quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

POESIAS CLASSIFICADAS

A M A L E T R A S
POESIAS CLASSIFICADAS NO CONCURSO “Elza Cunha” Edição 2017


ODE AOS AFLITOS

Mônica da Silva Costa de Jacarezinho PR
1° lugar, categoria poesias.

Quando olho para o mundo 
tomado por sofrimento, 
meu coração, apertado, 
chora a todo momento! 

Pessoas e animais sofrem 
tanta desventura que, com eles, 
também sofro 
toda a dor dessa amargura!

O ser humano é quem causa 
quase todas as aflições, 
por maldade, egoísmo 
e por tantas ambições.

Quando vejo a violência 
que se faz com uma criança, 
minh’alma, despedaçada, 
é pura desesperança!

Relembrando o infortúnio 
dos que estão a padecer, 
muitos nem sequer tiveram 
o direito de viver... 

Como posso ser feliz 
onde há tanta tristeza,
 tantas guerras, violências 
e agressão à natureza?

O sofrimento alheio 
eu não consigo ignorar;
 elevo o meu pensamento e, 
aos céus, vou suplicar: 
Ó meu Deus, eu só Te peço 
proteção aos inocentes, 
segurança aos animais 
e Justiça aos delinquentes!


15 de outubro

Manoel Francisco Filho 2° lugar,

Sou professor, muito prazer 
Não vou te esquecer 
Mas, se você me lembrar
Vou lhe agradecer ‘
Pois muita criança na minha lembrança 
não pode ficar

Tentei ensinar, 
mais sei que aprendi, 
chorei e sorri 
Sem medo de errar, 
vou te explicar minha lição 

Insista e não se deixe abater 
Quem quer aprender terá que lutar 
Saber guerrear Sem soldo, sem arma
Usando as palavras eu posso ferir, 
acolher “ se omitir” 
Só não posso fingir 
que não sou responsável por seu armamento

Não fiz juramento, 
mas peço perdão 
Se falhei na missão, 
não é vocação 
Mas sim profissão, que forma a Nação

Sem ser bem formada,
registro minha fala
pra não te esquecer 
Com muito prazer seguimos tentando 
Criar outro plano, 
que possa alterar o quadro do mar 
Que carrega o descaso e devolve em pedaços


Poesia

Robson Silva Alves, 3° lugar
Coaraci BA

Palavras nascem 
Feito magia 
Em noites longas
Madrugadas vadias

Os versos brotam 
Batem na porta
 Feito veias Irrigam a aorta
Espalham ao mundo 
A forte semente 

Desafia poderosos 
Transforma mentes
Sonhos viram poemas 
Que nascem do coração

Vivem amores 
Impossível paixão
Inspiração é caminho 
A verdade estrada 

Letras conduzem 
Na grande jornada
Amada eterna 
Singela simetria 
Poesia é vida 
Vida é poesia.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

DOS  AMORES DIVIDIDOS E MULTIPLICADOS
                    

Regina Ruth Rincon Caires
2° Lugar - Prosa



Arroz, feijão, mexido de ovo e farofa de torresmo. 

Tudo misturado, amassado. Isso era feito dia após dia, sempre nos mesmos velhos e descascados pratos de ágata. Cada neto era servido com esse manjar dos deuses, carinhosamente temperado de generosidade, doação, amor.

A avó compactava a comida no círculo central de cada prato, borrifava algumas gotas de limão-cravo, e com a lateral do garfo fazia uma cruz no centro, dividindo a porção em quatro partes. Dizia que cada parte era dedicada a um dos quatro grandes amores da vida: mãe, pai, avó e avô.

E, comprometidos com esses amores, cada um de nós escolhia a parte mais amada para iniciar a refeição. Quase sempre a sequência lógica prevalecia: mãe, pai, avó e avô. Raras vezes essa harmonia era quebrada, e quando isso acontecia nem precisava investigar: havia uma surra atrelada a isso. Uma surra dada ou uma surra prometida. Se bem que isso era muito particular. Se havia alguma inversão, ninguém comentava. Acontecia dentro das cabecinhas. Sei que acontecia isso porque inverti algumas vezes.

