altarzinho externo
Depois que sai, ainda fiquei um tempo rodando por ali, bebi água da fonte, deixei pedido no muro com outras  centenas, talvez milhares de pedidos feitos pelos visitantes.

A paz provada não tem preço, nem se descreve com palavras.

Dois papas, S. João Paulo II e Bento XVI, visitaram o lugar, reconheceram que se trata como já foi dito, da Casa da Virgem Maria, onde ela viveu os últimos dias de sua vida.

Uma experiência inesquecível. 


sexta-feira, 23 de maio de 2014

MEU CRICARÉ

Nessa tarde, o quanto mais pude, em pé no cais do antigo porto, aproximei-me dele, meu Cricaré,  rio que desliza lentamente e faz curvas em  
verso e prosa decantadas, antes de chegar ao mar.
Foi a placidez de suas águas a lhe fazer valer o nome “Kiri Karé” que significa “rio de águas calmas”, na língua Tupi, língua cujo direito de uso como nossa, nos foi arrebatado. O pseudo descobridor impôs-nos o Português que mesmo sendo “a última flor do Lacio, inculta e bela” na expressão de Bilac, era a dele e não a que o povo indígena que aqui já habitava, falava de há muito tempo. Como continua manso e continua belo o meu rio!
Naquele exato momento, um pequeno barco a vapor passa à jusante singrando-o e deixando na superfície espelhada, ondulações semelhantes às marítimas que se desfazem ao esbarrarem de encontro a margem, junto a mata ciliar de verde intenso, do outro lado se contorcem como em remoinho, mas é curto o tempo do qual precisam para logo se recompor.
Quedo-me em contemplação, as águas que passam a cada instante não são mais as mesmas que vejo, mas outras que ao mesmo tempo tomam o espaço deixado, sendo substituídas por outras que chegam. É impossível distingui-las pela forma, ou origem, cor ou intensidade que demonstrem, prossegue acariciando-se com ternura, na mais absoluta harmonia, o caudal que não se cansa, não afrouxa o ritmo que ostenta, ansioso pela consumação plena do encontro com o mar,  momento de espetáculo que acontece na belíssima Barra Nova.
Quantas e quantas gerações já terão feito o mesmo que eu, já terão provado da mesma magia e desembocado em fascinação indescritível só possível, se o caminho empreendido é feito nas asas da poesia.
Certamente, é sempre um encantamento mirar tal paisagem que mão humana nenhuma será capaz de repetir e, se tenta, como é o caso de quem pinta um quadro, carecerá de outros elementos ou agentes que lhe deem suporte.
É a terra que produz toda matéria prima: da forma em madeira que recebe a tela, do pincel e da tinta, antes de a mão humana fazer surgir o retrato.
Não se pretenda, pois, que meu perdão perdoe, se direito tenho a tanto, quem egoisticamente constrói irregularmente, desfaz o que não pode refazer, ou impede a todos o direito de tal visão, mas igualmente, não me deixo atormentar por lembranças, meu rio de águas calmas! Entro e saio, parto e volto, mas se estou presente (mateenseando), com a sensação de que minha visão nunca se interrompeu,  faço absoluta questão te ver.

Marlusse Pestana Daher

Em São Mateus, 28 de julho de 2012

domingo, 18 de maio de 2014

O PORTO DE SÃO MATEUS

O navio apitou ao longe
e a cidade se agitou.
O Miranda ou o “Loid”,
fosse o que fosse,
sua chegada
era sempre uma festa.

Âncora ao fundo,
atracou a nave.
Surge o comandante,
alguém da tripulação.

Surgem também os Senhores,
ternos de linho branco
vestidos.
Damas em “taieur”,
chapéus na cabeça,
saltos finos de sapatos,
impecáveis.

Em terra, os Coronéis,
                  Alferes,
                  Majores,
                  Intendentes,
Por seu turno, os Prefeitos,
Interventores talvez.

Naquele tempo...
E dos porões,
emergem primeiro,
odores,
suores,
clamores
do negro que subsistiu.

Traz na pele,
A cor da não esperança,
Na cabeça,
A lembrança da terra de África,
                                dos gongos,
dos maculelês,
do tambor,
do tocador,
do estupor,
da terra árida,
causticante e deslumbrante,
sedenta, avarenta...
mas sua terra!

Estão acorrentados pelo pescoço,
ligados,
manietados.
Vão servir na plantação,
Nas casas dos Senhores,
Às Sinhás, às Aiás.
Mas há sempre luz,
Mesmo nas trevas.
E num recanto
de rio,
ou de fonte,
como astro,
nasceu Zoroastro.
Como nasceu?
na casa de farinha?
no paiol, quem sabe?
Na cabana,
nasceu Zé de Ana.

Seus avós foram escravos,
escravos seus pais,
eles mesmos escravos seriam
não fosse a bondade
(hodiernamente posta em dúvida),
de candidata a Rainha,
que assinando a Lei Áurea,
à sua raça inteira
para sempre,
liberdade deu.

