sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DE UM CÉU SEMPRE AZUL

Quando Deus criou a terra ao lado do majestoso Oceano ao qual depois chamariam Atlântico, a sudeste de uma terra imensa, hoje de nome Brasil, mais de oito milhões e meio de quilômetros quadrados, colocou um ponto e disse: aqui surgirá Vitória. Somada à sua parcela continental não ultrapassa 94 km2. É pequena, mas originariamente, tudo é beleza só! É? ou foi?
Ela tem outros dois títulos "Cidade presépio" que surgiu do fato de ser cercada de morros cujos barracos de então, deixando abertas janelas e portas, naquele tempo se podia, lhe emprestavam imagem dos presépios que a criatividade cristã concebeu assim, numa comparação com as terras de Belém, onde um dia o Menino Deus nasceu e os Anjos anunciando tão extraordinário evento entoraram “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”.
Guanaani ou "Ilha do Mel", é o terceiro epíteto, criado pelos indígenas, os primeiros habitantes da ilha, quando a portuguesada por aqui ainda não chegara. O nome traduz “a beleza da geografia diferente da cidade, a amenidade do clima aliado a baia de águas piscosas, do imenso manguezal repleto de peixes, moluscos e a diversidade das aves”.
Dividida inicialmente em Centro, bairros de Santo Antonio, Jucutuquara e Praia do Canto. O centro foi sempre o local dos negócios, da imponente Praça Costa Pereira, do Teatro “Carlos Gomes” inicialmente de madeira. Da “Praça Oito” do relógio que anunciava precisamente, hora após hora, e do Parque Moscoso, da Concha Acústica, dos animais... laboratório de dezenas de “lambe-lambe”, aqueles fotógrafos fantásticos que depois de um clique preciso voltavam a mergulhar naquele capuz preto todo fechado e em pouco tempo, entregavam fotos de tal qualidade que contam até mais de setenta anos e ainda se conservam límpidas e nítidas.
Santo Antonio? Ah é o bairro da gente do eito, gente igualzinha a outra gente, mas diferente de quem morava em Jucutuquara, fração de chão com ares de nação (ou simplesmente querendo ser). A rapaziada de Jucutuquara airosa e faceira era mais ou menos tipo “dona da situação”. Eles descendiam de famílias de nome, pertenciam “à tal sociedade” que frequentava o “Saldanha da Gama” e fazia a alegria geral.
Bem, a Praia do Canto era da gente mais bem aquinhoada que se dava ao luxo e gosto de morar à beira mar, mesmo que fosse simplesmente do lado do canal, mas as águas corriam solta e a maré cheirava a natureza. A mata ciliar emoldurava a margem imprimindo serenidade às tardes em que uma voz de rádio local se fazia ouvir na “Oração da Ave Maria”.
Mas depois chegou um grande empreendimento que se instalou sem nenhuma previsão do que hoje se chama impacto ambiental e começou a funcionar, visando lucro só, qualidade de vida e ambiente não faziam parte do pensar. Depois, uma outra ao seu lado e de repente o mar aberto foi recebendo uma passarela que roubou a visão infinita, como de infinito só no mar há.
Os tempos mudam, sua condição de capital a privilegia com verbas que são gastas em calçadas quadradas feitas por um, arredondadas pelo sucessor, é um suceder de quebra e refaz, de construção de praça, daqui e dali, faz-se calçadão na praia, quiosques, plantam-se coqueiros, depois vai tudo pro chão e se refaz tudo, precisa gastar o dinheiro...
Mas a saude vai malíssimo, o SUS é um susto perene, dezenas de pessoas, até com fratura craniana, passam até duas noites sentada numa cadeira no corredor de hospital e não é isto só.
Constroi-se tudo que bem se entende, a história é esquecida. O patrimônio, mesmo tombado, se verga e tomba aos decretos irresponsáveis e se faz longa, ou quando chega logo, é contrariando expectativas ou se atrasa a ponto que as situações podem ser mudadas e se pode prescindir delas, ainda que as feridas, que juridicamente se chamam danos morais, continuem a porejar.
De tão bonita, mesmo sendo da pena de um paulista, de nome Pedro Caetano, saiu este maravilhoso canto: “Cidade sol, com um céu sempre azul... Cidade Sol, com o céu azul / Tu és um sonho de luz norte a sul / Meu coração te namora e te quer Tu és Vitória um sorriso de mulher / Do Espírito Santo, és a devoção / Mas para os olhos do mundo, és uma tentação / Milhões te adoram, e sem favor algum / Entre os milhões, eis aqui mais um.
Sem qualificação a conduta de quem roubou o azul do céu e fez da cidade um turburinho. Cirenes e apitos cortam o espaço, não há um lugar para deixar a máquina em frente da casa do familiar que precisa ser visitado diariamente, as ruas se estreitam cada vez mais. Corre-se o risco de se viver qual sardinha em lata, só que estas são colocadas ali, mortas, enquanto a população é gente e precisa viver. Para onde expurgaram o sonho de luz que brilhava de norte a sul e deixa na saudade meu coração que se confessou enamorado, comparando nada menos com aquela que por excelência, igual em tudo ao homem, ainda é a mulher!?
Cumpre pois que seja, que continue sendo amada e da minha parte com este ainda que modesto texto, quero colaborar para que assim seja. Quero porque a presente geração merece e as futuras também que continue a ser devoção no Espírito Santo.
E nunca se apagarão dos lábios de todos que por aqui passarem, dos que tiverem a sorte de habitá-la, ó ilha do mel, poderem continuar cantando: milhões “te” adoram, e sem favor algum, aos milhões, a cada minuto se acrescentará sempre mais um .

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