Enquanto comíamos, a avó, de longe, sempre atarefada com a lida da casa, cautelosamente controlava a nossa alimentação. Era comum ouvir:  Quem já comeu uma parte? Didi, você está sem fome? Lúcia, a comida não está boa? Faltou sal?

Ela sabia que a comida estava sempre boa. Nunca faltou sal e nem sobrou. Nunca errou a mão em nada. Ali estava o amor mais saboroso que uma criança poderia receber. Era uma cumplicidade de afetos tamanha que espantava qualquer insegurança, qualquer medo, qualquer tristeza. Era um porto seguro.

Com o passar do tempo, fui percebendo que naquela divisão faltavam partes. Havia mais dois amores a serem colocados ali, no meu prato. Meu irmão e minha irmã.

Então, sem alarde, comecei a repartir as porções do pai e da mãe, de modo a serem quatro. Ali estavam os dois que faltavam. E eu ficava feliz assim...

Fiz isso por algum tempo sem ser notada. Quero dizer, pensando não ser notada. Imagina se isso seria possível! Nada escapava da tenência sempre zelosa da avó. E um dia, enquanto eu multiplicava as minhas divisões, ela aproximou-se de mansinho e, com aquele olhar que jorrava ternura, me disse: Existem outros amores, não é mesmo, menina?!

Depois do susto, sentindo o afluxo do sangue ruborizando o meu rosto por perceber que ela havia descoberto o meu feito, e não querendo que ela se sentisse afrontada pela minha iniciativa, prontamente coloquei-me de pé. E ela, no intuito de me tranquilizar, passou as mãos pelos meus cabelos e, com a maior serenidade do mundo, me disse: Ao longo da vida, minha neta, você irá encontrar muitos amores. Alguns serão somados, outros nascerão...  Serão tantos, mas tantos, que não caberão nem no maior prato do mundo!

E ela estava com a razão...





RIVÂNIA


                               Elton Romero
3° lugar - Prosa

No país em que querem nos impingir como heróis as pessoas reclusas dentro de uma casa disputando “reality show”, é natural que não se dê o merecido destaque para quem realmente mereça assim ser chamado. Basta acompanharmos as notícias dos telejornais ou buscarmos as matérias de capa dos veículos de comunicação impressos. Deparamos com manchetes, textos e fotos deprimentes, afinal, miséria e violência ajudam a vender.

Um dia, porém, foi diferente, e despertou minha atenção. Uma imagem captada de um grande infortúnio mostrava uma linda história no meio de tamanha desgraça. Sentada em um barco e fugindo da enchente, uma menina de oito anos abraçava e salvava seus livros escolares, por ser, na pobreza em que vive, o seu único bem. Vivenciando um momento de desconforto sabia ela que o tesouro que protegia era o seu passaporte para um futuro mais digno.

        Rivânia é o nome da garota. Brasileirinha de Pernambuco, é muito pobre, tem os braços mirrados, um sorriso bonito, mora em um local constantemente açoitado por adversidades, mas nada disso impede sua ânsia de aprender. E com sua atitude a pequenina ensinou muita gente grande, despertou solidariedade, provou que nas desgraças também é possível enxergarmos grandezas. Aqueles bracinhos guardaram o seu patrimônio com tamanha devoção, que certamente o cofre forte de uma agência bancária não ofereceria maior segurança.

        Nunca mais deixei de pensar na valentia de Rivânia.

        Já se passaram meses e nada mais se falou. Na matéria da época algumas pessoas se propuseram a ajuda-la de alguma forma, uns pela comoção, outros por esperteza ou interesse político. A única verdade que temos é que no próximo ano, ou ainda neste, a cena se repetirá. Já virou rotina na vida daqueles desassistidos. Ainda veremos por muitos anos novas enchentes, novas promessas, novas tristezas, novas emoções e comoções.