E Zoroastro cresceu,
e Zé de Ana cresceu
e dos seus,
cada um aprendeu,
o folguedo da marujada.
E saíram cantando,
ensinando aos de depois,
embaixadas, prisões,
repetem até versos
de Gil a Camões.

Um tanto mais novo,
canta jongo o Geraldino,
pelas ruas desertas
do velho porto,
de ruas estreitinhas,
de casarões a morrer,
onde passeia meu pensamento
que exulta em rever
reabrir-se o largo do chafariz
de um menino
que permanentemente vela
e carrega
lata d’água na cabeça...

Com fé em Deus,
dias se foram,
mas dias virão
e o comércio vai  fervilhar de novo,
de novo, a população vai descer
e na curva do rio,
vai aparecer,
a mesma esperança
daquela
de quem espera e sempre alcança:
a meta,
a vitória,
a glória,
dos casarões,
dos luares,
dos lugares,
porque voltarão a soar hinos
e fará de novo a história,
o PORTO DE SÃO MATEUS[1].




[1] Este poema, escrito há mais de trinta anos, abre o livro OS ANJOS NÃO FAZEM ARTE.




EUCARISTIA

Ó que pão, ó que comida,
ó que divino manjar
se nos dá no santo altar
cada dia!

Filho da Virgem Maria,
que Deus-Padre cá mandou
e por nós na cruz passou
crua morte,

e para que nos conforte
se deixou no sacramento
para dar-nos, com aumento,
sua graça,

esta divina fogaça
é manjar de lutadores,
galardão de vencedores
esforçados,

deleite de namorados,
que, co'o gosto deste pão,
deixam a deleitação
transitória.

Quem quiser haver vitória
do falso contentamento,
goste deste sacramento
divinal.

Este dá vida imortal,
este mata toda fome,
porque nele Deus e homem
se contêm.

É fonte de todo bem,
da qual quem bem se embebeda
não tenha medo da queda
do pecado.

Ó que divino bocado,
que tem todos os sabores!
Vinde, pobres pecadores,
a comer!

Não tendes de que temer,
senão de vossos pecados.
Se forem bem confessados,
isso basta,

qu'este manjar tudo gasta,
porque é fogo gastador,
que com seu divino ardor
tudo abrasa.

(...)


In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954

sábado, 17 de maio de 2014

NÃO SE VIVE SEM AMOR

Se você disser que não me ama, tem que me dizer mais de uma vez... Este é
o primeiro verso de uma das bonitas canções que canta o Rei. Exprime a perplexidade de quem não admite, não crê que possa não ser amado.

Concordo e acho que você também, com tal afirmação, pois, somos resultado de um projeto de amor, nascemos do amor de nossos pais, estamos destinados a amar e ser amados.

Foi  Me. Teresa de Calcutá quem disse: “ Em todos estes anos em que trabalho com os mais pobres, tenho entendido sempre mais que o pior dos males, não é a lepra, não é a tuberculose (nem a aids, acrescento eu) mas é a sensação de não ser querido de não ser amado"  pelos outros. Realmente, não podemos viver sem amor.

Não existe amor sem entrega, não existe amor sem a dor, é herança que o Cristo nos lega, sem amor nada tem valor. E quem não se extasia diante do poema que escreveu Paulo: se dos arcanjos a linguagem ensino e a caridade esta alma não povoa, serei igual ao bronze que ressoa, profano templo onde bimbalha um sino.

Como nos lembrou aquele tempo de uma  Campanha da Fraternidade um dos mais bonitos.  Quando nos depararmos diante do Senhor da vida, e Ele nos questionar dizendo, que estava com fome e não lhe demos de comer, nu e não vestimos, preso e não o visitamos... e perguntarmos quando e onde e  Ele nos responder que em todas aquelas figuras de marginalizados era Ele que se apresentava a nossa caridade, ao nosso gesto de solidariedade, de partilha e doação, estupefatos exclamaremos: mas...  ERAS TU, SENHOR?

Pois é, minha gente, importa que nos conscientizemos do grande corpo de Cristo do qual são componentes todos os homens, mesmo os que nos parecem menos dignos, os que estiverem mais disformes ou pela fome, pela penúria ou por qualquer outro detalhe, circunstância, e o pior, pelo pecado e que assim o  tornam irreconhecível, porque disforme.

É preciso aprender com Maria. Quer ter uma bússola segura em suas mãos, quer ter certeza de que está vivendo de forma agradável a Deus, imite Nossa Senhora.

Medite profundamente sobre a atitude que ela teve nas Bodas de Caná, quando ninguém lhe pediu absolutamente nada e no entanto estava atenta e percebeu a falta de vinho e o constrangimento que tal coisa ia causar  àqueles noivos e preveniu tudo, intercedendo junto ao Filho que operou o primeiro dos seus milagres, transformando água em vinho.

 Você se sentirá muito feliz, pode crer!


sexta-feira, 16 de maio de 2014

O SERVIÇO POR AMOR

A mesa do grande banquete da vida está sempre preparado  a espera de que nos disponhamos a entrar na sala e como filhos do mesmo Pai, sentarmo-nos à mesma mesa, comendo do mesmo pão.