        Enquanto alguns pregam mudanças através de revoluções que nunca acontecerão, resta-nos a esperança de que, futuramente, a menina ribeirinha se torne uma profissional altamente capacitada, e ajude, dentro da área escolhida como profissão, a minimizar os tormentos do seu povo sofrido. Na sua inocência mostrou a todos que revolução deve ser feita com livros para mudar as pessoas, jamais com armas para mudar regimes de governo.

        Agora é torcer para que um imenso contingente de brasileiros a imite e faça cada um, a sua revolução pacífica, sem gritos de ordem, mas com muitas palavras escritas.



 AMALETRAS 

CONCURSO LITERÁRIO "ELZA CUNHA" - EDIÇÃO 2017


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O TREM DA MEIA-NOITE

Amaletras 1° lugar no Concurso Literário "Elza Cunha"
Edição 2017

        Era possível ouvir quando ele passava, sempre por volta da meia-noite.
Quando criança, Richard ficava acordado em sua cama até ouvir o apito, e imaginava como era o trem, para onde iria, que carga levava, e quem estaria a bordo. Durante o dia, ele ia brincar perto dos trilhos, mas nunca viu a locomotiva. O único horário em que ela passava era tarde demais para se estar por ali. "Um dia quero ficar ao lado da linha para vê-lo soltando fumaça", pensava. Mas acabava nunca indo. Apenas ouvia aquele som agudo, ao longe, na hora de dormir.
        Assim foi durante anos, até que o trem parou de apitar. Foi de repente, numa noite qualquer. O relógio marcou meia-noite, depois uma da manhã, duas, e nada. Ele simplesmente não passou pela cidade, e isso aconteceu nas noites seguintes. E então nunca mais...                                                                                                                                     
        Richard lamentou ter perdido a chance de ver o trem que sempre tivera papel importante em sua imaginação. Mas aos poucos ele foi esquecendo que um dia tinha ouvido os apitos. O menino cresceu, começou a trabalhar, casou, teve filhos, eles cresceram, teve netos, enviuvou...
        Na velhice, Richard passou a escutar cada vez menos. Tinha sempre que perguntar duas ou três vezes antes de responder a uma pergunta, o que irritava os menos pacientes. Sentia-se um velho triste e sem utilidade, cujas antigas histórias não interessavam a mais ninguém.
        E foi numa noite de nostalgia que, pouco antes de adormecer, ele o ouviu. Começou baixinho, muito distante, e então foi crescendo. O trem estava passando por lá outra vez.
        "Não é possível!", pensou.
        Depois de setenta anos a locomotiva estava novamente nos trilhos. O som ia ficando cada vez mais forte, e ele não quis mais esperar. Levantou-se da cama, calçou os chinelos e saiu de casa.  Caminhou até a linha de trem. Não havia ninguém na rua para estranhar um senhor da sua idade andando de pijamas. O apito ia ficando cada vez mais forte à medida que Richard se aproximava da linha de ferro... Até que eles se encontraram. Pela primeira vez Richard viu aquele enorme dragão de ferro vindo em sua direção, cantarolando e soltando fumaça pela chaminé. O trem foi diminuindo a velocidade e parou exatamente onde Richard esperava.
        - Viemos especialmente para buscá-lo, Richard - disse o maquinista.
        Convertido novamente em um menino, ele subiu os degraus da locomotiva.
        - Eu posso puxar a corda que faz apitar? - perguntou o garoto.
        Apesar de a ferrovia estar desativada há décadas, todos os moradores da cidade juravam que, na noite em que o velho Richard se foi, ouviram um animado apito de trem chegar aos seus ouvidos.


                                                  Marina Fecchio Rincon Caires de 17  anos. 
São Paulo - Capital.    

terça-feira, 28 de novembro de 2017

SOBRE POLITICA


Devido à publicidade, devido à globalização, devido à disponibilidade na mão de todos, do poder saber de tudo e de todas as coisas que acontecem – se são divulgados - cada um começa a falar de praticamente tudo, fala como entende, de política com todas os seus adereços, da pobreza e da miséria, do mal, nada do bem porque este não faz barulho, e presenciamos e sentimos um stress generalizado acometendo todos. Não conheço exceção a menos que façam parte daqueles que dando de ombro dizem: “Não estou nem ai”
Congresso Nacional

Se já não “sabíamos o que será o amanhã”, agora ainda muito menos e curiosamente, a certeza de que é assim nos vem dos contínuos subtrair dos direitos sociais garantidos constitucionalmente, do querer desigualar iguais, do efeito continuado propiciado pela corrupção sem precedentes que minguou nosso desenvolvimento, da redução sem precedente do salário mínimo. O rosário de penas não tem fim...

Mas o dinheiro surgiu (e em situações análogas sempre surge) aos borbotões, quando se tratou da compra milionária de votos dos parlamentares da Câmara Federal, ou melhor dizendo, de suas consciências, para poupar o Presidente Temer de duas ações penais (ainda que depois do mandato possa responder por elas).

Não há dinheiro para boas escolas onde se precisa, ou em todos os lugares onde se fazem necessárias, não há dinheiro para prestação de saúde e o espetáculo de doentes em corredores, até pelo chão, é diário e é  dantesco. Salvar vidas de  adultos e de crianças, como daquele garoto que tinha um câncer na boca que lhe avolumava o rosto e condenou a morte, mas que era benigno e não foi tratado a tempo. Estremecemos, sofremos, mas não podemos perder nossa capacidade de indignação, não nos podemos omitir em nada que pudermos fazer.

Por exemplo, uma solução vem sendo de todos os modos proclamada: não votemos em nenhum desses que hoje estão no poder. Não creiam nas mentiras que nunca param de contar. Mesmo que seja seu “ente” ou “parente” e até nele
você crê, não vote, ele pertence ao número dos que devem sair de cena, compôs o vandalismo atual, bem semelhante ao de ontem, na política brasileira. Ou na expressão de Eça de Queirós: “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos, pelo mesmo motivo”

É preciso ser radical. A luta é grande até porque nenhum desses fatos se repetiram só recentemente ou pela primeira vez. A leitura do que escreveram pessoas de bem nos atestam que já diziam estar vivendo em uma espécie de inferno. É terrível.

Todos os dias novas facadas. Todos os dias imposição de novos sacrifícios. Busca-se reformar a previdência sob alegação de déficit, mas não são cobrados os valores de quem deve a ela em cifras impensadas. 

Sabe-se quem deve ao Banco Central, por que não cobrar já que tão bem se sabe que o patrimônio do qual dispõem o autoriza. Os conchavos inibem, “fala de mim que eu falo de ti...”  Não se pode ter “rabo preso”. Nem se penalize o povo que já está massacrado.  

Mas honestidade não consiste só no que diz respeito à política depende de inúmeras práticas diárias da lavra do povão que pensa que não fazem a diferença. E como fazem!

Mentira: quem mente no pouco, acaba mentindo no muito. Furtinhos daqui e dali. Pequenas omissões. Preguiça de não ir à luta. Deixar para depois, etc. Aqui e agora sejamos absolutamente honestos, absolutamente verdadeiros, nem nos esqueçamos de que “as grandes coisas se fazem com as pequenas” e que os políticos que recebem mandatos, é de nossa parte que recebem e enquanto entre nós, conosco são “farinha do mesmo saco”. Já pensou?

Marlusse Pestana Daher
Vitória, 28 de novembro de 2017


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS


Queridos amigas e amigos,

Se for por questão de gosto, entre todas a de que gosto mais, é dessa imagem: Maria tem uma face infinitamente serena, Jesus dorme enquanto ela olha para o céu e caminha. Tenho um quadro na minha sala. Para onde vai? Para onde Deus a chama, para onde Ele quiser, como Ele quiser, quanto Ele quiser.

Sendo sua, assim como Seu Filho é o Verbo de Deus por natureza, Maria se fez, tornou-se Verbo de Deus e não quer outra coisa. Neste modo, não lhe causa nenhuma fadiga, continuar repetindo o “Sim” da Anunciação, pequena Palavra, para pronunciá-la é suficiente um entreabrir de lábios,  “mas transforma a vida”.