Todos somos convidados. Ninguém pode, nem deve pensar que não faça parte do número dos convidados. Nosso Pai não faz como os homens da terra que ao fazerem suas festas, mandam cartões especiais para alguns apenas e não deixam entrar os que mais necessitam, os que estão verdadeiramente mais necessitados do alimento abundante.

Mas eis que o Senhor que preparou este grande banquete, ficou decepcionado, porque viu seus convidados darem desculpas as mais diversas, encontrarem diversos pretextos para não atender ao convite que lhes foi feito. Só que não sabem o que perderam.

Então ele chama os excluídos do convívio social, aqueles que ficam à margem da história que habitam os guetos das grandes cidades, que não são tidos em conta, que não são considerados e eles vêm, a sala do banquete fica cheia.

Particular impressão me causou o primeiro verso da última estrofe: revelai-nos a alegria do serviço por amor, imitando Jesus Cristo, vosso Filho e Salvador! É que, no Movimento Oásis, ao qual eu pertenço, a ordem é servir por amor. Sim, se deixarmos que o amor se aposse de nós teremos a maior satisfação em servir a quantos carecerem do nosso serviço e por isto mesmo, ainda é o Oásis que nos propõe, devemos valer o quanto mais possível, porquanto, quanto mais valermos, mais serviços seremos capazes de prestar.

São cinco os pontos do serviço, todos eles consistem em servir. O primeiro, servir a nós mesmos, isto é, tornando-nos capazes, desenvolvendo o máximo possível as nossas capacidades,  tornando-as realidade.
O segundo ponto, é servir estando atentos para os serviços que o mundo nos solicita, isto é, tendo atitude semelhante a de Maria em Caná, quando sem ser solicitada, percebeu a falta de vinho, o transtorno que tal falta causaria aos noivos e procurou prevenir. Assim devemos ser nós.
O terceiro ponto é servir tendo um grande espírito de humildade, não nos ensoberbecendo dos valores que possuímos, enfim, colhendo a magnífica lição que nos dá Jesus, quando diz: aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. 
O quarto ponto é Servir a Deus e o quinto servir aos irmãos, todos os cinco pontos se entrelaçam, mas de forma particular estes dois últimos, os quais nos põem  mais uma vez, no contexto da atitude,  que destaca a advertência de Jesus de que tudo aquilo que fazemos ou deixamos de fazer ainda que ao menor dos nossos irmãos, é a Ele que fazemos ou deixamos de fazer.

Estejamos atentos para as atenções que se fizerem necessárias dispensar aos nossos irmãos em qualquer lugar ou hora, para não termos que exclamar desencantados naquele dia: mas eras Tu, Senhor?

Que Nossa Senhora nos ajude.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

SABEDORIA DO SIMPLES

Gente simples diz coisas maravilhosas! Quantas vezes nos maravilhamos com coisas ditas por crianças, coisas que têm graça e inteligência! pessoas sem letras também são assim. É que existe um Espírito do Senhor Deus dominando o tempo, assistindo com seus dons, iluminando e fazendo florescer.
       
Pedro, o Apóstolo Pedro, era como sabemos um rústico pescador, eufórico, tipo “pavio curto” como hoje se diz.  Lembram que foi ele quem cortou a orelha de Malco?  Aquele que estava no grupo dos que foram prender Jesus?  pois é, mas revestido da sabedoria divina, iluminado pelo Espírito Santo, o homem se transformou,   até em virtude do cargo que recebeu, Pedro foi o nosso primeiro Papa.

É dele o pensamento central da nossa fala de hoje e consta de sua primeira carta (4,9-10): “Praticai entre vós a hospitalidade, sem murmuração. Ponde à disposição uns dos outros, os dons que recebestes, mostrando-se assim, bons administradores da multiforme graça de Deus”.
       
Que maravilha, não é?!  já pensaram se todo mundo fizesse isto? praticar a hospitalidade sem murmuração, isto é aceitar  o outro em sua casa, poder chamar quem está dormindo ao relento,  ou não tem para onde ir: irmão, venha  pra dentro da minha casa, se acomode aqui, até que você se arranje, minha casa é sua.  “Ponde à disposição uns dos outros os dons que recebestes, aqueles  talentos que o Senhor nos deu, as qualidades, as virtudes, sim as virtudes que temos, tudo de que somos capazes no bem. 

São os  dons que devemos fazer multiplicar até como condição de ser admitidos a “ingressar no reino”, pois é deste modo que Pedro conclui: “mostrando-se assim bons administradores das múltiplas formas da graça de Deus”.
       
Santa Maria, Saúde dos cristãos, Rainha dos homens e Mãe da Igreja, faça que nossa vida transcorra na consciência de dever colocar a serviço do Reino por meio dos  irmãos, os dons que Deus nos deu e contribua ou concorra assim para o bem dos que amam a Deus.