Quem sabe seja assim tão pequena para nos advertir que o Senhor não quer nada mais que o conjunto de todas as pequeníssimas coisas que podemos fazer, para que possa realizar seu propósito: Uma vez que “fez-se homem como nós”, para que “nos tornemos como Ele”.

Pensei em fazer esta reflexão escrevendo, é um costume que tenho, como fazia Santo Agostnho, guardadas as devidas proporções, é claro. 

Mas a Nossa Senhora de hoje, 27 de novembro, é a das Graças, da medalha milagrosa, com a qual, não obstante a consciência de que é única com os diversos títulos que lhe foram dados, todos na minha família, como que a preferem, conservam mais no coração.
Nossa Senhora das Graças

Considero como motivação para tanto, aquele dia, eu ainda era bem pequena, mas me lembro com detalhes. Papai chegou em casa com um “embruho” envolto em muito papel. Começou a desembrulhar e  finalmente, os nossos olhares curiosos contemplaram  uma imagem de “Nossa Senhora das Graças"! que foi colocada sobre um velho móvel  - etagéo que tínhamos na nossa velha casa. E ali, rezávamos, e ali, Ela se tornou para sempre Nossa Senhora

A tanto, soma-se o fato de Rachid, a quarta entre nós,  ter custodiado a imagem, depois da dispersão da família, por motivos normais da vida, e acabou recebendo, o que consideramos uma graça, há onze anos, nasceu, exatamente neste dia, seu primeiro neto, o Daniel.

Olhar Maria é beber sem fim água boa que cura todos os males da nossa vida, tê-la como Mãe é riqueza imensurável, poder chamá-la de mãe traduz a verdade de que somos todos irmãs e irmãos do seu filho, o Filho do homem.

Valho-me desta oportunidade para desejar que todos a imitemos sempre, certos de que não existe um modelo de vida mais perfeito a seguir, pelo quanto amou Jesus e O deseja fazer amado.  

Ela estará conosco para todo o sempre. Deixemos quem não pensar como nós por conta dela, deixe-a fazer o que nós não podemos. 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

REALEZA QUE SE REVELA NO SERVIÇO

Pe. Adroaldo S.J.

“...todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes”

Rei, título inapropriado para Aquele que tocou leprosos, que preferiu a companhia dos excluídos e não dos poderosos do povo, que lavou os pés dos seus discípulos, que não tinha riqueza nem poder...
O senhorio de Jesus foi a do amor incondicional, do compromisso com os mais pobres e sofredores, da liberdade e da justiça, da solidariedade e da misericórdia...
Com sua palavra e sua vida Ele afirmou que “não veio para ser servido, mas para servir”. Por isso, assumiu uma posição crítica frente a todo poder desumanizador.
A festa de “Cristo Rei”, que encerra o Ano Litúrgico, pode ser ocasião propícia para “transgredir” nossa concepção de “rei” e “reinado”, e evitar um triunfalismo religioso, pura imitação dos reis deste mundo que vivem às custas da exploração dos seus súditos.

Jesus nunca se proclamou rei; o que Ele fez foi colocar-se a serviço total do Reino, de forma que este foi o centro mesmo de sua pregação e de sua vida, a Causa pela qual estava apaixonado e pela qual deu sua vida. Importa, pois, honrar a verdadeira identidade de Jesus: Ele não foi rei, nem quis ser nunca, por mais que alguns cristãos creêm que chamando-o assim prestam-lhe as devidas honras. A melhor honra que devemos prestar a Jesus é prolongar seu modo de ser e de viver. É preciso voltar a Jesus e sua Causa.
Se Jesus não foi rei historicamente, nem se chamou rei, nem deixou que lhe chamasse assim, recusou e se retirou quando queriam fazê-lo rei, tem sentido que nós o aclamemos com esse título? Por quê?

Jesus é Rei porque deixa transparecer sua “realeza”: o que é mais real, mais humano e divino, a sua verdade, seu ser verdadeiro... no mais profundo de si mesmo. Realeza que se visibilizava no encontro com o outro. A partir de seu ser verdadeiro, Jesus destravava e ativava a realeza escondida em cada um.
Este é o sentido profundo do título: ser Rei sem tomar o poder, sem exercê-lo com a força das armas, sem a pressão da justiça legal, sem prestígio, sem riqueza... Esta é a tarefa da nova humanidade, a promessa de um Reino do conhecimento verdadeiro, da igualdade e da justiça, da fraternidade e não violência..., para que todos sejam reis, no sentido radical da palavra.
Segundo o relato de Mateus, quando chegar o momento supremo, a hora da verdade definitiva, a única coisa que ficará de pé, o que somente será levado em conta como critério de salvação ou perdição, não vai ser nem a piedade, nem a religiosidade, nem as práticas espirituais, nem a fé, nem mesmo o que cada pessoa tiver feito ou deixado de fazer para com Deus; o que vai ser considerado é apenas uma coisa, a saber: o que cada um tiver feito ou deixado de fazer para com os seres humanos.
A fundamentação está no fato de que Jesus se identifica com cada ser humano, de maneira especial com aquele que mais sofre, vítima da violência, da exclusão, da pobreza, da humilhação... Essa identificação e essa fusão de Jesus com os humanos (“foi a mim que o fizestes”) é tão forte e tão decisiva que, no momento do encontro definitivo com Ele, o critério para entrar no Reino não é o que cada pessoa fez ou deixou de fazer “para” Deus, mas o que ela fez ou deixou de fazer “para” os seus semelhantes que cruzaram o seu caminho e que clamaram por uma presença solidária e compassiva.

Na parábola do “juízo final” não é casual que os casos ali mencionados são as situações mais baixas, mais humilhantes e as que mais detestamos, de acordo com o que neste mundo se considera necessário para ser uma pessoa de sucesso e que goza de uma vida cômoda e digna: a comida, o vestuário, a saúde, a liberdade e a legalidade de quem não é um estrangeiro ou um imigrante “sem documentos”. Essa lista de situações extremas refere-se à realidade de sofrimento e exclusão. E Jesus assume como sua a dor de cada ser huma-no, pois, mediante sua Encarnação, Ele se identificou e se fundiu com o mais basicamente humano, com aquilo que é comum a todos os seres humanos, sem nenhuma distinção.

Toda parábola desperta ressonância e causa impacto no nosso ser profundo; não é um relato periférico e neutro; escutar ou ler uma parábola é sentir-se implicado nela ou, em outras palavras, toda parábola deixa transparecer nossa real identidade; por isso, a parábola do “juízo final” pode também ser lida em “chave de interioridade”: o que em mim está excluído, faminto, desamparado, exilado, preso... e que precisa ser integrado e iluminado?
Mas a luz da parábola des-vela nosso eu interior e deixa transparecer também nossos pontos nutrientes, iluminantes... que serão fonte de salvação para as dimensões do nosso ser profundo que ainda permane-cem na sombra da não aceitação.

Por outro lado, precisamos deixar ressoar em nosso “eu profundo” as palavras duras do Rei Eterno: “Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Centrados em nós mesmos e separados dos outros, vamos alimentando uma espécie de ego (força dia-bólica: força que divide).  Todo “ego” é possessivo e manifesta-se como um desejo insaciável de acumu-lar, possuir, não compartilhar... O ego exacerbado quer controlar o seu mundo: pessoas, acontecimentos e natureza. Ele compara-se com os outros e compete pelos elogios e pelos privilégios, pelo amor, pelo poder e pela riqueza. É isso que nos torna invejosos, ciumentos e ressentidos em relação aos outros. Também é isso que nos torna hipócritas, dominados pela duplicidade e pela desonestidade.
Esse ego centrado em si próprio não confia em ninguém a não ser em si mesmo; ele não ama ninguém e quando “ama” é para atender apenas às suas próprias necessidades e à sua própria gratificação. Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, ele pode ser extraordinariamente cruel para com os outros, vivendo uma situação infernal.

Como evitar que o nosso ego nos domine e determine nossa vida?
O primeiro passo será desvelar e desmascará-lo com todas as suas maquinações e duplicidades.
Só uma pessoa esvaziada de seu ego pode transformar-se e transformar a realidade.
O nosso verdadeiro eu está enterrado por baixo do nosso ego ou falso eu. Segundo a parábola deste do-mingo, a pessoa “torna-se bendita de meu Pai” na entrega e no descentramento. Porque só assim deixa transparecer a realeza original, aquela que se identifica com a realeza d’Aquele que viveu para servir.
Só nos fazemos conscientes de nossa realeza quando compreendemos nossa verdade mais profunda. Até que isso não ocorra, viveremos como mendigos, tratando de apropriar-nos e de identificar-nos com tudo aquilo que possa conferir uma certa sensação de identidade e de segurança. No entanto, ao compreender o que somos, tudo se ilumina: o suposto “mendigo” se descobre “rei”.      
Só na medida em que nos esvaziamos de nossos impulsos egóicos, fazemo-nos solidários com a fragilidade e, o que é mais profundo, nos fundimos com a fragilidade dos outros.
A salvação da humanidade está, pois, em ajudar aos excluídos do mundo a viver uma vida mais humana e digna. A perdição, pelo contrário, está na indiferença diante do sofrimento. Este é o grito de Jesus a toda a humanidade.

Texto bíblico:  Mt. 25,31-46

Na oração: O Reino de Deus foi o centro da pregação de
                    Jesus, o motivo de seus milagres, a razão de ser de sua fidelidade até a morte, a coroa de sua ressurreição. Quê é para mim o Reino de Deus? Está também no centro de minha vida? É “minha Causa” como foi a de Jesus?



domingo, 19 de novembro de 2017

FÁBULAS, FANTASIAS FANTÁSTICAS

O Prof. Doutor Francisco Aurélio Ribeiro escreveu “as orelhas”  do livro ESTORIAS DE BICHOS CONTADAS PELO POVO. Eis o texto que depois de ler saberá muito mais sobre lendas e tradições, a transmissão das coisas pela oralidade.


Prof. Francisco Aurelio
A Cultura ocidental sempre se marcou por duas maneiras básicas de pensar a realidade social: uma, nivelada pela escola, pela educação formal, nacional, intelectualista e diretamente associada a uma elite, ao poder econômico, a uma minoria, numa sociedade de classe; outra, primitiva, rica, múltipla e multifacetada, tem suas origens nas tradições populares, no folclore, na grande massa, muitas vezes  ágrafa, e cuja transmissão  cultural se faz pelo oralismo, de pai para filho.

Apesar de todo convencionalismo, de toda imposição acadêmica como a escola, principalmente, como aparelho reprodutor da ideologia do Estado na célebre fala de Althusser, procura determinar a “cultura”, o que a história da civilização tem demonstrado é que a cultura vinda diretamente das massas populares acaba sempre ocupando o seu espaço e perpetuando-se, à margem do poder, mas dentro do sistema.

Hermógenes, o grande poeta popular, pesquisador do folclores, não por mera ‘curtição acadêmico-universitária’, mas por ser e viver junto com o  povo, do qual nunca se desligou, representante das raças índia e negra, tão discriminadas pelo poder letrado, branco, cestão e e luso, nesses longos anos de colonialismo, apresenta-nos, agora, o seu “Estórias de bichos contadas pelo povo”, co-edição da FCAA e da SEDU, para o projeto “Salas de Leitura” com apoio da FAE-MEC.       

A fábula gênero antiquíssimo, é uma narrativa curta, caracterizada pela presença de animais irracionais como personagens, e que encerra um sentido moral, quase sempre em alusão aos seres humanos. Desde a antiguidade greco-latina foi cultivada, superiormente por Esopo, escravo grego do século VI a.C. e por Fedro, escritor latino do século I da nossa era. Modernamente, La Fontaine destacou-se como o mais importante dos fabulistas, ao final do século XVII.

Na literatura luso-brasileira, foi cultivada pelos árcades portugueses e, posteriormente, por Garrett, João de Deus e Cabral do Nascimento. Entre nós, a fábula começou a circular no Romantismo, com Anastácio Luís Bonsucesso e, depois, com Coelho Neto, Monteiro Lobato e Maximiano Gonçalves.
Hoje em dia em nosso país, cultivam-na brilhantemente com um fundo de crítica social e politica, Millôr Fernandes, Carlos Eduardo Novaes e Luz Fernando Veríssimo.

Ao lado dos contos de fadas, o gênero até hoje, mais preferido pelas crianças, a fábula é um dos gêneros mais apreciados pelos infantes. Apesar de moralista, ela não escamoteia a verdade, mas transforma simbólica e conotativamente.
Talvez seu grande sucesso esteja no fato de não silenciar as questões relativas a sexualidade, à luta pelo poder, ao racismo, à segregação e desprezo pelos mais fracos, à luta de  classes, tornando-se assim, um gênero duradouro e sempre apreciado.


Hermógenes, ao nos trazer de volta as tradicionais estórias, “festa no céu”, ressuscitando personagens brasileiríssimos o urubu, o jabuti, o macaco, o sapo, o jacaré, a raposa, o boi, o coelho, cada qual com suas características e seus simbolismo relacionado ao comportamento dos homens em sociedade, faz-nos recuar ao passado, aos nossos avós, tias velhas e amas de leite, recuperando-nos toda a magia da literatura oral, contada o pé das fogueiras e à boca da noite.

Tanto melhor! Só assim nossas crianças poderão ter outras opções mais nacionais e populares, enriquecedoras e coloridas que os  eternos  estereotipados e chatíssimo He-Man, Tom e Jerry, o debiloide Pato Donald, e tantos outros personagens dos enlatados americanos que tanto têm, enchido as manhãs e tardes de nossos filhos e tanto os têm colonizado e empobrecido culturalmente.
Francisco Aurélio Ribeiro      (Professor de Literatura Brasileira no Departamento de Línguas e Letras da UFES)





Crenças Populares Brasileiras

·         Comer uvas e romãs no Ano Novo para ter sorte e fortuna durante o decorrer do ano que inicia.
·          
·         Ferradura detrás da porta para espantar o mau-olhado.
·          
·         Aquela que pega o buquê da noiva será a próxima a se casar.
·          
·         Quando a grávida fica com vontade, a criança nasce lesada ou com mania daquilo que foi negado à gestante.
·          
·         Quebrar espelho dá sete anos de azar.
·          
·         Apontar para as “Três Marias” (estrelas) faz nascer verrugas no dedo indicador.
·          
·         Cruzar com um gato preto dá azar, assim como atravessar por debaixo de uma escada.
·          
·         Trevo de quatro folhas trás sorte, assim como o pé de coelho.
·          
·         Sexta-feira 13 é dia de acontecimentos estranhos e desgraças.
·          
·         Bater três vezes em madeira afasta coisas ruins.



LITERATURA DE CORDEL




A principal linguagem folclórica é a Literatura de Cordel, que consiste num livreto de poesia, por vezes ilustrado, escrito em linguagem informal.
Originária da região nordeste, estas obras recebem o nome de "cordel" porque são expostas numa corda para apreciação.
Outra forma comum de literatura popular são as adivinhações, ou seja, perguntas com conteúdo ambíguo. Os provérbios são ditados que contêm ensinamentos (muitas vezes religiosos).
Piadas ou anedotas são pequenas narrativas com desfechos engraçados.
Os trava-línguas são frases, em geral rimadas, que dificilmente são pronunciadas; enquanto as parlendas ou parlengas são as rimas infantis populares.
Você Sabia?
O Dia do Folclore é comemorado dia 22 de Agosto.


Por: Daniela Diana